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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.

Calma, Jesus.

Paulo, vamos lá pegar na calculadora outra vez. Estamos preparados para mais subidas dos preços dos combustíveis?

Vamos ter mesmo que estar. Aliás, eu diria que nunca estamos preparados, mas temos que as pagar, porque tudo indica que é isso que vai voltar a acontecer. Depois de quase um mês com a perspetiva de um entendimento entre os Estados Unidos e o Irão, Donald Trump declarou ontem que considera acabado o acordo provisório de cessar-fogo entre as duas partes e, na sequência disso, voltaram os ataques ao Irão. As forças dos dois países voltaram a atacar-se mutuamente já esta madrugada. Claro que a nova escalada fez disparar de imediato o preço do petróleo. O Brent passou para os $80, isto depois de ter estado abaixo dos $70 há uns dias. E vamos agora regressar àquele ciclo que nós já conhecemos muito bem: combustíveis mais caros, alguns produtos e serviços mais caros também. A inflação vai subir e as taxas de juro vão ter pressão para continuar a subir também. Os jogos de guerra saem sempre caros, independentemente, obviamente, das vítimas que fazem.

Bruno, então o que é que se passa? Não somos bons a reciclar?

Não, reciclagem em Portugal só de figuras que já passaram do prazo de validade. Quanto ao lixo mesmo a sério, não somos muito bons, não. Somos mesmo dos piores alunos da União Europeia, nós, que já nos gabamos de ser os melhores alunos da Europa e a União Europeia já nos veio dar tau tau. Aliás, foi a Comissão Europeia que abriu um procedimento de infração contra Portugal por incumprimento das metas comunitárias de reciclagem de resíduos. Não fomos os únicos, calma. Havia outros.

Não estamos sozinhos nisso.

Não estamos sozinhos, é verdade, mas somos dos piorzinhos também, é verdade, sobretudo no que respeita ao vidro, mas também com as embalagens. Nós aí nem somos muito coerentes. Pior no vidro, mas também mal nas embalagens. Preocupamo-nos todos muito com o ambiente, mas quando chega a hora de separar o lixo e de o depositar no sítio certo, dá-nos a preguiça ou o desleixo. E também os incentivos e a organização da recolha dos resíduos não funcionam muito melhor. Temos os aterros a abarrotar e a operar à margem da lei, por falta de tratamento prévio do lixo indiferenciado. Mas está tudo bem, é só lixo.

Paulo, na região de Lisboa, o carro é uma opção ou é uma obrigação?

Para uma larga fatia da população, o uso do carro próprio é mesmo uma obrigação, uma inevitabilidade. É isso que refere um estudo sobre o assunto, mais um estudo sobre o assunto. O INE também faz inquéritos regulares sobre isto. Neste caso, é o inquérito Tendências Urbanas de Mobilidade 2026, na Área Metropolitana de Lisboa, que foi encomendado pelo ACP e que revela que para 48% das pessoas, portanto, praticamente metade, a principal razão que poderia levá-las a usar mais transportes públicos é a melhoria da oferta. Pedem maior frequência, pedem horários mais convenientes. Depois há 31% que defendem linhas mais diretas e menos transbordos, e só 17% é que referem que a questão está no preço e pedem uma redução de preço dos passes ou dos bilhetes como um incentivo à utilização dos transportes públicos. Curiosamente, ou talvez não, a questão do preço tem sido a base de muitas políticas públicas, recente sobre o assunto, portanto, parece que andamos a tomar medidas erradas sobre a mobilidade nas grandes cidades.

E dentro da Área Metropolitana de Lisboa fica Almada e em Almada, Bruno, a culpa da falta de água é da água?

Para algumas pessoas era bom que fosse. Preferiam atribuir as culpas à água, mas não, é mesmo da Câmara. A autarquia tem procurado justificar um problema inadmissível e que tem afetado milhares de moradores com o consumo excessivo de água, o aumento da população sazonal e até com o PRR, que, segundo a Câmara, não previa verbas para o investimento neste tipo de infraestruturas. A ministra do Ambiente, Graça Carvalho, veio desmentir esta última alegação. Afinal, havia dinheiro, 400 milhões de euros do PRR, a que a Câmara de Almada nunca concorreu. Parece que é preciso concorrer para se ter acesso a esses fundos. Parece que o problema é mesmo a falta de investimento da autarquia na rede de abastecimento de água. As perdas são muitas e depois a água não chega às torneiras. A culpa não é da água, coitada, nem é do PRR, nem é dos moradores. A culpa é de quem não investe e depois chora sobre a água derramada.

Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.

Calma, Jesus.