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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
A pergunta parte de um princípio errado.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.
Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.
E há perguntas muito importantes, Bruno. É preciso ter cuidado com os burlões.
É sempre, em qualquer altura e, em particular, nestes momentos de tragédias, porque há sempre quem se queira aproveitar, porque as tragédias trazem à superfície o melhor e o pior do ser humano. Se há quem queira ajudar e ajuda os outros das mais variadas formas, temos tido vários relatos, testemunhos, pessoas que se voluntariaram e pessoas que fizeram donativos, a propósito agora da intempérie, da tempestade. Há quem se aproveite do caos para tentar enganar quem se encontra numa situação de maior vulnerabilidade. É o que pode acontecer em Leiria e noutras zonas afetadas pela tempestade e por isso as autoridades já alertaram as populações para estarem atentas a pessoas que apareçam lá por casa fazer-se passar ou por técnicos de serviços, funcionários de instituições ou até mesmo representantes das autoridades e normalmente pedem dinheiro. Portanto, é preciso muita atenção. Quando as autoridades, a PSP e a GNR, fizeram este comunicado, não tinham nenhum registo de nenhuma queixa, de nenhuma situação, mas sabem como é que estas coisas funcionam.
Vamos que aconteça nada, deixar um alerta.
Deixar já esse alerta. A natureza é inclemente, vimos os efeitos da passagem da tempestade, mas às vezes a natureza humana ainda consegue ser pior, por isso é preciso muita atenção.
Paulo, e ainda sobre o mau tempo, qual vai ser o impacto económico desta verdadeira devastação?
Não será fácil de contabilizar, termos um número concreto, obviamente, mas terá seguramente um impacto importante. A região de Leiria, da Marinha Grande, de Pombal, Batalha, são das mais industrializadas e mais exportadoras do país. Estamos a falar de setores como os moldes, que hoje é uma indústria de alta tecnologia, de grande precisão, componentes automóveis, vidro, borracha, plástico. Há dezenas de empresas paradas, sabemos isso, e vão continuar paradas durante algum tempo. Neste momento, há linhas de produção a parar na Europa por causa dos estragos provocados por esta tempestade Kristen, nas fábricas portuguesas. Por quê? Porque são componentes que são fabricados cá, que depois são exportados para essas fábricas automóveis por toda a Europa e que neste momento estão a deixar de receber esses componentes, portanto, estão a deixar de trabalhar também. Isto dados da Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel em Portugal. É evidente que o crescimento vai fazer-se sentir e vamos ver se todas as empresas vão sobreviver, porque há estragos que provavelmente poderão ditar o encerramento de uma ou outra. Portanto, isto vai ser pago, provavelmente, algumas décimas do PIB português.
Pois, vai ter mesmo muito impacto. E com tudo isto, Paulo, a campanha eleitoral passa para segundo plano.
Naturalmente, passa para segundo plano e mesmo o formato de campanha também foi alterado, pelo menos no caso de André Ventura, que aproveita a devastação para fazer a sua campanha nesses locais. Ambos os candidatos substituíram, por exemplo, isto é um detalhe, mas os cartazes que ainda iam fazer, os últimos cartazes da campanha, iam colocar nas ruas, substituíram-se por ajuda às populações, como as lonas que já tinham encomendadas para fabricar estes cartazes, foram doadas para cobrir telhados. Ventura avançou primeiro com essa ideia, depois Seguro também a está a fazer. Há menos comícios e menos arruadas. O estado do tempo, independentemente da devastação, também não convida a isso. E obviamente que a atenção mediática e a atenção dos eleitores desviou-se para esta devastação e para os seus efeitos. Vamos ver se esta anormalidade, num final de campanha, se vai ter impacto no resultado eleitoral. Se tiver, que impacto vai ter. Não é claro que beneficia um ou outro candidato, pelo menos com os dados que temos agora, e sobretudo se vai ter impacto na influência às urnas. Pode haver alguma desmobilização de algum eleitorado por causa disso.
Bruno, vamos mudar aqui um bocadinho de tema. Proibir o acesso às redes sociais a menores de 16 anos é ou não uma boa ideia?
Reconhecer que é um problema, que ninguém sabe ainda que efeitos a longo prazo é que poderá ter a exposição excessiva a conteúdos de redes sociais e plataformas desde muito cedo, é um primeiro passo. Se a proibição é a solução ideal, também, na verdade, ninguém sabe, ainda não foi estudado. Sabemos que está em vigor na Austrália. Há outros países que têm medidas para restringir o acesso às redes sociais dos menores de 16 anos, mas não se sabe exatamente que efeito essa proibição poderá ter. Mas sabemos uma coisa, é que todas as grandes mudanças que passam por proibições suscitam resistência. Basta lembrar aquilo que aconteceu há uns anos com a proibição de fumar em espaços públicos. De início, houve muita resistência, porque as pessoas, obviamente, não estavam habituadas e não faziam ideia, sentiram aquilo quase como ataque às liberdades pessoais, e hoje já ninguém se lembra de quão irrespirável era o ambiente em certos espaços. Também faltam, é verdade, estudos que nos indiquem o impacto que essa medida teve, por exemplo, na saúde dos portugueses e noutros países. Provavelmente, até haverá esses estudos detalhados, mas fazem falta para se avaliar a eficácia da medida e os resultados da medida. O PSD entregou ontem no Parlamento um projeto para que o acesso às redes sociais e outras plataformas das crianças até aos 16 anos dependa do consentimento dos pais ou representantes legais. Como disse, na Austrália já se avançou para essa proibição. Noutros países, há medidas restritivas e reconhecer o problema é, de facto, uma boa ideia. Veremos se a solução é exequível, porque implica aqui uma série de passos e envolvimento de vários organismos e também de empresas.
Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
A pergunta parte de um princípio errado.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.
Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.