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O que dizer de um ano que parece que foram quatro ou cinco? Em 12 meses, os Estados Unidos tiveram um impeachment ao presidente, foram e continuam a ser um dos países mais afetados pela pandemia, votaram e decidiram mudar o inquilino da Casa Branca. É certo que dito assim, parece que até foi tudo muito simples. Só que não. No Café América desta semana, já se vê, estaremos dados a balanços com prêmios especiais e de ouro, e vamos também olhar para 2021 e para o que pode trazer. Daqui a um ano, logo vemos se alguém acertou. Os futurólogos, os andingas de serviço, serão o Bruno Cardoso Reis, o João Diego Barbosa e como sempre, o João de Almeida Dias. Eu sou a Sara Antunes de Oliveira, vamos ao Underwood de ouro de 2020. Tivemos aqui uma trabalheira este ano. Qual foi a coisa mesmo má este ano que tenha marcado qualquer país do mundo? E acabamos no nosso longo debate por escolher a pandemia. Bruno Cardoso Reis, sobretudo no caso dos Estados Unidos, a forma como Donald Trump geriu esta pandemia.

Sim, acho que foi um prêmio relativamente fácil de consensualizar. Realmente, o vírus transformou a vida de todos, a todos os níveis, estragou a festa de fim de ano de muita gente, mas também teve um enorme impacto, desde logo na economia global e na economia norte-americana. E acho que é bastante provável que tenha sido decisiva naquilo que acabou por ser a derrota do presidente Trump. Que há um ano estava, de facto, a fazer já a campanha com base numa economia que continuava a crescer e a criar emprego.

E provavelmente com perspectivas muito melhores em termos eleitorais.

Exatamente. Nós sabemos que historicamente, um dos fatores que ajuda a prever se um presidente americano será reeleito ou não, e neste século só quatro é que não foram, portanto a regra, como aliás acontece em Portugal também, é um presidente ser reeleito, mas se enfrenta uma crise econômica bastante séria, isso torna-se bastante menos provável. Começando logo com o presidente Hoover e a Grande Depressão nos anos 20. Acho que esse é um fator muito importante. Além disso, acho que no fundo, a pandemia também ajudou a mostrar o pior do Donald Trump, sobretudo para aqueles eleitores mais moderados, para os republicanos também mais moderados ou mais tradicionais, que realmente foi esta completa indiferença aos fatos, a hostilidade em relação aos peritos e, como consequência disso, uma enorme dificuldade em desenvolver políticas públicas eficazes. Neste caso, acho que ficou evidente que estes mais de 300 mil mortos devidos à pandemia, no caso dos Estados Unidos. Enfim, acho que toda gente percebeu que gerir uma pandemia é extremamente difícil e que haverá sempre mortos e que haverá períodos de maior dificuldade, mas parece também relativamente evidente, no caso dos Estados Unidos, a situação foi muito pior, porque realmente o presidente Trump recusou-se a valorizar, a dar a devida importância a esta crise, a este desafio, dar a devida importância aos conselhos dos peritos, recusou-se durante imenso tempo a usar uma máscara e, obviamente, tudo isso acho que ajudou a minar a sua margem eleitoral e realmente numa eleição que acabou por ser bastante disputada e decidida por uma margem razoável em termos do voto popular, mas não tão grande assim naqueles estados decisivos que realmente decidem a eleição nos Estados Unidos, isso provavelmente terá sido fundamental.

João de Almeida Dias, quando falamos sobre isso antes do programa, tu destacavas até aquela questão da lixívia, que é uma questão simbólica. Presumo eu que é porque Donald Trump não se limitou só a ignorar a gravidade da pandemia, mas às vezes até se propôs a fazer sugestões que envergonhavam até os especialistas que os acompanhavam naquelas conferências de imprensa.

Sim, eu acho que em relação à gestão da pandemia, sobretudo numa fase inicial, é difícil criticar a maior parte dos líderes em toda a linha, e aí até incluiria Donald Trump, no que diz respeito à gestão em si. O problema é a mensagem. Para mim, o problema foi a mensagem. E Donald Trump, com essas conferências de imprensa diárias, que no fundo se tornaram um substituto aos seus comícios, acabou por criar vários danos à sua imagem e, mais importante do que isso, acabou por espalhar informações falsas, acabou por desinformar muitas pessoas e também, como é costume em muitas questões nos Estados Unidos hoje em dia, acabaram também por polarizar a sociedade em torno da questão da pandemia. Mas nessas conferências de imprensa, Donald Trump disse verdadeiros disparates, como por exemplo, dizer que a pandemia desapareceria por milagre em determinado dia. Também disse que na Páscoa a questão estaria resolvida e que as igrejas estariam cheias. E depois, mais à frente, teve a tal conferência de imprensa em que disse que as pessoas até poderiam injetar lixívia. Depois quando foi escorraçado nas redes sociais e tudo mais, acabou por dizer: "Aquilo era ironia, vocês é que não perceberam", mas a verdade é que essas conferências de imprensa foram interrompidas depois dessa tirada. Portanto, alguma coisa se quererá dizer.

Portanto, isso foi um desenvolvimento infeliz e que acabou por, como eu disse, polarizar a sociedade norte-americana em relação a esta questão. Eu acho que isto não ajudou em praticamente nada.

Eu só discordo de ti quando tu dizes que não tem propriamente a ver com a gestão, porque numa pandemia, e nós também vemos muito isso em Portugal, por exemplo, em que grande parte do sucesso das medidas depende do bom senso das pessoas e das medidas que as pessoas impõem a si próprias e dos seus comportamentos, a mensagem pode não ser tudo, mas é muito.

Sim, a mensagem é muito. Mas eu, por exemplo, não incluo aqui a gestão na sua totalidade, porque os Estados Unidos não são exclusivos nisto, mas são ainda assim um bom exemplo. A vacina hoje em dia existe, nós estamos a falar disso hoje em dia, já nas últimas semanas e agora já como uma certeza que até já corre nas veias de alguns de nós. E, portanto, é importante também sublinhar que a gestão não é desastrosa a todo o nível. Agora, do ponto de vista da mensagem, pra mim o desastre foi total. E depois acabou por levar uma polarização que depois até foi bater no outro lado, ao exemplo de Kamala Harris no debate dos vice-presidentes, que comete também, pra mim, uma calinada total ao dizer que não toma a vacina se ela for recomendada por Donald Trump. Ora, não é Donald Trump que faz a vacina, são especialistas, precisamente aqueles que toda gente disse que Donald Trump não estava a ouvir. E, portanto, esta polarização acabou por existir dos dois lados, mas a verdade é que quem está atrás do pódio da Casa Branca é Donald Trump e aí a culpa é praticamente toda dele.

João Diego, tu vês mais problemas na gestão ou na mensagem?

Não, eu sou uma pessoa muito prática e, portanto, prefiro focar na gestão. Eu acho que há aqui mais camadas ainda. Em geral, eu concordo com o que disse tanto o Bruno como o João, mas a verdade é que por um lado temos que compreender o modelo de governo da América, o modelo constitucional, e pôr mais alguma responsabilidade nos dirigentes e nos líderes locais e regionais. Estou a lembrar-me aqui de Nova York, com o célebre governador Cuomo, ou até na Califórnia, com o Gavin Newsom, dois democratas, que não eram negacionistas, mas que tiveram muitos problemas na gestão da pandemia. E depois eu queria reforçar um ponto que acho que ia fazer no Café América, mas que me parece muito importante, porque à primeira vista uma pandemia seria a situação ideal para o candidato Trump em 2016. Temos um vírus que vem do estrangeiro, que aconselha fechar fronteiras, a fechar as pessoas em casa, a haver uma centralização do poder, a haver uma série de decretos que muitas vezes ultrapassam as legislaturas. E o que nós tivemos por parte de um presidente que até tem fobia de germes, foi negar a questão, foi ser incapaz de apoiar um plano corajoso para recuperar a economia. E, portanto, eu acho que, se alguma coisa, a maior desilusão política que vem da mensagem de Trump foi a incapacidade de aproveitar um evento, uma situação que parecia talhada pra ele e talhada pra sua marca muito especial de política. Isso foi uma desilusão.

E esta fala com isso. Força, Bruno.

Não, eu acho que aí realmente entre este lado populista do presidente Trump, populista não apenas na retórica ou na campanha, mas realmente, efetivamente populista na governação. Ou seja, é um presidente que está em permanente guerra com a sua própria administração, com o Estado, com os organismos públicos, e portanto isso aqui teve um custo muito elevado. Agora, eu também acho que realmente a Kamala Harris cometeu um erro, ou seja, todo o investimento que foi feito nas vacinas e em que o presidente Trump insistiu muito, realmente fazia todo sentido e o próprio presidente Biden percebeu isso e no fundo nunca alinhou nesse tipo de retórica. Eu também estou completamente de acordo, que não era fácil gerir isto. É evidente que todos os governos cometeram alguns erros. A própria Coreia do Sul, que foi durante muito tempo apontada como exemplo, até por mim, agora está com algumas dificuldades. Agora, o problema todo eu acho que realmente está nessa postura, porque aquilo que dizia, por exemplo, o João Diego, é verdade, os governadores têm aqui um papel crucial. Mas foi o presidente Trump que disse: "Isto não tem importância nenhuma, resolve-se daqui a um mês, resolve-se daqui a 15 dias, injetem lixívia." Ou seja, realmente é difícil dizer que ele teve aqui uma postura eficaz ou séria, não é?

E isso pode ter tido um impacto muito grande no tema do donut de ouro de 2020. Donut de ouro de 2020 para as eleições, o resultado eleitoral, mas João de Almeida Dias, começamos pelo topping assim mais doce, que é a enorme participação nestas eleições.

Sim, eu acho que pode ter uma leitura positiva do ponto de vista mais otimista, em que podemos ver que foram criadas várias maneiras das pessoas votarem em contexto de pandemia. Portanto, nas eleições que decorrem no ambiente em que as pessoas não podem ou não devem sair de casa, acaba por haver uma participação recorde em termos absolutos e em termos de taxa de participação bastante alta. Foram 67,7% de participação, que é a participação mais alta desde 1900. Portanto, não é coisa pouca. Claro que depois também há o lado negativo disto tudo, e não posso ignorá-lo, e que esta participação surge precisamente como um sintoma da gravidade e da seriedade do momento. Mas isso as pessoas fizeram o que entenderam e votaram. Oitenta e um milhões votaram em Joe Biden, fazendo dele o presidente

Eleito com mais votos desde sempre e Donald Trump também teve 74 milhões de votos, fazendo dele o presidente em funções com mais votos de sempre. Só que 74 é menos do que 81 e, portanto, em relação a isso, não há nada a fazer.

Tu falavas que as razões provavelmente por trás desta participação têm a ver não só com a pandemia, mas também com a enorme polarização, que não é propriamente uma novidade nos Estados Unidos, mas que foi potenciada nos últimos meses. Bruno, esse será um lado menos doce deste donut, que é o fato da polarização não ter propriamente terminado com este resultado.

Sim, eu escrevi, aliás, um texto relativamente longo para o Observador um pouquinho neste tema, das divisões nos Estados Unidos.

Bastante longo, Cardoso Reis.

Obrigado. Mas tem uma longa história. Essa parte não sei, mas é fácil pelo menos concordarmos neste aspecto, que há aqui uma longa história de divisões. Agora, elas realmente têm se acentuado e, sobretudo, parece-me que se têm acentuado muito ao nível da elite política. Quer dizer, temos este extremo de ter um presidente que não aceita o resultado das eleições, dirigentes importantes do Partido Republicano que demoram a aceitar esse resultado ou até alguns que colaboram, sobretudo mais de segunda linha, é verdade, mas colaboram nestas teses da conspiração e em tentativas de subverter o resultado eleitoral de forma completamente espúria. Basta dizer que houve 70 casos em tribunal, nenhum, e muitos deles decididos por juízes conservadores nomeados pelo próprio presidente Trump ou por outros presidentes republicanos, e não reconheceu nenhum valor a essas tentativas, mas realmente isso ilustra bem este problema de base, que é: o presidente Biden, presidente eleito, conseguiu, apesar de todos os problemas e das limitações que ele terá, e certamente há aqui enormes expectativas que serão em parte desiludidas em relação ao presidente Biden, mas ele conseguiu, de facto, uma coisa notável e muito difícil, que foi derrotar o presidente Trump, derrotar um presidente que está a lutar pela reeleição, como eu disse, só aconteceu quatro vezes nestes últimos 100 anos, portanto, é difícil. E de facto, derrotar um presidente como o presidente Trump, que como referiu o João Almeida Dias há pouquinho, é realmente um enorme mobilizador de pessoas. Foi o derrotado com mais votos na história norte-americana. Esse feito é de facto enorme, é muito significativo e merece ser aqui destacado. Agora, isso não resolve este problema, que é: o presidente Trump não perdeu assim por tanto, os republicanos até recuperaram alguns lugares na Câmara dos Representantes e parecem ter uma possibilidade muito séria de manter a maioria no Senado, embora uma maioria muito ténue. Isso significa que realmente o presidente Biden vai começar o ano 2021 com uma vitória eleitoral, mas com uma vitória relativamente curta, e dificilmente terá aquele período de graça que geralmente acontece no pós-eleições. Porque também toda esta estratégia do presidente Trump de contestar as eleições tem um lado delirante, mas tem um lado também de instinto político, que é, no fundo, minar a legitimidade e realmente esta ideia de que é preciso reconhecer a derrota e, portanto, dar algum espaço ao novo presidente para assumir funções. Isso, no fundo, não vai acontecer. Parece difícil vir a acontecer neste clima.

Nós já não temos mais tempo para continuar aqui neste donut. Temos que seguir rapidamente para o disparate do ano, que também não foi difícil de encontrar. Vamos ao Sarah Palin de ouro de 2020. João Diego Barbosa, Rudy Giuliani, o homem e o mito.

Quem mais? Não podia ser outra a figura do ano da Sarah Palin. Rudy Giuliani teve um grande ano, ao contrário de todos nós. Para além do seu conhecido apoio ao presidente Trump, teve, na segunda metade, uma série de episódios e eventos que o elevaram à categoria de mito, exatamente. Primeiro, com uma aparição no filme "Borat", em que aparentava estar a seduzir uma menor de idade. Depois houve uma grande confusão e uma deslealdade do lado do cinematográfico que provou que não era bem assim. Depois teve o grande momento do Four Seasons Total Landscaping, que eu vou deixar para o João, que é um especialista. A tinta a escorrer do seu cabelo numa conferência de imprensa, as idas a tribunal pagas a peso de ouro, em que parecia um advogado formado na escola da vida. Enfim, foi tão grande a presença do Rudy Giuliani, que, em primeiro lugar, eu gostaria de sugerir que para 2021 este prêmio passasse a ser o Prêmio Rudy, parece-me justo. Mas também gostava de usar Giuliani como uma metáfora para os republicanos, porque este foi o homem que, depois dos atentados do 11 de setembro, liderando a cidade de Nova York, conseguiu unir os nova-iorquinos, conseguiu conquistar o apoio até nacional e durante muito tempo parecia um candidato líder para vir a enfrentar umas presidenciais a partir dos republicanos e chega agora a 2020 num estado muito mau, como palhaço mais do que como líder e como herói. E eu acho que essa é uma boa imagem do que aconteceu ao Partido Republicano neste século, e é muito triste

João de Almeida Dias, aquela conferência de imprensa num parque de estacionamento de uma empresa de jardinagem é simbólico.

Foi excelente. Em frente a uma empresa de jardinagem com o nome de hotel de luxo, ao lado de uma loja de brinquedos sexuais. Foi um grande momento que decorreu, por sinal, no preciso momento em que era anunciada a vitória de Joe Biden. Portanto, acho que foi bastante sintomático das duas velocidades a que muitas vezes estas questões operam. Eu acho que o João fez um ótimo resumo, mas há uma questão também importante, é que o Rudy Giuliani esteve na origem do impeachment de Trump. Portanto, estamos a falar de um homem que correu o ano de uma ponta à outra, tudo em coisas que correram realmente mal.

Sempre com disparates, mas também sempre com disparates muito leais, isso é bom de dizer, nunca falhou. Termina aqui a primeira parte do Café América, voltamos já a seguir às notícias. Segunda parte do Café América desta semana. Já fizemos o balanço de 2020, temos agora de olhar para 2021. É uma espécie de futurologia, é verdade, mas também não é assim tanto. Bruno Cardoso Reis, nós sabemos que no dia 5, na Geórgia, há eleições, isso pode condicionar e muito aquilo que vai acontecer a partir da Casa Branca, tendo ou não o Senado consigo. Mas o que tu antecipas que podemos esperar de uma presidência Biden já no próximo ano?

Eu acho que, desde logo, temos de esperar uma presidência muito concentrada nas questões internas norte-americanas e, em particular, no impacto da pandemia, na gestão ainda da questão sanitária e toda a questão das vacinas, que terá de continuar, sempre com as incertezas que também vamos partilhar com os Estados Unidos sobre novas vagas, novas estirpes, eficácia da vacina, etc. Depois temos a questão econômica, de gerir esta crise econômica como resultado da pandemia. Em termos das ações mais internas, eu acho que a questão de quem controla o Senado vai ter aqui um peso muito importante, embora seja verdade que mesmo que os republicanos ganhem os dois lugares da Geórgia, que vão estar agora em jogo, apesar de tudo, será uma margem curta e há alguns senadores republicanos moderados, o Mitt Romney é talvez o mais evidente, que é o que tem estado mais notícias, mas há alguns senadores moderados republicanos que poderão eventualmente ser susceptíveis a um presidente democrata, que apesar de tudo também é um moderado e que tem muita experiência do Senado, é um senador com muitas décadas de experiência. Mas eu acho que aí a ação do presidente Biden, por um lado, vai ser muito importante e vai ser aquilo que sobretudo os americanos vão estar a ver, mas vai estar relativamente limitada, de facto, por efeito desta enorme polarização. Em termos externos, ele tem mais margem de manobra e aí temos alguns desafios que vêm também de trás, a questão da gestão da relação com a China, a questão da recuperação das relações com os aliados. Teremos de ver se o presidente Biden virá a uma cimeira da NATO, se fará uma cimeira com a União Europeia, que foi uma tradição que se perdeu um pouco, por razões compreensíveis. Aliás, já com o presidente Obama até. Há esta questão da Cimeira das Democracias também, que tem alguns problemas, exatamente o que é uma democracia hoje em dia, inclui-se a Hungria e a Índia, as Filipinas ou não. Portanto, também será um teste, no fundo, essa agenda dele de utilizar esta ideia de solidariedade das democracias. E depois há as questões também do clima. O ano vai terminar com uma nova cimeira do clima em Glasgow. É um dos vários eventos de 2020 que foram adiados para 2021, e portanto isso também será um teste, até que ponto é que o presidente Biden irá, não só formalmente voltar ao Acordo de Paris, mas em termos do que ele irá propor mais concretamente, e também se toda esta tensão crescente entre os Estados Unidos e a China, que não irá desaparecer com o presidente Biden. Isso é realmente uma coisa relativamente consensual nos Estados Unidos atualmente, até que ponto isso irá permitir também avanços e colaboração nalgumas áreas importantes a nível de lidar com problemas globais, desde logo a questão da pandemia, mas também esta questão das mudanças climáticas e da transição energética.

Sobre esse último ponto, há uma enorme expectativa por causa do regresso ao Acordo de Paris, que Biden prometeu que aconteceria caso fosse eleito, mas sobretudo também com a dúvida sobre quanta energia e quanto tempo e qual a prioridade que Joe Biden vai dar realmente para já a essa questão, porque nós também falámos sobre isso ao longo das últimas semanas aqui no Café América, sendo verdade que Joe Biden começa o seu mandato numa altura em que a pandemia avança para a sua resolução, ainda que não imediata, mas com as vacinas já nos Estados Unidos, com a imunidade a chegar ao país, ainda que lentamente. Isso é ótimo para o presidente que começa o seu mandato, mas ainda terá de lidar muito e durante muito tempo, provavelmente, com os efeitos de tudo isto na economia, sendo verdade que a economia dos Estados Unidos não reage, não responde exatamente como todas as outras economias do mundo, mas será um problema grande que ele terá de resolver durante muito tempo. E tendo tanta necessidade de estar a olhar para dentro, se Joe Biden vai ter, de facto, capacidade de pôr o mesmo nível de prioridade e o mesmo nível de energia em questões como o clima, por exemplo, ou até mesmo nas relações exteriores. Há também toda a expectativa na relação com a Europa e no refundamento da aliança do eixo atlântico, mas eu confesso que não tenho bem a certeza de que isso se consubstancie, apesar de agora os Estados Unidos até terem vindo dizer algumas coisas e a própria equipa de Biden sobre o acordo da Europa com a China. Eu tenho algumas dúvidas que isso se consubstancie em alguma coisa concreta ou realmente importante, pelo menos neste início de mandato, porque eu acho que Joe Biden vai estar necessariamente tão focado nas questões internas que dificilmente vai poder prestar a mesma atenção às outras questões que lhe possam parecer mais paralelas.

Sim, eu concordo muito com essa análise. No fundo, acho que esse será o desafio. Apesar de tudo, é verdade que ele tem uma equipe muito experiente, sobretudo nesta parte externa, ele próprio também tem aí muita experiência, e apesar tudo, é uma área em que ele tem mais margem de manobra do que na área interna. Em que realmente, como nós fomos percebendo, aliás, com o presidente Trump, o Congresso, o Supremo Tribunal, têm realmente uma enorme capacidade de bloquear a ação do presidente. Mas no campo externo, apesar de tudo, é um pouco mais fácil. Agora, há aspectos que se cruzam e, por exemplo, aí na questão das alterações climáticas ou de energia. Independentemente da energia do presidente, a questão da energia é crucial. Há um lobby muito forte, por exemplo, das indústrias da energia e sobretudo da indústria petrolífera e do fracking também, daqueles novos métodos de extração de gás natural, etc. E, portanto, isso vai ser realmente um desafio, sobretudo se ele não tiver realmente grande margem de manobra no Senado e no Congresso, como parece ser bastante provável. E, portanto, ele até pode regressar a Paris, mas depois em termos de implementar coisas internamente, sobretudo que impliquem mudanças de legislação ou grandes investimentos, vai ter que ter algum apoio, em princípio, do Congresso e, portanto, aí as coisas serão mais difíceis.

Eu achei que há a questão do Senado, que é a única que nós não temos agora estabelecida, porque vai depender tudo das eleições do dia 5 de janeiro na Geórgia, que vai determinar se há uma maioria republicana, portanto, se se mantém uma maioria republicana ou se passa a haver uma maioria democrata ali, e acho que muito vai passar por aí. O que eu temo nesta situação é que, de uma maneira ou de outra, vai haver um agenda setting feito aos extremos. Ou seja, eu acho que se o Senado se mantiver na mão dos republicanos, parece-me que vai ser difícil a Joe Biden fugir aos pontos lançados por uma maioria republicana, que ainda para mais estará motivada pelo ressentimento da derrota que acaba de sofrer, primeiro nas presidenciais e, se for esse o caso, no lado republicano. E depois também, de forma oposta, eu acho que se houver uma maioria à esquerda, também é muito provável, ou é pelo menos possível, que haja um agenda setting feito à esquerda do Partido Democrata. E já isto até fora do Senado, mas dentro do Senado podemos olhar, por exemplo, pra Bernie Sanders, que acabou por não ter nenhuma conquista, nenhuma concessão na parte da formação do governo de Joe Biden, ou então até fora do Senado, mas no outro lado do Congresso, na Câmara dos Representantes, por personalidades como a Alexandria Ocasio-Cortez. Portanto, eu acho que isso vão ser tempos muito para o extremo, e não sei até que ponto é que Joe Biden se vai manter muito ileso ou se consegue, de todo, manter-se ileso neste seu caminho pelo centro. Não quer dizer que não tente ir por aí, acho que a equipe dele, os nomes que propôs, e a sua própria experiência já de vários anos em Washington demonstra isso. Ele é uma pessoa que vai pelo centro, é um moderado. Agora, o debate à volta dele não parece que venha a acalmar, dê por onde der no Senado e nas eleições de 5 de janeiro.

Esse é o ponto fundamental, não é, João? Porque, de certa forma, Joe Biden parece um presidente de outro tempo e um presidente que contraria o espírito deste tempo. O que pode fazer um moderado, um homem branco, septuagenário, perante um partido democrata que quer a juventude, quer o socialismo, quer a ecologia radical e, do outro lado, quer qualquer pessoa que não seja um democrata? Portanto, eu acho que Joe Biden tem muito pouca margem na política interna. Eu sou um grande cético em relação às eleições da próxima semana na Geórgia. Eu acho que os republicanos vão manter a maioria no Senado. Esta se calhar é a primeira previsão errada deste programa. Ofereço. Mas eu acho que sim, acho que os republicanos vão continuar com a maioria no Senado e nas eleições intercalares. Normalmente, o partido que se opõe ao presidente costuma alcançar uma vitória substancial e isso vai criar grandes dificuldades. Portanto, eu acho sempre que um presidente tem um ano, um ano e meio para pôr em prática as grandes prioridades do seu plano, e eu tenho dificuldades em imaginar quais serão aquelas que o Joe Biden pode executar. Talvez um plano de estímulo à economia, construção de infraestruturas com uma vertente forte ambiental, mas acho que vai ser sempre muito difícil, porque neste momento aquilo que une o Partido Democrata é Donald Trump. E se Donald Trump eventualmente sair da rivalidade, o que é que sobra? Qual é a cola que consegue unir, por um lado, os democratas e, por outro, aqueles votos que são necessários do lado republicano para se fazer uma grande reforma do país? Eu acho que é muito impossível, até porque há demasiados anos que o sistema político americano está parado, está mal construído e não funciona. E, portanto, eu acho que a vertente externa pode ter uma grande prioridade na presidência de Joe Biden, porque aí o presidente age de forma mais singular e tem hipótese de realmente criar uma mudança no mundo e de poder vender como vitórias conquistas externas. Donald Trump fez isso muito bem. Não nos esqueçamos que Donald Trump, o líder de uma maioria em ambas as casas do Congresso, durante algum tempo, não conseguiu grandes reformas. E tinha uma maioria ao seu lado, e era um presidente popular que depois conseguiu substituir candidatos do Congresso. Portanto, eu vejo com muita dificuldade Joe Biden Um homem que não consegue entusiasmar os mais entusiasmados do seu partido e que vai enfrentar a polarização que existe do lado dos republicanos, possa fazer alguma coisa de substancial na política interna no pouco tempo que tem.

Eu estou muito de acordo, João, mas eu acho que apesar de tudo é interessante esta ideia do Trump, ou seja, eu acho que realmente o Joe Biden tem aqui uma ala muito à esquerda, que aliás já foi muito crítica destas nomeações que considerou excessivamente moderadas pro seu governo. Mas eu acho que há aqui um efeito eventualmente paradoxal. Se o Trump se mantiver muito activo, se houver muitas vozes trumpistas no Partido Republicano, talvez isso obrigue esta ala mais esquerda a pensar duas vezes em criar cisões e fraturas nas fileiras, e eventualmente pode levar alguns republicanos mais moderados a pensar se têm grande futuro no Partido Republicano, e eventualmente a arriscar um pouco com o presidente Biden. Portanto, eu acho que se alguém consegue fazer um pouco esta quadratura de círculo, seria alguém como Biden. Mas eu reconheço que será uma tarefa muito difícil e que é quase inevitável que as expectativas muito elevadas de regresso à normalidade, vamos dizer assim, sejam desiludidas.

Essa era precisamente a minha questão, que é neste caldo todo, qual é o efeito previsível que Donald Trump vai ter? E por Donald Trump, não falo só na pessoa. Nós não sabemos o que vai acontecer nas próximas semanas, o que é que vai acontecer a 20 de janeiro. Não sabemos qual vai ser a postura de Donald Trump a seguir a isso, e não sabemos não é porque ele não tenha tomado posições, pelo contrário, mas porque também sabemos que o que é verdade hoje pode não ser amanhã nas posições de Trump em relação a vários assuntos. Mas eu acho que à primeira vista, eu concordo muito com essa análise do Bruno, porque eu acho que à primeira vista, no meio de todas estas dificuldades, Donald Trump poderia parecer ou poderia ter aqui um efeito muito negativo e ainda mais desestabilizador, mas eu acho que até pode funcionar como um estabilizador e como mais uma razão para serem criadas condições pra Joe Biden ter as coisas facilitadas em alguns aspectos. E esse será um movimento, se acontecer, não vou ser zandinga, ao contrário do João Diego Barbosa, ficará ele apenas com o ônus neste programa. Se isso acontecer, será de facto um movimento extraordinário, porque eu não sei exatamente se Donald Trump tem um plano imediato, mas eu acho difícil. Dizias não tem?

Não tem. Conhecendo Donald Trump, ele não tem planos, mas só me interrompi pra aproveitar, aliás, a interrupção. A maior influência política que Donald Trump teve na sua presidência foi a de controlar os resultados das primárias dos republicanos. E isso vai ser um peso que qualquer republicano no Senado ou na Câmara dos Representantes vai sentir quando tem uma pequena inclinação de apoiar Joe Biden, porque vai ter sempre o candidato trumpista em casa a dizer: "Não votem nele, porque ele é um democrata escondido." Eu acho que isso vai pesar muito, porque Donald Trump não vai desaparecer.

Sim, isso pesa na maioria talvez dos lugares, eu dou-te razão, mas nalguns contextos, realmente, por exemplo, a Susan Collins no Maine, que é um estado que tipicamente é mais moderado, não é um estado republicano típico, ou o Mitt Romney que tem, aliás, até a sua identidade como mórmon, que lhe dá outro estatuto no Utah. Portanto, há alguns casos, sobretudo no Senado, onde eu acho que isso se pode aplicar um pouco menos, mas evidentemente, em grande parte tens razão. Será um factor importante, mas aqui o meu ponto era, sobretudo em termos da coesão dos democratas, eu acho que pode ajudar um pouco o Biden.

Desculpa, eu estava só a dizer, em relação a isso do Senado. Estavas a falar outra vez do Mitt Romney. De acordo com o FiveThirtyEight, o Mitt Romney votou ao lado de Trump 80% das vezes durante o tempo que esteve no Senado.

Mas pronto, exatamente, ele é um republicano.

Ele não deixou de ser republicano, ele só é mais moderado.

Exato. A Susan Collins é precisamente a senadora republicana que menos votou com Trump. Em 66% das ocasiões votou ao lado dele, mas nas restantes votou contra ou absteve-se. Agora, olhamos, por exemplo, também pra John McCain, que já não está entre nós, mas John McCain foi 83% dos lados a votar com Donald Trump. É verdade que lhe bloqueou uma das suas grandes missões, que era acabar com o Obamacare, foi o John McCain que conseguiu isso com aquele polegar para baixo, bastante mítico, eu diria. Agora, eu não sei até que ponto é que o partido republicano agora quer voltar a isso.

A margem de manobra do Biden é muito estreita.

É muito estreita, mas acho que também vale a pena olhar para o Partido Republicano extra a presidência Biden, porque de facto, há questões a resolver naquele partido. Quando Barack Obama foi eleito, começou a formar-se aí aquilo que veio a ser conhecido como o movimento do Tea Party, que depois acabou também por desembocar um pouco nesta atual corrente do Partido Republicano Isso surge numa altura em que há uma clara sensação de derrota dentro do Partido Republicano, como quem diz: "Isto não resultou daquela maneira, vamos radicalizar o discurso, vamos mudá-lo." E naquele caso era radicalizar, porque partiam de John McCain. A minha questão aqui é só que não me parece que haja forças suficientes dentro do Partido Republicano para dizer: "Vamos agora puxar as coisas um bocadinho mais para o centro." Eu acho que esta facção do Partido Republicano, mais populista, mais de demagoga, se sente vitoriosa, apesar de tudo, e portanto vai ser complicado controlar um pouco este animal agora que ninguém sabe muito bem o que fazer com ele.

A questão é que eu acho que essa facção também é um bocadinho prejudicada, parece-me, e também já não estará inteiramente confortável com a posição que Donald Trump tem tomado nas últimas semanas.

Desculpa, Sandra, uma coisa é, por exemplo, a capa do New York Post, estávamos a comentar antes do programa. Que o New York Post, um jornal que sempre apoiou Donald Trump, diz: "Por favor, pare com isso." Ou, por exemplo, também a parte editorial e não de opinião da Fox News dizer isso. Ou seja, vamos reconhecer Joe Biden como presidente. Uma coisa são essas instituições que, apesar de tudo, nas suas partes mais editoriais, conseguem ter alguma sobriedade. Eu acho é que já há muito pouca sobriedade neste meio. E mais, surgem outros meios, outros ângulos que não são sóbrios nem de origem, nem nunca passarão a ser sóbrios daqui para a frente.

A capa do New York Post, deixa só apontar para um detalhe da capa. É que a capa do New York Post diz: "Pare esta loucura, senhor presidente. O senhor perdeu as eleições. Aqui está a forma de salvar o seu legado." Quando eu falava dessa facção populista dentro do Partido Republicano, não sei se não há já a preocupação de se estar a destruir todo e qualquer legado possível, não só de Trump, mas precisamente essa facção.

Isso tudo é um jogo muito arriscado, porque não reconhecer os resultados das eleições cria grandes problemas em termos da transição pacífica de poder e do funcionamento de um sistema democrático normal, em que os republicanos também têm expectativas legítimas de ganhar de vez em quando. Portanto, eu acho que essa é realmente uma questão, apesar de tudo, um pouco tinta. Mas eu percebo muito os vossos pontos. No fundo, a minha questão é: quais são as implicações disso para o Partido Democrático? Ou seja, vai levá-lo a radicalizar-se mais e a fragmentar-se mais ou a construir um certo consenso, uma espécie de geringonça à americana, se quiserem, para evitar o regresso do papão do Trump? E também o que é que vai acontecer aos moderados, que não são muitos, mas são alguns do Partido Republicano e também entre os eleitores, aqueles votos dos subúrbios que acabaram por decidir a eleição a favor do Joe Biden. E portanto, no fundo, é perceber se há a imagem, apesar de tudo, dentro do Partido Republicano, para eles se manterem como um pouco um pivô, se vão acabar por se aproximar do Partido Democrático. Isso já aconteceu algumas vezes no passado. Haver aqui viragens de filiação de eleitores, etc.

Bruno, só dizer que não é evidente qual é o incentivo para um moderado republicano votar em prioridades da extrema-esquerda, vamos dizer assim, americana, porque como o João dizia, eles votam sempre contra, provavelmente.

Sim, certamente não vai acontecer. Mas pronto, temos o Biden, que é mais moderado. Mas a margem de manobra é bastante limitada.

Vem por aí seguramente um ano estreito para Joe Biden. Aqui estaremos daqui a um ano, agora vamos ter mesmo que estar, está marcado, para perceber exatamente o que é que aconteceu. Meus caros, bom Ano Novo. Bom Ano Novo também aos ouvintes do "Café América". Nós voltamos na próxima semana.

Bom Ano Novo.

Bom Ano.