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Ao vivo, na Rádio Observador.

Talvez tivesse perdido até me teres encontrado. Foi só um beijo esquecido ou só mais um tiro ao lado. Peço-te a verdade, que me digas o que não sentiste. Nada mais do que a verdade, o desejo que nunca impediste. Eu nunca te consegui ler. Tu nunca pudeste colher. Os frutos que plantámos, o sonho que habita em nós. Nós nunca soubemos saber. Agora imune ao ruído, sinto que cheguei tarde. Das cinzas vou renascido enquanto o fogo ainda arde. Peço-te a verdade, que me digas o que não sentiste. Nada mais do que a verdade, o desejo que nunca impediste. Eu nunca te consegui ler. Tu nunca pudeste colher. Os frutos que plantámos.

Os frutos que plantámos.

O sonho que habita em nós.

Sonho que habita.

Nós nunca soubemos saber. Nós nunca soubemos saber. Nós nunca soubemos saber. Talvez tivesse perdido até me teres encontrado.

Janeiro, de volta ao ao vivo na Rádio Observador. Obrigado por teres vindo.

Muito obrigado.

Parabéns pelo novo disco, já está cá fora e vamos falar sobre ele, mas acabámos de escutar esta "Imune ao Ruído", com o Tatanka. Obrigado também ao Tatanka por ter vindo. Está no dueto no disco e trouxe aqui uma versão mais despida desta canção para o ao vivo desta semana. Queria começar por ir um bocadinho atrás, porque no "Fugacidade" havia aquela ideia maior de movimento, típico da rotina da cidade, e este "Reticências", parece haver aqui um elogio maior ao silêncio, à calma, à introspeção. Este álbum é, de alguma forma, uma tentativa de permanecer dentro de uma pergunta, em vez de procurar uma resposta?

Eu acho que este álbum é uma tentativa de permanecer numa constante busca, ou seja, numa certa inquietação. Falava o Zé Mário, esta constante busca por uma essência e uma constante busca por encontrar quem queremos ser, iniciarmo-nos em novas relações, percebermo-nos em novas relações, entendermos novas versões de nós à medida que vamos entrando na vida adulta. E é um disco que propõe mesmo esse silêncio, propõe essa pausa. Ou seja, eu propunha mesmo ao ouvinte que parasse, que tirasse esses 38 minutos e que dissesse: "Agora vou parar pra ouvir este disco. Há quantos anos eu não faço isto?"

Também encaixa um bocadinho nesta ideia o próprio título da canção que ouvimos, o "Imune ao Ruído", num tempo em que a própria indústria ou o quotidiano parece que são de reações e estímulos todos tão rápidos. Esta coisa de ser imune ao ruído parece-te essencial para deixar este disco também crescer e ele nasceu desta forma?

Sim, ele nasceu dessa forma e foi materializado dessa forma, ou seja, foi gravado em janeiro, em Vale de Lobos, não sei se te lembras, Nelson, mas estavam umas chuvadas em novembro, dezembro e janeiro, que nos permitiram entrar nessa nostalgia, nessa melancolia.

Que tal esse estúdio?

Esse estúdio foi muito mágico, o estúdio do Rui Veloso. Tem uma magia embutida. Eu, ainda por cima, sou muito fã do Rui, então estava ali quase com uma dupla responsabilidade acrescida, que é a primeira vez que estou a gravar ali, com o Nuno Simões, a quem agradeço muito também pela engenharia de som, e com o Daniel Lima, que gravou todo o piano. E nós estávamos sempre com esta questão, que é: o estúdio estava sempre a ir abaixo, acreditas nisso? E depois percebemos que era um MacBook que estava a entrar em clash com o Wi-Fi. Isso estava também a cortar a nossa energia de gravação. Sempre foi um desafio, os três dias foram muito desafiantes e muito down, de alguma forma, muito sérios, muito grounded. Também é raro eu gravar assim, porque eu me desconstruí um bocadinho em termos de valores de produção e de onde produzo e onde gravo. Acabo por estar um bocadinho por todo o mundo a gravar. E agora não, pensei: vou gravar naqueles três dias, vou receber cada convidado, vou convidar os amigos e vamos cantar canções, e isso é o que eu sou. Tu estavas a falar de futilidade, e eu acho que a nomeação ao Latin Grammy trouxe isso, trouxe essa responsabilidade acrescida com o próximo disco, trouxe essa vontade de trazer um disco ainda melhor às pessoas, ainda mais forte e ainda mais da minha essência.

Ainda por cima, temos aqui o privilégio de te ter com estas canções ao vivo aqui no nosso estúdio. Dirias que é este também o ambiente natural com que o próprio disco foi gerado?

Sim, ele foi desgravado ou gerado em termos de composição?

Em termos de composição, ele nasceu desta forma como aqui se apresentou, mais despido?

Sim, totalmente. As canções nasceram à guitarra, foram todas ao violão. Depois é que levaram um arranjo do Daniel Lima de piano e eu acho que o disco com a orquestração de piano e de violão nylon ficou mais piano. Parece que a representação do piano sobressai. E eu acho que isso lhe trouxe ainda uma dupla nostalgia, uma dupla melancolia e algo muito ligado à balada da canção portuguesa, que é uma coisa que eu adoro.

Boa! Mais convidados do que nunca.

É verdade.

Tatanka, Valter Lobo, Irma, Ana Mariano, Pedro Duval.

Raquel Martins.

Raquel Martins, que é ótima.

É verdade. Bibi.

São muitas participações. Como é que se junta toda esta gente? De alguma forma também quiseste marcar a diferença neste disco para ser um álbum mais colaborativo, ou estas são as tuas canções e tu: "Aqui ficava bem fulano ou sicrano".

Eu já venho tentado agregar desde as Janeiro Sessions, desde que eu comecei no YouTube as Janeiro Sessions e convido o Miguel Araújo, depois o Zambujo e o Salvador Sobral, para essas sessões, e depois as sessões passaram para o ao vivo. A ideia era mesmo essa, era trazer o que o Brasil tem de melhor, que é esse saravá de um artista para o outro, e não uma competição constante.

Os brasileiros fazem isso tão melhor que nós. Colaboram muito mais.

Colaboram de forma leve. O Caetano, que fez o featuring com o Gilberto Gil, e foi natural. E é constante, e o público acompanha, é quase como se estivesse a acompanhar a vida dos dois dentro dos featurings deles. E por que não isso acontecer aqui? Ao vivo, gravado também no YouTube e depois também nos discos. Então eu proponho mesmo isso aos artistas que me estiverem a ouvir. Convidem-me também para gravar canções.

Olhando para a forma como descreveste o disco e como este "Reticências" também se tem apresentado, e do que falávamos no início, olhando também para o teu percurso dos primeiros trabalhos até este ponto, que diria que é de maturação, sentes que este álbum, de alguma forma, marca uma conquista do teu próprio ritmo, imune às pressões da música atual ou da indústria?

Sim, eu estava a ouvir o meu primeiro EP de 2015, que foi gravado em 2014, e há canções parecidas com este disco, "Reticências", nomeadamente uma que eu fiz aqui na Rádio Observador, a "Quem Queres Ser?", que é muito parecida com a " Teresa e Tomás", que fala de um livro do Milan Kundera, e é toda uma história à volta de gypsy jazz. Eu queria trazer isso, esse universo, porque eu estudei jazz e queria ser guitarrista de jazz, depois a canção invadiu-me e eu fui mais pra pop, mas eu trago muito do jazz nos discos. E ultimamente, com a fofocidade, tenho trazido o jazz envolvido com a eletrônica e agora queria trazê-lo acusticamente.

Essa diferença sente-se. Olhamos um bocadinho as apresentações ao vivo, corrige-me se estiver enganado, 18 de novembro, Coliseu Club, em Lisboa, 3 de dezembro, no Porto, Out Five. São duas salas até com ambientes bem diferentes uma da outra. Como é que se desenha um espetáculo com reticências para funcionar também nestas salas entre si diferentes?

Eu já tenho a ideia toda, não vou desvendar tudo. Vamos ter o Arlindo Camacho a fazer a cenografia e a luz conosco, eu estou bastante honrado.

Já há cenografia.

Sim. Eu sempre trouxe cenografias ao vivo com os discos. Normalmente trago nas apresentações em Lisboa e no Porto e depois acabo por não levar pro resto do país, mas vou tentar levar neste disco. E eu acho que vai ter um caráter muito intimista. Por isso é que as salas se propõem isso. Um é um clube de jazz, o Out Five, no Porto, e depois o outro é o Coliseu Club, que é aquela sala mais intimista do Coliseu dos Recreios, onde eu acho que vamos poder criar um ambiente à volta de vinho, canções, emoções, amigos.

Já me conquistaste com essa descrição.

Estás convidado.

Estarei lá. "Reticências" é o novo disco do Janeiro, do qual vamos ouvir agora a "Quem Queres Ser?", com ponto de interrogação no fim. É uma questão que se faz ao ouvinte: quem quer ser? É o tema que fecha o ao vivo desta semana com o Janeiro. Tem disco novo, ouça-no, acompanhe-no também nestes primeiros concertos de apresentação. Ele vai andar por aí e obrigado por teres vindo à Rádio Observador.

Obrigado eu.

Um abraço também ao Tatanka, que te acompanhou há pouco na primeira canção.

Obrigado, Tatanka.

O imune ao ruído, Tomás Ferreira e o Artur Costa ajudaram aqui também na sonoplastia. Um abraço, Janeiro. Obrigado.

Um abraço.

Estás a ver a vida andar para trás e o tempo a passar. Então deixa-te estar. Amor, deixa-te estar. E se toda a gente à tua volta te diz para ires trabalhar, tu deixa-os falar. Amor, deixa-os falar. Ou se és tu que andas descontente com o que estás a trabalhar, então põe-te a mexer. Há muitas formas de viver. Eu sei decor, os teus passos todos, sei para onde vais, sei quem queres ser. E agora, amor, o que vais fazer? Sem mim a teu lado, ficas sem prazer. Para ti que achas sempre complicado pôr as coisas a arrancar e nunca dás o passo a seguir. O terreno vai ser empedrado com pó moderado a cair e tudo das tuas mãos vai fugir. A vida é assim, uma junção de ocasiões. Fico só eu, tu e os meus refrões. Eu sei decor, os teus passos todos, sei para onde vais, sei quem queres ser. E agora, amor, o que vais fazer? Sem mim a teu lado, ficas sem prazer. Ficas sem prazer. Ficas sem prazer. Ficas sem prazer. A vida a passar, a vida a passar. Ficas sem prazer. A vida a passar. Ficas sem prazer. Ficas sem prazer. Estás a ver a vida andar para trás e o tempo a passar.

Ao vivo, na Rádio Observador. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.