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Quem foi Abraão, o homem a quem Deus prometeu uma terra? Este é o segundo episódio da segunda temporada de "As Histórias da Bíblia", o podcast da Rádio Observador, em que deciframos o livro mais impresso e distribuído da história da humanidade, mas não necessariamente o mais lido. Eu sou o João Francisco Gomes, sou jornalista e escrevo sobre religião no Observador.
Eu sou o Daniel Nascimento, padre e professor na Universidade Católica Portuguesa.
E eu sou o João Basto, padre e colunista do Observador.
E esta semana vamos falar de uma personagem incontornável da Bíblia: Abraão, o homem que está na origem das três grandes religiões monoteístas do mundo, uma personagem bíblica partilhada por cristãos, judeus e muçulmanos. Vamos tentar conhecer esta figura a quem Deus prometeu uma terra, perceber por que é que a dada altura esteve quase a sacrificar o próprio filho e compreender como é que ele se tornou o patriarca de judeus, cristãos e muçulmanos. Estas são as histórias da Bíblia. Olá a todos, e antes de seguirmos para o tema de hoje, quero lembrar que os nossos ouvintes nos podem enviar perguntas, comentários e sugestões para o nosso e-mail: ashistoriasdabiblia@observador.pt. Não tem nenhum acento, ashistoriasdabiblia@observador.pt. Já sabem, podem enviar-nos perguntas, comentários e sugestões para nós tratarmos nos episódios deste podcast. Nós na primeira temporada saltámos diretamente da história de Adão e Eva para a de Moisés, no Egito, e acabamos por deixar para trás o grande patriarca da Bíblia, que é Abraão. Como eu dizia na abertura, é uma figura referenciada por cristãos, judeus e muçulmanos, e é considerada a origem desta grande história religiosa que é comum a mais de metade da humanidade. João Basto, queres começar por nos contar quem é este homem que nós encontramos pela primeira vez no fim do 11º capítulo do Gênesis?
É um homem cuja história é uma espécie de grande manta de retalhos, composta por episódios às vezes até desconexos e independentes, tem várias repetições, inclusive, e é uma história de grandes aprendizagens, de grandes hesitações, de avanços e recuos, de impotências que Abraão sente. Mas quem é que é este homem? Este homem surge depois de nós já termos lido no capítulo Gênesis, Adão e Eva, Caim e Abel, Noé com o dilúvio e a Torre de Babel, ou seja, ele surge no final do capítulo 11. A história propriamente dita, como nós às vezes queremos chamar, de Abraão, começa no capítulo 12.
Ele surge ali como uma lista genealógica, não é? Basicamente pra nos trazer desde a-
Da Torre de Babel, há ali depois uma certa genealogia, depois surge Abraão, e Abraão, na verdade, nasce e surge num cenário de esterilidade. A mulher, Sara, não tem capacidade de conceber e é nesse momento que há um contraste com a promessa que Deus lhe faz, que é: "Vai pra terra que eu te indicar, que eu vou fazer de ti o pai de todas as nações". O que claramente contrasta com a condição da mulher de Abraão, que não tem capacidade de conceber. E toda a história de Abraão vai ser um conjunto, como dizia no início, de hesitações, de recomeços, com episódios que às vezes parecem cópias de episódios anteriores que ele próprio passa, em que ele vai tentando entender o que é que significa ser pai de todas as nações e que estilo de paternidade é que Abraão vai adotar. Ou seja, vai fazer uma transição da posse para uma paternidade, que é ver o filho e a realidade como um dão, como já tínhamos visto, aliás, com Adão e Eva.
Daniel, já agora, ajude-nos aqui a perceber uma questão. A história, os primeiros 11 capítulos do Gênesis, como nós já falámos aqui amplamente neste podcast, são os chamados mitos da criação. Temos a criação do homem e da mulher, temos o dilúvio, a Torre de Babel, Caim e Abel, que falamos no primeiro episódio desta temporada. Aqui com a passagem para Abraão, saímos desse tal tempo antes do tempo e passamos a falar já de uma realidade minimamente histórica que nós possamos identificar?
De certa forma, sim, já entramos na história ou já entramos em personagens em que podemos mais ou menos colocar numa linha cronológica. É interessante que o texto coloca-nos Abraão logo no final do capítulo 11, que ainda é o capítulo em que fala da Torre de Babel e, portanto, ainda estamos nesta linguagem mais mítica, mas Abraão e a sua família é uma espécie de gancho literário para ligar esses tempos primordiais, fora da história, digamos assim, para algo que já podemos mais ou menos colocar numa cronologia. Eu digo mais ou menos porque a historicidade de Abraão e dos patriarcas é algo também debatido. Não é muito claro em que altura viveu ou até, de acordo com algumas sensibilidades históricas, se existiu mesmo, se não é uma construção literária do primeiro milênio antes de Cristo, do tempo do Israel histórico.
Mas há um dado que é talvez curioso pra tentar compreender esta história e se calhar precisamos dar aqui um passo atrás para ajudar os nossos ouvintes a situar-nos na história. Ouvimos pelo menos falar muitas vezes desta ideia de que Abraão vivia em Ur, que é este sítio que nós hoje já conseguimos identificar ali no sul do Iraque. Pronto, ou seja, de repente, já não estamos a falar até de um sítio fora do espaço e fora do tempo, mas já falamos de um sítio concreto.
Certo, mas cheio de anacronias. Fala-se muitas vezes de Ur dos Caldeus. Ora, os Caldeus surgem muitos séculos depoisFala-se, por exemplo, nestes relatos também de camelos. Ora, sabemos que o camelo só é domesticado, só é começado a ser usado como aparece aqui nestes textos, numa época muito posterior a Abraão. Os especialistas tentaram, sobretudo em meados do século XX, encontrar paralelos entre este contexto da vida de Abraão, os seus episódios. O João referiu que é uma coisa muito episódica, Abraão faz isto, faz aquilo, vai daqui para ali, mete-se em aventuras, encontros e desencontros. E há aqui uma certa semelhança com o contexto do antigo Próximo Oriente, ou seja, a vida da Babilónia e da Assíria antiga nos inícios do segundo milénio, por volta do ano 2000 a.C., portanto há 4 mil anos. Por volta também naquela altura do rei Hamurábi, em que surgem estas leis antigas do Código de Hamurábi. E há alguma verosimilhança nisso, mas depois à medida que a arqueologia se foi desenvolvendo, hoje diríamos que é difícil defender essa posição, ou seja, de que a história e a arqueologia nos apontam para um Abraão real vivendo nesse contexto.
Aliás, se nós quiséssemos ver como, apesar de haver aqui uma ideia de que já existe tempo e espaço mais concreto, a pessoa que é a última pessoa referida antes de começar o capítulo 12, que é Terá, o livro de Génesis diz que viveu 205 anos. Ou seja, claramente nós não estamos a falar de um grau de historicidade como poderíamos falar de outras questões.
Aliás, quando passamos para esse ciclo histórico do Abraão, já começamos a ter pessoas com idades mais normais, entre aspas.
Sim, antes eram idades muito elevadas e depois vamos começar a ter idades mais normais e Abraão abre este caminho dos ciclos, ou seja, é o ciclo de Abraão, depois o ciclo de Isaac, o ciclo de Jacó e o ciclo de José. Portanto, há aqui este encadeamento de várias personagens que dão seguimento a partir de pessoas, às vezes individuais, a uma história coletiva, simplificando.
Mas, João, há bocado interrompi-te na primeira pergunta que te fiz quando te pedi para tentares apresentar-nos um bocadinho esta história que aparece. Ajuda-nos aqui a traçar um pouco esta história.
Abraão recebe esta promessa de Deus de que vai ser o pai de uma nação maior do que as estrelas do céu e tem uma espécie de condição que é deixar a sua família, a casa do seu pai, e ir para a terra que Deus lhe vai indicar. Ora, Abraão vai ter um conjunto de hesitações e de sobressaltos nesta procura, porque quando depois em Caná se vai sentir uma fome, ele desce ao Egito. Descendo ao Egito, ele vai ter ali uma peripécia quase a vender a mulher ao faraó, e o faraó sentir-se enganado, a devolver a mulher. Abraão volta à terra. Isso vai voltar a acontecer mais à frente com outro rei, não com o faraó do Egito, mas com Abimeleque. Depois, entretanto, há aqui promessas, encontros com Deus, com a história dos três homens misteriosos, a história seguidamente de Sodoma e Gomorra, e depois posteriormente a questão do sacrifício de Isaac, como é conhecido. E depois há a parte final da vida de Abraão. Ou seja, Abraão vai ter aqui, como já falámos, um conjunto de episódios, de encontros e de desencontros, em que vai aprendendo realmente o que é que esta promessa quer dizer.
E vai crescendo. Há aqui até um paralelo que muitos autores fazem, que do ponto de vista literário, entre as histórias de Abraão e a Odisseia. Assim como Ulisses vai crescendo, vai amadurecendo como homem e como herói, assim também acontece em Abraão.
Daniel, conseguimos situar mais ou menos no tempo. Estavas-me a dizer há pouco que é difícil reconstruir uma historicidade desta história.
Sim, já passámos essa fase de dizer que Abraão, certamente, pelo que diz o texto, bate certo com aquilo que sabemos destas sociedades antigas e conseguimos situá-lo bem nessa altura. Hoje os autores são mais céticos. Ainda assim, parece-me uma postura mais equilibrada, não extremamente cética como alguns historiadores têm, permite-nos dizer que embora os textos sejam do primeiro milénio, ou seja, sejam compostos, compilados, finalizados numa época muito posterior, ainda assim, certamente são tradições antigas, certamente há aqui um grande período de tempo de oralidade e de histórias e tradições sobre Abraão que remontam a esses inícios do primeiro milénio.
E no fundo, que ajudam também aquele povo a narrar as suas próprias origens, a encontrarem Abraão, esta figura patriarcal que ajuda a encontrar uma origem no início da história.
Sim, uma espécie de pai primordial que depois na sua descendência se vai cumprindo esta promessa.
Exatamente, daí que um aspeto central da personagem seja justamente a questão da descendência, a promessa que Deus lhe faz que há de ter uma grande descendência. Mas o que é que sabemos? Sabemos que Abraão era um velho, que não tinha filhos, a quem Deus promete uma descendência e sabemos também, pelo que o texto vai contando, estou a usar aqui o verbo com alguma liberdade para falarmos do que conta esta história, que Abraão vai ter um filho com uma escrava, Agar, que vai ser depois Ismael, e só finalmente, mais tarde, vai ter um filho com Sara, que também era idosa e, portanto, há ali toda uma dinâmica de improbabilidades, que é depois Isaque, daí que vem aquela descendência. João, não achas curioso que a história bíblica tenhacolocado como patriarca, como pai dos crentes, um homem para quem ter filhos foi um desafio tão grande?
Eu posso achar curioso. Agora, acho que isso tem uma motivação narrativa e literária clara. Ou seja, se Abraão tivesse tido filhos na idade normal, e eu estou dando aqui muitas aspas, isso seria visto como uma conquista pessoal e natural. De certa maneira, até uma extensão de si próprio. E o caminho que Abraão faz é para reconhecer que os filhos não são uma extensão de si próprio. Aliás, Abraão vai ter que lidar com isso na história toda. Esse episódio de Agar, que é a escrava egípcia da mulher, e do filho Ismael, deriva precisamente disso: Abraão não conseguir lidar com o atraso, com a falta, com a expectativa, com o limite, com a lacuna, e ter que arranjar uma solução para preencher a ausência a qualquer custo. Abraão às vezes parece uma pessoa que quer realmente assumir o controle, mas a fecundidade na história parece estar muito mais ligada à ideia de não controlar a realidade, nem abdicar da realidade para manipulá-la. Se quisermos dar um exemplo disso, é o fato de a certa altura ser necessário ou de se recomendar a Abraão a circuncisão, que é um corte físico no sítio onde se calhar mais custa a Abraão, até por esta questão da fecundidade e da descendência. De certa maneira, se nós quiséssemos fazer aqui um paralelo um bocado desconexo, mas para ligar um pouquinho à realidade, Abraão às vezes parece um miúdo que tem que aprender a lidar com a sua própria masculinidade e com a sua própria virilidade, etc. Uma ideia até de Abraão se recompreender dentro desta realidade.
Ainda bem que mencionas aí a questão da circuncisão, que é proposta por Deus a Abraão. Daniel, é mais ou menos com este sinal físico que também nasce ali com Abraão, um conceito que é fundamental na história da Bíblia, que é este conceito de aliança. A aliança entre Deus e a humanidade, e que na história de Abraão tem alguns sinais, por exemplo, a mudança do nome dele, porque primeiro é Abrão e depois passa a Abraão. Nós vemos isso.
Tem mais um A.
Mais um A, exato, nas traduções portuguesas. Também a questão da circuncisão como sinal. E depois parece que toda a história da Bíblia passa a girar em torno desta ideia de aliança. Queres explicar rapidamente o que é este conceito?
Sim, aliança é um pacto, é um contrato, digamos assim, que nos textos bíblicos nos aparece entre Deus e uma pessoa representante, com autoridade, para sublinhar este caminho que Deus vai fazendo com o povo. E já vimos, ou o leitor da Bíblia vê logo uma aliança com Noé, simbolizada com o arco-íris, agora esta aliança com Abraão. Depois haverá outros momentos de aliança com Josué, com Moisés e com outros personagens. Este conceito de que, de alguma forma, é um pouco decalcado, dizem os especialistas, de uma espécie de tratados entre grandes potências, entre uma grande potência e um estado vassalo, mas que diz, no fundo, sobretudo neste caso, uma aliança, ao contrário de algumas outras, esta é uma aliança incondicional. Deus que promete estar com Abraão para o acompanhar no seu caminho. Embora o conceito da aliança, alguns autores, sobretudo em meados do século XX, dissessem isso mesmo que estavas a dizer, que é uma espécie de fio de ouro, um conceito que atravessa todo o Antigo Testamento, talvez seja uma leitura um pouco redutora, porque há outros temas aqui importantes. Mas no caso de Abraão, eu até sublinhava antes destes episódios da aliança, que implicam também uma mudança e um pacto, implica também uma disposição do homem, neste caso de Abraão, de mudar algo em si, de assumir algo em si, neste caso, a circuncisão, que sabemos que é um gesto que nós associamos à cultura bíblica, mas é algo presente em várias culturas da antiguidade. Mas aqui, neste caso, eu até sublinhava, antes ainda da aliança, a confiança em Deus, este ir. A história de Abraão começa assim: "Vai, sai da tua terra, vai para este lugar que eu te indico". A ideia de promessa também, de promessa de uma terra, promessa de assistência, promessa de descendência, é algo que está muito marcado em Abraão.
Muito bem, nós já voltamos depois de um curtíssimo intervalo para a segunda parte das histórias da Bíblia. Vamos continuar neste tema, a tentar compreender como é que um homem que esteve prestes a sacrificar o próprio filho, se tornou o patriarca da maior família religiosa do mundo. Até já. Segunda parte das histórias da Bíblia com os padres João Basto e Daniel Nascimento. Na primeira parte estivemos a falar sobre quem poderá ter sido Abraão, mas eu interrompi o Daniel Nascimento nesta última explicação sobre a ideia de aliança, promessa, e ainda ficou por falar este sinal muito visível da transformação do nome de Abrao para Abraão. Não sei se queres continuar essa explicação.
Só para lembrar rapidamente uma dinâmica que é muito própria da Bíblia, ou seja, que vemos em muitos lugares. Basta pensarmos, por exemplo, no Novo Testamento, em Pedro, que passa a chamar-se Pedro sendo Simão antes, e Pedro tem a ver com a sua missão, de ser rocha. Isso acontece muitas vezes. Abraão significa pai de uma multidão, mais ou menos. E portanto, já diz algo desta sua identidade, da concretização da promessa de descendência e, portanto, de Abraão como este grande patriarca de todos estes personagens que depois seguem.
O próprio Jacob também vai depois ter o nome mudado para Israel e vemos aí a origem desse nome Israel, dessas transformações. Muito bem, nós vamos agora tentar olhar para mais alguns episódios da vida desta personagem, Abraão. Ocorrem, obviamente, algumas passagens célebres, como aquela em que aparecem três visitantes misteriosos à porta da tenda, ou o texto muito famoso em que Abraão tenta negociar com Deus para impedir a destruição de Sodoma e Gomorra. Tu, aliás, já tinhas mencionado, João, isso na primeira parte, em que ele vai dizendo: "Se eu tiver 50 justos, não destruas".
Que é uma parte de quando o Proust escreveu "Em Busca do Tempo Perdido", há uma parte específica da "recherches", como dizem os intelectuais, que é Sodoma e Gomorra, precisamente, porque isso é um episódio tão marcante na história da literatura.
O que destacarias mais neste e noutros episódios da vida de Abraão?
No episódio de Sodoma e Gomorra, eu acho que é essa a questão do Abraão estar sempre a negociar com Deus e até narrativamente Deus parece um tirano, porque precisa que alguém diga: "Olha, se eu-"
Então vamos situar o ouvinte. Basicamente, o que acontece é que há uma cidade que vai ser destruída pelos seus pecados e Abraão vai tentando interceder junto de Deus dizendo: "Mas e se houver ali 50 justos? Se houver 50, não destrua. Mas e se forem só 40?"
Exatamente.
Vai regateando com Deus.
Sim, exatamente. Acho que é fácil de ver que Abraão, que quer ser o pai e é prometido por Deus que vai ser o pai de todas as nações, parece que nesse episódio Abraão assume já esse papel, de tal maneira que está ali a regatear com Deus a vida de pessoas que ele não conhece. Portanto, é realmente o pai que quer abençoar todas as pessoas, todas as gerações. No episódio que falaste dos três visitantes misteriosos, é um episódio que acontece precisamente antes desse regatear de Sodoma e Gomorra, e é curioso, porque acontece depois do episódio da circuncisão. Ou seja, Abraão aparece sentado em frente da tenda e parece que está a descansar do episódio anterior, daquela espécie de cirurgia que lhe foi feita. E é nesse momento que lhe aparecem essas três-
Está no recobro.
Está no recobro, exatamente. E aparecem essas três figuras misteriosas. E eu creio que nós podemos ler esta passagem, porque Abraão dá-lhes uma refeição, por os receber debaixo de um carvalho, de uma árvore, e dá-lhes uma refeição como uma espécie de anti-Éden. Enquanto nós, no Éden, existe uma árvore e há uma refeição que é tomada de maneira possessiva por Adão e Eva, nós aqui temos o contrário. Abraão recebe três figuras misteriosas debaixo de uma árvore, que de certa maneira evoca esta árvore do paraíso, e Abraão, em vez de tomar esta refeição como posse sua, pega nas suas posses para partilhar com estas três figuras misteriosas. E é a partir daqui que há o gancho para lhe dizer que ele realmente vai conceber com Sara um filho biológico. Ou seja, neste ponto da história, Abraão já tem um filho, é um filho biológico, é verdade.
Com a escrava.
Mas com a escrava, não é um filho legal, entre aspas, com a sua esposa legal. Abraão já tem o filho de Agar, da escrava, que é Ismael, que também é circuncisado. Mas agora, depois de Abraão receber Deus e de inverter, quase como num espelho, a imagem do Éden, Deus diz: "Não, agora tu já estás pronto para teres um filho", e Sara, é aquele famoso episódio do riso de Sara, de Sara se rir, e daí Deus depois dizer que o filho Isaque tem o nome cujo significado é Deus ri.
Sara ri-se por quê?
Porque acha impossível que com aquela idade consiga conceber um filho.
Com 90 e tal anos, estéril, porque tinha 90.
E houve muitos teólogos que interpretaram isto como também o inverso de Maria. Maria ouve o anúncio de que vai ser mãe e não se ri, e Sara ri-se e é castigada, entre aspas, por ter o filho.
Repreendida.
Repreendida por ter o filho.
Mas há algo misterioso nestes episódios. As histórias de Abraão ainda estão muito marcadas por um certo caráter miraculoso.
Sim.
Deus também aparece a falar, a regatear com Abraão. E aqui o João até falou primeiro de três visitantes misteriosos e depois falou de Deus. E de fato, o texto dá-nos esta ambiguidade. Mas isto são homens? São anjos? É Deus? Aliás, até daí surge uma das representações cristãs mais emblemáticas, aquele famoso ícone da Santíssima Trindade, do Rublev, que no fundo, o cristianismo depois vê aí uma espécie de prefiguração, de anúncio da Santíssima Trindade. Já vai um bocadinho além do texto, claro, mas ainda assim são traços marcantes.
Daniel, vamos então falar um bocadinho deste episódio do filho milagroso de Abraão e de Sara.
O filho da promessa.
O filho da promessa, exatamente, Isaque, que nasce quandoAbraão e Sara já são ambos muitíssimo idosos. E depois, no capítulo 22 do livro do Gênesis, surge a história do sacrifício de Isaac. Ou seja, a dada altura, Abraão é convidado por Deus, não sei se esse é o melhor verbo, convidado.
Testados. O pôr à prova. O texto até sublinha isto. Abraão põe Deus à prova. Aliás, Deus põe Abraão à prova.
O que acontece ali? Por que Deus quer que Abraão mate o próprio filho?
Esse é o desafio. Abraão é interpelado por Deus para sacrificar o seu filho. Depois vão até este monte Moriá e quando Abraão está prestes a sacrificar o seu filho, houve uma voz angélica ou uma voz divina que diz: "Não, não é preciso sacrificar o teu filho". E depois há uma fórmula solene de promessa, mais uma vez enfatizada e sublinhada, e não é Isaac que é sacrificado, mas é um carneiro que ali está, um animal que ali está, que substitui o sacrifício. Falávamos no outro dia do livro Caim, de Saramago, que se indignava com Deus, com este Deus aparentemente injusto e causador de problemas, culpando Deus. Bem, Saramago lendo este episódio, então ainda saltaria mais, porque de facto parece-nos, na nossa sensibilidade hoje, uma coisa muito dura. Este pôr à prova, este testar, para ver se Abraão, de facto, está no ponto, é elevado até ao limite da humanidade ou da desumanidade, diríamos.
É macabro.
O texto até sublinha: "O teu filho, o teu único filho, o filho a quem tanto amas, o filho a quem tanto esperaste". E eu acho que é preciso também sabermos ler estas histórias. Para já, porque não estamos aqui propriamente a falar, há pouquinho dissemos que já podemos colocar mais ou menos Abraão acreditando na sua existência histórica, já o podemos mais ou menos colocar numa cronologia, mas ainda assim, ainda não estamos propriamente a falar de história com documentos, com provas. Isto são tradições populares, folclóricas, digamos assim. E é preciso olhar pra história como um todo e perceber o que acontece, perceber qual é a vontade de Deus. De facto, Isaac não morre. De facto, a vontade de Deus não é que Isaac morra. É um texto que foi muito comentado e muito estudado, e rios de tinta se escreveram sobre isto, desde autores antigos e autores contemporâneos, sublinhando até o caráter artístico e literário do texto, os silêncios do texto, o diálogo entre Abraão e Isaac. Isaac pergunta: "Mas onde é que está a vítima para o sacrifício?" "Não, meu filho, Deus providenciará". Aqui um jogo também no hebraico com o nome Moriá e o verbo ver e todas estas coisas. Acho que é preciso ver isto como um texto literário e perceber por onde é que ele vai, não só os dados de partida. E depois também, claro, sublinha-se muitas vezes o significado que isto tem até como texto explicativo de coisas posteriores. Sublinhava-se muito há uns anos, agora talvez se ponha mais em dúvida, mas sublinhava-se muito este texto como uma espécie de polêmica contra os sacrifícios humanos. Culturas vizinhas que tinham sacrifícios humanos, ou seja, sacrificavam pessoas a um determinado deus. E portanto, esta seria uma forma bíblica de polemizar contra essas culturas, sublinhando que não, afinal, Deus não quer sacrifícios humanos.
Por Deus a condenar essa realidade.
Nós geralmente falamos deste episódio, de Gênesis 22, e titulamos como sacrifício de Isaac. Há também quem veja isto, o sacrifício de Abraão. Quem é sacrificado aqui é Abraão, no sentido de que Abraão tem que converter a sua ideia de paternidade e deixar de ser pai. Reparem, ser pai, quando Deus faz a promessa a Abraão, Abraão vai se tornar uma superestrela, um homem todo-poderoso, um super-herói, o pai de toda a gente. E a descendência também é, de certa maneira, uma sobrevivência de nós próprios. Ao fazer este pedido a Abraão, Deus está, de certa maneira, a dizer: "Tu estás disponível para ser pai sem sobreviveres? Estás disponível para ser pai sem descendência no sentido de posse? Estás disponível para ser pai, para deixares o teu filho ir?" Ou seja, parece que Abraão, neste episódio, acaba por aprender que a paternidade não é a posse do filho, tanto que depois o filho foge, sai, não estou certo, mas acho que raramente depois se encontram. Ou seja, há aqui uma certa ideia de largar o filho depois deste sacrifício.
Até porque, como alguém assinalava com algum humor, seria estranha a conversa de regresso a casa depois.
Exatamente. Ia ser uma interessantíssima conversa.
Então, Isaac.
Então, Isaac, passou-se bem.
O que contaste à tua mãe?
Foi bonito, mas repara, no início, Deus diz a Abraão: "Vai". E este texto continua a ser um texto em que Abraão tem que sair de si para ir para si próprio. Abraão tem que sair de si para si mesmo. Não importam aqui estas ideias que Abraão vai concebendo e expectativas que vai concebendo em relação à realidade. Abraão tem que largar a realidade.
Daniel, ainda não falámos muito, mas talvez nos possas ajudar aqui a compreender um pouco, mais ou menos quando e de que maneira é que este texto chegou à sua redação final. Mas sabemos que foi escrito já mais tardiamente, a partir de uma perspectiva mais tardia, olhando pro passadoA narrativa sobre esta personagem acaba por ser importante pro povo hebreu depois consolidar a ideia de um Deus único. Ou seja, nós é que vamos ouvindo a ideia de Deus de Abraão, o Deus dos nossos pais, etc., ao longo da Bíblia.
Eu aqui sublinharia mais um aspecto muito importante que não referi, que é a substituição do primogênito, algo que vemos depois noutros textos, nos textos do Êxodo, no sacrifício dos primogênitos, em algo que é uma prática cultual, que até vemos no tempo de Jesus, vemos no Novo Testamento, esta ideia de que o primogênito é para Deus. O primeiro filho, seja dos homens, seja dos animais, é para entregar a Deus. E, portanto, para não o entregarmos a Deus, para não o matarmos, temos que o resgatar, temos que o substituir. É o que acontece neste relato. Isaac não é morto, mas é este animal que o substitui. E esta prática cultual de uma oferta para entregar o primogênito a Deus, de certa forma, é algo que depois marca também a vida litúrgica e cultual do povo de Israel. E sendo um texto que é escrito, ou pelo menos é finalizado, já num tempo do Israel histórico, em que há um templo, em que há uma prática cultual, em que há toda uma história que é preciso justificar, de alguma forma este episódio de Abraão, colocando mais nas origens, por assim dizer, justifica e valida este tipo de prática cultual.
A ideia de um animal que expia os nossos pecados em oferta a Deus.
Sim.
Muito bem, a partir de Abraão, nós temos uma história a desenrolar-se, como dizíamos, a partir da sua descendência. Temos Isaac, que assume o papel de patriarca depois da morte de Abraão. Temos toda aquela saga familiar que vai acabar por levar o povo até o Egito, já com José. Depois também temos a libertação do Egito, protagonizada por Moisés, de que já falamos aqui neste podcast. Hoje em dia, as três grandes religiões monoteístas do mundo, o cristianismo, o judaísmo e o islão, olham para Abraão como este grande patriarca original. Para os judeus, é evidentemente a figura primordial a quem foi prometida a terra. Para os muçulmanos, é curioso que Abraão, ou Ibrahim, é visto como o homem que está na origem da religião que o profeta Maomé vem a recuperar. Aliás, os muçulmanos acreditam que Maomé seria descendente de Abraão por via de Ismael, o primeiro filho com a escrava, e não de Isaac. E depois, obviamente, João, para os cristãos, é também o homem que está no início de toda esta história. Mas talvez seja muito óbvio perceber como é que Abraão é o patriarca para os judeus, mas como é que os cristãos olham e têm olhado para esta figura?
Quanto tempo temos?
Alguns minutos, cinco minutos.
Cinco minutos, pronto. É assim: primeiro, se voarmos um bocadinho até a história das ideias, se formos pensar que Kierkegaard define a fé a partir daquele livro "Terror e Temor", não sei se é "Temor e Terror" ou "Terror e Tremor", precisamente neste episódio do sacrifício de Isaac ou de Abraão, da ideia de que existe um abismo entre os seres humanos e Deus e que há que atravessá-lo, quase parece aquela questão do Indiana Jones, quando ele tem que chegar ao Santo Graal e tem que atravessar aquele abismo, precisamente a partir desta história, mostra como é significativo este relato pra história bíblica e pra história das ideias. Ainda assim, talvez a questão mais importante tenha a ver com a forma como o cristianismo lidou ao início, através de São Paulo, com o mundo judaico e com o mundo em redor. Ou seja, o cristianismo nasce no mundo judaico, influenciado por aquele mundo. Jesus é um judeu, Paulo também o é, de certa maneira, e tem que lidar com um problema que é: se Abraão é o patriarca de toda a gente e essa descendência está marcada por um sinal físico, que é a circuncisão, como é que nós vamos anunciar a boa nova e o Evangelho de Jesus Cristo a quem não é circuncidado? Ou seja, será que isso é preciso? Essa cirurgia é precisa, não é? E como é que São Paulo resolve isso? Resolve, em primeiro lugar, mostrando que o verdadeiro descendente de Abraão é Jesus Cristo. Tanto que o Evangelho de São Mateus, quando começa a genealogia de Jesus, mostra que Jesus descende de Abraão. Portanto, essa é a grande herança. Depois, mostra por aquele par de filhos. Ismael e Isaac, filhos de Abraão, são circuncidados, mas só Isaac é que recebe a herança, Ismael não. E então Paulo conclui que a circuncisão, por si só, não garante a herança. O que é que garante a herança? Acreditar em Jesus Cristo, que é realmente ele o descendente de Abraão prometido desde toda a "eternidade". E, portanto, essa divisão entre judaísmo e não judeus fica resolvida com esta reflexão de São Paulo, particularmente na Carta aos Gálatas, também na Carta aos Romanos, mas mostra claramente que os cristãos são descendentes, mas de uma maneira especial de Abraão.
A dada altura há também esta ideia de que como a aliança com Abraão e depois o sinal, por exemplo, da circuncisão inaugura ali uma certa relação quase de legalismo com a aliança. São Paulo vai dizer, a dada altura, que Abraão foi justificado pela fé e não pela lei, porque já tinha recebido a promessa da descendência e da terra antes da circuncisão e acreditou. Portanto, a fé antes da lei.Os cristãos também viram em Abraão um exemplo desta ideia de que a fé é mais importante do que a lei.
Nesta rutura com o judaísmo.
Nesta rutura, nós também não sabemos muito bem, e falámos disso uma vez quando falámos de São Paulo, se existe realmente uma rutura radical como às vezes nós imaginamos com o mundo judaico, se Paulo teria feito essa rutura ou não. Hoje em dia, há autores que têm algumas dúvidas quanto a isso. A questão é: realmente nós entendemos, e a partir da reflexão de Paulo, que a promessa que é feita a Abraão é também a mesma promessa que é feita aos cristãos e que os cristãos, embora não sejam circuncidados, recebem essa promessa não pela lei, mas pela fé, porque acreditam em Jesus Cristo, que é ele a herança de Abraão.
Daniel, este conceito de aliança também é retomado depois pelos cristãos com esta ideia de nova aliança?
Sim, que é um tema já presente no Antigo Testamento, no profeta Jeremias. Não uma aliança como as outras, que existiram e falharam por culpa do homem, por culpa da humanidade, mas Deus promete uma nova aliança, que depois, em contexto cristão, é vista na aliança com Jesus Cristo, na aliança que é, que existe em Jesus Cristo. Mas é interessante também toda esta leitura de Abraão para sublinhar a importância da fé, que depois é tematizada de outras formas na Reforma Protestante, por Lutero, etc. Esta ideia de que a justificação do homem, a salvação do homem, digamos assim, é não pelas obras da lei, mas pela fé que precede essas obras. E em Abraão vemos este Abraão crente, este Abraão que aceita fazer caminho, não apenas no mapa, de ir do ponto A para o ponto B, mas um caminho interior, como sublinhávamos também em todas estas peripécias, que são uma história de crescimento de Abraão, que acredita, e é por esta fé que ele é justificado e depois a circuncisão é uma consequência desta fé.
E, portanto, não o contrário. Muito bem, chegamos ao fim do segundo episódio desta segunda temporada de "As Histórias da Bíblia" e no próximo episódio vamos falar de uma das partes mais violentas de toda a Bíblia. Vamos conhecer Josué, o sucessor de Moisés e o homem que conquistou a terra prometida. Já sabem, podem enviar-nos perguntas, comentários e sugestões para o nosso e-mail: ashistoriasdabiblia@observador.pt, sem acentos, ashistoriasdabiblia@observador.pt, com comentários, sugestões para os nossos episódios. Até para a semana. "As Histórias da Bíblia" é um podcast da Rádio Observador com Daniel Nascimento e João Basto. É apresentado por mim, João Francisco Gomes, e a música do genérico é de Tiago Afonso.