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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
A pergunta parte de um princípio errado.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.
Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.
E agora cenas dos próximos capítulos. O que vai fazer o governo com a lei da nacionalidade, Paulo?
É verdade. Estarão para decidir o governo e a AD, mas a prudência manda que recue o governo e a bancada da AD e do Chega, já agora, que também contribuiu para aprovar esta lei, que recuem nos pontos declarados inconstitucionais pelo Tribunal Constitucional. Politicamente, esta é claramente uma vitória do PS, que pediu a verificação da lei aos juízes do Constitucional, viu essa verificação ser confirmada, ou as dúvidas serem confirmadas em cinco dos oito pontos que o PS tinha pedido. O PS diz agora que está disponível para reanalisar o diploma com a bancada da AD, para poder viabilizar uma nova versão que obviamente esteja sanada destes problemas que chocam a Constituição. Resta saber se o governo e a AD o vão fazer agora com os socialistas ou se vão insistir no Chega e até que ponto é que o próprio Chega terá a flexibilidade para acomodar aquilo que foi a análise do Tribunal Constitucional. O Chega tinha viabilizado esta versão que viola a Constituição. Portanto, estamos mais num daqueles impasses gerados pelas relações a três. Isto é uma dor de cabeça.
Dá muito trabalho. Bruno, depois da matança, trancas as armas?
Sim, essa foi a intenção anunciada pelo governo australiano, depois do atentado na praia de Bondi Beach. Assim que se soube do atentado, foram muitos os norte-americanos a comentar, a dizer que com uma lei de porte de armas menos restritiva, como a norte-americana, os atiradores poderiam ter sido parados por outros cidadãos. Isto para mostrar que a discussão à volta deste atentado passou muito nas redes sociais, em jornais, por esta questão do porte de armas. Outros ainda apontavam a ironia de num país com leis mais duras, mesmo assim tivesse acontecido uma matança como aquela que vimos. A resposta do governo australiano parece ir no sentido de endurecer ainda mais as leis de posse de armas, visto que estas que foram utilizadas no massacre estavam devidamente registadas e legalizadas. O período logo a seguir a um massacre como este não é a melhor altura para se discutir a legislação, até porque o problema central, na minha opinião, não é o do acesso às armas, mas o das motivações de quem cometeu este ato. Mas já sabemos que há quem não perca a ocasião para falar do que é acessório ou dos acessórios.
De regresso aqui ao velho continente, os prazos para o fim dos automóveis a combustão são manifestamente exagerados.
Estamos a verificar, e são muito difíceis de cumprir, são mesmo impossíveis de cumprir. Por isso, Bruxelas prepara-se para flexibilizar a data ou calendário da proibição de fabrico de carros a gasóleo ou gasolina, que está ainda prevista para daqui a 10 anos, 2035. A ideia, de facto, é avançar com esta data para frente ou então introduzir cotas para além de 2035. Isto é, que obrigue a uma redução mesmo de fabrico de automóveis a combustão. Claro que há a pressão dos fabricantes, que obviamente querem continuar a fabricar os automóveis a gasolina e gasóleo, mas o ritmo a que os próprios consumidores trocam para carros elétricos também é lento. As redes de carregador são escassas em muitos países, Portugal é um exemplo disso, o que obriga a uma grande ginástica e a cálculos por parte dos condutores, que obviamente preferem a comodidade que sempre tivemos, que é a de estar em qualquer lugar, há sempre uma bomba por perto e em cinco minutos. No fundo, andámos mais de um século a construir uma sociedade ou sociedades movidas a petróleo e feitas para o automóvel, e não é agora em duas ou três décadas que se muda o botão e conseguimos reverter isto, portanto vai demorar.
Então, Bruno, a tradição já não é o que era.
Não é, pelo menos no Chile. Eu estou para viajar para países a que nunca fui, a Austrália e Chile. O Chile virou à direita nas eleições presidenciais. A candidata comunista, Janet Jara, ganhou a primeira volta, mas na segunda volta foi o candidato da direita, José Antonio Kast, a ganhar. Aliás, como as sondagens já indicavam. Quem ficou muito contente foi o vizinho argentino, Javier Milei, que gostou muito do resultado. Diz que vê aqui uma possibilidade do continente americano se libertar do jugo opressor do socialismo do século XXI, palavras do próprio Milei. E essa tem sido a grande discussão, pelo menos fora do país, fora do Chile, sobre estas presidenciais. Qual será a verdadeira inclinação política de Kast? Já foi apresentado como um conservador, um radical de direita, representante da extrema-direita, liberal. Parece-me que as reações fora do Chile até têm sido mais emotivas do que propriamente no país, onde a adversária de José Antonio Kast até reagiu com grande calma, diria quase uma calma olímpica. Seja como for, a tradição dos últimos anos, desde o fim da ditadura de Pinochet, chegou ao fim e agora há um presidente de direita no Chile.
Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
A pergunta parte de um princípio errado.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.
Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer