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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.

Calma, Jesus.

Paulo, esta polêmica das acampadas ainda poderá ser resolvida com diálogo?

Talvez já seja tarde, não sei, vamos ver, mas até agora não parece haver vontade, pelo menos dos manifestantes, em falar com os responsáveis políticos eleitos. Pedro Duarte já disse há algumas semanas que as portas da Câmara Municipal do Porto estavam abertas, mas sem sucesso. Ontem reforçou a disponibilidade para reunir com os promotores, mas para já também não aprovaram essa possibilidade. E o mesmo Pedro Duarte fez à secretária de Estado da Habitação. E nesta fase vão colocar-se questões que parecem detalhe, mas que podem ser centrais. Quem representa os acampados e que legitimidade têm para algum tipo de acordo, de compromisso com o governo ou com os municípios? E uma vez que os acampamentos são movimentos inorgânicos, quem garante que o eventual compromisso por aquelas pessoas que vão estar reunidas será aceito por todos? Portanto, o diálogo é sempre preferível ao conflito, como é evidente, talvez tivesse sido preferível desde o início, mas o seu caminho nem sempre é fácil.

E no meio disto tudo, Bruno, Luís Neves é o elo mais fraco?

Depois de todos aqueles casos e casinhos que foram sendo noticiados e que fragilizaram o ministro, ele precisava de tudo menos de estar agora diariamente sob os holofotes por causa da atuação das forças policiais que tutela. Na altura até se falava que, para o ministro, ainda bem que a época de incêndios tinha sido relativamente tranquila, porque pelo menos retirava alguma pressão, não o expunha tanto. Mas agora está novamente exposto e quando se falava em autoridade política diminuída, era precisamente isto que estava em causa. Um ministro enfraquecido por vários casos, mesmo que não fossem de natureza política, tem sempre diminuída a sua autoridade. E agora de cada vez que Luís Neves aparece a defender a atuação da PSP, os portugueses o que veem é atrelados e tanques piscina, obras em casa e confusões na judiciária. E aquele argumento da autonomia operacional da PSP só chega até certo ponto, porque numa democracia a polícia está subordinada ao poder político. E a narrativa que se impõe é de que não é a PSP, mas o governo que está a reprimir com violência os manifestantes. E isto para um ministro já debilitado pode ser a palha que parte as costas do camelo, ou como nós dizemos por cá, a gota de água que faz transbordar o copo.

Falando em diálogo, o Conselho de Estado de hoje pode ser importante, pode servir pra alguma coisa?

Vamos ver. Seria inédito quase, se fosse determinante. Mas só António José Seguro, de facto, é que poderá dizê-lo, isto depois da reunião dos conselheiros, que aliás estava marcada já há cerca de duas semanas, e que vai discutir a coesão social. Este tema é um chapéu adequado para o momento, já que permite falar de tudo e de nada, se quisermos, da habitação aos exercícios de liberdades, dos apertos nos orçamentos das famílias, até o radicalismo de algumas franjas da sociedade.

Até porque é um órgão de consulta, não é?

É um órgão de consulta, exatamente.

Para trocar umas ideias sobre o assunto.

Para trocar umas ideias, exatamente. Aquela ideia do: era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto.

Antes era sobre o Tomé e de Carvalho.

Exatamente. À volta da mesa vão estar, entre outros, o primeiro-ministro, claro, o presidente do Tribunal Constitucional e a Provedora de Justiça. Portanto, cada um pode dar logo ali o seu entendimento sobre o tormentoso, famoso decreto lei 406/74 de 29 de agosto, que está em causa e, sobretudo, o artigo 11º, que determina que as manifestações devem terminar à 00:30 e que tem estado aqui no centro da polêmica. Pelo menos há ali uma consulta jurídica que pode ser de borla para o presidente. Pelo menos duas pessoas, o PG e a Provedora. Vamos ver se António José Seguro depois fará alguma declaração no final sobre o conteúdo da discussão, que também não tem sido prática dos outros presidentes até agora. Ou então, em alternativa, vamos ter que esperar 30 anos para saber o que se vai passar no Palácio de Belém esta tarde, quando forem abertas as atas.

Vamos ver, que seria interessante. Teremos ali opiniões muito diferentes.

Sem dúvida.

Bruno, e quando a temperatura aumenta, há quem saia da cozinha?

Há sempre, claro. E os outros que ficam, que se chamusquem. Jorge Sobrado foi eleito vereador da Câmara Municipal do Porto pelas listas do PS, mas aceitou integrar o executivo de Pedro Duarte, o que gerou algumas críticas. Agora, depois de mais uma carga policial, o vereador da Cultura considerou, num texto que publicou nas redes sociais, que a atuação da polícia foi desproporcionada e injusta com a cidade, e acrescentou que a causa do sobressalto cívico, que temos visto, é justa e que a manifestação ou as manifestações têm sido pacíficas. O que ele não disse, mas fica implícito das palavras, é que as consequências políticas a haver desses acontecimentos que têm tido epicentro no Porto, na Praça do João I, recairão sobre o presidente da Câmara e o restante executivo, porque já se viu que Jorge Sobrado não está lá pra isso. Entre elogios à sua coragem e críticas ao fato de na altura ter dado a mão ao PSD, o vereador já saiu de fininho para garantir que não lhe caem em cima umas bastonadas, mas só metafóricas.

Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.

Calma, Jesus