Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Está enviado o primeiro sinal a Teerão. As milícias pró-iranianas da Síria foram alvo do primeiro ataque militar ordenado por Joe Biden. O Pentágono garante que foi um ataque proporcional, mas também cauteloso. O presidente terá escolhido a opção menos capaz de fazer escalar a tensão. Mais uma forma de dizer que Biden não é Trump, que voltou à cena pública este fim de semana no encerramento do CPAC, o congresso anual dos conservadores nos Estados Unidos. Sem surpresas, insistiu na tese da fraude eleitoral e previu o regresso em grandes de um republicano à Casa Branca em 2024. Quem será ele? Mas aproveitou, sobretudo, para ajustar contas com os republicanos que lhe viraram as costas. Tudo temas para debater no Café América de hoje com o Bruno Cardoso Reis e o Henrique Borné. Eu sou a Sara António de Oliveira, vamos aos prémios. Começamos pelo mau, o Frank Underwood. Henrique, começamos esta semana com algumas tensões entre democratas, democratas de lados diferentes.

Há um lado mau e um lado bom nisto. O lado mau é que, como assistes à bulhas, o lado bom tem que ver com uma coisa que já aqui temos falado mais do que uma vez, que é a ideia de que os dois partidos americanos, republicanos e democratas, são apenas dois partidos, é errada. Isto é, dentro de cada um deles há várias tendências e representam várias coisas conforme a área de onde vêm, da economia ou até regiões do país. E portanto, há uma enorme diversidade entre os partidos. Duas tensões recentes são interessantes. Uma tem que ver com uma promessa que Joe Biden fez. Joe Biden disse que assim que tivesse a oportunidade de nomear alguém para juiz do Supremo Tribunal, leia-se assim que alguém saia ou morra, porque são inamovíveis. São as duas únicas formas, ou sai ou morre, porque são inamovíveis. Joe Biden disse que iria nomear a primeira mulher negra para o Supremo Tribunal. Até aqui, foi uma declaração feita durante a campanha. Há dias, segundo o New York Times, houve uma reunião na Sala Oval em que esteve Biden, esteve Kamala Harris e estiveram alguns congressistas, entre eles, aquele que é considerado Jim Clyburn, que é considerado o mais importante congressista afro-americano. E segundo o New York Times, terminada a conversa que tocou o tema do Supremo Tribunal, à saída, este Jim Clyburn foi ter com Kamala Harris e foi lhe dizer: "Houve ali um assunto que não falámos, mas eu tenho uma ideia de um nome para quem devia ser a primeira nomeada para o Supremo Tribunal." E então sugeriu uma juíza, Michelle Childs, que tinha, segundo ele, três características muito positivas. Era afro-americana, vinha da Carolina do Sul, que era um estado importante para o presidente Joe Biden e, questão para ele fundamental, não vinha das universidades da Ivy League, não vinha das escolas de direito tidas como sendo da elite. E isso para ele era muito importante, porque vinha de uma escola pública. Isto tem que ver, tens assistido noutros sítios, a uma discussão dentro dos democratas. Isto não é só uma preocupação dos democratas de quererem promover pessoas com origens mais modestas ou com percursos mais humildes, mas tem que ver com outra preocupação dos democratas, que é a de que os republicanos, sobretudo os republicanos em estilo Trump, se apresentem como o partido dos descamisados, das classes mais baixas e, consequentemente-

Dos americanos esquecidos e abandonados.

Exatamente. E portanto, que os democratas fiquem com as elites, ou seja, mesmo que seja uma mulher afro-americana, se vier das universidades da elite, não cumpre os requisitos. E portanto, esta é a primeira tensão que começa a surgir. Rapidamente dar conta de outra, não muito original, ou seja, não surpreende muito, mas é duas áreas que são importantes, duas sensibilidades importantes no Partido Democrata. De um lado, os sindicatos, do outro, os ambientalistas, incluindo aqui os empreendedores, os investidores na economia ambientalista. E o que está em causa é que a ala sindicalista quer e tem exigido que as propostas apresentadas para investimento nas energias renováveis impliquem também algumas regras relativamente aos ordenados pagos, a quem trabalha nessas energias, à obrigação do Buy American, portanto, um conjunto de constrangimentos que eles acham que têm que aproximar das regras que são impostas às indústrias petrolíferas, nomeadamente porque são indústrias onde-

Eu creio que perdemos aqui o contato com o Henrique Borné, não sei se o Bruno... Bruno, estás a ouvir-me?

Sim.

O Bruno ainda aqui está. Nós perdemos, de facto, o contato com o Henrique Borné, em que ele explicava nesta altura uma outra dimensão desta tensão dentro dos democratas. A minha sugestão, Bruno, enquanto tentamos recuperar o contato com o Henrique, é que sigamos aqui, até porque já tínhamos percebido a ideia do Bruno para este Frank Underwood. Eu também tenho aqui outro Underwood que tem a ver com o governador Cuomo, governador do estado de Nova York, por causa da polêmica em que ele está envolvido. E eu o escolho para Underwood, não propriamente por causa da questão em si, até porque nós ainda vamos perceber exatamente o que é que aconteceu, e está uma investigação a decorrer, mas por duas razões. Primeiro, pela resposta de Cuomo a algumas daquelas alegações. Ele em relação a uma assessora, aliás, que deixou mais recentemente de trabalhar com ele e que é transferida na sequência das queixas que fez em relação a ele. Ele não negar nada daquilo e depois dizer que não se tinha apercebido de que o comportamento dele podia ser interpretado daquela forma. Acho difícil que depois de tudo o que aconteceu nos últimos anos e o movimento Me Too, que uma pessoa como Cuomo-

Onde é que ele estava a morar, não é? Parece que era em Nova York.

Não se tenha apercebido de que perguntar detalhes da vida sexual a uma assessora ou perguntar-lhe se ela tem saudades de um abraço e se teria uma relação com homem mais velho, que isso poderia ser interpretado. De facto, onde é que nós andamos com a cabeça? Esta gente também pensa qualquer coisa. Mas além disso, pela incoerência das posições, porque isto acontece, há já três mulheres a falar sobre isto. Uma delas diz mesmo que foi beijada à força por Cuomo, que ele tentou beijá-la. E se isto fosse há uns cinco anos, nós já tínhamos uma data de democratas a rasgar as vestes E não estão. Já tínhamos uma data de democratas a pedir o afastamento de Cuomo, e não estão. E é interessante olhar para isto e pensar, reparem, mais uma vez, eu não estou a falar sobre a veracidade das alegações, não tem nada a ver com isso, mas também não era esse o debate há cinco anos.

Exatamente.

Bastava que houvesse esse tipo de coisas para vermos este movimento. E agora não aconteceu nada.

Aquele senador Al Franken, que era humorista, ainda por cima tinha essa desculpa para fazer disparates. Era um humorista e com base em duas acusações em que as pessoas acharam muito claras que tinham sido episódios relativamente isolados e em que claramente ele estava a fazer uma piada que não tinha grande piada ou que foi considerada inconveniente. Mas isso foi suficiente para ele ser afastado do Senado. Aqui temos claramente uma relação laboral, em todo este contexto, de facto. Agora, nós temos este problema.

Mas isso foi suficiente para ele ser afastado do Senado, mas outras pessoas que apoiaram essa saída, dentro dos democratas, por exemplo, Gillibrand, viu-se também ela própria um bocadinho afastada, porque pediu isso na altura e eu acho que os democratas nunca lhe perdoaram o facto de ela ter sido uma das vozes a dizer que havia um problema com Al Franken e que aquilo não devia ter acontecido. Portanto, eu acho que houve aqui uma mudança nos últimos anos em que tudo o que era verdade há cinco anos em relação ao Me Too, agora deixou de ser. Não sei se a discussão mudou do sexo para a raça e, portanto, agora já não é uma prioridade. Não faço ideia, mas não consigo compreender esta posição dos democratas em relação ao Cuomo e a isto.

Eu acho que tem muito a ver com o peso político dele e com o receio que no fundo isto possa abrir o flanco aos republicanos. Agora, realmente, quando se entra por este tipo de questões e se acha que tem a ver com posições políticas também, ou seja, que não são simplesmente questões pessoais, é evidente que se tem de ser coerente. Portanto, não se pode estar a pedir uma coisa para uns e outra para outros. E menos ainda quando se trata de figuras do próprio partido.

Com uma nota que eu acrescentaria aqui, eu não me importava que houvesse um bocadinho menos de coerência se houvesse um critério, isto é, se disséssemos: "Ok, a certa altura houve um exagero, já ninguém era apenas suspeito, era imediatamente condenado e portanto, enfim, passou algum tempo e resolvemos começar a gerir estes temas de outra maneira." Mas não, parece ser aqui apenas cálculo político. E isso é que tira valor.

Ainda por mais incoerência com o...

Com o passado, podia ser um sinal de uma mudança positiva.

E de evolução e de melhoria, claro que sim.

Exato. Mas, por outro lado, realmente não parece ser isso, ou seja, parece ser muito em função das conveniências políticas. E por outro, realmente há aqui esta suspeita de que isto tem a ver com o peso do Andrew Cuomo no Partido Democrata, embora eu suspeite que realmente ele está muito fragilizado. E esta questão acho que também não surge por acaso agora.

Certo, surge na altura dos lares.

Surge na sequência de um outro escândalo, na gestão da pandemia e da questão da ocultação de números de mortos em lares. Portanto, acho que ele é, de facto, uma figura bastante fragilizada, agora claramente ainda com bastantes apoios no partido.

Sim, suficientes para pelo menos os democratas terem vindo falar da necessidade de uma investigação, mas não do afastamento de Cuomo, pelo menos nesta fase. Bruno, tu tens também aqui um underwood para o CPAC deste fim de semana e para a repetição das teses falsas de eleições roubadas. Isso nunca vai parar, não é?

Pois, não sei se nunca, mas pelo menos não está a parar e continua a dominar, de facto, a narrativa política das principais figuras do Partido Republicano, com poucas exceções. Esta CPAC é uma conferência anual, pode-se considerar que é um pouco o equivalente a um congresso partidário. Mas é realizada todos os anos e no fundo reúne as principais figuras do Partido Republicano, quer do partido propriamente dito, portanto, senadores, congressistas, enfim, o presidente, quando ele existe, mas também financiadores e figuras ligadas aos mídia também. Agora, o que ficou evidente neste caso foi, por um lado, o Trump realmente continua a dominar completamente o essencial do Partido Republicano. Portanto, foi a grande estrela desta conferência, que foi, aliás, realizada na Flórida para ele não ter que se deslocar assim tanto. Como nós sabemos, ele está agora a residir lá naquele palácio em Mar-a-Lago e, portanto, ele foi a figura central e, de facto, todos os principais oradores fizeram questão de fazer a devida vénia ao Trump e muitos deles realmente reproduziram essas falsidades sobre a eleição ter sido roubada e o próprio Trump obviamente fez isso, e fez isso com grande aplauso dos presentes. E, portanto, eu acho que independentemente de tudo o resto, realmente as pessoas têm direito às suas opções ideológicas. Durante muito tempo achei que as críticas europeias aos republicanos muitas vezes eram excessivas e acho que isso foi validado pelo tempo. Afinal, hoje em dia o Mitt Romney, que era considerado um grande perigo quando estava a concorrer com o Obama, afinal já é um político bastante respeitável. Mas eu acho que realmente isto é uma coisa bastante perigosa e bastante preocupante para a saúde da democracia norte-americana e também para nós, como aliados dos Estados Unidos, porque realmente cria aqui uma disfunção, uma tensão e uma hiperpolarização que, de facto, são muito pouco saudáveis numa democracia.

O que eu acrescentaria aqui, um aspecto para além da questão de fundo que tu referes, e bem, que é o insistir na teoria das eleições roubadas.

Continuamos este jornal com o CoronaVírus, o jornal de notícias está a avançar que o surto chegou a Portugal. São dois

Essa sombra de Trump, que não é uma sombra, é o fantasma de carne e osso, uma espécie de fantasma de carne e osso de Trump, que não larga o Partido Republicano e que claramente faz ameaças aos candidatos republicanos que não lhe prestem vassalagem. A ideia é esta, ele no fundo está a querer manter a pressão sobre o Partido Republicano e diz mesmo que vamos juntar dinheiro para apoiar os que concorrerem contra aqueles que votaram a favor do impeachment, que não reconhecem que as eleições são roubadas. E, portanto, isto parece ir respondendo à dúvida sobre se Trump vai continuar a exercer pressão sobre o Partido Republicano ou não. Vai, claramente, e tem aliados. E isso é um problema para o Partido Republicano.

Isso foi particularmente visível quando ele vai com claramente uma lista para atacar os republicanos a que chama RINOs, os Republicans In Name Only. Nomeia especificamente McConnell e Cheney. Em relação a McConnell, diz que foi ele o responsável pela reeleição dele no Kentucky. Mas quando fala destas pessoas, a dada altura diz: "Livrem-se deles todos, pô-los fora", e consegue uma reação muito entusiasta a esta ideia de quebrar com as pessoas que lhe são antagônicas. Isto devia preocupar os republicanos no sentido daquele longo caminho que antecipávamos que o partido teria de fazer para se reencontrar, para se redefinir numa era pós-Trump. Vejo isso com dificuldade.

Muito difícil. E agora, Sara, se o McConnell tiver ouvido o Café América em que tu lhe deste um Underwood-

Ele devia ter ouvido.

Ele agora dirá: "Em Portugal dou-me o Underwood e em Mar-a-Lago o Trump ataca-me."

Ele devia ter ouvido. Isto podia ter sido evitado.

Mas aqui o que é notável é que nem a Liz Cheney nem o Mitch McConnell estiveram presentes, o líder do partido no Senado, por exemplo, é provavelmente a primeira vez que isso acontece. Claramente, este peso do trumpismo tem a ver, por um lado, com o medo do Trump, ou seja, não é só uma adesão voluntária. Há aqui muita gente mais moderada que tem medo realmente de enfrentar o Trump e desta ameaça que nas primárias, ou seja, naquela eleição interna no partido em que tipicamente muito pouca gente vota e votam sobretudo os mais militantes, realmente alguém mais à direita e com o apoio do Trump acabe por afastar essas pessoas.

E a componente de financiadores é muito relevante, porque o que o Trump quer mostrar quando vai a uma reunião daquelas é que alguns dos principais financiadores dos republicanos estão com ele, e isso é uma ameaça muito grande nas primárias.

Nós já tínhamos dito isso várias vezes, esse era um dos grandes testes, que é: o que os financiadores vão fazer? Houve aqui alguns sinais de que alguns deles mais moderados ou simplesmente mais conservadores e que querem alguma estabilidade, tinham mostrado grande incômodo com o que se passou com o ataque ao Congresso e até mesmo antes, com algumas das acusações do Trump, etc. Mas aparentemente, de fato, pelo menos o essencial dos financiadores continuam do lado do Trump. Aparentemente estão convencidos que é essa a chave para a vitória. Eu acho que apesar de tudo, temos aqui um teste muito importante que realmente serão as chamadas eleições intercalares, as midterms de 2022. Os Estados Unidos, como o Henrique gosta de lembrar, estão quase sempre em campanha. Já se começa a falar disso, é daqui a dois anos, até porque as primárias já vêm daqui a um ano, mais ou menos, mas eu acho que o resultado dessas eleições será muito importante realmente para perceber se o Trump continua a conseguir fazer esta coisa que é praticamente inédita na história norte-americana, que é um ex-presidente que se mantém completamente ativo e quer continuar a dominar a agenda do partido, em vez de permitir uma renovação.

E provavelmente poderá continuar fazendo isso mesmo, como dizia o Henrique, enquanto continuar a representar grande parte do dinheiro e do financiamento que continue a entrar para financiar as candidaturas. Vamos rapidamente avançar para o donut que temos, até porque o Sarah Palin ficará para a segunda parte. Vamos ao donut desta semana. Henrique, eu tenho alguma dificuldade em ver coisas doces sem impostos, mas estou com este.

Eu também. E por isso começo por dizer que não é na questão dos impostos que está a coisa doce, é no gesto. É sobretudo no gesto. Eventualmente, pode ser na questão dos impostos. Resumindo muito rapidamente, temos apenas um minuto. O que interessa é que a ministra das Finanças de Joe Biden, Janet Yellen, disse numa reunião dos ministros das Finanças do G20 que os Estados Unidos estavam prontos para mudar de posição em relação a um tema que tem sido discutido na OCDE, que é a da taxação das empresas da economia digital. Muito rapidamente, aquilo que se tem discutido é se é possível forçar as empresas a pagarem impostos onde geram, onde fazem as vendas, onde têm atividade, ou se continuam a conseguir fazer repercutir os custos ou essas vendas nacionalmente. Durante o período do Trump, havia a promessa de que havia uma espécie de porto seguro e poderiam sempre escolher os Estados Unidos. Janet Yellen veio dizer que vão acabar com isso. Isto é mais do que a questão dos impostos, é um sinal para os europeus que ameaçavam a América de que se isso fosse assim, criavam impostos próprios para as empresas digitais. Eu acho que isto é sobretudo um sinal a dizer aos europeus: "Podemos conversar e nós estamos disponíveis para vos dar algumas coisas que vocês querem."

É uma abertura que será fundamental até no reativar das relações normais entre os dois lados do Oceano Atlântico. Vamos a um intervalo, voltamos já para a segunda parte. Segunda parte do Café América, já percebeu que hoje estamos muito rebeldes e por isso só agora vamos ao terceiro prêmio da semana, o Sarah Palin. Bruno, um Palin para um disparate relacionado com um número com muitos zeros.

Sim, como nós sabemos, os Estados Unidos estão a preparar-se para aprovar um plano de recuperação de quase US$ 2 trilhões, que é um número colossal, é quase 10% do PIB norte-americano. Isso é o segundo plano. O presidente Obama aprovou um plano também em 2020, no ano passado, de quase US$ 1 trilhão. Eu acho que isto tem gerado alguma discussão em torno da questão do perigo de gerar um risco de inflação de regresso aos anos 70 e àqueles picos de inflação que Portugal sofreu, mas que sofreu também grande parte do Ocidente. E realmente eu acho que é difícil saber se é assim ou não. De facto, nós habituámo-nos durante várias décadas, a partir dos anos 80, a uma inflação muito baixa, mas acho que é legítimo perguntar se isso será realmente assim. Por um lado, tendo em conta o tamanho deste programa de estímulo e tendo em conta que isto vai gerar um enorme aumento da procura numa altura em que há grandes problemas em termos da oferta, e mesmo quando sair da pandemia, há uma suspeita legítima de que há muitos negócios que terão problemas em realmente recuperar, que provavelmente acabaram por ser fechados pela pandemia. Portanto, acho que pelo menos no curto prazo, isso pode se colocar e é uma questão que pelo menos deve ser discutida. Enfim, quando temos o Bill Gates, que não é propriamente um republicano ultraconservador, é alguém que acha que ele próprio devia pagar mais impostos, a dizer que este é um problema real, acho que devemos prestar alguma atenção. E, por outro lado, acho que há aqui uma discussão até mais interessante e que também nos afeta a nós na Europa, enfim, no conjunto do mundo, que é no fundo a ideia de que há aqui elementos estruturais de mudança, ou seja, que uma das grandes explicações destas décadas de inflação muito baixa foi a entrada da China e de 1,4 bilhões de pessoas a ganharem salários muito baixos na economia mundial, e portanto isso levou aqui a um efeito depressivo sobre os salários, mas também sobre a inflação, um aspeto mais positivo, outro mais negativo, mas que agora que a China está cada vez a tornar-se uma economia normal, mais envolvida, em que os salários estão a aumentar muito significativamente, que isso vai mudar a equação. Pode-se pensar bem, há a Índia, há centenas de milhões de pessoas em África que praticamente não fazem parte da economia formal, pelo menos. Portanto, pode ser que isso não seja assim, mas acho que vale a pena ter esta discussão e ter sobretudo bastante atenção.

Mas parece que há uma alternativa a estes 1,9 bilhões?

Eu acho que sobretudo há que haver aqui uma preocupação grande. No caso da Europa, acho que eventualmente nós estamos a ter preocupações excessivas e a ser se calhar não suficientemente ambiciosos no estímulo. Acho que aí são mais cautelosos. Nos Estados Unidos, eu acho que realmente este montante tão grande, acho que é muito importante garantir que é bem gasto e que não é gasto todo de uma vez, vamos dizer assim. Ou seja, acho que é importante de facto haver aqui um estímulo de curto prazo, mas garantir que uma parte importante deste dinheiro é realmente gasto em questões de, por exemplo, problemas de infraestrutura que os Estados Unidos têm há bastante tempo, começando com estradas, comboios, etc., e que seja aplicado ao longo do tempo. Portanto, não tudo de uma vez. Acho que pelo menos esses cuidados era importante ter.

Henrique, tu também tinhas aqui um "pelling" pronto disparado que tinha a ver um bocadinho com isto, mais da parte dos impostos.

É mais ou menos a continuação. À exceção do Bill Gates, como o Bruno referia, nem todos os empresários são como Bill Gates e um dos diretores da US Chamber of Commerce, que representa os empresários americanos, já veio dizer que acham tudo muito bem, esse dinheiro todo para gastar é lindamente, é preciso investir muito em infraestruturas, em financiar a investigação, promover a energia verde. Tudo isso é muito bonito, mas não se lembra de aumentar os impostos lá mais para a frente. O meu ponto no disparate é: o Bruno levanta a questão de não é muito fácil garantir que se põe este dinheiro todo na economia e que depois não há inflação, e eu diria, não é muito fácil garantir que se põe este dinheiro todo na economia e depois não há mais impostos.

Sim, de facto é uma ponderação que tem de ser feita entre essas duas coisas. Eu tinha aqui um "pelling" muito rápido para não levar aqui muito tempo com isto, mas só porque fiquei meio banzada com isto. O poema que Amanda Gorman, aquela poetisa, leu na tomada de posse de Joe Biden, estão a lembrar-se dela e a lembrar-se desse poema, e a ser traduzido nos Países Baixos, mas a escritora escolhida para fazer a tradução para holandês recuou e desistiu porque foi criticada, porque não é negra. Eu nem sei muito bem como dizer isto, mas ela foi criticada porque um poema destes devia ser traduzido por alguém como Gorman, como a própria autora, uma artista local, jovem e uma mulher assumidamente negra. E esta escritora, que até ganhou já uma série de prêmios, que foi escolhida pela própria Amanda Gorman, quero só sublinhar isto, foi escolhida pela própria Amanda Gorman, diz: "Bom, eu não tenho condições para fazer isto." Nem foi isso. É que a rapariga sai a dizer: "Bom, eu não quero ofender ninguém, portanto eu peço desculpa, é melhor não ser eu." E depois a própria editora, que escolheu também ela própria, com Amanda Gorman, esta tradutora, esta escritora, para fazer a tradução, vem agradecer, reage dizendo: "Obrigada por esta sua decisão." Isto é uma coisa que eu não...

Sim, faz-me lembrar a revolução cultural maoísta, realmente, autocrítica, pedidos de desculpas públicos.

É uma coisa inacreditável.

É evidente que as preocupações com a diversidade e o racismo são questões muito sérias.

Como é evidente, mas nós já estamos para lá disto.

Agora, o que merece é uma resposta séria. E perceber que este tipo de postura, por um lado, ela própria, se não é racista, anda muito perto disso. Portanto, tudo é avaliado em função da identidade racial da pessoa. Passa a ser o único critério. E depois isso, além do mais, mina uma causa que à partida tem aspetos importantes e eu diria, para mim, pelo menos, é uma boa causa. O combate ao racismo é sem dúvida uma boa causa. Agora, não vale tudo, como também não vale para combater a pobreza ou a injustiça, ou o que seja.

É que depois isto vai, se não legitimar, pelo menos justificar. Legitimar não diria, mas vai justificar os discursos do lado oposto a dizer: "Agora não se pode dizer nada." Portanto, não há meio-termo possível, não há sensatez possível, porque isto é, aos olhos de qualquer pessoa sensata, de um absurdo monumental.

Sim, e sobretudo dar armas ao outro lado e ao outro extremo.

Como eu li algures, alguém dizia que Hoje em dia alguém traduz a Camões para inglês é bom que seja azaroques.

Ok.

Acho que é o melhor comentário.

Não estava a contar com esse comentário, mas admito que sim. Bom, e agora neste tom, vamos então discutir o Médio Oriente, que é o tema desta nossa segunda parte que trouxemos para aqui disparates. Eu não sei se é uma boa ideia trazermos os Sarah Palin para a segunda parte, porque depois partimos para os temas assim. Mas vamos olhar para o Médio Oriente. Há várias questões relacionadas com o Médio Oriente e com a política externa de Joe Biden que ganharam redobrado interesse, não só agora com o relatório sobre a morte e o assassinato do Khashoggi e a participação do príncipe saudita, mas sem grandes medidas em relação a esse próprio relatório, mas também a primeira ação militar ordenada por Joe Biden na Síria, mas também relacionada com o Irão. Bruno, o que isso nos diz sobre a postura de Joe Biden e a estratégia que ele vai usar em relação a esta zona?

Tivemos no fundo aqui duas grandes novidades durante esta semana, que foi, por um lado, o relatório sobre a morte daquele jornalista saudita, o Jamal Khashoggi, que era muito explícito sobre o envolvimento dos principais líderes sauditas, inclusive do príncipe herdeiro, que é o governante de fato da Arábia Saudita, o Mohammed bin Salman. E, por outro lado, este ataque também, no fundo, a milícias alinhadas com o Irão na Síria. E, portanto, eu acho que isto sinaliza que, de facto, o Joe Biden tem aqui uma visão que procura ser talvez mais realista do que a de Obama, ou seja, ele não está disposto a apaziguar a todo o custo o Irão, até porque isso também lhe traria custos grandes e traria grandes dificuldades internamente nos Estados Unidos. Houve, digamos, um consenso crescente que realmente o acordo com o Irão tinha alguns problemas sérios, sobretudo porque só se focava na questão nuclear, não tinha em conta todo o papel desestabilizador do Irão na região, ignorava as preocupações dos aliados norte-americanos na região. Por outro lado, isto também não vai significar que ele esteja disposto a ignorar todo o tipo de malfeitorias da Arábia Saudita em nome da importância da relação econômica com a Arábia Saudita, que era um bocadinho a linha do presidente Trump. Era mesmo a linha do presidente Trump. Aliás, o presidente Trump, a primeira visita ao estrangeiro que fez foi precisamente à Arábia Saudita, de onde veio logo com um negócio de bilhões para comprar armamento norte-americano. E, portanto, eu acho que isso é importante, essa procura de algum equilíbrio, o que não quer dizer que não haja aqui enormes dificuldades em atingir o essencial do objetivo norte-americano, que era até algo que o Trump e o Obama partilhavam, que era o mais possível tentar retirar daquilo que cada vez mais nos Estados Unidos se vê como envolvimento militar excessivo no Médio Oriente. Começou logo em 90, 91, com a invasão do Kuwait, se agravou muito no pós 11 de setembro e com a invasão do Iraque. E realmente isso é um desafio grande para qualquer presidente. Eu acho que as condições, regressar a 1991 não é possível, regressar a 2002 ou a 2001 não é possível. E, portanto, esta ideia de que os Estados Unidos devem retirar tem algum consenso, mas como o fazer é realmente muito difícil.

Bruno, não sei se concordarás, mas eu de certa forma vejo que a política de Biden para a região é uma espécie de um cruzamento, que é a política tradicional dos Estados Unidos para aquela região com o que foi a tendência de Obama e Trump, mas em versão light, uma espécie de versão um pouco descafeinada. Isto é, nem abandona completamente a região, não faz uma saída anunciada e virando praticamente as costas à região, nem se afasta completamente os seus aliados tradicionais, mas atua de maneira diferente. Ou seja, não abraça o Irão na linha em que o Obama ia. E esta reação, que não foi logo antecipada, é curioso, porque nos primeiros dias houve mesmo quem escrevesse que a não reação dos Estados Unidos mostrava que o Biden não queria provocar o Irão e não queria conflito de tensão com o Irão e que estava a desinteressar-se do Médio Oriente. Bom, pois quem disse isso foi surpreendido pela reação americana. Afinal, houve reação americana a mostrar ao Irão que estavam atentos. Além disso, eu diria que, apesar das tensões, há dias falamos disso aqui, das tensões entre o Biden e Netanyahu, a relação entre os Estados Unidos e Israel, por um lado, e o peso que tem na política americana o lobby judaico, parecia-me difícil que os Estados Unidos se desinteressassem completamente do Irão, sendo que é, de facto, a maior ameaça a Israel, o aliado principal na região. E, por outro lado, em relação à Arábia Saudita, também aqui uma versão um pouco descafeinada, isto é, deixa sair o relatório que diz aquilo que já todos sabíamos, e portanto não há ali nenhuma novidade, e faz uma espécie de conjunto de pequenas sanções ao regime saudita, que são, apesar de tudo, sanções, e portanto diverso do que tinha sido o passado, mas não penaliza verdadeiramente, em particular o príncipe, que é o governador de facto, como tu dizias.

Quando nós falamos em pequenas sanções, já está tudo dito. Um relatório destes, estamos a falar em sançõezinhas.

Apesar de tudo, há aqui um ponto que, aliás, a administração Biden insistiu, que é: vamos lá ver, o governo norte-americano não é uma agência de promoção dos direitos humanos. Aliás, nós vimos os problemas que no Médio Oriente esta ideia, que é muito fácil a uma potência externa promover a democratização de um país. Derrubar um regime é relativamente fácil pela força quando se é um país como os Estados Unidos. Agora, promover a democratização É uma coisa muito mais complicada, como se viu no Iraque e noutros sítios.

No Afeganistão, por exemplo.

E realmente, os Estados Unidos não sancionam líderes de países com que têm relações diplomáticas normais, ou seja, com que têm relações diplomáticas. Há sanções contra a Rússia, mas não há sanções pessoalmente contra o senhor Putin. Há sanções agora, por exemplo, em relação a Hong Kong ou a Xinjiang, em relação à China, mas não há sanções que atinjam diretamente o presidente Xi. Portanto, seria estranho que os Estados Unidos aplicassem um critério diferente em relação a um país aliado. Agora, apesar de tudo, é como diz o Henrique, eu acho que de facto o Biden tem aqui uma visão muito mais pragmática e muito mais realista do que quer o Obama, quer o Trump. O Trump tinha muito esta visão que era entregar tudo à Arábia Saudita e a Israel. Ora, nem eles estão assim muito interessados, sobretudo Israel, em assumir a pacificação do Médio Oriente, nem têm capacidades para fazer isso. A Arábia Saudita tentou fazer isso na sua vizinhança próxima, no país mais pobre da península arábica, no Iémen, ora em relação ao Qatar, também não conseguiu fazer isso.

No Iémen está enfiado num sarilho há que tempos. E aliás, os americanos agora vieram dizer que não pretendem manter uma espécie de algum respaldo a essa intervenção, portanto também isso se afasta um pouco.

Portanto, eu acho que realmente, como diz o Henrique, a minha impressão é que o presidente Biden percebe que não pode retirar completamente, que isso criaria um vazio de poder bastante perigoso, que era no fundo um pouco aquilo que o Obama parecia estar apostado em fazer também, com esta ideia de que o melhor seria fazer uma espécie de grande equilíbrio regional, muito mais ecuménico, inclusive trazendo o Irão para esse grupo de grandes potências regionais, portanto, com a Turquia, com o Egito, com a Arábia Saudita, com Israel, etc. Ora, isso claramente não funcionou tão bem. O Irão não está interessado em estabilizar a região, pelo menos não em termos que sejam convenientes para os Estados Unidos e para os seus aliados. E esse vazio de poder foi aproveitado por grupos como o Estado Islâmico. Portanto, eu acho que de facto o Biden aprendeu algumas lições dos últimos anos e eu acho que está disponível a manter alguma presença americana e a ter aqui uma postura bastante mais pragmática e eu acho que realmente isso é importante. Acho que as ideias que também têm alguma popularidade nalguns meios mais à esquerda nos Estados Unidos, e que têm sido críticos e mostraram desilusão com o presidente Biden, de que, por exemplo, sancionar o príncipe Mohammed bin Salman podia mudar a dinâmica interna na Arábia Saudita, evitar que ele viesse a ser o próximo rei saudita e que isso iria desembocar num processo de democratização da Arábia Saudita. Tudo isso me parece bastante improvável e bastante arriscado.

Aqui o que se nota é que, apesar de tudo, os Estados Unidos têm a noção de que não houve uma alteração em relação a quem é que são, apesar de tudo, os seus aliados, o que não quer dizer que sejam gente recomendável, mas são apesar de tudo os seus aliados na região e portanto, é como diz, é pragmático e percebe o que se está a passar. Há aqui um outro aspecto que eu acho que é importante.

Mas foi o próprio Biden a referir-se à Arábia Saudita como um Estado pária, não é?

Exato, durante a campanha. Durante a campanha referiu-se à Arábia Saudita como sendo um Estado pária.

Como o Clinton se referiu à China também como Estado pária. Na campanha é sempre mais fácil. Mas é verdade, depois gera críticas legítimas.

Certo. É que depois a internet não esquece, não é?

Exato.

Mas eu acho que há aqui dois aspetos que são interessantes. Um é quando se diz que há uma transição e tem havido uma transição dos Estados Unidos para a outra parte do mundo, e portanto para a Ásia-Pacífico, e uma maior preocupação com outras prioridades e portanto que o Médio Oriente não está no topo das prioridades da política externa americana. Bom, mas não esquecer que, apesar de tudo, os Estados Unidos continuam a ser uma potência global, portanto, não há canto do mundo que não faça parte das suas preocupações. Ponto um.

E onde há interesses importantes. Exatamente.

É um ponto que eu tenho até sublinhado até em conversas com colegas americanos que defendem muito esta ideia de alguma retração, para os Estados Unidos concentraram na China. Ora, a grande novidade da China é que a China é cada vez mais também uma potência global, que está cada vez mais presente em regiões do mundo onde não estava, inclusive nas próprias Américas. Na América Latina é uma presença cada vez mais forte, mas também no Médio Oriente. Ora, os Estados Unidos podem dizer: "Bem, isso não nos interessa nada, não é um problema". Agora, se dizem que a ascensão da China é muito preocupante, é um rival estratégico, nós temos de lidar com isso, os Estados Unidos não vão lidar com isso eficazmente só indo para a vizinhança da China. A China está cada vez mais a deslocar-se para outras regiões.

Exatamente, tornando-se uma espécie de potência regional da Ásia-Pacífico, enquanto a China se assume um papel mais global. Esse é um aspeto. Agora, há outro aspeto que me parece importante, e isso é um bocadinho a ponte que nós às vezes fazemos aqui, inevitavelmente, porque estamos do lado de cá do Atlântico, que é a saída dos Estados Unidos, e esse é um aspeto que me parece importante ter presente, é que a saída dos Estados Unidos, mesmo que não seja total, mas alguma menor atenção dos Estados Unidos ao Médio Oriente, não quer dizer, eu diria mesmo potencialmente antes pelo contrário, que os problemas na região deixam de existir. E uma das coisas que os europeus têm que ter presentes é que quando há problemas na região, uma das regiões que está em maior risco, consequentemente é a Europa. Quer dizer, para termos uma noção, o Estado Islâmico quando teve ataques fora da área, chamemos-lhe assim, foi na Europa, não foi nos Estados Unidos. E portanto, há uma questão que se coloca a seguir aos europeus, que é objetivamente se os americanos se vão desinteressando e estão menos disponíveis para intervir na região, e no limite aquilo que se viu aqui foi, como tu dizes, é ser pragmático, mas eu diria como eu disse, descafeinado, isto é só o essencial, os europeus vão ter que perceber que esse vazio ou algum vazio terá que ser preenchido de alguma maneira, e se for pelos europeus não desempenharem aqui um papel, alguém desempenhará. A Turquia está interessada em ter algum papel, a Rússia está interessada em ter algum papel.

Vimos isso na Síria, vimos na Líbia e vemos as consequências que isso tem para a Europa. Aliás, o Médio Oriente, aqui há 100 anos, na Europa era conhecido como o Próximo Oriente. Era o Oriente Próximo, está aqui muito mais perto do que está dos Estados Unidos. E portanto, realmente esse é também um ponto importante. É preciso ter cuidado com aquilo que nós andámos a pedir durante muito tempo. Todas aquelas manifestações sobre o excesso da presença dos Estados Unidos no exterior, a sua falta realmente também acarreta grandes perigos.

E acarreta, sobretudo, uma responsabilidade que eu não sei se a Europa quer mesmo assumir.

Sim, e uma responsabilidade, vamos ser claros, não se vai lá só com aquelas medidas, com aqueles meios que a Europa gosta, de ajuda humanitária, de acordos comerciais.

Cooperação, desenvolvimento, levar água às aldeias não resolve todos os problemas da região.

Sim, pôr as mãos na massa às vezes é ter também de fazer a parte suja do trabalho e pode ser difícil para quem não se quer sujar. Chegamos ao final do nosso tempo, vamos todos transformar-nos em abóboras, espero eu. Voltaremos na próxima semana com mais um "Café América". Até lá.