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O podcast desta semana é muito especial. Uma grande entrevista com o senhor presidente da Câmara de Aveiro, José Ribau Esteves, para um momento que não vai querer perder. Bom dia!

Bom dia! Muito gosto, tudo bom.

Muito gosto.

Bom dia!

Está preparado?

Preparadíssimo.

Preparadíssimo para passar o dia conosco?

Com o maior prazer. Exatamente, com muito gosto.

Vamos aí, sabe que há muita curiosidade sobre o dia a dia, a vida de um presidente da Câmara.

É, só há uma parte pequenina que nós expomos. A maior parte não é exposta.

Então hoje podemos falar de tudo.

Muito bem.

Certo?

À vontade. Vamos a isso.

Vamos a isso. Podemos entrar?

Vamos embora.

Obrigada. Venha conosco. Obrigada.

Aqui é uma parte do gabinete.

É aqui que a magia acontece.

É. É aqui que é o trabalho do dia a dia. É aqui que recebemos as pessoas, que reunimos com as equipas internas, com as pessoas que vêm de outras entidades externas. É aqui que vamos guardando as nossas referências da vida das nossas associações, das entidades com quem trabalhamos. E eu gosto de trabalhar numa mesa grande, com os meus papéis à frente, o meu computador.

Estar à vontade.

E estar o mais à vontade possível.

Ainda se recorda da primeira vez que entrou por este gabinete?

Perfeitamente.

Há 12 anos.

Perfeitamente. Eu entrei aqui a primeira vez para fazer a reunião de transição com o meu antecessor. Ainda ele era o doutor Hélio Maia, o presidente da Câmara, e eu era o presidente eleito. E a primeira coisa que eu tive foi uma sensação horrível, porque ele fumava quatro maços de cigarros por dia, que era o cheiro a fumo. E levei vários meses de outono e inverno com as janelas abertas para poder perder aquele cheiro. Foi o primeiro momento, passamos aqui três horas a trabalhar os dois juntos na reunião de transição, que é sempre um momento muito importante. Eu também vou fazer a minha reunião de transição com o meu sucessor. Vai ser mais longa do que três horas, porque há mais coisas para passar. Mas a primeira vez que eu entrei aqui foi ainda antes de ser presidente em funções. No dia que entrámos, no dia de trabalho primeiro, já como presidente da Câmara, foi entrar, chamar pessoas, começar a perceber onde é que estávamos e começar a trabalhar com toda a velocidade. Lembro-me perfeitamente desses dois dias da minha entrada aqui primeiro.

Senhor presidente, e que segredos, que curiosidades esconde o dia a dia de um presidente da Câmara? O que costuma fazer aqui, por exemplo? Chega aqui a que horas?

Eu sou uma pessoa que gosta de trabalhar cedo, muito cedo. Eu entre as 07:00 e as 08:00, depois há dias um bocadinho mais em cima das 07:00, outros mais em cima das 08:00. Eu gosto de chegar muito cedo, porque o dia para mim é muito mais produtivo entre as 07:00 e as 09:00. Porque a partir das 09:00 começamos com as reuniões, com os telefonemas e, portanto, aquilo que é planear, estudar um dossiê, escrever um texto mais difícil, eu preciso que seja entre as 07:00 e as 09:00. Porque a partir daí, o ritmo é outro.

É um madrugador.

É. Já como estudante, sempre trabalhei muito melhor. Eu estudava de manhã cedo do que à noite, em regra. Cada um de nós tem o seu biorritmo, nenhum está certo, nenhum está errado. É o que é, mas o meu ritmo é assim. O sábado é um dia de trabalho normal, em regra à manhã no gabinete e depois de tarde e noite com ações sociais. E no domingo, eu faço sempre à noite a revisão do plano da semana seguinte, porque obviamente, está sempre tudo muito planeado para cumprir os muitos objetivos que temos, porque há a missão da Câmara. Eu fui muitos anos presidente da Comunidade Intermunicipal da Região de Aveiro também aqui, vice-presidente da ANMP há muitos anos, membro do Comitê das Regiões da União Europeia, portanto, há várias agendas que se cruzam dentro deste gabinete. Este não é só o gabinete do presidente da Câmara. Há aqui várias outras funções também que se cruzam aqui. E tudo isto tem que ser muito bem planeado, muito cuidado e obviamente ter a equipa toda em carga, porque a equipa de trabalho é fundamental. O que faria eu se trabalhasse sozinho? Não fazia coisa nenhuma, como é evidente.

E por exemplo, quando chega, chega cedo, já sabemos, gosta de beber um café ou prefere um chá?

Não, eu já venho suficientemente estimulado para dispensar o café. Normalmente, o meu primeiro café do dia é ao almoço. Primeiro e único, em regra. Não bebo café, é chegar e andar, e tocar a trabalhar.

E há sempre reuniões, há sempre visitas?

Eu não uso uma agenda marcada. Não gosto disso. A minha agenda depende do que é que temos para fazer. Se esta semana tem que se andar mais na rua, anda. Se esta semana tem que ter mais gabinete, mais reuniões internas. Não tenho um formato. Há muita gente que se organiza com o formato. À segunda-feira, reuniões internas, à terça, é visitar ó. Eu não faço isso. É a dinâmica do trabalho que determina como é que a semana é composta. E daí este planeamento à semana. Não é possível fazer de outra maneira, porque as dinâmicas são muito fortes. Fui sempre responsável na Câmara pelo desenvolvimento económico e há sempre o trabalho com os investidores, em regra, de gabinete, mas quando começam os investimentos, é preciso acompanhá-los também no terreno. É uma atividade sempre muito intensa e tem que ser muito planeada para tudo correr bem.

Nestes 12 anos, algum hábito que tenha ganho ou não? Algum hábito que se tenha tornado indispensável, por exemplo?

O meu hábito indispensável é chegar muito cedo e sair muito tarde. Isso é um hábito fundamental para nós conseguirmos ter feito tantas coisas. Foram 12 anos fantásticos, de muita realização, muito difíceis no primeiro mandato. Tínhamos a Câmara em péssima situação financeira, desorganizada. Tivemos que fazer trabalhos de auditoria e eu decidi fazer uma auditoria interna, porque precisávamos de capacitar a própria equipa da Câmara para que ela fosse capaz de resolver os seus problemas, primeiro de os conhecer bem, de os resolver, e nesse trabalho ficava capacitada para chegarmos àquilo a que chegamos, que é uma Câmara de uma performance excelente. E foi nesse exercício em que os objetivos foram sempre muito diferenciados. Ao longo dos três mandatos, nós fomos uma Câmara resgatada pelo Fundo de Apoio Municipal. Éramos a segunda pior Câmara do país em situação financeira. Mas conseguimos resolver isso no primeiro mandato e depois passámos, no segundo e no terceiro, para uma fase de muito investimento. E a Câmara fez muitos investimentos e aliás, deixamos muitos investimentos em plena execução também.

Muitas horas aqui neste gabinete de gestão que às vezes o público não tem noção. Qual foi o momento mais desafiante que se recorda?

Eu sou um político que comunica os resultados do seu trabalho e não aquilo que está muito na moda, que são os políticos que comunicam as intenções do que querem fazer. É evidente que nós temos que comunicar as intenções, como é lógico, mas os resultados é que interessam às pessoas. E eu cuido muito de trabalhar para ter resultados, obviamente, comunicá-los, mas para nós conseguirmos ter resultados, é preciso muito trabalho que não se vê, que não se explica, porque se tivéssemos que explicar, então é que não fazíamos coisa nenhuma, porque é muita coisa e que tem muitas interações e muitos pormenores. Absolutamente. Mas isso, julgo que é assim em todos aqueles que são gestores. Eu sempre guardo os momentos mais dramáticos, a quantidade de pessoas que aqui vieram a esta sala no meu primeiro mandato pedir para lhe pagar contas. Pessoas que venderam o terreno à Câmara há 20 anos e que a Câmara nunca lhe pagou. Empresas que venderam produtos ou que fizeram uma obra e que a Câmara demorou-lhe 10 anos, 15 anos a pagar. É muito difícil. E aquilo que eu disse sempre a toda a gente foi: "Confie em mim, dêem-me tempo que eu vou resolver os problemas todos. Preciso só de um pouquinho de tempo, porque não é de um momento para o outro." A outra parte, a parte festiva, quando as coisas nos correm bem, quando fazemos uma inauguração de uma obra sofrida, de uma obra que nos custou muito, mas que gostamos muito dela. E esta vida também tem muita parte festiva e nós também fizemos muitas festas porque comemoramos muitas coisas boas. Fomos Capital Portuguesa da Cultura em 2024. Foi um ano absolutamente fantástico, com uma agenda doida, porque além de tudo o que era normal, ainda tivemos muitas atividades culturais, em número muito mais do que aquilo que é normal. E somos uma Câmara com muita intensidade de produção cultural. São marcas muito diversas, mas a marca principal é o tempo todo. São estes 12 anos na sua diversidade, naquele tempo completamente doido que foi 2020 e 2021, da pandemia do Covid, a solidão, estarmos sozinhos, olharmos para a janela e não vermos nada nem ninguém. E eu trabalhei sete dias por semana. Nós fizemos aqui um trabalho com um grupo na Câmara, outro grupo em casa, dos vereadores do meu gabinete, foi aquilo que decidimos fazer. Eu pertencia ao grupo, não fazia de outra maneira, que estava sempre aqui. E tivemos também que viver esse tempo completamente anormal, cheio de interrogações. Também dessa solidão dura, a solidão é sempre muito dura. Portanto, é a soma de tudo isto que dá uma história fantástica e é o todo que deixa a marca principal.

Falamos em vários momentos, alguns mais desafiantes, outros mais felizes. Esses momentos mais felizes que me contou são os que dão ao final do dia a energia para continuar, a motivação para chegar aqui depois às 7h30 no dia a seguir?

Claro que sim. Eu sou uma pessoa positiva e nós sempre nos estimulamos mais com as coisas boas, mas são as coisas negativas, são as críticas da oposição que dão o estímulo principal para nós fazermos melhor. Eu cuido muito e agradeço sempre muito, por exemplo, aos colegas da oposição, os colegas vereadores, eles serem contra, serem sérios a defender a sua perspectiva diferente da nossa, porque isso é a riqueza da democracia e é um estímulo para quem governa, é um estímulo muito importante. E quando as coisas correm mal, você diz: "Não, tenho que dar a volta a isto, qual é a solução?" É quando a equipa tem que estar mais atenta, mais unida, é quando as discussões têm que ser mais profundas. "Isto não correu bem, isto não está a correr bem. Que soluções é que temos para este problema?" E eu estimulo muito com isso. É evidente que toda a gente gosta mais das coisas positivas e elas dão-nos um élan mais forte. Como eu costumo dizer, a fase mais bonita do dia é quando o sol nasce, não é exatamente quando aparece a lua. No meu conceito, há quem tenha conceitos diferentes, mas os momentos de dificuldade, as contrariedades, as críticas, são instrumentos de motivação que eu tenho para mim como muito fortes, muito relevantes.

Para continuar.

Absolutamente.

Aqui atrás de nós, temos uma prateleira recheada de memórias.

É verdade. Isto tem muito a ver com a nossa relação muito intensa que temos com as pessoas, com as associações. Basicamente são as ofertas que as nossas associações, a assinalar em um aniversário, um festival de folclore de um dos nossos ranchos, as nossas cidades irmãs por esse mundo afora, os nossos clubes náuticos. Temos um conjunto de clubes náuticos que se dedicam, neste caso, ao remo. Enfim, é uma vida muito relacionada com essa fortaleza. E neste eixo central, esta área é dedicada aos nossos ovos moles. Obviamente, os ovos moles têm um lugar sempre central na nossa vida, na nossa cidade.

É apreciador.

Apreciador, consumidor e propagandista. Tem aí o pleni Confra de Honra. A Câmara de Aveiro também é Confra de Honra da nossa Confraria dos Ovos Molos de Aveiro. E aqui está a capa transformada em passepartout das três tomadas de posse que eu tive, a de 2013, a primeira, 2017 e a última, 2021. Aliás, ainda se nota, está aqui uma pessoa atrás de mim com máscara.

Com máscara, sim.

Porque ainda usávamos muito a máscara. E a minha referência política de sempre, um homem que sempre apreciei muito e mesmo depois de ter perdido a vida da forma como o fez, como alguém o fez perder a vida. Sempre leio muito e gosto de ler e reler Sá Carneiro, que acho que é uma personalidade muito determinada, muito marcante e um visionário. Hoje, ler coisas de Sá Carneiro e ver como é que ele via o mundo décadas depois, é de fato um homem extraordinário. Tem sempre aqui um lugar muito especial. Depois, a outra nota que temos são aqui duas pessoas muito importantes cá no meu gabinete. Este é o paraquedista. Nós temos um regimento de infantaria, o Regimento de Infantaria número 10, em São Jacinto, mas é um regimento paraquedista. É a única unidade militar portuguesa que já teve Lugar na Marinha, quando a Marinha tinha hidroaviões, tinha asas. Depois quando as asas passam para a Força Aérea, passa para a Força Aérea e é aí que ela se torna uma base paraquedista. Depois, quando os paraquedistas passam para o exército, passou a unidade para o exército. Eles têm esta estátua no regimento, depois tem esta miniatura para as ofertas. E este é o nosso homem a quem devemos a nacionalidade. O nosso Afonso foi uma oferta do chefe do Estado-Maior do Exército, no dia em que tivemos aqui as comemorações nacionais do Dia do Exército. O Afonso é aqui uma companhia muito importante. E estão aqui a guardar este quadro, um quadro diferente do normal, que eu fui presidente da nossa comunidade intermunicipal da região de Aveiro este tempo todo, de fevereiro de 2002 a outubro de 2023, 22 anos. É recorde nacional. E quando saí em outubro, no nosso congresso da região de Aveiro, os meus colegas, de forma simpática, ofereceram este, com as assinaturas deles todos. Foi muito bonito.

Senhor presidente, são 12 anos aqui na autarquia de Aveiro, antes em Ílhavo. Uma vida dedicada à política. Mas eu sei que isto também tem uma história familiar, não é? Isto é uma paixão incutida pela família.

É verdade. A minha mãe, sempre foi a política da família, foi presidente de Junta de Freguesia 11 anos, membro da Assembleia Municipal, membro do órgão concelhio do Partido Social Democrata. Ela também era militante do PSD. E eu era o filho. Nós somos cinco irmãos, eu era o rapaz mais velho, três raparigas, dois rapazes. E era preciso acompanhar a mamã às reuniões que, em regra, eram à noite, nomeadamente a Assembleia Municipal e a Comissão Política do PSD de Ílhavo, e passava-se um mato que ele era um bocadinho tenebroso, de dois quilômetros. Então alguém tinha que ir com a mamã. E como eu era o rapaz mais velho, embora a segurança da minha mãe não ficava lá muito bem defendida. Mas lá ia eu. E depois comecei a apanhar gosto. Não havia telemóvel, em vez de estar distraído com qualquer coisa, estava distraído com o que estava a acontecer. Ouvir as pessoas, ouvir as discussões. E fui apanhando gosto, entrando em discussões. E uma vez, numa reunião da Comissão Política do PSD, perguntaram: "Olá, tu não queres fundar aqui a JSD?" "O que é isso, a JSD?" Lá me explicaram. "Não, vamos lá embora". Sou o único dos cinco irmãos que se meteu na política e dos meus 58 anos de vida, 59, faço este mês de outubro, 28 são de Câmara. Ainda fui quatro anos vereador em regime de não permanência. É uma vida dedicada ao serviço dos outros no poder local, que é um poder muito bonito, sou muito feliz. Decidi não querer uma terceira Câmara. Tive esse convite, mas há uma fase na nossa vida que nós queremos fazer coisas diferentes e foi essa a decisão que eu tomei. Esta é uma etapa que eu gostei imensíssimo. Se eu mandasse em tudo, eu fazia mais um mandato em Aveiro, se eu mandasse na lei, se eu mandasse em tudo. Mas a vida é feita assim e como eu também sou a favor da limitação de mandatos, fico muito feliz por ter feito estes 12 anos aqui, muito agradecido com a oportunidade que me deram, com a energia que pude partilhar com tanta gente, obviamente com o apoio fundamental de toda a minha equipa, fundamental para nós fizermos tantas coisas. E agora partir para uma etapa nova da vida.

E agora vamos nós também partir, porque vamos andar a passear por Aveiro, não é?

Exatamente, que é sempre uma oportunidade deliciosa passear por Aveiro.

Fantástico, é uma cidade muito bonita.

Exatamente. Vamos dar a conhecer lugares muito importantes de Aveiro.

Senhor presidente, perante todo o seu percurso e ligação a Aveiro, qual é que é o impacto do efetivar desta obra e agora do culminar?

Esta obra tem essa razão nacional. Isto é um território único no país e por isso sempre foi um objetivo do Estado português fazer este conjunto de obras. Mas por vicissitudes várias que já dei nota, não foi possível. E quando nós assumimos isto como comunidade intermunicipal da região de Aveiro, são projetos que fisicamente caem sobre três municípios. A maior parte é sobre Aveiro, depois há uma segunda parte bem menor, que é sobre Estarreja, e depois uma pequenina parte sobre Albergaria Velha. Tem que ser esta dimensão regional a assumir estas responsabilidades. Com a minha presidência na Comunidade Intermunicipal da Região de Aveiro, nós assumimos estas obras. Obviamente que são obras que não são normais em termos de dimensão para uma Câmara Municipal. Mesmo para comunidades intermunicipais não é normal, mas nós lutamos muito por isto e tem corrido bem, com muitas dificuldades, o licenciamento ambiental é um calvário, etc. Mas esta outra dimensão do poder local, que não é só local, não temos só para tratar questões do nosso município. Este conjunto de obras que aqui temos dão essa noção que é preciso cuidar, neste caso, da região de Aveiro, que tem na ria de Aveiro e no rio Vouga, dois dos seus episódios ambientais e económicos mais importantes, e fazê-lo em nome do país. Nós estamos num dos sítios da Rede Natura 2000 de Portugal. Temos duas rias, a Formosa no Algarve e a ria de Aveiro. Nós assumimos a responsabilidade de fazer isto em nome do país, porque são valores nacionais. E a partir do momento que estão classificados por diretivas comunitárias várias e que temos fundos comunitários, obviamente também tem a dimensão europeia. Este é um excelente exemplo dessa dimensão nacional e europeia, no mínimo, que o poder local também tem. Tem que ter coragem, tem que ter solidariedade Tem que ter o engenho e a arte, e arranjar recursos para se balançar a operações que têm uma dimensão grande e uma complexidade. E a Câmara Municipal vai ficar gestora, porque não é só preciso construir estas infraestruturas, vão precisar de gestão diariamente e portanto, teremos aqui uma equipa técnica a gerir todos estes instrumentos de gestão hidráulica desta zona fantástica onde nós estamos.

De certeza que é uma obra que o enche de orgulho.

Muito, porque é uma obra tecnicamente muito complexa, muito arrojada, porque nós desviamos um rio e pomos uma ponte no meio, uma ponte açor, portanto ela vai permitir que nós possamos passar de um lado para o outro, de uma margem para a outra, mas essa não é a função principal dela. A função principal dela é o jogo das comportas para abrirem ou fecharem consoante as dinâmicas hidráulicas que tenhamos do lado da água salgada e do lado da água doce. E portanto, é uma obra muito complexa tecnicamente, muito importante para o desenvolvimento económico desta zona, para a defesa dos valores do potencial agrícola e dos valores ambientais. E portanto, tenho o maior gosto em ter lutado muito por ela e em vê-la acontecer, é um gosto muito grande.

Senhor presidente, qual é que é o local que se segue da visita?

A ideia foi: viemos aqui à plenitude da natureza. Estamos no topo norte do município de Aveiro, agora vamos ver como é que nós lidamos com a água dentro da cidade.

Muito bem.

Vamos para lá.

Vamos. Portanto, na realidade, daqui a uns anos?

Daqui a uns anos, não.

Daqui a uns meses.

Daqui a uns meses.

Daqui a uns meses o que teremos é um lago aqui gigante, não é? Um hotel novo para acolher os turistas de Aveiro.

E de todo lado do mundo queiram vir. Esta era uma antiga fábrica de sal. Fazia higienização de sal e embalamento. Chamava-se Vita Sal. Foi uma empresa que depois foi à falência, foi comprada na insolvência pela maior empresa imobiliária de Aveiro. E portanto, estamos a aprovar projetos, já tem pedido de instrução prévia, está tudo definido. E já aprovamos, aliás, o projeto do primeiro dos quatro edifícios. Tem três edifícios de habitação e um hotel. O hotel fica do lado onde nós estamos aqui junto a esta zona larga do canal. E depois vai ter um quinto edifício, que vai ser entregue à Câmara, que é um museu de arte contemporânea, construído, pago pelo promotor e vai ser lá que a Câmara vai musealizar e gerir a coleção de arte contemporânea de que somos fiéis depositários em nome do Estado. Aveiro tem uma parte importante da coleção, chamada Coleção SEC, do Estado português. E é aqui que ficam esses quatro episódios. Nós com esta obra, ganhamos uma capacidade adicional a guardar a água quando precisamos de a guardar, quando temos que ter as comportas fechadas porque a maré está cheia lá dentro e está a chover muito. Com as alterações climáticas, temos que ter mais capacidade dentro dos canais. E esta obra aumenta-nos em 30 mil metros cúbicos a capacidade de guardar a água. E portanto, além da sua importância urbana, tem uma importância ambiental enorme, é uma das várias obras e projetos que estamos a fazer para aumentar a resiliência, como agora se diz, da cidade face às alterações climáticas, especialmente nas zonas mais baixas, onde se nós não tivéssemos esse sistema de comportas que temos, em quase todas as marés altas, tínhamos inundações. E portanto, com esse sistema, que é o único serviço da Câmara que tem funcionários a trabalhar todos os dias, 24 horas, todos os dias do ano. E portanto, esta é uma peça que tem este interesse múltiplo.

E esta importância.

Uma importância urbana, aqui na zona da Vita Sal, e esta importância ambiental para cuidar da relação.

E vem também dinamizar um bocadinho esta zona, certamente.

Eu não tenho dúvidas que, nos próximos 10 anos, a cidade vira-se para aqui. Isto eram as traseiras da cidade. Aqui eram as fábricas, aqui eram os armazéns de sal, havia uma linha ferroviária. Aliás, temos aqui esta carruagem a fazer essa memória da linha ferroviária, que no fundo era para carregar o sal. E portanto, isto era o fim da cidade, eram as traseiras da cidade. E depois, obviamente, há uma fase da nossa vida, e eu digo sempre, para mim foi a década de 90, em que a água passou a ter importância urbana. E portanto, as cidades que têm essa oportunidade começaram a virar-se de frente para a água. E é o que nós estamos a fazer nesta urbanização da Vita Sal, numa urbanização logo a seguir, que se chama Foz de Prata, e essa já está toda construída, com os prédios agora a nascerem. Nós vemos daqui vários empreendimentos em curso em toda esta frente do Canal de São Roque. Portanto, a cidade termina, neste seu lado poente, no tal canal que se chama Canal de São Roque, que é claramente a frente urbana mais nobre da cidade, dentro de meia dúzia de anos, não tenho disso qualquer dúvida.

Mais uma obra que de vez em quando vem cá espreitar.

Claro, e esta começou há muito pouco tempo, está no seu arranque, mas deu-nos muito trabalho fazer a demolição. Estava aqui a fábrica antiga, com uma série de problemas também de salubridade humana também. E portanto, esta deu muito trabalho para conseguirmos que ela começasse. E agora, finalmente, ela já começou com boa velocidade Nesta fase delicada de limpar terreno, construir o buraco. Depois é uma obra de contenção, de enrocamento. Fica com uma zona mista de circulação de ciclovia e de via pedonal a toda à volta. Fica com uma zona de bancada para as pessoas poderem estar sentadas a desfrutar da toalha d'água. Vai ser uma zona muito bonita, não tenho dúvida nenhuma disso.

E agora vamos até ao Rossio, que é provavelmente a obra mais polêmica do seu mandato.

Ela foi a obra mais tudo. Mais cara, mais bonita, mais polêmica, mais debatida. Mais tudo. Mas o que ela tem de importância é estar no centro do centro da cidade.

Então vamos até lá.

O que nós fizemos aqui foi criar uma unidade museológica, que chamamos de Centro Interpretativo do Achado e da História do Rossio. O achado é o achado da Capela São João, já vou mostrar. E a história é contada de uma forma muito simples e breve, a história do local, a história do projeto e da obra, para que as pessoas possam de forma muito simples perceber não só o local, a gênese da cidade. Porque na prática, o Rossio, que foi marinha de sal, foi terrado de feiras, terrado de praça de touros, de jogo do futebol. Era o centro.

É aqui que nasce Aveiro.

Quer dizer, posso dizer isso exagerando um bocadinho. Porque as pessoas não puderam construir casas neste exato sítio, mas teve um efeito indutor e central muito relevante. Temos uma maquete que explica a obra para as pessoas que não percebem nada de engenharia. Olham para aquela maquete e percebem o que é que está aqui. Um edifício assente em estacas que tem trinta metros de altura. E depois, no fim, no topo é que está o edifício onde nós estamos, que é uma caixa com mais ou menos oito metros de altura. Que tem então um parque de estacionamento e depois a praça em cima, que nós quisemos que tivesse uma área que nós chamamos de praça seca para os eventos. Porque obviamente um centro de uma cidade tem que ter uma praça para os nossos grandes eventos e nós não tínhamos. E agora já temos. E, portanto, criamos este discurso, seja quem começa a sua chegada a Aveiro deixando o carro no parque de estacionamento. Seja quem vem por cima, que anda já a passear na cidade e vem ao Rossio. E, portanto, é convidado a conhecer, seja que começou cá em baixo com o centro interpretativo, seja que começou cá em cima com a ruína da capela. E foi uma forma que inventamos para convidar as pessoas, logo à chegada, a conhecerem a cidade como velha. Nós estamos numa cidade com mais de onze séculos. As primeiras referências documentais à Aveiro têm onze séculos. E tem muita coisa para contar. E isso é uma riqueza importante. A Capela de São João, que aqui existiu. Alguém a construiu e alguém decidiu, a certa altura, demoli-la. E precisamente para deixar o terrado do Rossio aberto. Mas tivemos nós essa felicidade, que não demoliu tudo, deixou a ruína, que é muito exemplificativa do que era a capela. Embora nós quisemos uma maquete, que ali está, colocada de forma correta em relação à posição que a capela tinha, para que as pessoas percebam ao olhar para a ruína, o que é que estava aqui. E é um episódio muito diferente, mas que por felicidade da proposta do nosso projetista, o arquiteto Nuno Mateus, da empresa ARX, se entendeu que ficava neste jogo bem nós termos este episódio aqui. Não é só para os turistas. É também para nós, para as pessoas que vivem aqui, para os jovens conhecerem a história. Que nós hoje temos uma cidade fantástica e moderna, mas ela já foi velha. Ela já teve esta capela aqui e esse conhecimento de história, nós damos muita importância a isso.

E por que esta obra do Rossio foi a obra mais tudo no seu mandato?

Ela foi mais tudo primeiro por causa do medo. Porque nós abrimos aqui um grande buraco. E temos este casario todo aqui à volta, temos a água deste outro lado e íamos construir aqui uma obra que precisava de abrir um buraco enorme com doze metros de profundidade. E a grande questão era o medo de duas coisas: o medo da fachada urbana poder cair para dentro do buraco e o medo da obra não acabar. Tinha havido uma experiência em Aveiro de um parque de estacionamento também impecável, muito bom, que nós temos na Praça do Marquês, também numa outra zona, embora próxima daqui. E a obra demorou cinco anos. E ficou sempre um trauma, porque foi tempo demais. E as obras incomodam sempre. E essas eram as duas questões principais. Depois, havia também quem entendia que isto devia ser um grande jardim, um grande espaço verde, e nós achamos que a cidade tinha que ter uma praça de eventos. Nós queremos fazer um grande evento, seja o que for. Agora fizemos aqui a Festa de São Gonçalinho, a Feira do Livro, as nossas Praças Euros, os grandes festivais. Tem sempre vida. É um ponto de encontro. E precisamos de ter um espaço limpo. Tem também uma zona verde enorme. Aliás, a área verde é maior do que a que estava antes. Tem mais árvores do que tinha antes. E fazer esse equilíbrio entre os fatores. Temos um parque que é ambientalmente muito interessante. Este banco não é só um banco, ele é a tomada de ar Do parque. Ali não há ar forçado, não há ventiladores. Não gastamos energia. Todos os parques têm ventiladores. Em Portugal, menos dois: um no Campo das Cebolas, em Lisboa, em frente à Casa dos Bicos, que tem algumas lógicas parecidas com este, o outro, este. Portanto, aqui temos um banco, aqui temos uma entrada de ar que nos permite estar lá embaixo, no parque de estacionamento, com ar de toda a qualidade. E tem a linha de luz. É dali que, à noite, obviamente, sai a luz, porque aqui não há candeeiros, os candeeiros estão só para dentro, mas nesta zona contígua ao canal, a luz vem dali debaixo desta estrutura. Tem uma estação elevatória.

Na sustentabilidade.

Absolutamente. Os postes são males necessários, mas quando podemos ter luz sem ter o poste. E depois a luz é muito tranquila. Às vezes a luz é agressiva. Para que as pessoas possam estar com segurança passiva, mas possam estar bem. Tal como dizemos, a luz quente que nos permite estar tranquilos e não aquela cor fria e agressiva. Trouxemos, por exemplo, o João Afonso, que é uma personagem de referência da nossa história, um navegador. E o João Afonso estava num pedestal para aí da minha altura. E nós tiramos o pedestal ao Afonso para que ele se aproxime de nós e que as pessoas possam conviver com o João Afonso de Aveiro, que também faz parte da tal história que contamos aqui no nosso centro interpretativo. Tatiana, peça desculpa. E aqui estes riscos que vê, e visto de drone percebe-se melhor. Eles o que fazem é replicar na arquitetura deste chão, as marinhas de sal, porque este sítio já foi marinha produtora de sal.

Acha que este é o seu maior legado enquanto presidente da Câmara de Aveiro?

Eu não dou mais importância às obras grandes ou centrais como esta. Estamos no centro do centro da cidade. Não dou mais importância a estas do que as pequeninas obras das nossas pequenas aldeias, que para as pessoas que vivem lá, é muito mais importante do que esta. Não faço isso. Agora, ela, de facto, tem uma importância maior, porque em termos financeiros, foi a nossa maior obra, 20,5 milhões de euros. E em termos políticos, também foi a nossa maior obra, porque ela teve concurso de ideias. O concurso de ideias foi sujeito à apreciação das pessoas todas. Teve projeto, tudo muito discutido e depois as pessoas que foram contra, organizaram-se no movimento independente. Depois passaram do movimento independente a serem candidatos pelos partidos da nossa oposição. Houve manif, houve cobertura noticiosa de tudo quanto foi órgão de comunicação social deste país. Portanto, foi tudo muito animado. Tivemos 10 processos judiciais a tentarem parar judicialmente a obra, foi uma animação. Agora, o importante é a obra que existe, que as pessoas usam, tem sido um sucesso enorme. Temos o nosso maior parque infantil também aqui. Quando se olhou: "Tem poucos elementos, o parque é muito pequenino". Não, o parque infantil é todo o relevado que está à volta dele, porque nós queremos que a nossa criançada traga a bola e traga o ringue e que se rebole.

Que as famílias possam fazer um piquenique.

Absolutamente, que não seja só andar no baloiçinho. E tem sido muito usado. E depois tivemos este episódio, que é muito recente, que foi na Feira do Livro. Passámos a fazer a nossa Feira do Livro aqui, as últimas duas edições. Antes não era possível, estava em obra. E trouxemos esta palavra a Aveiro, construída desta maneira, com motivos dos nossos moliceiros. Estes são elementos dos nossos moliceiros e na altura foi tanto sucesso que teve esta obra de arte, digamos assim, na Feira do Livro, que nós decidimos dizer: "Não, vai ficar."

Vai ficar.

E ficou. E é um spot, como se diz agora, muito fotografado, muito querido, para a malta poder deixar nas várias marcas que leva de Aveiro, nas imagens, leva uma muito expressiva, porque é só olhar pra ela e já se sabe onde é que estamos.

Este é o seu lugar favorito na cidade?

É um dos lugares favoritos. Temos aqui excelentes bares, excelentes hotéis. O nosso Museu de Arte Nova, ele próprio uma obra de arte fantástica, é um museu fantástico. Nós somos a principal cidade de arte nova portuguesa e uma das 10 principais cidades de arte novas europeias. E portanto, o que existe aqui à volta são coisas muito bonitas, muito fortes, muita vida, os nossos bares, muitos restaurantes, os Paços do concelho que estão aqui ao lado, a nossa Biblioteca Municipal, é mesmo um centro. E portanto, mesmo que não seja vir ao Rossio, para vir só ao Rossio, vem-se ao Rossio para se estacionar, para se encontrar amigos e para se fazer imensas coisas que há para fazer aqui num circuito muito curto, de muito poucos minutos.

Senhor Presidente, o que é que representa Aveiro, o que é que representam os aveirenses na sua vida?

Representam uma parte dessa mesma vida. Eu estudei do meu quinto ano ao meu 12º ano, estudei aqui. Os meus amigos de infância estão aqui, as lojas, a cultura. É uma terra da minha vida. Eu fui presidente da Câmara de Ilha, porque era uma das terras da minha vida. Esta é outra das terras da minha vida. Embora eu nasci em Luanda, eu não nasci em lado nenhum destes. Mas pronto, esta é a minha terra de adoção E, portanto, Aveiro faz plenamente parte da minha vida, de uma forma absolutamente intrínseca. E o que eu fiz foi devolver um bocado da energia da minha vida para melhorar a tal ideia de aumentar o valor da herança que eu recebi, para entregar ao meu sucessor valorizada. Portanto, é esta troca de vida que faz sentido passarmos nas funções para acrescentarmos valor às coisas, neste caso ao município de Aveiro, e acrescentar valor a nós como seres humanos. E eu julgo que essa conta está bem feita, ninguém deve nada a ninguém e portanto temos as contas acertadas. Viva Aveiro, que tenha um bom futuro. Eu também espero caminhar para um bom futuro.

Conseguimos caminhar daqui novamente para o centro de congressos ou é uma caminhada longa?

É uma caminhada curta. Nós fazemos, mesmo apreciando a paisagem, que é muito bonita. Temos sempre um canal da água, que sempre nos acompanha até chegarmos ao Cais da Fonte Nova. Uma caminhada lenta e apreciando o que se passa à volta, em 15 minutos, nós estamos no centro de congressos, que é o topo do canal que nesta zona central provoca aquilo que somos de cidade dos canais. Escolhemos esse slogan. Antigamente, Aveiro era conhecida como a Veneza de Portugal. O nosso mérito e a excelência do nosso trabalho mudou isso. Agora é Veneza que é conhecida como a Aveiro de Itália, mas nós referenciamos Aveiro como a cidade dos canais. E vamos daqui até ao centro de congressos e vamos sempre com o canal a acompanhar.

Olhando para todos estes anos à frente da Câmara, qual é que é a memória que mais o faz sorrir quando pensa no seu mandato?

É o todo mesmo. Foi um tempo muito diferente, com muitas dificuldades no início. Recuperar a Câmara financeiramente, pôr a Câmara a trabalhar, acabar com as empresas municipais que tínhamos, que não interessavam para nada, todas falidas, combater o Covid e depois entrar na plenitude de uma Câmara que investe, que tem uma programação cultural brutal, que qualificou o parque escolar completamente, que era inacreditável como é que o município, como Aveiro, tinha um parque escolar de há 40 anos, completamente desatualizado, velho, com mil problemas. E é olhar para este todo e para toda a energia, o trabalho de tanta gente que foi preciso congregar e é daí que vem o sorriso. E o sorriso inclui as lutas e as dificuldades, os problemas que tivemos que ultrapassar. E é sempre assim que eu gosto de concluir e de olhar para estes 12 anos. Foi tudo. Foi o grande episódio que permite chegar ao fim e sorrir.

Na sua relação com a comunidade aveirense, existe algum momento também que o deixe mais orgulhoso?

Eu sou um presidente muito próximo das pessoas. Seja no trabalho normal, seja quando saio à rua e gosto muito de andar a pé na cidade e sou interpelado, seja para o que for, seja para agradecer, seja para criticar, seja para fazer uma pergunta. E tenho essa relação de proximidade cultivada. É o meu entendimento do que é o poder local. O poder local é um poder de proximidade e as pessoas são a origem e o destino de tudo o que fazemos e são o nosso patrão. E eu sei bem o que é ter um patrão. Eu trabalhei em empresas privadas e, portanto, os cidadãos são o nosso patrão. Nós temos que lhe dar toda a atenção e toda a deferência. E tenho essa nota de uma relação muito próxima, muito correta, muito respeitável, mesmo com as pessoas que me criticam e que não votaram em mim, quem é oposição, os vereadores da oposição, os membros da ação municipal. Uma relação boa, tranquila, civilizada. E essa é uma nota importante, porque, na prática, o que é que eu levo daqui? Eu levo as relações humanas, aquilo que as relações humanas me acrescentaram a mim, como ser humano, e aquilo que eu acrescentei também à vida de tanta gente. Isso é sempre o mais importante e isso tem sempre um lugar muito especial em mim e à minha convicção profunda, que também deixei um pedaço da minha vida num bom lugar da esmagadora maioria, pelo menos dos cidadãos do município de Aveiro.

Em 12 anos, certamente são muitos os projetos e objetivos. Conseguiu concretizar tudo aquilo que tinha em mente?

Não, claro que não. Primeiro, porque sempre temos um nível de ambição superior àquilo que é a nossa capacidade de fazer. Depois, porque o país está enredado numa teia burocrática cada vez mais complexa. Eu sou presidente de câmara há 28 anos e tudo hoje é mais difícil, mais demorado do que era há 28 anos. Disfarça um bocadinho. Temos computadores, temos internet, temos plataformas para pedir os pareceres às entidades externas, mas é mesmo disfarce, porque, na prática, a burocracia faz-nos perder hoje muito mais tempo que nos fazia perder há 28 anos. É uma luta permanente para nós conseguirmos fazer coisas. E entre esta ambição sempre acima da nossa capacidade E uma burocracia cada vez mais complexa que temos que lutar para lhe dar a volta. Chega-se ao fim e dizer: "Ok, fiz 80% do que queria". Talvez 80, 82, 78. A esmagadora maioria do que queria fazer foi feito, e por isso também as duas reeleições que eu tive, o primeiro motivo pelo qual os cidadãos me reelegeram a mim e à equipa que levei a votos, e sempre com maioria absoluta, foi porque cumprimos maioritariamente o compromisso que tínhamos assumido com programas com muito pormenor. Agora fica um caderno de encargos para quem vem a seguir. Seria horrível chegar aqui o meu sucessor e não ter nada para fazer. Não, tem imensas coisas para fazer. Também faz parte da natureza. Nós deixamos muitos projetos prontos, muitas obras em curso, muitas obras adjudicadas. É um conjunto vasto de mais de 125 milhões de euros de obras adjudicadas em concurso em execução. E obviamente que, somando à ambição de quem me vai suceder, com certeza que Aveiro vai seguir em frente.

E como é que se conseguem superar crises de densidade política, social?

Com luta, não há outra forma. É nós acreditarmos no que estamos a fazer, termos o gosto de andar para frente, a capacidade de resolver os problemas, congregar as pessoas, chamar as pessoas para os processos. Eu gosto sempre de dar como exemplo aquilo que fiz no meu primeiro mandato, porque tivemos que subir os impostos a toda a gente. O IMI era 0,3, a taxa mínima. Nós em dois anos passamos o IMI para a taxa máxima de 0,5. Isso é aumentar o IMI cerca de, arredondando a conta, 70%. E em todas as reuniões onde eu participava, em todos os aniversários de associações grandes ou pequeninas, sempre eu tinha uma parte do meu discurso para explicar às pessoas porque é que todos tinham que dar mais de si. A Câmara não é minha, a Câmara é de todos nós. Eu apenas sou um gestor, mas é preciso que cada um dê um contributo. E sempre senti, não 100% como é evidente, mas de uma larga maioria dos cidadãos: "Ok, presidente, conte conosco, nós também damos a nossa ajuda". E logo íamos resolver o problema. Obviamente, voltámos a investir nas associações, que são o episódio principal de participação comunitária dos cidadãos, nas Juntas de Freguesia, começarem a acontecer as coisas, os investimentos por todo o Conselho. E isso é muito reconfortante, mas essa fase inicial exigiu uma luta violenta. Eu sempre peço à divindade nas minhas orações diárias que me dê quatro coisas: saúde, que obviamente é um instrumento fundamental; inteligência, obviamente; coragem, porque especialmente nessa frente, a coragem é fundamental. A coragem de decidir hoje algo que parece muito duro, parece que não tem nexo, mas que nós sabemos que depois de passarmos um conjunto de etapas, vamos chegar ao fim e vai ser bom. E paciência, que é um recurso absolutamente fundamental para gerirmos as contrariedades, as dificuldades, o ter que repetir muitas vezes algo para que as pessoas percebam porque é que estamos a fazer, especialmente aquelas medidas que numa primeira perspetiva parecem negativas. E é este conjunto de episódios que fazem essa marca.

E conseguiu sempre sentir a confiança e o carinho dos aveirenses, mesmo quando é necessário tomar decisões difíceis e complexas?

Exatamente. Sim, sempre. Embora na vida, os anciãos ensinaram-nos um princípio, que hoje eu repito muito à malta nova, que é saber esperar é uma virtude. Nós hoje vivemos todos com muita pressa. Parece que o mundo vai acabar amanhã e nós temos que fazer 30 coisas hoje e temos que telefonar a toda a gente, e temos que mandar SMS e emails. É uma velocidade impressionante. Mas quando nós temos um problema grave, como na nossa saúde individual, uma doença grave não se resolve com duas aspirinas. É preciso usar o tempo. O tempo é uma ferramenta fundamental para resolvermos problemas graves como esta Câmara tinha, ou para curarmos uma maleita qualquer que chegou à nossa vida. E essa capacidade de usar o tempo, de fixar uma metodologia para resolver um problema, acreditando que vamos conseguir, tendo a humildade de fazer alterações no caminho quando entendemos que é preciso fazer uma alteração qualquer, é muito importante. Mas mesmo quando estamos a fazer aquelas coisas mais fantásticas, os festivais, o Festival dos Canais, o Festival das Dunas de São Jacinto, os nossos grandes eventos, que ocupam todo o calendário anual, ou quando estamos a fazer uma obra fantástica que toda a gente gosta à nascença, mesmo nessa dimensão do trabalho, quantas vezes há dificuldades que é preciso ultrapassar, e isso exige a tal resiliência, a tal paciência, tal saber usar o tempo para chegarmos a cumprir o nosso objetivo, que no fundo, é isso. O nosso, que não é o meu e o da minha equipa. É aquele que todos nós num ato eleitoral combinamos que é o nosso, porque sempre apresentámos programas eleitorais nas minhas três candidaturas com muito pormenor na temática e na georreferenciação municipal, de freguesia, e sempre monitorizámos com muito rigor a sua execução. Portanto, não viemos para aqui fazer o que é meu ou da minha equipa. Nós viemos fazer aquilo que é nosso, que combinamos No dia das eleições, as pessoas aprovaram, escolheram um presidente, escolheram uma equipa e escolheram um projeto. A partir do momento que escolheram, ele não é meu nem da minha equipa, ele é nosso e foi isso que fizemos nestes 12 anos.

Senhor presidente, sensação de dever cumprido, qual acha que foi o seu maior contributo à cidade?

Sensação de dever cumprido, completamente. Tranquilo, muito tranquilo e por isso circulo e falo com toda a gente, com toda a paz. E também com as pessoas que não concordam comigo, os colegas da oposição na Câmara, os vereadores, na Assembleia Municipal. Há uma respeitabilidade absoluta por isso. Mas de facto, essa noção de missão cumprida, de consciência tranquila, tem a nota de olhar para tudo, somar tudo, que é aquilo que devemos fazer no fim das etapas. É fazer balanço. A perfeição não existe. O balanço quer dizer que nós temos coisas boas e coisas más. Errámos. E errar, obviamente, é uma característica de um ser humano. Não é possível ser ser humano sem cometer erro. Depois é preciso ter a humildade de os perceber e de encontrar uma solução para os ultrapassar, para os resolver. Preferencialmente, não repetindo erros, que repetir erros já é uma coisa que não é exatamente muito inteligente. E fica essa nota no fim. Quando nós olhamos para tudo, somamos tudo e dizemos: "Ok, o nosso balanço é muito positivo". Resolvemos a situação financeira de uma das piores Câmaras do país em situação financeira, uma Câmara com problemas de corrupção muito complexos e acabaram. Uma Câmara que passou a ser muito investidora, que desenvolveu o município de uma forma brutal, parceira das associações privadas, parceira do investimento privado. Aveiro está com uma fase de desenvolvimento económico brutal, de crescimento populacional impressionante. Nós nos três primeiros anos desta década censitária, crescemos o dobro do que crescemos de 2011 a 2021, na anterior década censitária. E temos hoje uma importância política. Aveiro ganhou uma importância política que nunca teve na sua história democrática de 50 anos. É importante na região de Aveiro, presidiu à nossa comunidade muito tempo. É importante na Associação Nacional de Municípios Portugueses. O seu presidente é membro do conselho diretivo da associação há 22 anos e vice-presidente há 18 ou 16. Sou membro do Comitê das Regiões da União Europeia. E este estar nos outros patamares para ajudar os outros patamares, claro, mas para que os outros patamares também nos ajudem a nós, porque há sempre tanto a aprender com os outros. E é bom ser cidade, é bom ser município, mas é muito bom ser região, ser país, ser Europa e ser mundo. E foi para aí que levamos Aveiro. Aveiro não estava nessas dimensões. E portanto, esse ganho importantíssimo que nós entregamos ao nosso município. Recebemos um talento e investimos nele, valorizamo-lo e vamos entregá-lo muito mais valorizado que aquilo que o recebemos. E é essa a lógica que faz sentido nos mandatos. Nós acrescentamos valor. Espero que o meu sucessor tenha essa opção, que sei que tem, e a capacidade de concretizar. E obviamente, vai ter que o demonstrar no exercício das funções, como é evidente.

Que conselho gostaria de deixar ao seu sucessor?

O conselho que eu lhe dou, já lhe dei, já lhe vou repetir muitas vezes, até me ir embora, porque a partir do momento que toma posse o meu sucessor, que vai acontecer este ano, no dia 31 de outubro, ao fim da tarde, eu já não dou mais conselhos ao meu sucessor. Uma questão de princípio. Eu fui ex-presidente da Câmara em Ílhavo, fui sempre um ex-presidente de Câmara muito disciplinado. Não me meto onde não sou chamado. Eu respondi a todas as perguntas que o meu sucessor me fez, ou os meus sucessores, que em Ílhavo já tive dois. E assim farei a partir do dia 31 de outubro, tudo aquilo que o meu sucessor me perguntar, eu responderei. Telefonar-lhe para dizer: "Olha, atenção isto, atenção aquilo", ele sabe que eu não vou fazer. Ele sabe que eu lhe dei os três conselhos principais. Primeiro, trabalhar muito. Não é possível ser bom presidente de Câmara numa terra destas, com a dinâmica que ganhou, com a capacidade de uma Câmara excelente como ele vai ter, sem trabalhar muito. Não é possível. Dois, ter uma equipa competente. Infelizmente, na política, as relações pessoais, o ser amigo, o ser conhecido, está a ter prevalência sobre o mérito. Se nós não temos gente com qualidade a trabalhar conosco, não é possível. Portanto, o segundo conselho é: constrói a tua equipa com gente com muita qualidade para te ajudar o mais que seja possível. E em terceiro lugar, obviamente, fazer aquele exercício de ser sério naquilo que é a relação da sua proposta eleitoral, que também a fez, apresentou o seu programa, com a sua execução. A tal ideia de que combinamos todos ir executar isto. Então agora vamos executar isto. O meu sucessor, Dr. Luís Miranda, vai ter uma condicionante política que eu não tive. Eu ganhei sempre com maioria absoluta. Fiz 54-63-63. Aveiro tem nove mandatos no Executivo. Ele vai ter quatro só. Quatro e cinco vereadores Da oposição. Aveiro foi quase sempre governado por executivos maioritários. É a segunda vez que vai ter um executivo minoritário e tem aí uma delicadeza política e um constrangimento. Não vale a pena, governar com maioria é muito mais fácil, muito mais pleno. E o meu sucessor, aí também lhe posso dar umas dicas, mas não tenho, felizmente, essa experiência. Nos meus sete mandatos sempre tive maioria absoluta. Não tenho, felizmente, essa experiência, mas espero que ele tenha o engenho e a arte para encontrar soluções para que o conselho siga pra frente, porque obviamente o pior que podíamos fazer era entrarmos aqui numa luta paralisante entre quem está no poder, mas não tem maioria e quem estando na oposição tem capacidade de bloquear, porque tem a maioria dos votos para as grandes decisões que têm que ir todas à Câmara. Temos uma vantagem, ou ele tem uma vantagem, na Assembleia Municipal, tem maioria absoluta. E isso é uma vantagem, mas as coisas para irem à Assembleia Municipal têm que passar primeiro pelo executivo. Eu desejo-lhe muita coragem, muita capacidade e um bocadinho de sorte, porque nós também para termos consequência naquilo que queremos fazer, também é preciso um bocadinho de sorte. E eu também tive e agradeço à natureza e a Deus a sorte que também me deu para nós chegarmos ao fim e fazermos um balanço muito positivo.

Como é que gostaria de ser recordado enquanto presidente da Câmara de Aveiro?

De forma tranquila, como sou recordado em Ílhavo, quando vou à ilha fazer qualquer coisa, as pessoas cumprimentam, têm palavras sempre simpáticas e é assim que eu quero ser recordado em Aveiro. E é assim que tenho a certeza que vou ser recordado em Aveiro. Eu sou um cidadão daqui. É aqui que está a minha vida, minhas lojas, o meu barbeiro, os meus amigos. Entre Aveiro e Ílhavo, é o meu solar de vida principal, embora não estudei aqui, eu licenciei-me em Vila Real de Trás-os-Montes. E é assim que eu gostava de ser, que eu espero ser e que é minha profunda convicção que eu vou ser. Toda a gente gosta de mim? Não, mas isso também é bom. É sinal de que temos diversidade naquilo que é o ser humano, como é evidente, e temos perspectivas diferentes. Mas há uma grande respeitabilidade e isso é sempre o mais importante. Nós nunca gostamos de toda a gente que conhecemos na nossa vida, mas o que é importante é nós respeitarmos toda a gente que conhecemos na nossa vida. E é minha profunda convicção que é assim que eu vou viver a partir do dia 1 de novembro de 2025, com os meus concidadãos de Aveiro, que é assim que eu vivo há 12 anos com os meus concidadãos de Ílhavo, onde fui presidente de Câmara 16 anos.

Quando fechar a porta deste gabinete pela última vez, o que acha que vai sentir? Quando despir esta pele de presidente da Câmara e ficar apenas o José, o que o futuro reserva?

Eu vou sair daqui ali pelas 17h do dia 31. A última coisa que vou fazer, como fiz em Ílhavo, é um manuscrito A4 dirigido apenas ao meu sucessor, que só ele pode ler, que fica em cima da mesa da secretária de trabalho dele. É o último ato que eu pratico antes de fechar a porta e ir à tomada de posse, como é evidente. Vou com muito gosto, obviamente, mas iria sempre por obrigação institucional, como é evidente. E logo que ele tome posse, durante a posse, nasceu o José Ribau Esteves, sei ser presidente da Câmara de Aveiro. Estou me a preparar para esse momento de forma tranquila. Obviamente que é uma grande mudança de vida. São 12 anos muito intensos, somado a 16 anos muito intensos. Eu só tive 24 horas de intervalo. A minha distância entre a tomada de posse do meu sucessor em Ílhavo e a minha tomada de posse em Aveiro foram 24 horas. Portanto, não me deu sequer para descansar um bocadinho. E agora vou descansar um bocadinho. Vou tratar de questões que estão em curso sobre o meu futuro, qual é o meu trabalho futuro, quero continuar a trabalhar, como é evidente, na política, preferencialmente. Gostava muito de continuar a trabalhar na política ou voltar às empresas, que é de onde eu venho. E ser um cidadão que luta pela vida, que procura desfrutar o mais possível desta coisa extraordinária que nos propiciaram, que é a vida. Vivendo-a com as pessoas, porque obviamente, só assim é que ela faz sentido. E portanto, o José Ribau Esteves vai continuar a querer ser um ser humano que tira o máximo proveito da vida e que se entrega às causas que abraça e que cuida da sua família, dos seus amigos, que felizmente, nesta passagem pela Câmara de Aveiro, aumentaram bastante. E espero também ter um bocadinho mais de tempo, mesmo que tenha funções novas, que sejam exigentes em tempo, mas possa ter um bocadinho mais tempo também para cuidar um bocado dos meus amigos e da minha família, porque nesta vida nós ficamos com muito pouco tempo para cuidar dessa frente tão importante.

Vai tirar férias?

Vou, mas são umas férias diferentes, é férias para tratar da vida, para procurar empreiteiro para construir a minha casa que nunca construí. Eu sou como o presidente Marcelo, sou inquilino de senhorio, para tratar de exames médicos que tenho para fazer há muitos anos, tratar de uma série de coisas. São umas férias apenas de não ter obrigações profissionais, digamos assim, para tratar de uma série de coisas que tenho para tratar. E aí também tirar o descanso das obrigações, das rotinas, embora, obviamente, também de forma muito responsável, acabar de tratar daquilo que vai ser a nova etapa da minha vida profissional.

Uma vida feliz?

Muito feliz. Muito feliz, muito realizada. E é essa energia que também é muito útil para o nosso dia a dia e seguramente muito útil para eu fazer, como costumamos dizer na gíria, o meu desmame de presidente de câmara. São 28 anos muito intensos. Enfim, sou muito amigo de ex-colegas meus que passaram mal com as semanas pós deixarem. Nós estamos no palco permanentemente, o nosso telefone toca toda hora, nós temos mil coisas para resolver. Quando nasce o dia, nós já temos um conjunto de coisas em cima de nós e essa mudança de realidade, testemunho muitos colegas meus, é dura. Procuro, com a ajuda desse testemunho, preparar-me para que a minha não seja dura.

Não seja uma dor tão grande.

Exatamente. E que eu possa usar a tal felicidade, a tal realização que levo daqui como um instrumento que me ajude a transitar para uma etapa nova da vida.

Senhor presidente, muito obrigada.

Muito gosto.

Muito obrigada por esta conversa.

Muito gosto. Obrigado.