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Ao vivo, na Rádio Observador.

Entrei no consultório de coração em ruínas. Disse-lhe: "Doutor, sofro de amor em abstinência". Ele olhou-me calmamente e perguntou: "Será amor ou apenas codependência?" Sinto-me presa num ciclo sem fim, onde o amor-próprio é sempre adiado. Ele diz que é trauma de infância, de um abandono mal curado. Doutor, receite-me qualquer coisa, um comprimido que me apague a tua voz. Já tentei amor em dose certa, mas este vício nunca vem a sós. Doutor, meta-me num programa de desintoxicação sentimental, que isto não é drama, é sintoma de um amor borderline e terminal. Doutor, dê-me comprimidos para esquecer beijos tóxicos e abraços fingidos. Doutor, ponha-me a dormir se for para eu parar de te pedir para vir. Doutor, injete-me calma, que esta ansiedade só grita o teu nome. Doutor, salve-me a alma, ou ao menos diga que o tempo consome. Doutor, receite-me qualquer coisa, um comprimido que me apague a tua voz. Já tentei amor em dose certa, mas este vício nunca vem a sós. Doutor, meta-me num programa de desintoxicação sentimental, que isto não é drama, é sintoma de um amor borderline e terminal. Um amor, um amor, um amor. Chamas de amor ao que te deixa à espera. Trocas paz por presença e ainda chamas isso entrega. Aceitas curtas respostas, desculpa sem desculpa, um tom que te corta as costas, silêncio como forma de culpa. O que é amor? Amor é seres prioridade, pedir escola a ti mesma, mesmo quando isso arde. Chamaste amor ao medo de ficar sozinha. Chamaste de alma gêmea a quem te reduz a cinzas. Doutor, receite-me qualquer coisa, um comprimido que me apague a tua voz. Já tentei amor em dose certa, mas este vício nunca vem a sós. Doutor, meta-me num programa de desintoxicação sentimental, que isto não é drama, é sintoma de um amor borderline e terminal. Um amor, um amor, um amor. Um amor, um amor, um amor. Um amor, um amor, um amor. Um amor, um amor, um amor borderline e terminal.

"Amor borderline", canção da Carolina de Deus, que está hoje no ao vivo da Rádio Observador. Obrigado por teres vindo, Carolina.

Olá, muito obrigada eu.

Muitos parabéns. Gostei muito da interpretação aqui em acústico deste tema, que de resto já rola aqui na Rádio Observador há algum tempo. É uma das minhas favoritas de "Feliz Triste". Temos que dizer assim, com pausas?

Pode se dizer felizmente triste.

Felizmente triste, porque aparecem ali aqueles parêntesis no "mente".

Mas eu gostei dessas pausas.

Fica mais de acordo como está escrito. Aquele que é o segundo trabalho da Carolina de Deus, depois de "Dores de Crescimento", está ela de regresso num disco que me parece, por algumas das canções, que vive uma série de dicotomias. Há aqui um yin e um yang neste momento da tua vida e na tua escrita?

Completamente. Acho que até o próprio do título fala disso.

Sim.

Sim, é um disco cuja mensagem principal é mesmo aceitarmos que nós podemos ser tristes e felizes ao mesmo tempo, que convida as pessoas a aceitarem os lados maus e é por isso que também se pode ler felizmente triste, porque felizmente que eu sou triste, felizmente que passo por coisas mais difíceis, porque isso também é aquilo que me faz crescer mais, é aquilo que me dá mais ferramentas para depois enfrentar os obstáculos que a vida às vezes gosta de nos pôr à frente.

Como é que foi fazer este disco, em termos mais técnicos, em termos de instrumentais, o que é que mudou em relação ao "Dores de Crescimento"?

Eu acho que uma das principais mudanças foi o facto de eu me sentir mais confiante para participar mais naquilo que eu quero fazer nas produções, como é que eu quero transmitir as músicas e também explorar outras sonoridades que no primeiro álbum se calhar não explorei tanto, porque estava a começar e não tinha tanta confiança para tal.

Eu tenho gostado muito das canções. De resto, uma das últimas reveladas deste disco, que já saiu no final de janeiro, creio.

Exato.

No final de janeiro, foi o dueto com o Jimmy P. Não estava à espera que ele surgisse num disco teu. Como é que correu e como é que isso nasceu?

É engraçado, toda a gente diz o mesmo.

Não é um artista que eu associasse imediatamente ao teu gênero.

Olha, eu sinto que foi um pouco obra do destino, porque o meu produtor trabalha com ele também. E houve um dia em que ele convidou o Jimmy para vir ver as minhas sessões de gravação de estúdio. E ele lá foi. Eu estava a gravar o "Domingo à Noite" e eu tinha na cabeça que queria muito pôr alguém a escrever um verso, um rapper ou algo do gênero. E ele assim: "Então, mas por que essa música não está acabada?" E eu: " pois, estou a esperar que alguém faça aqui alguma coisa." E ele: "Bem, eu adoro a música, adoro este som." E eu: "Queres tentar?" Ele passado oito minutos escreveu.

Soa muito natural.

É, oito minutos escreveu aquilo tudo, escreveu a parte dele e eu fiquei tipo "ok".

És mesmo tu. Vamos fechar a coisa assim.

O "Domingo à Noite", esse dueto com Jimmy P, que faz parte deste novo disco, que já tem tido algumas apresentações. No final de fevereiro, estiveste no Sá da Bandeira, no Porto. Como é que correu isso? Pareceu-me que foi uma grande noite.

Foi incrível. Eu sou uma pessoa muito sensível, mas às vezes também sou muito forte.

É, os tais dois lados.

É os tais dois lados, exatamente. Sinto que esta tour arrancou da melhor maneira possível e o Teatro Sá da Bandeira foi talvez um dos momentos mais mágicos. Obviamente que o público do Porto também ajudou, mas foi lindo.

É diferente o público do Porto?

Não vou dizer diferente de todos os públicos que há por aí.

Tu que és uma lisboeta, não é?

Sim, eu sou lisboeta. Eu acho que o público do Norte às vezes tende a ser mais quentinho.

Isso é giro. Sexta-feira 13 não será de azar, porque vais estar em Braga, há concerto no Espaço Vita, mas a 15 de abril vais estar no Maria Matos, em Lisboa. Mais uma apresentação deste "Felizmente Triste". Aqui vais ter como convidada a Nena.

Exatamente.

Como é que estás a preparar esse concerto? E fala-me um bocadinho também de quem é que te acompanha, como é que está o espetáculo da Carolina de Deus ao vivo.

Este formato em específico de apresentação de álbum é um formato diferente, é uma coisa que eu nunca fiz. É uma experiência mais imersiva. Nós pensámos em tudo ao pormenor para que as mensagens das músicas fossem transmitidas exatamente como nós queríamos. Ou seja, temos a parte do cenário, temos a parte da dança.

Tu danças?

Eu danço.

Ok.

Eu danço, mas também a respeitar muito as mensagens. Isso é muito interessante. E é engraçado porque toda a gente sai dos meus concertos a chamar este concerto de terapia e de uma experiência muito emocionante imersivamente. Ou seja, as pessoas sentem mesmo muito à flor da pele. Não é só ao ouvir, é ao ver. É tudo. É aquilo que eu também digo, porque há uns interlúdios no meio das músicas. E por isso, em Lisboa, o que eu pretendo? Eu pretendo elevar um bocadinho mais o espetáculo, porque já fizemos algumas datas e eu gosto de não entrar só no modo automático. Ou seja, bora meter coisas novas que tornem o espetáculo ainda mais grande e é isso que eu pretendo fazer em Lisboa. Mais ter a Nena.

Tu tens tido muitos espetáculos. Estava aqui a ver que ainda em abril há concerto em Leiria e também em Porto Alegre. Mais datas vão surgir, seguramente. Sentes que ao segundo disco já não és considerada uma revelação da música, porque mesmo do ponto de vista lírico das letras destas novas canções, há aqui uma maturidade que entretanto surgiu, comparado com o "Dores de Crescimento".

Da parte dos outros, eu não faço a mínima como é que as pessoas olham para mim e se calar até o faço um pouco de propósito para não viver sob essa pressão, porque a transição do primeiro álbum para o segundo álbum foi algo que trouxe muita responsabilidade. Foi um primeiro álbum que correu muito bem, mas muita coisa aconteceu também durante esses anos e eu sinto que cresci, que hoje em dia também sou uma Carolina mais consciente, mais crescida, mais profunda também, se calhar. E por isso daí surgiu este álbum com essa tal diferença a nível de conteúdo e lírico também. E por isso eu gostava de chamar este álbum mais um álbum de consolidação do que propriamente de revelação. Mas também espero que o meu terceiro álbum seja ainda mais.

Estás no bom caminho.

Sim, exato.

Queria só perguntar uma coisa, porque há dias surgiu uma canção para um disco de homenagem à Florbela Espanca, em que tu participas, chama-se "O Maior Bem". Tu participaste na melodia para um soneto da Florbela Espanca. Como é que foi trabalhar uma artista que carrega também sempre uma bandeira de um certo feminismo, um certo modo de ser mulher. É um pouco o símbolo dela na literatura portuguesa.

É mesmo. E eu acho que eu me afeiçoei muito ao lado melancólico dela, porque eu sou uma pessoa que também gosta muito de trazer este meu lado melancólico e mais triste. Eu gosto mais da palavra melancolia. E por isso, foi mesmo isso que eu quis explorar na música, tentar respeitar ao máximo a mensagem dela e as palavras e a voz, mas tentar com que fosse ao encontro também daquilo que sou eu e para que se faça verdadeiro na minha voz. E foi mesmo isso que eu tentei fazer.

É difícil trabalhar a letra ou as palavras de outra pessoa?

Foi difícil. Eu quase que desisti. Eu quase que disse à João Só: "Olha, desculpa, não está a sair nada". Mas eu sei explicar por quê. Porque eu tentei olhar para a música e pensar: tenho que compor algo que não faça parte daquilo que é meu. E assim que eu mudei essa perspectiva, eu consegui, muito rapidamente. Quando eu digo muito rapidamente, foi que eu compus esta música em 15 minutos. Aquilo simplesmente fluiu, porque há uma parte que é minha, que é a tal composição.

E ficou muito bem. Chama-se "O Maior Bem", vai fazer parte de um disco chamado "Florbela" e que chega mais lá para o final deste mês, de resto, no Dia Mundial da Poesia, uma feliz coincidência, 20 de março. Entretanto, já está cá fora o "Felizmente Triste". Já ouvimos o "Amor Borderline", entre parêntesis, doutor. Gosto muito dessa parte Aqui a acompanhar-te o Eduardo Faustino também na guitarra, com os cuidados técnicos da Mariana Sousa Aguiar. Qual é o tema com que fechamos o "Ao Vivo" desta semana?

Vamos fechar com o "Tu Não Fazes Ideia".

Não faço? Vou saber.

Vais fazer.

Muito obrigado por teres vindo. Carolina de Deus, a convidada esta semana do "Ao Vivo" da Rádio Observador. No próximo dia 15 de abril há concerto no Teatro Maria Matos, em Lisboa. Muitos parabéns, obrigado.

Muito obrigada. Tu não fazes ideia do que é que estas coisas fazem à cabeça. Não sei se é assim que a história começa, começa no fim. Tu não fazes ideia do que é que é ficar a noite acordada, gostar tanto dele e sair magoada no fim. Se passaste por isto, não é novidade. Não é só saudade. Não é só o trauma que trago de casa, que vi nos meus pais. E não é um capricho, ele deu-me certezas sem ter a certeza. Dançámos no rio, rimo-nos à mesa. Ali quem nos viu, viu toda a beleza. Não fazem ideia, que sem uma plateia, caí. Eles não fazem ideia. Será que sabiam? Alguns me diziam que eu estava mais magra, de cara cansada. Já estou perdoada? E eu não faço ideia como é que se larga o ciclo, o vício. Voltei ao início, tornei-me pequena, fiz parte do esquema, estava apaixonada. Se passaste por isto, não é novidade. Não é só saudade. Não é só o trauma que trago de casa, que vi nos meus pais. E não é um capricho, ele deu-me certezas sem ter a certeza. Dançámos no rio, rimo-nos à mesa. Ali quem nos viu, viu toda a beleza. Não fazem ideia, que sem uma plateia. Mal ponho um pé em casa, não é que as coisas mudaram. Nunca me contaram que tinhas versões diferentes, sermões pra uma miúda. Sou mais do que julgas, sou mais do que vidro, suporto o respiro. Se me dizem não, vou com a emoção e não fazem ideia. Tu não fazes ideia. Se passaste por isto, não é novidade. Não é só saudade. Não é só o trauma. E não é um capricho, ele deu-me certezas sem ter a certeza. Dançámos no rio, rimo-nos à mesa. Ali quem nos viu, viu toda a beleza. Não fazem ideia, que sem uma plateia. Não, não fazem ideia, que sem uma plateia, caí. Ao vivo, na Rádio Observador.

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