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Tem o apoio de Bacalhau Ribeiraves. Bacalhau com Todos. Bacalhau com Todos de hoje sobre o impacto deste produto na economia portuguesa. Temos já em estúdio o ministro do Mar, Ricardo Serrão Santos. Antes de partirmos para a conversa, vamos ao fato curioso de hoje. O bacalhau é um elemento presente na língua portuguesa, em expressões tão banais como: "dá cá um bacalhau", alusão a um cumprimento com aperto de mão, ou até, "ficou tudo em águas de bacalhau", expressão que identifica um certo modo de estar muito português. Depois, o bacalhau pode referir-se a uma gravata de grandes dimensões pendurada no pescoço dos homens. E há aquele clássico chamar ao bacalhau "fiel amigo", expressão cuja origem é difusa, mas deverá estar relacionada com o fato de o bacalhau ser um alimento rico do ponto de vista nutritivo, acessível à maioria dos consumidores e fácil de conservar. Senhor ministro, muito bom dia. O bacalhau é um bom amigo da economia portuguesa?
Sim, é um bom amigo da economia portuguesa, no sentido em que dá muito emprego em Portugal. Tem um valor nas trocas comerciais importante, mas ao mesmo tempo contribui para o nosso déficit da balança comercial alimentar fortemente, porque continuamos a importar grande parte do bacalhau que consumimos. Nós pescamos cerca de 4% do bacalhau que consumimos e isso tem, obviamente, efeitos na balança comercial. Mas, ao mesmo tempo, temos uma indústria de processamento e transformação do bacalhau, que é muito relevante, não só do ponto de vista econômico, e daqui também se exporta algum desse bacalhau após transformação, e que gera também emprego. É uma indústria que atingiu um nível tecnológico muito relevante.
Tem ideia de quantas pessoas estão ligadas a esta atividade?
Penso que serão cerca de 3200 empregos diretos e cerca de 8000 empregos indiretos, ou seja, 7500 empregos indiretos.
Relacionados com a pesca e também com a transformação.
Sobretudo com a transformação.
E em relação à pesca?
A pesca temos, neste momento, 13 rastões a pescar, que não é só bacalhau, mas também outras espécies associadas, cantarinho, palmeta, raia, zabrótia, mas temos 13 embarcações de pesca longínqua a pescar bacalhau.
Qual é a razão para termos apenas 13 embarcações dedicadas à pesca do bacalhau? É porque é um tipo de pesca muito sazonal e é preciso percorrer grandes distâncias para ir até o Atlântico Noroeste apanhar o bacalhau?
Não, vocês tiveram aqui o maior especialista em bacalhau do país, um amigo e uma pessoa que eu admiro muito, o professor Álvaro Garrido, que já falou sobre o assunto e que tem um conhecimento histórico como mais ninguém tem em Portugal e provavelmente no mundo. Nós tivemos uma grande frota de bacalhau, uma grande relevância, que foi um dos projetos em que o Estado Novo investiu de forma muito corporativa. Ele explicou isso, aliás, muito bem, e extremamente subsidiada e com uma espécie de escravatura, quase a bordo, que é uma atividade muito difícil e muito exigente do ponto de vista do esforço que era pedido aos pescadores. E como se sabe, daqueles que iam pra pesca de bacalhau, regressavam, não todos, mas alguns.
Mas hoje tudo está diferente.
Hoje está diferente. Antigamente era pesca de anzol, hoje nós temos os rastões, e houve problemas de estoques. Sabemos, hoje em dia, que o bacalhau foi uma espécie que foi explorada em várias das bacias marítimas onde pescávamos, nomeadamente na Newfoundland, na Terra Nova.
Chegou até a haver restrições nos anos 90.
E continua a haver restrições. Hoje é uma das áreas que está sob jurisdição da NAFO, North Atlantic Fisheries Organization, que gere o Noroeste Atlântico. E posso lhe dizer que em termos de gestão, controle, fiscalização e sistema de observação, a NAFO é talvez, dentro da Europa, quem tem o melhor sistema. O manual de pescas da NAFO é considerado a Bíblia na gestão das pescas.
Nós temos muitos pescadores sob jurisdição dessa organização?
Temos, para já, estas três embarcações, tudo de pesca longínqua.
Eu queria guardar esta pergunta pro fim, mas já que falamos da NAFO.
Talvez não 13, porque muitas delas pescam na outra região, que é na AFCO, North Eastern Atlantic, portanto no Nordeste Atlântico. E em águas, também, de jurisdições nacionais e sob jurisdições nacionais, nomeadamente na zona de Svalbard e na zona da Noruega, e que não pertencem à zona da NAFO
Eu queria perguntar-lhe precisamente sobre o Atlântico Noroeste. Falou da NAF, que é a organização que gere essa bacia marítima. Esta semana ficámos a saber que foi reduzida para metade, no próximo ano, a pesca nesta região. O que lhe pergunto é se a maioria das embarcações portuguesas pescam nessa zona, se isto vai ter impacto nessa atividade económica ou não.
Vai ter impacto, obviamente. Poderão divergir para outras espécies, desde que haja uma capacidade de não terem o bacalhau. Temos o cantaria, a palmeta, que são pescas que também são dirigidas.
Portanto, os pescadores portugueses vão ter que se adaptar.
Há problemas que já não vêm de agora nos stocks do Noroeste do Atlântico, que, pelos vistos, se reforçaram novamente. Ou melhoraram, voltaram a decair e, portanto, há que dar particular atenção ao que se está a passar no Noroeste Atlântico. Obviamente, a diminuição da nossa atividade de pesca no Noroeste Atlântico já vem do passado e o facto de, depois da Lei do Mar, a partir de 92, ter havido a designação de zonas económicas exclusivas, diminuiu o nosso acesso ao mar aberto, que antes disso era mar aberto. Mas já antes de 92, os países marítimos começavam a querer demarcar as suas áreas, ainda não era dito área económica exclusiva, porque não havia a lei internacional, mas já se faziam exigências.
O que está a querer dizer é que-
E, portanto, daí também, já desde 1960, começou a haver restrições, conflitos de Estados costeiros com frotas não costeiras que estavam a ter acesso a essas áreas, a essas águas.
O que está a querer dizer, senhor ministro, é que é expectável que nos próximos anos os pescadores portugueses deixem de poder ir aos mares do Atlântico Norte pescar bacalhau.
Não sei. Nós temos muitos problemas no ambiente marinho, que são conhecidos, não só a ver com as pescas, mas com a desoxigenação dos oceanos, a acidificação, o aquecimento das águas. Mas também temos tido, ao longo dos anos, desde que haja uma boa gestão, uma boa implementação e uma boa avaliação, alguns sucessos na gestão do ambiente. E alguns dos stocks que há uns anos estavam em mau estado têm vindo a recuperar com uma boa gestão científica e uma boa gestão política. E, portanto, não lhe posso dizer qual será o futuro dos stocks de pescado de bacalhau no Noroeste Atlântico, porque também agora há condicionantes que antigamente não havia, como o aquecimento das águas e a migração mais para norte de alguns stocks. Mas temos que dar particular atenção ao que os cientistas estão a dizer, ao aconselhamento científico e seguir as normas de gestão que forem sugeridas pelas organizações científicas internacionais.
E o que é que têm dito nos últimos anos sobre o bacalhau?
Este ano temos uma diminuição de 51% na pesca de bacalhau na zona da NAF. Aumentámos as nossas quotas nos mares da Noruega e em Svalbard, onde os stocks estão em melhores condições. E é neste contexto de orientação científica e boa política de gestão que temos que orientar também a nossa frota. Tenho dialogado, já tive reuniões com vários setores das pescas aqui desde que tomei posse e a informação e a capacidade de avaliação dos nossos líderes das organizações é muito espantosa, como a sua capacidade de diálogo. Obviamente, procuram negociar mais acesso ao recurso, mas compreendem bem que o futuro pode ser difícil se não soubermos gerir devidamente.
Muito bem. Falou das 13 embarcações que nesta altura se dedicam à pesca do bacalhau, embarcações portuguesas. Elas estão concentradas onde?
Elas estão concentradas fundamentalmente nestas áreas do Nordeste e Noroeste Atlântico, de bacalhau. Nós não pescamos bacalhau do Pacífico, é meu conhecimento, a não ser que estejam a dizer o contrário.
É demasiado longe, mas partem de onde habitualmente, aqui de Aveiro.
De Aveiro, Nazaré, Sagres.
Portanto, são zonas tradicionalmente dos bacalheiros. Senhor ministro, a sua consoada vai ter bacalhau?
Não lhe sei dizer.
Então.
Não lhe sei dizer. Geralmente tem bacalhau e tem peru.
Muito bem. Portanto, deduzo que ainda não tenha comprado o bacalhau para o Natal.
Não, ainda não comprei o bacalhau para o Natal.
É uma tarefa que guarda para terceiros ou guarda para si?
Estive a ler o excelente artigo do Ricardo Dias Felmer no Expresso e ainda bem que o li, porque está a dar aqui orientações muito curiosas sobre o bacalhau. Eu acho que já comi todos os componentes de bacalhau, desde os bochechos à língua, às caras, que adoro caras de bacalhau.
Ao sâmo.
O sâmo é que eu nunca comi, nem sabia disso, veja lá a minha ignorância.
É a bolsa nadatória dos bacalhaus.
O meu próximo objetivo é comer sâmos.
Muito bem. E o bacalhau, para si, sendo alentejano, tem que ser regado com azeite do Alentejo ou pode ser outro azeite?
Não, pode ser outro azeite. Há excelentes azeites noutras zonas do país, obviamente, em Trás-os-Montes, no Alentejo há excelente azeite. E há uma coisa que eu gosto muito é a sourda com bacalhau, a sourda alentejana com bacalhau. Olhe, agora, se calhar vai ser isso, que eu adoro caras de bacalhau, mas tenho que provar o sâmo.
Muito bem. E o bacalhau, na sua opinião, acompanha com vinho tinto ou com vinho branco?
Com vinho tinto.
Sempre?
Sempre. Bacalhau e sardinha comigo é sempre com vinho tinto.
Muito bem, senhor ministro, muito obrigado por ter vindo ao Bacalhau com Todos da Rádio Observador. Boas festas. Ricardo Serrão Santos, ministro do Mar e o contexto do bacalhau na economia portuguesa. Bacalhau que pode ver ao vivo em Portugal no Aquário de Bacalhaus, no Museu Marítimo de Ílhavo. O aquário foi inaugurado há sete anos, tem mais de três metros de profundidade e recria as condições de vida do bacalhau do Atlântico Norte, com água entre os 10 e os 12° de temperatura. É a única possibilidade de ver o fiel amigo ao vivo e a cores em Portugal. Fica a sugestão para este período de férias escolares. Não deixe a decisão ficar em águas de bacalhau.
Bacalhau com Todos.