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Está feita história. Kamala Harris é a primeira mulher vice-presidente dos Estados Unidos e está cumprido mais um discurso de união numa tomada de posse, como era expectável, pelo menos para dentro, mas com avisos de Joe Biden para fora. Fomos testados, mas saímos mais fortes. Aí está a nova administração Biden e é mesmo para este início que vamos olhar num "Café América" especial, hoje de chave na cheia e equipa completa com a Madalena Meyer Resende, o Bruno Cardoso Reis, o Henrique Borné, o João Diogo Barbosa e comigo, Sara Antunes de Oliveira. Vamos a isso. Bruno, alguma surpresa no discurso de Joe Biden?
Não, acho que é o discurso que se esperava, sendo que isso é bastante positivo. No fundo, é mais uma vez um sinal do regresso à normalidade. No fundo, um presidente americano que cumpre aquilo que se espera de um presidente americano e, portanto, nesse aspecto é algo positivo. Aqui não há prêmios para originalidade.
Henrique.
O meu comentário seria dois comentários. Um, nunca se esperou tanto de quem inspira tão pouco. E isso é uma nota positiva, ou seja, precisamente como o Bruno dizia, esta ideia de regresso à normalidade, o melhor que Biden tem para oferecer e ofereceu neste discurso, foi a ideia de união, de moderação, de querer falar ao maior número possível de pessoas. E aquela declaração de ser o presidente de todos os americanos é aqui essencial. É isto que se espera de Biden e acho que é importante perceber mesmo, nós estamos à espera de imenso de um homem que nunca foi muito inspirador.
Isso não é pouco. Eu fiquei com a sensação de sentir que nós já esperávamos isto, mas senti que faltou ali qualquer coisa.
Eu penso que ele foi ao âmago da questão. Quando nós, há quatro anos, assistimos a esta inauguração com o presidente Trump, ficamos todos com os cabelos de pé. Pelo menos eu fiquei absolutamente horrorizada com o discurso de Trump, nacionalista, agressivo, etc. E este discurso foi um discurso que eu acho que não foi menos combativo, ou seja, o Biden reconheceu que a América está à beira de qualquer coisa difícil, que a democracia esteve em perigo e que ainda não está completamente salva. Portanto, há aqui um certo tom bélico, ao contrário do Trump. Bélico no sentido que nós vamos resistir a esta onda que nos põe em perigo. E não é só um discurso apaziguador, eu diria, é um discurso de defesa da democracia e defesa dos valores que são os valores americanos pela positiva, digamos assim.
Não, eu acho que o que é mais surpreendente é mesmo termos um discurso que o grande ponto central é esta ideia da defesa da democracia por parte de um presidente americano. Mas ele não está a falar, como por exemplo, naquele famoso discurso exactamente de posse do presidente Kennedy de 1961, de que os Estados Unidos estão dispostos a correr qualquer perigo, a pagar qualquer preço para defender a liberdade no mundo, etc. Não, ele está a falar de defender a democracia essencialmente internamente nos Estados Unidos. Agora, eu concordo que realmente o Joe Biden não é um grande orador. Acho que as partes melhores provavelmente foram as citações, por exemplo, do Lincoln, que também mais uma vez era uma coisa expectável, o grande símbolo da unidade. Ainda por cima um presidente republicano, ironicamente. Eu acho que realmente não é de esperar aqui muita inspiração, vamos dizer assim. Agora, há este lado realmente surpreendente de termos um discurso centrado na defesa da democracia, essencialmente para uso interno. Há uma pequena referência também à questão dos aliados e, no fundo, a promessa de que os Estados Unidos vão voltar a empenhar no mundo, mas uma coisa muito telegráfica e se calhar até significativamente telegráfica, porque me parece que realmente, pelo menos nesta fase inicial da presidência Biden, ela vai ter de se concentrar muito em reconstruir, de facto, o normal funcionamento das instituições nos Estados Unidos.
João Diogo, ainda não te ouvimos.
Sim, eu estava a pensar aqui neste inverno escuro que nós estávamos a passar, fiquei inspirado e estava a refletir. Eu acho que o discurso foi inteligente na medida em que há duas semanas houve uma invasão ao Capitólio e, portanto, tudo o que o presidente Biden pudesse fazer para deitar um pouquinho de água na fervura era inteligente e sobretudo depois de quatro anos de grande adrenalina, diria eu, tudo o que for aborrecido marca uma diferença muito maior do que se fosse ali fazer um discurso inspirado ou inflamado. Acho que foi bom na medida em que foi aborrecido, para repetir o ponto do Bruno, mas também teve pontos muito interessantes que são relativamente comuns nas presidências americanas, mas a que nos tínhamos desabituado já com Trump, nomeadamente a referência insistente a Deus, à religião, até uma citação de Santo Agostinho, que é uma coisa um pouquinho inusitada, e acho que é por aí que Biden pode unir e pode convencer aquela boa fatia de americanos que não está convencida da sua legitimidade. E isso é muito interessante e parece-me que faz uma boa entrada, apesar de não ser, se calhar, tão inspirador como o Obama, que era verdadeiramente quem muita gente tinha na mente quando estava a ouvir Joe Biden. E acho que isso é bom. Acho que depois de quatro anos eletrizantes, aquilo que a América precisa é de água na fervura, não de mais oratória inflamada.
Eu, por acaso, estava a pegar só no ponto do João Diogo, ou seja, que este uso da religião por um democrata neste momento é particularmente com um objetivo unificador, porque o partido Democrata está cada vez mais secular, cada vez mais separado das pessoas que são ditas religiosas, às questões do aborto, etc. E este uso é um uso muito estratégico e também muito centrado na sua fé, obviamente, que todos conhecem e que ele tem sempre muito central como sua política. E penso que é notável, de fato, estas múltiplas referências ao seu catolicismo mesmo e ao seu cristianismo. Penso que isto é uma forte indicação.
Mas mesmo aí é um pouco um regresso à normalidade. Na retórica política americana, de facto, o peso da pregação cristã é enorme. Aí, de facto, a figura do Trump é bastante paradoxal, porque sendo alguém que tem o apoio de uma ala mais conservadora, mais evangélica, ele próprio, em termos pessoais, de facto, ele e a Bíblia não eram muito amigos. Não havia ali grande coincidente gosto.
Mas nós na Europa temos muitas vezes dificuldade em perceber que, e nós já falámos nisso noutras ocasiões, nos Estados Unidos, o papel da religião não se confunde com o papel da Igreja e, portanto, a ideia da religiosidade não se confunde com a da Igreja e, portanto, o trazer para o espaço público é mais natural até do que muitas vezes é percebido na Europa. Mas eu, voltando ao ponto inicial onde andávamos, eu acho que este presidente tem três prioridades que me parecem mais ou menos inevitáveis. É despolarizar o país, é tratar da economia, sobretudo, pós-crise pandémica e o papel da América no mundo, a influência externa. E o primeiro aspecto da despolarização, de facto, só vai lá por um de dois caminhos. Um, se fosse profundamente inspirador e levasse atrás de si uma grande parte da população, o que tendo em conta os resultados eleitorais e o estado em que o país está é pouco provável, ou então sendo apaziguador. E, portanto, eu acho que este discurso pouco inspirador é um discurso apaziguador, como o pôr água na fervura que o João Diogo dizia há bocado. E acho que é nessa perspectiva que deve ser interpretado. E, portanto, resulta daqui uma ideia que eu acho que é importante até para nós pensarmos, que é a moderação e a tolerância como um momento essencial para recompor sociedades polarizadas.
Sim, eu acho que se nota sobretudo essa questão também no tom e na forma que Biden usa, porque ele podia ter feito exatamente o mesmo discurso, um discurso apaziguador e de união, mas num tom mais assertivo. E eu acho que não é só porque ele não é um grande orador, eu acho que ele escolheu um tom que a dado momento parecia de pedido, de alguém que está perante uma situação difícil e que precisa de ajuda e que pede ajuda. Eu acho que ele assumiu esse tom de "eu não estou aqui para impor nada, nós precisamos de olhar para esta situação e perceber que precisamos de a resolver." E, portanto, eu acho que senti mais como diferença e como surpresa esse tom, porque eu acho que ele não procurou ser assertivo e acho que se nota sobretudo a diferença quando ele faz esse tal comentário telegráfico virado para fora e parece que ganha ali outro fulgor e diz: "Nós fomos testados, mas saímos mais fortes" e muda completamente de tom e depois volta muito rapidamente ao mesmo tom que tinha antes. E depois, se tivermos em conta o último discurso de Donald Trump feito algumas horas antes, antes de entrar no Air Force One pela última vez, percebemos ainda mais a diferença do tom de alguém que está ali a dizer: "Eu não sei tudo, eu não consigo resolver tudo, eu preciso da ajuda de toda a gente pra eu resolver."
Sim, e eu acho que ele joga muito nessa dimensão da empatia do regular Joe, de alguém que é o Zé dali da esquina e faz esta referência também muito à questão de saber o que é as pessoas estarem preocupadas com o emprego, estarem preocupadas com a família, inclusive sabe-se em termos até da história pessoal dele, que mesmo na altura, há poucos anos, quando ele era vice-presidente, ele era o senador mais pobre, era um vice-presidente sem grandes recursos também, teve de pedir empréstimo para ajudar o próprio filho quando ele teve aquele problema de saúde, o câncer que acabou também por o vitimar. Portanto, eu acho que ele aposta muito nisso e com alguma genuinidade e eu acho que é capaz de haver alguma eficácia, que não é do grande orador e da grande retórica, mas eu tendo a concordar que sim. E, de facto, um grande contraste deliberado com o discurso do presidente Trump e acho que até com o discurso inaugural do presidente Trump, é quase ver as diferenças. Por exemplo, mesmo nessa questão externa, é uma coisa telegráfica, mas é exatamente o oposto do America First, America Only, que foi um dos pontos altos realmente desse discurso inaugural do presidente Trump. Esta ideia de que nós precisamos de aliados e que vamos liderar pelo exemplo e não apenas pela força. Em relação realmente ao discurso do presidente Trump, o contraste é total e até e quando um bocadinho aquilo que dizia a Madalena, que realmente ficou muito chocada com o discurso do presidente Trump, com o discurso inaugural dele, acho que todos ficamos um pouco, mas aqui o que é mais relevante ainda é que uma das melhores anedotas destas cerimônias é realmente a conversa entre o presidente George W. Bush e o presidente Obama, precisamente há quatro anos, em que o presidente George W. Bush disse ao presidente Obama, em inglês: "That was some weird shit." Este discurso foi uma coisa completamente surreal. Estou aqui a fazer uma tradução, digamos, mais livre.
Não, por favor, faça a tradução, Bruno.
Acho que ficou bem.
Acho que hoje ninguém vai dizer isso.
Deixem-me dizer, se calhar
O discurso de Trump é capaz de ter sido o ponto alto da sua presidência, não só como uma graça, mas foi a única vez que eu me lembro de ter visto o presidente Trump enunciar uma visão, e uma visão até bastante profunda sobre a América que queria construir e que depois não teve nada a ver com a sua prática presidencial, mas não houve qualquer visão do gênero no discurso de Biden hoje. Eu vi um discurso sobre o dia de ontem e o dia de hoje, mas muito pouco sobre o amanhã, muito pouco sobre uma visão a longo prazo, o que pode também indicar que Biden é uma espécie de solução ponte, até dentro dos democratas, para a próxima geração. Eu não vi claramente um discurso em que Biden descreve uma nova América ou uma América que vai ser diferente e que vai realmente curar-se, vi apenas uma defesa da democracia, um lamento por estes quatro anos bastante inflamados, mas não vi uma proposta nova, vi apenas o lamento. E eu acho que isso significa que esta presidência tem um horizonte limitado.
Mas eu diria, na linha do que tu já tinhas dito há pouco, João Diogo, que eu acho que isso é o ponto positivo e é aquilo que provavelmente marca esta presidência, isto é, uma presidência que ainda por cima precisa de fazer pontes no Congresso, seja no Senado, seja na Câmara de Representantes, não tinha muita probabilidade de sucesso se começasse por ser profundamente marcada e, portanto, isto parece-me que era necessário. Há uma outra nota na parte da política externa que já foi aqui referida, que é aquela pequena referência a dizer que fomos postos à prova, mas recuperamos e aqui estamos de volta. Isto é francamente diferente de qualquer discurso externo ou da parte externa em qualquer discurso inaugural de um presidente dos Estados Unidos. Isto leva-me um pouquinho para aquela expressão na caça, talvez exagerando, mas que se esta potência não vai ferida na asa, pelo menos magoada está. E portanto, nós vimos aqui uma superpotência que fala ao mundo das suas feridas e há uma exposição de uma superpotência que está sofrida, que não tem a capacidade de se apresentar ao mundo como se apresentava antigamente. Esse é outro estrago que fica desta presidência Trump. Este presidente tem que curar o país internamente e fazer o mundo acreditar que a América tem um lugar no mundo fiável. Esse que me parece ser um dos grandes desafios. Biden também precisa de alguma humildade. É que um discurso de humildade de um país que passou por muito e que a inspiração e a crença neste projeto passa mais por acreditar que existem os meios e os processos do que propriamente ter uma visão muito clara sobre o futuro da América, não há dúvida. É mais de processos do que de uma visão inspiradora.
Mas deixa-me dizer rapidamente, porque apesar de tudo, e não houve isso no discurso de Biden, mas o conjunto de medidas que a nova administração já tem apresentado e hoje ainda uma série de decretos executivos para serem já assinados, é bastante impressionante. E não havendo isso de Biden, não quer dizer que não haja uma visão do futuro, que pode ser discutível e certamente tem pontos que não merecem grande admiração, mas que existe na administração. Não necessariamente na presidência, mas existe na administração. Desculpa, Bruno.
Não, era pra dizer que eu acho que esse vai ser um dos grandes temas a discutir nos próximos anos. Ou seja, por um lado, eu acho que o Biden conseguir uma normalização efetiva, conseguir que realmente esta divisão extrema... Ele até no discurso teve esse pormenor, que eu acho que é uma novidade, que é fazer referência a divisões religiosas, divisões raciais e divisões midiáticas. Disse: "Estamos divididos pelos mídia que vemos e temos de ultrapassar isso." Isso já seria um enorme feito, mas realmente as pessoas esperam mais. E ele próprio no discurso enumera grandes problemas, por exemplo, a questão das alterações climáticas, a questão da crise sanitária e econômica da pandemia, que vão ser de um grande nível de exigência. Eu realmente também percebo o último ponto agora do João Diogo, que é: esta é uma administração muito experiente e eu acho que eles têm as coisas muito preparadas em termos de programas de governação, até com base nessa experiência. Agora, vamos ver, porque aí as duas coisas estão ligadas, se depois há condições para isso avançar. Há coisas que podem avançar por decreto, há outras que exigem, por exemplo, quando há implicações orçamentais em termos de impostos, etc, que exigem mesmo o acordo do Congresso, e aí o presidente Biden tem uma margem muito estreita de manobra. Tem uma ligeira maioria na Câmara dos Representantes e uma ligeiríssima maioria, um empate, mas que é desempatado pelo vice-presidente no Senado. E portanto, essa será uma questão central agora nos próximos tempos.
Olha de que está o discurso de força, Henrique.
Eu estava a dar exatamente o salto que tu estavas a dar, Sara, que era tendo dito que achava que havia estes três aspetos das prioridades, da despolarização, a questão da economia e da influência externa, agora temos que olhar para as condicionantes do mandato para perceber em que medida que ele pode executá-las. Ele está dependente, eu diria daqui de umas quantas condicionantes. Por um lado, o que acontece ao Partido Republicano, que está a curar esta relação com Trump e como é que se reorganiza. Do que lhe acontece com a ala esquerda do Partido Democrata, isso também é importante. Como é que avança a vacinação, porque disso também depende a recuperação econômica. Em que medida consegue alguma credibilidade internacional e como é que vai ser recebido. E há aí sinais contraditórios, mesmo na Europa, há sinais contraditórios Finalmente, em que medida é que a China aproveita esta fragilidade para ocupar território? Portanto, há aqui um conjunto de condicionantes que fazem com que este tenha que ser um presidente que precise de unir, talvez suavemente, devagarinho.
Mas penso que presidente interino, não é?
Tão rapidamente, para não deixar ganhar esse espaço.
Eu percebo esta ideia do João Diogo do presidente interino. E nesse sentido, sim, não se imagina que seja um grande líder, mas não acho que seja para ficarmos à espera. É de recuperação. Suponho que seja nesse sentido que estás a dizer, João Diogo.
Sim, aquela expressão até em inglês de caretaker, que se calhar até se adequa melhor aqui.
Mas às vezes há surpresas. O exemplo clássico é o presidente Kennedy e o presidente Johnson. O Lyndon Johnson, que sucedeu ao presidente Kennedy quando ele foi assassinado. O presidente Kennedy, lá está, era uma retórica extraordinária, um discurso que toda a gente se lembra, etc. Mas não conseguiu fazer assim tanto, até em termos precisamente da relação com o Congresso. E depois foi o presidente Johnson, com muita experiência do Senado, também como o Joe Biden, que não era uma pessoa com uma grande retórica ou que em termos de carisma pessoal fosse visto como um gênio da política, etc. E, no entanto, acabou por ser alguém que conseguiu fazer reformas muito importantes e avançar em áreas muito importantes. Não estou a dizer que isso vai ser necessariamente assim. Mas às vezes, até do ponto de vista da avaliação política, se calhar não deixa de ser inteligente não criar aqui expectativas muito elevadas.
Sara, deixa-me só fazer um último comentário. Desculpa.
Muito rapidamente, até porque nós temos que avançar para os prêmios.
Sim, mas um último comentário só para dizer: este discurso de Joe Biden, e não só em relação à política americana, mas até noutras paragens do mundo, na Europa, tem a enorme virtude de há muito tempo que não ouvíamos um discurso onde não havia um nós contra eles, um eles que são os maus e um eu que represento o nós que estamos sub-representados. Não há aqui uma divisão moral da comunidade política. Isso é francamente um sinal positivo que faz falta, e não é só nos Estados Unidos.
Vamos então, por favor, avançar para os prêmios. Já não temos muito tempo. Começamos pelos Frank Underwood. Madalena, tens aqui um prêmio ainda relacionado com esta tomada de posse, por causa das condições de segurança.
Sim, eu acho que todos nós nos chocamos com a situação na América, a polarização, e eu acho que nada torna isso mais visível do que os 200 mil soldados na rua que estão em Washington e a quase ausência de quaisquer civis, apoiantes. Em um dia de inauguração, isto é uma coisa absolutamente, não é só a pandemia, é também a situação de segurança e o medo que haja algum ataque. E, portanto, isto realmente mostra-nos a situação em que os Estados Unidos estão e relembra-nos de forma muito física o que esta administração tem que sarar. Sim, eu acho que são 20 ou 25 mil homens. E aparentemente são mais, o que também não é preciso já assim tanto.
São os da Guarda Nacional.
Há mais tropas americanas neste momento em Washington do que em Cabul. Vemos os jornalistas a comparar isto com a Green Zone, aquela zona verde de ultra-sur de Bagdá em plena guerra, em plena campanha do Iraque.
Se olharmos para os mapas de segurança, é qualquer coisa de extraordinário. Parece que estão exatamente a segurar um cenário de guerra e, portanto, isto é muito grave. Ou seja, isto significa que, de facto, a administração e as forças de segurança estão preocupadas com o que possa acontecer ao novo presidente e isso é uma situação de guerra interna. Aliás, foi uma expressão que Biden usou, disse "uncivil war". Eu achei esta expressão extremamente forte. Não é apenas uma retórica, é fortemente dizer que os Estados Unidos tiveram uma situação de guerra e, de certa maneira, ainda estão, o que é bastante forte. E mostra, sobretudo, que não se olha para o episódio do Capitólio como um ato isolado e frutos de uma multidão que espontaneamente decidiu começar a se revoltar. Bruno.
Há muito tempo que o FBI, o próprio Ministério do Interior americano, têm alertado exatamente para esta vaga crescente violência política por parte, sobretudo, da direita mais radical, da extrema-direita, alguma também da esquerda, mas sobretudo, de facto, da direita radical.
Bruno, tens também aqui um Frank Underwood para os perdões de Donald Trump, os conhecidos nas últimas horas, mais uma lista longa.
Sim, eu acho que aqui também vou ser telegráfico, é fácil de explicar. Eu acho que, no fundo, a função dos perdões presidenciais é uma função de clemência. No fundo, é quase uma herança daquela velha função dos monarcas, de serem a encarnação da justiça, mas também de uma certa misericórdia, uma certa clemência. Mas não é servir para criar uma espécie de imunidade de grupo em relação aos apoiantes do presidente, aos partidários do presidente, àqueles que estão dispostos a violar a lei em defesa da agenda política do presidente, porque isso é o minar do Estado de Direito. Portanto, acho que estamos perigosamente próximos disso nestes perdões do presidente Trump.
E Henrique, mais um Underwood, muito rapidamente, para um inquérito que fala sobre europeus e da maneira como olham para os Estados Unidos.
Como eu dizia, eu acho que um dos aspectos essenciais vai ser o lugar da América no mundo e a relação com a Europa. E foi hoje conhecido um inquérito do European Council on Foreign Relations sobre a posição dos europeus em relação aos Estados Unidos e não só, e as conclusões são preocupantes, porque a maioria, quer dizer, 59%, acredita que dentro de uma década a China será a nação mais poderosa do mundo. E uma maioria diz também que em caso de conflito entre as duas superpotências, Estados Unidos e China, preferiam a neutralidade. E ainda a maioria também acredita que o sistema político americano está quebrado. Há algum anti-americanismo tradicional na Europa, sempre houve. E normalmente agravado até quando há presidentes republicanos. Mas o que se passa neste momento, para mim, é particularmente preocupante. Por um lado, Trump fez os europeus desacreditarem da América, mas, por outro lado, e isso é outra coisa que nos deve preocupar também, é haver na Europa quem ache que é possível ser-se neutro entre a América e a China, como se fossem duas escolhas e fossem mais ou menos equivalentes, opções alternativas, e não ver a evidência do que separa uma e outra, é muito preocupante. Portanto, isso é mau sinal para os Estados Unidos, mas também é mau sinal para nós, europeus.
E a culpa não é só de Trump nesse caso.
Não.
Porque muitas vezes diz-se que esses números são explicados por Trump, mas os próprios políticos europeus alimentam muitas vezes esse tipo de pensamento ao criticarem a América com todas as forças e a fazerem acordos simpáticos com a China. E, portanto, a explicação de Trump não é talvez a mais importante, mas é a única que podemos resolver rapidamente. E, portanto, esses números podem melhorar daqui a um ou dois anos. Creio que está praticamente resolvido. Vamos aos donuts, porque também temos China. João Diego Barbosa, temos China e temos um dos atos finais desta administração Trump.
E um dos bons atos desta administração. Foi preciso chegarmos ao final, à despedida, para vermos aqui uma luz ao fundo do túnel. E a verdade é que Mike Pompeo, secretário de Estado, emitiu uma declaração que pela primeira vez chamou genocídio ao que a China está a fazer aos uigures. E eu acho que isso é bom sinal por dois motivos. Em primeiro lugar, porque dada a evidência que temos, é verdade. E como nos lembrou o presidente Biden há minutos, a verdade ainda importa na política e na sociedade. E, por outro lado, acho que é bom, porque segue declarações da campanha de Biden nesse sentido e de certa forma ilustra um consenso que tem vindo a ser construído em alguns países, não só na América, mas também no Reino Unido ou no Canadá, que une a esquerda e a direita na reprovação quanto aos atos mais hediondos do regime chinês. Eu acho que isso é uma boa ideia, que devia ser bem interpretada pela Europa, que ultimamente parece guiada por líderes e pensadores que são fracos nas ambições e fracos nos valores, e que podem ter aqui um exemplo, aquele líder que lidera pelo poder do exemplo, como também disse o presidente Biden, e que os guia para um caminho melhor do que o dos acordos de investimentos simpáticos.
Bem, vamos ver o que a nova administração faz, mas aí só para complementar o que tu dizes. O próprio novo chefe da diplomacia americana, o Anthony Blinken, ainda ontem, nas audições já para assumir o cargo como secretário de Estado, que é a designação americana no fundo para ministro das Relações Estrangeiras, veio dizer exatamente que estava de acordo no essencial com a postura da administração Trump nesta questão. E, portanto, isso é realmente uma área em que, de uma forma bastante errática e suscitando enormes desconfianças, é importante quando se está a falar dos uigures, recordar também aquele testemunho do John Bolton, que foi conselheiro de segurança do Trump, a testemunhar que ele assistiu a um encontro do Trump com o presidente Xi a dizer: "Eu acho ótimo aquilo que vocês estão a fazer aos uigures. Não tenho o mínimo problema com isso. Desde que vocês comprem soja ali do Midwest e tal, desde que façam aqui umas cedências nos acordos comerciais, está tudo OK". Portanto, essa parte foi bastante negativa e alimentou esta desconfiança, vamos dizer, dos europeus. Mas eu acho que houve um aspecto positivo, que foi realmente a administração Trump, sobretudo na sua primeira metade, tinha pessoas muito sólidas nesta área, sobretudo da segurança, da defesa, da parte externa. O mesmo próprio Mike Pompeo teve posições questionáveis, mas como diplomata, como defensor de interesses americanos, é alguém bastante capaz. E realmente puseram muito a questão da China na agenda e transformaram muito a forma como a China é vista, até nos países europeus. Acho que a mudança está longe de estar completada. O consenso entre Estados Unidos e Europa está longe de ter sido alcançado, ou mesmo no seio da Europa, mas eu acho que pelo menos mudou muito os termos do debate. Acho que é justo reconhecer isso, realmente.
É um passo. Bruno e Henrique, vocês partilham aqui também um donut, que também tem a ver ainda com a administração Trump, mas sobretudo sobre uma figura, Mike Pence.
É. Há bocado, enquanto estávamos aqui a conversar, estava a ver na televisão exatamente a cena do ex-vice-presidente Mike Pence a cumprimentar a agora vice-presidente Kamala Harris. Ele assistiu à tomada de posse, ao contrário do ex-presidente Trump. Ele participou e no fim despediu-se da vice-presidente, portanto, a quem passa, no fundo, a pasta. E esta normal decência de Pence, que há uma semana e pouco Tinha uma multidão, uma turba no Capitólio a pedir sua forca, gente do Partido Republicano, ou gente empurrada pelo presidente republicano. Mostra um vice-presidente que ficou com Trump até o fim, fez o mandato de Trump, mas nunca foi uma voz trumpista no sentido de dizer as coisas que Trump dizia e que aqui se porta com enorme decência, como é suposto um vice-presidente e como teria sido suposto um presidente normal ter feito no final do mandato, que é assistir à passagem de testemunho. Perdeu, ele fazia parte da candidatura, perdeu, estava lá com dignidade.
O histórico é esse.
Volta a colocá-lo no caminho da candidatura em 2024, com o apoio dos republicanos, acham isso possível?
Independentemente disso, eu acho que ele aqui, apesar de tudo, assume algum risco, porque isto coloca alguma distância entre ele e o Trump e, portanto, potencialmente a base trumpista que ele cultivou durante algum tempo. Eu acho que é importante sublinhar que o Mike Pence é realmente um republicano bastante conservador e que não tem receio, portanto, de chocar ou de assumir posições que não são nada mainstream. Agora, realmente, eu acho que isso ainda torna mais importante a atitude que ele tomou desde logo no próprio dia 6 de janeiro, ou seja, de recusar, no fundo, assumir uma autoridade completamente anticonstitucional, ilegal e, portanto, entrar naquela jogada, que podia ter levado, de fato, a uma espécie de golpe, um auto golpe, como fez no Brasil, para assegurar ao presidente Trump que ele continuaria no poder. Enfim, parece incrível, mas não era completamente impossível. Passamos ali por momentos em que tudo pareceu possível. Depois enfrentou corajosamente aquela turba. Nestas últimas semanas, no fundo, de acordo com aquilo que diz a imprensa, tem sido ele a assegurar as funções da presidência, na resposta à pandemia, nalguma transição de pasta, na organização da segurança em Washington, etc. E, sobretudo, também este lado simbólico, que é ele pode estar radicalmente no polo oposto, em termos ideológicos, dos democratas mais à esquerda, do Joe Biden, da Kamala Harris, mas é alguém que respeita, de fato, as regras, respeita a Constituição, respeita os princípios de um Estado de direito democrático.
Margarida, nós temos pouquíssimo tempo, nós temos mesmo que avançar. Tu tens só aqui um donut também para Kamala Harris, muito rapidamente, por favor.
Sim, muito óbvio. Mas eu sou uma grande fã da personalidade da Kamala Harris, acho que ela tem realmente um star power, que demonstrou mais uma vez hoje. A sua presença não só foi simbólica pelo fato de ser a primeira mulher a ter este cargo, mas demonstrou pela sua presença que tem um futuro na política, diria eu. Já tem o presente.
Então eu sugiro que vamos rapidamente para o Sarah Palin desta semana. Eu vou muito rapidamente dizer o meu, nem o vou descrever. Eu aconselho a ouvirem a banda sonora da despedida de Donald Trump no aeroporto, na base, antes de partir no Air Force One. Uma dica, meteu YMCA, meteu Frank Sinatra e também houve lá Don't Stop Believing, que pra mim é sempre Glee, e portanto eu aconselho a ouvir aquela banda sonora surpreendente. Mas Bruno, tu queres destacar no Sarah Palin o regresso das estrelas a D.C.
Sim, é um título do Washington Post. Era exatamente esse, o regresso das estrelas. Aqui as estrelas, obviamente, no sentido da Lady Gaga, da J-Lo. Obviamente, eu não tenho nada contra as estrelas. Acho que, aliás, as bandas sonoras vão provavelmente melhorar bastante com o novo presidente. E, sobretudo, não vai haver problemas dos artistas não quererem que as bandas sonoras sejam usadas, que foi um problema recorrente durante as campanhas e o mandato do presidente Trump, que era os artistas envolvidos não queriam que ele usasse as suas melodias, as suas músicas, mas eu acho que os democratas têm que ter aqui algum cuidado, ou seja, realmente esta ideia e as próprias estrelas também, alguma humildade, seguir o exemplo do próprio Joe Biden, alguma humildade, porque esta ideia de uma espécie de democracia liderada a partir de Hollywood, além de não parecer em si mesma uma boa ideia, parece também suscitar bastantes reações, no fundo, alimentar estas reações populistas, muita da base do Donald Trump. A ideia de que não vai ser Hollywood que vai ditar o futuro da América. Portanto, eu acho que aqui há que ter algum cuidado com esta ideia do star power, do poder das estrelas.
Mas também não é propriamente inédito vermos estrelas em tomadas de posse.
Sim, claro, eu não estou a questionar isso. Acho que talvez este título seja indicador aqui de uma ideia de um regresso à normalidade, que eu esse acho que talvez seja mais ter algum cuidado, ter alguma humildade. Ou seja, aquela ideia de que o artista, uma estrela, pode botar faladura, e isso é uma grande mais-valia também para a própria presidência do Joe Biden. Isso não parece ser algo a seguir. Agora, obviamente, estes movimentos musicais sempre existiram, não é? Nestas cerimónias. Por aí, tudo bem. Enquanto estão a cantar, tudo bem.
E nisso, Bruno, ficou bem a ver também um cantor country, não só os mais próximos do universo Hollywood, mas um cantor country para ir à alma da América, aquela que eventualmente estivesse mais distante.
Sim.
Meus caros, chegamos ao final deste Café América especial. Nós voltaremos na próxima semana com mais notícias e mais comentários dos Estados Unidos.