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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.
Calma, Jesus.
Às vezes acontece, Bruno, a moda do pisca-pisca pode acabar em cenas de ciúmes.
Pode acabar, porque a moda do pisca-pisca, de olhar pra esquerda ou pra direita, ou a moda dos dois amores, Marco Paulo, tem esta tendência para acabar mal. Enquanto um não sabe, são felizes os três, já rezava a música. Mas aqui na política, em que se pode negociar às escondidas, sim, mas em que tudo se sabe, é difícil manter os três felizes e equilibrar todos os lados do triângulo. O PS já despachou a questão do orçamento, mas até por isso mesmo aproveitou logo para criticar o governo pelo entendimento com o Chega na Lei das Rendas. José Luís Carneiro apelou ao primeiro-ministro para romper com o Chega, e aqui o rompimento, o romper não é uma palavra inocente, mas o primeiro-ministro só romperia com o Chega se o PS, na Lei das Rendas, lhe desse o que ele queria. Se não dá, então para Luís Montenegro não pode reclamar que o governo se vire para o parceiro que está disponível para negociar. Quem achava complicados os triângulos amorosos, ainda não tinha a mínima ideia do que são os triângulos políticos.
Paulo, alguma vez estaremos preparados para deixar de pedir mais fundos europeus?
Por este andar, nunca vamos, de facto, deixar de estar de mão estendida o próximo pacote de fundos da União Europeia. Por mais que os governantes portugueses tentem contrariar essa ideia, é evidente o nosso vício na pedinchice, ou na pedinchizing, se quisermos um termo mais bem entendido. Ontem, Luís Montenegro foi apenas o último primeiro-ministro a tentar convencer-nos que não, que a negociação do próximo orçamento plurianual da União não vai acabar sendo abordada por Lisboa, como, e a expressão é do próprio, um concurso de pedinchice. Mas é. Portugal quer que o orçamento comunitário seja mais generoso, ou seja, quer que os contribuintes dos países mais ricos e mais produtivos paguem mais impostos para que nós e outros países menos produtivos recebam mais. Claro que depois se fala da ambição da União Europeia, que deve existir, e de como a solidariedade é muito importante. Bom, já do nosso lado, a nossa solidariedade, que é de fazer o nosso trabalho de casa, pôr a economia a crescer e deixar de precisar de tantos fundos, essa fica sempre adiada.
Bruno, e as manifestações fazem parte da educação cívica em França?
Eu acho que aquilo começa no pré-escolar e depois vai por aí fora até a idade adulta, começam logo muito cedo a preparar-se para as manifestações. E estas que temos visto durante estes dias em França são prova disso, porque começaram precisamente com a contestação dos estudantes a reclamar pela falta de professores, a sobrelotação das salas de aula, a degradação dos edifícios escolares. Mas, de repente, os protestos ganharam uma outra dimensão e já não se podem reduzir a manifestações estudantis, sem qualquer desprimor para estas, que estão muito bem. São manifestações que mostram o desagrado de uma parte da população em relação às políticas da austeridade e claro, a esquerda aqui aproveitou este balanço para atacar o governo, contestar essas políticas, nomeadamente com a redução da despesa pública. E como costuma acontecer em França, sob qualquer pretexto, e temos visto muitos protestos ao longo dos últimos anos, o espírito de revolta acabou por se estender a todo o país, depois de começar ali na zona de Paris, e ainda não se sabe ao certo como é que irá parar.
Mas deixemos lá França. Paulo, devemos chamar os capacetes azuis das Nações Unidas para resolver, esse sim, o conflito mais importante e mais grave.
Provavelmente é isso, mas já não há paciência nenhuma, já não há pachorra pra este psicodrama de Ronaldo e de Jorge Jesus. Já se conhecem todos os argumentos, todos os motivos e queixas, já se fizeram todas as análises, já se pronunciaram todos os familiares, os primos, os tios, os padrinhos, os amigos mais ou menos chegados, o cão e o gato. Já falou um apresentador de TV inglês, já falaram meia dúzia de jogadores da bola de todo lado. Já falou Marcelo, claro, olha quem, não podia faltar. Já interveio Luís Montenegro, este é um assunto prioritário na governação, assunto de Estado. Já se recordaram afirmações solenes e comportamentos do passado. Os jogadores já emitiam um comunicado a contar a sua versão, onde até incluiu o ditado de oito pontos que queria que o selecionador lesse publicamente. Os dirigentes da Federação Portuguesa de Futebol, que deviam liderar a gestão do problema, passa-se lá dentro de casa, esses disseram umas banalidades em mau português e refugiaram-se depois em parte incerta. Só falta mesmo fazer uma cimeira para tentar o cessar-fogo e depois constituir uma força de manutenção de paz. Portanto, venham os capacetes azuis da ONU, porque a importância do assunto não merece nada menos do que isto, como é evidente.
Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.
Calma, Jesus.