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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é pergunta.

Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.

Calma, Jesus.

Paulo, o caso do Cristiano Ronaldo é um assunto de Estado?

Pelos vistos, tudo o que tenha a ver com futebol é um assunto de Estado em Portugal. E ao mais alto nível, claro, isto não é coisa para secretário de Estado. Por uma razão muito simples: os principais responsáveis políticos não resistem, de facto, a meter-se no assunto. Claro que Luís Montenegro tinha que falar com os protagonistas do grande sobressalto nacional, que é a saída de Cristiano Ronaldo da seleção de futebol. Falou com os três envolvidos, claro, o jogador, Jorge Jesus, o selecionador, e Pedro Proença, o presidente da Federação, e fez questão de o dizer ao país. Por quê? Não fosse o país pensar que o primeiro-ministro estava alheado do assunto mais importante para a governação e para o nosso futuro coletivo, até porque desta vez Montenegro tem estado a faltar aos jogos, sendo um mistério como é que a seleção tem ganho jogos sem governantes na bancada, como aconteceu em todos os jogos do Mundial. A regra é esta: se é popular, então o primeiro-ministro tem que lá estar. Numa lógica de reciprocidade, já agora, ficamos agora a aguardar que o selecionador e o jogador tenham alguma coisa a dizer também, por exemplo, sobre a permanência de Luís Neves no governo.

Eu gostava de ouvir o Jorge Jesus sobre o assunto.

E a ligar ao Luís Montenegro e a Luís Neves. Então-

O que se passa?

O que é que se passa aí?

Como é que é o orçamento? Então.

O orçamento. Ou que tenha uma ideia sobre a orgânica do executivo, quem é que deve entrar, quem é que deve sair, quem é que deve ir para o banco.

As remodelações.

As remodelações, enfim.

Por que não? Mas Bruno, a saída do Cristiano Ronaldo é só futebol?

Não, vai muito para lá do futebol que se disputa dentro das quatro linhas. E isto a começar logo pelo peso de Ronaldo nas contas da Federação Portuguesa de Futebol. O contrato, por exemplo, com a marca de equipamentos, a Puma, que acho que é o único cujos valores foram divulgados publicamente pela Federação, vale 20 milhões de euros, para um total estimado de receitas da Federação de 153 milhões de euros nesta época de 2025, 2026. É muito dinheiro. Não se sabe até quando este contrato é válido, dos equipamentos, se poderá haver aqui uma renegociação, se estava prevista, mas os valores não podem ser desligados do valor que Cristiano Ronaldo representava. E é claro que isto também pode ter um efeito em contratos com outros patrocinadores, mesmo que não aqueles que já estão em vigor, imaginamos que futuros contratos sejam negociados com outros valores. Depois, também há a questão da visibilidade econômica e diplomática do país. Com o Ronaldo na seleção, há uma exposição que de outra forma custaria muitos milhões ao Estado ou a campanhas de divulgação do país, de promoção do país, e provavelmente nem teriam a mesma eficácia. É verdade que Ronaldo não iria ficar para sempre na seleção e a Federação e o país têm de aprender a viver com esta nova realidade, mas já percebemos que para muitos seria melhor adiar esta realidade o mais possível. Mudando de tema, Bruno, a abstenção do PS não agrada a todos?

Não, a abstenção anunciada ou aquela proposta que José Luís Carneiro vai fazer à direção do partido não deve agradar a toda a gente, nem sequer dentro do PS. Haverá quem não concorde, quem não goste muito de abstenções violentas ou não. Mas mesmo que a direção do PS não seja unânime, o mais provável é que a proposta do líder do partido acabe mesmo por ser aceita. A quem não agrada mesmo a abstenção é ao PCP, daí que Paulo Raimundo apela à direção do PS para que não aceite a proposta de José Luís Carneiro. Isto é um daqueles casos em que é a cauda a querer abanar o cão. O PCP não tem força no Parlamento para aprovar ou travar medidas. Fora do Parlamento, é verdade, ainda vai tendo a sua influência, mas na Assembleia da República, que é onde verdadeiramente conta, não tem. E talvez com saudades dos tempos da Geringonça, em que aí, sim, podia influenciar a governação, ao PCP só resta apelar ao PS para ir contra a proposta do líder. O efeito prático muito provavelmente será nulo, mas acaba por ser também uma reveladora demonstração da fraqueza atual do PCP.

E olhando agora lá para fora também, Paulo, o Brasil parte derrotado para essa eleição presidencial?

É, o Brasil vota no domingo e de facto merecia melhor. São dois nomes que dominam a eleição, Lula da Silva e Flávio Bolsonaro. As sondagens apontam para um empate técnico entre ambos, embora com vantagem de alguns pontos poucos de Lula da Silva, e quase metade dos eleitores rejeita o outro, ou rejeita um deles. E isto diz tudo. Lula tem 80 anos, quer mais um mandato, chega a esta eleição desgastado, promete continuidade, não promete renovação. E Flávio Bolsonaro é candidato por herança. O pai, condenado e preso, escolheu para ele ser o candidato, vive à sombra do apelido e tem poucas ideias próprias. E assim mais de 150 milhões de eleitores são empurrados para o mal menor. No fundo, é votar contra alguém, em vez de votar a favor de alguém ou de um programa, isto num debate cada vez mais radicalizado. Há outros candidatos, mas a polarização engoliu o debate e a diversidade de propostas. Quem não cabe num dos dois campos, basicamente fica sem voz. Aliás, isso foi-se notando ao longo da campanha com a não existência de debates em que iam faltando Lula ou Bolsonaro.

E o de ontem foi mesmo cancelado.

O de ontem foi cancelado e, portanto, os outros candidatos também não aparecem. O Brasil, de facto, precisava de um futuro, mas recebe aqui uma repetição. No domingo haverá certamente um vencedor, ou pelo menos um vencedor que leva uma segunda volta, mas o derrotado já é conhecido e neste caso é claramente o eleitor.

Eu ouvi a pergunta, mas ela não é pergunta.

Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.

Calma, Jesus.