Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

É um programa com metade da cabeça ainda na Geórgia e a outra metade já no Congresso, onde esta quarta-feira a vitória de Joe Biden nas eleições de 3 de novembro será confirmada. Será? Ou prepara-se já um golpe dos republicanos para inverter o processo? Mike Pence parece apoiar a ideia, mas desde que não lhe deixem a batata quente nas mãos e Trump dá isso como garantido e acertado. Com a Câmara dos Representantes controlada pelos democratas, é difícil que aconteça, mas o melhor é mesmo preparar-se para uma longa noite em Washington. Com as máquinas de café já a aquecer estão o João Diogo Barbosa, a Madalena Mayer Resende e pela última vez, o João de Almeida Dias, já lá iremos. Eu sou a Sara Antunes de Oliveira, vamos aos prémios, a começar pelo Frank Underwood. Ainda estamos à espera que a Madalena se junte a nós nesta conversa. Começamos, por isso, pelo João Diogo Barbosa. João, com vacinas e um farmacêutico, as teorias da conspiração que andou a fazer asneiras.

Sim. Bom dia, foi o farmacêutico Vince Citronzi que foi preso depois de tentar sabotar cerca de 500 doses, ou pelo menos o equivalente a 500 doses de vacina. Os seus motivos são aqueles que se esperariam. O senhor achava que a vacina poderia alterar o ADN de quem a recebesse e, portanto, era a sua missão assegurar que o menor número de pessoas a pudesse receber. E eu acho que isto, apesar de ser um caso aparentemente menor, nos dá algumas pistas sobre dificuldades da América. E em primeiro lugar, está o problema que todo mundo enfrenta, daqueles que não aceitam vacinas, que desconfiam das vacinas, desconfiam da ciência. E na América, segundo os números, são cerca de 40% da população. Esse número é muito alto, compara com os números mais altos do mundo e traz grandes dificuldades para o programa de vacinação, mas ao mesmo tempo, e isto é talvez aquilo que eu gostava mais de reforçar, muitas vezes quando falamos de conspirações americanas, temos a rede de segurança do facto de não passar das palavras, de serem apenas teorias estapafúrdias.

Americanas e não só.

Sim, mas esse facto de serem apenas palavras, normalmente dá-nos tranquilidade, mas quando estas conspirações provocam dano, ficamos a pensar realmente no perigo que elas podem causar. E neste caso, felizmente, ele foi descoberto, felizmente, não houve perdas de maior, mas dá que pensar e obriga-nos a ter cuidado e a pensar bem no que vai ser o futuro do programa de vacinação, quer na América, quer cá na Europa.

Nós, num outro Café América, já tínhamos falado sobre teorias da conspiração e de como elas não estão só nas redes sociais e nas caixas de comentários, têm consequências menos simpáticas. Menos simpáticas ainda do que ter uma série de pessoas convencidas de coisas que não são verdade. João de Almeida Dias, tu hoje escolhes, como Frank Underwood, de mau da semana, um encontro de Mitt Romney num avião.

É, num avião, no aeroporto também, em que ele é insultado como um traidor e tantas outras coisas por parte de eleitores de Donald Trump. Há uma parte em que uma senhora de telemóvel em riste aborda o senador Mitt Romney e lhe diz o seguinte: "Você foi eleito para representar os conservadores." E Mitt Romney, que está a mexer no seu computador/tablet, nesse momento, diz: "Olhe, minha senhora, não é assim que a Constituição funciona." Mas a verdade é que isto já não interessa nada neste contexto em que um presidente liga para as autoridades estaduais da Geórgia e insatisfeito com os resultados oficiais provados, comprovados naquele estado, lhes diz: "Give me a break", o que em bom português é: "Ó homem, dá lá um jeitinho. Arranja-me lá 11 mil e tal votos, que eu só preciso desses para vencer aquilo." Varrendo os Estados Unidos de uma sala de espera de um aeroporto, em que uma pessoa acredita que um senador é eleito para representar conservadores e não todas as pessoas do seu determinado estado, e indo até à Casa Branca, onde há um presidente que acha que pode pedir um jeitinho para ter mais votos, acho que está o caldo entornado e não augura nada de bom. Não é nada que não tínhamos já falado nestes tempos todos, mas acho que esta passagem de um sítio para o outro demonstra que o problema é muito generalizado nos Estados Unidos.

Vale a pena lembrar que Mitt Romney não é, à partida, o mais moderado dos republicanos, não é sequer um republicano fofinho ou coisa do gênero. Mitt Romney tem uma carreira muito séria, tanto no setor privado como na política, de convicções conservadoras bem assentes e bem fundamentadas. Não é um daqueles senadores que joga pra um lado ou pra outro, como há talvez o caso de Susan Collins, que também já aqui discutimos. Romney é um verdadeiro conservador e estar a ser atacado por gente da sua tribo não deixa de ser bastante impressionante.

Basta que tenha tido essa posição de moderação no meio deste processo e da contestação eleitoral. Já aqui temos a Madalena. Olá, Madalena.

É verdade. Olá.

Já aqui está. E vamos voltar um pouquinho atrás. Já falamos aqui de vacinas por causa das teorias da conspiração, porque o teu Underwood também vai pra vacinação.

Vai pro federalismo e pra vacinação. Se virmos que esta forma de organizar o Estado, em termos que os poderes dos Estados, de cada Estado, não são delegados do poder nacional, mas existem independentemente, foram muito bons para que o presidente Donald Trump não tenha conseguido ter sorte em nenhuma das suas tentativas de subornar ou de pressionar os responsáveis pela votação. Já na questão das vacinas, aparentemente, esta gestão federal não tem provado ser tão eficaz como os Estados mais centralizados. E vemos nos Estados Unidos, tal como na Europa, que o fato dos Estados terem muita responsabilidade do ponto de vista da saúde, não tem sido muito vantajoso e vê-se nos Estados Unidos, como se vê aqui na Alemanha, uma grande falta de coordenação entre os Estados e o sistema central e, portanto, o meu Underwood vai aqui pro sistema federal neste...

Creio que perdemos o contato com a Madalena, mas percebemos este Underwood. Vamos tentar recuperar essa ligação. Seguimos para o donut da semana. João de Almeida Dias, Stacey Abrams.

É verdade, Stacey Abrams, apesar de tudo. Eu vou começar por este apesar de tudo. Não é uma política de quem eu gosto muito. Estamos a falar de uma das pessoas mais importantes no Partido Democrata, que vem da Geórgia, portanto calha bem falarmos dela hoje. Stacey Abrams é uma das caras mais conhecidas daquilo que poderá ser levado como a ala identitária do Partido Democrata. Eu acho que esta é uma abordagem, em termos nacionais, errada à política. O foco identitário muitas vezes esquece os temas de classe, que por ficarem órfãos, acabam por ser aproveitados pela escola de Steve Bannon e afins. E, portanto, isto é um problema pelo qual o Partido Democrata já pagou, continua a pagar em alguns sítios do país ainda e vai continuar a pagar no futuro. Agora, apesar de tudo isto, a verdade é que a Stacey Abrams tem tido um papel fulcral no seu estado ao registrar pessoas para votar. Porque nós não podemos acreditar, pelo menos não acredito que nos Estados Unidos, muitas pessoas ou todas as pessoas partam do mesmo ou tenham o mesmo partido. O ponto de partida não é igual, é isso, não há uma igualdade no ponto de partida. E a verdade é que entre a população afro-americana, há muitas pessoas que nunca votaram na vida, muitas pessoas cujos familiares nunca votaram na vida, e isso muitas vezes passa simplesmente por registrá-los para votarem. E Stacey Abrams teve uma iniciativa e um trabalho já de uma década ou mais, neste sentido. Claramente não é a única a fazê-lo, mas tem feito de uma forma bastante meritória. Os resultados disso são aquilo que já conhecemos da Geórgia. Pra já, na Geórgia, venceu Joe Biden por uma margem muito ténue, é um fato, mas ainda assim venceu e isso é consequência de os afro-americanos, que tradicionalmente votam mais no Partido Democrata, terem hoje mais acesso às urnas. E pelo que ainda estamos a ver hoje da votação de ontem na Geórgia, a verdade é que a Geórgia vai eleger o primeiro senador democrata em, creio que 20 anos, e muito possivelmente vai eleger um segundo e com isso mudar de forma fulcral o Senado a favor de Joe Biden. Ora, isto é um trabalho que me parece bem feito, no sentido em que dá mais voz e mais acesso a um segmento da população que tem sido esquecido. Agora, é importante perceber que isto é uma realidade muito forte no estado da Geórgia, mas não deve ser alargado ao resto do país. Ou seja, o que funciona na Geórgia não vai funcionar na Pensilvânia e no Ohio, que é um estado que os democratas, parece-me a mim, perderam de vez nestas eleições. Mas isso são outros 500. Portanto, o donut vai pra Stacey Abrams, apesar de tudo.

Vamos acelerar muito rapidamente para o Sarah Palin da semana, porque esta semana temos muito disparate para distribuir. Madalena, e começamos com os planos de Donald Trump, que podem sair furados pro dia da tomada de posse, com aquela ideia de ir jogar golfe à Escócia.

Pra esquecer, exatamente. Ele pediu autorização pra ir. Não pediu autorização, disse que ia. Ia já pro seu campo de golfe durante a tomada de posse do presidente eleito Joe Biden. Uma primeira também. Mas aparentemente a primeira-ministra escocesa, Nicola Sturgeon, disse que não era possível, porque de fato, dado o lockdown generalizado no Reino Unido, jogar golfe não é propriamente um propósito essencial e, portanto, aparentemente ele não vai poder ir jogar no seu campo de golfe.

Terá que encontrar outra coisa pra fazer no dia 20 de janeiro, isto se mantiver esta intenção de não estar presente na tomada de posse de Joe Biden. João de Almeida Dias Tu queres falar, segundo percebo bem, de casamentos. É isso?

É mais do fim deles. Há um divórcio presidencial na calha. Não estou a falar de Melania e Donald Trump, estou a falar de Kanye West e Kim Kardashian, como é evidente.

Agora, sim. Agora os grandes temas.

Temas fartos.

Temos de guardar sempre o melhor para o fim. O que acontece é que está a ser noticiado em vários média de qualidade nos Estados Unidos que este casal presidencial está à beira do divórcio. É uma prova de que a política mói mesmo a vida de um casal. Os Clinton já foram prova disso, os Trump talvez venham a sê-lo, mas não vejo outra prova mais cabal do que o que se está a passar agora com Kanye West e Kim Kardashian. É uma pena, mas é assim.

Eu acho que os Trump foram salvos. Aquilo estava muito mal antes da vitória.

Imaginei eu que neste programa íamos acabar a comentar a saúde matrimonial de pessoas relacionadas com a Casa Branca. Vamos avançar, por favor.

Era para fazer um programa a sério.

Era, é um programa a sério, João Diego Barbosa, vamos avançar para uma história incrível.

É verdade. E também uma história que surgiu na revista "Elle", que não está assim tão longe destes temas que estávamos a tratar. Mas, na verdade, é uma história sobre Kamala Harris, que para além de futura vice-presidente, é já uma estrela de Instagram, sobretudo uma estrela de Instagram. E na revista "Elle" apareceu um perfil de Kamala Harris, em que ela conta uma história extraordinária. Quando era jovem, os pais levaram-na a uma daquelas manifestações pelos direitos civis e políticos dos negros. Ora, naquela altura, os carrinhos de bebê não eram propriamente seguros e, portanto, a certa altura, Kamala Harris terá caído do carrinho e os pais não deram por isso, não deram conta. Mais à frente, o senhor Harris, presumo eu, apercebeu-se, correu para trás e descobriu a filha bastante chateada e perguntou: "Desculpa, o que eu posso fazer por ti? O que precisas?" E ao que Kamala Harris terá respondido de forma inspiradora: "Liberdade", em linguagem de bebê. Ora, esta história parece incrível. E isso é porque é. Porque Kamala Harris inventou esta história. Esta história, na verdade, tinha sido contada por Martin Luther King na década de 60 sobre outra pessoa qualquer, mas Kamala Harris achou por bem tomar para si este momento de inspiração juvenil. E eu acho que para além do disparate, isto nos diz muito sobre a personalidade de Kamala Harris, sobre a tentativa de construir uma personagem heroica, mesmo quando a realidade não estica até aí. E, portanto, o outro disparate da semana.

Mas sabes que às vezes as pessoas reconstroem e estão convictas do facto.

Ela tem uma história muito engraçada em que diz que para parecer fix, é mesmo essa a palavra, que na universidade fumava erva e depois perguntaram-lhe na entrevista: "E que músicas é que ouvia quando fumava?" Ela: "O Tupac, o Notorious B.I.G." A verdade é que quando ela estudou, eles ainda não tinham lançado um único álbum, portanto era muito criativa.

Kamala Harris, o futuro da política americana.

Bora.

Bom, eu tinha aqui um Pallen para esta semana, mas eu sinto-me super mal de o dizer, porque é um Pallen sério. E depois destes disparates que vocês trouxeram aqui, eu acho melhor deixá-lo para a segunda parte, até porque é um dos temas, aquilo que vai acontecer mais logo no Congresso. E, portanto, vamos fazer aqui o intervalo neste Café América. Voltamos já a seguir. Segunda parte do Café América. Eu sugeria que retomássemos aqui com um Pallen que não veio na ola. Peço desculpa por isso, não está aqui em linha com as sugestões que trouxeram no dia de hoje, mas que eu tinha escolhido porque também é um dos temas desta segunda parte, que tem a ver com o processo de validação dos votos do Colégio Eleitoral no Congresso, que acontece ao final do dia de hoje, será por volta das 18h em Lisboa. E eu escolhi isto como um Pallen por uma razão, porque o processo permite que apenas com duas pessoas, uma pessoa da Câmara dos Representantes e outra do Senado, se suspenda essa validação oficial dos votos do Colégio Eleitoral e se abra um debate de duas horas, seguido de uma votação, aí já por maioria simples, antes de voltar tudo à estaca zero. E isto pode ser feito estado a estado, o que significa que a sessão de hoje pode durar muitas horas. E para ser muito clara, isto pode parecer que eu estou a dizer que o problema e o disparate é a democracia, que estabeleceu estas regras, mas não é isso que eu estou a dizer. O que eu estou a dizer é que o disparate é permitir que pessoas que acham que a democracia não é respeitar a escolha dos eleitores, que escolheram Joe Biden como presidente no dia 3 de novembro, travem o processo desta forma, bastando dois congressistas para engolhar tudo aquilo que vai acontecer ao final da tarde. E eu acho isso um disparate. Acho que não tem outro nome. Mas bom, começamos por aqui nesta segunda parte, se concordarem com vai ter golpe ou não vai ter golpe, João Diego Barbosa, o que é que antevês daquilo que se tem dito e escrito nas últimas horas e nos últimos dias para o que pode acontecer logo ao final da tarde?

Eu acho que não vai ter golpe, até porque é esse o adágio, não é? Não vai ter golpe. E acho que os resultados de ontem mostraram realmente quão infundadas e até parvas foram estas tentativas de gente mais ou menos respeitável, ou pelo menos respeitável até este momento. Acho que devemos tratar o assunto com seriedade. Esta tentativa de desviar resultados eleitorais A partir do Congresso é grave, não há outra maneira de dizer. Voltando ao tema da primeira parte, nas teorias da conspiração americanas, nós podíamos sempre dizer: "Bom, mas eles dizem isto e depois no final portam-se bem, não vão para a rua, não provocam dano material." Desta vez, mesmo que não haja golpe, e ao que parece vai ser o que se vai passar, não há suficiente quórum para proceder com o golpe.

Mas aparentemente há pelo menos a tentativa.

Exatamente. A tentativa aqui é punível.

A tentativa é grave, não é?

A tentativa aqui é punível para agradar os juristas de Menoso. E é grave e tem nomes. Eu acho que as ações de Ted Cruz e de Josh Hawley, por exemplo, merecem a nossa maior reprovação, porque não estamos aqui a falar de dois senadores que sejam daqueles membros do Partido Republicano que fazem depender a sua existência da existência política de Donald Trump. São pessoas capazes, pessoas inteligentes, pessoas com futuro à sua frente e que pretendam vender toda a sua dignidade.

Eles já estão a fazer pelo futuro deles.

Exatamente. E que queiram vender a sua dignidade para poderem ser os herdeiros de Donald Trump, acho pífio e acho que vai resultar mal, porque ninguém para além de Donald Trump vai escolher um herdeiro. O próprio Donald Trump ainda não se excluiu da política americana. E eu acho que todos estes esforços, sobretudo com a derrota eleitoral de ontem, aparente, ainda não sabemos ao certo se John Ossoff vai mesmo ser o 50º senador.

Neste momento tem uma margem muito curta, mas vai à frente.

É verdade. E aliás, estragando uma única previsão que fiz para 2020, lamentavelmente. Mas acho que o preço que Ted Cruz e Josh Hawley, sobretudo estes, usaram e pretenderam pela sua dignidade foi pouco. E não valeu a pena, vai ser só um expediente dilatório que não vai conduzir a nada, a não ser a vergonha. E até dentro dos republicanos, este passo parece que não tem assim tanto sucesso quanto eles esperariam à partida.

Mas divide o partido.

Antes isso do que a unidade em torno deles. Por acaso, esse é o único ponto positivo, é mesmo que alguns republicanos, e até republicanos próximos de Trump, tenham dito: "Não, aqui realmente é o meu limite e subverter resultados eleitorais já não é para mim. Agradeço o trabalho do presidente Trump nestes quatro anos, mas é a altura de seguir em frente." E eu acho que não se pode separar o resultado eleitoral na Geórgia desta tentativa, porque me parece que há aqui boas possibilidades de perdendo também a maioria no Senado, os republicanos terem força para pelo menos procurar uma alternativa ao trumpismo. Se mantivessem uma maioria no Senado, essa alternativa teria muito mais dificuldades de fruir.

Eu acho é que isto tem consequências até para personagens como Mike Pence, que tem aqui um papel um bocadinho curioso, que é quando sai aquela carta de 11 senadores a dizer que estavam preparados para fazer isto e que iriam colocar as suas objeções à contagem de votos em alguns estados, juntando-se a um outro que também já tinha manifestado essa intenção na semana passada. Mike Pence até apoiou esta iniciativa. E depois, quando o Donald Trump vai para o Twitter dizer: "Estamos nas mãos do Mike e se ele levar isto pela frente, ele pode travar todo este processo, presidindo ao Senado. E se ele conseguir fazer isto, nós vamos ganhar a presidência." O The New York Times diz que Mike Pence, entretanto, foi falar com Donald Trump e disse que achava que não tinha poder para fazer isso. É um homem leal, que foi sempre leal e continuou, e de repente, imagino eu, estaria a pensar no seu futuro em 2024, como eventual sucessor de Donald Trump, e acaba por, se não fizer aquilo que Donald Trump acha que ele deve fazer, se calhar para este grupo de pessoas do culto de Donald Trump, vai passar a ser um traidor. E alguém que falhou num momento decisivo. Portanto, acho que até para o próprio Mike Pence, pode ser aqui uma situação muito complicada nos planos que ele eventualmente estava a fazer para o futuro. E eu tenho muita dificuldade em compreender como é que existem estas pessoas, não só os dois de que falaste, mas também Ron Johnson, a tomar esta iniciativa, mesmo sabendo que dificilmente ela passa porque a Câmara dos Representantes é democrata e, portanto, no final, as duas Câmaras tinham que estar de acordo com isto para isto acontecer. Mas não consigo entender, depois de mais de 30 ações judiciais falhadas para contestar os resultados, como é que chegamos a este dia, que em tese seria só uma formalidade, e a questão mantém-se.

Mas eu acho que já falámos um pouco sobre isto. Eu penso que isto terá a ver não apenas com uma loucura do Donald Trump, mas com uma tática política dele, não só para a sua eventual recandidatura em 2024, mas para o futuro do trumpismo no Partido Republicano, ou seja, esta narrativa de que as eleições foram roubadas e que o presidente Biden é ilegítimo. Não são tão poucas as pessoas, nem só os que estão implicados diretamente, como na própria população, são milhões de pessoas que acreditam nisto. Isto é, de facto, uma coisa que traz muito maus augúrios para a democracia

americana. E eu penso que restaurar a confiança no sistema eleitoral e mesmo a confiança no presidente Biden, esta atitude é um obstáculo ao funcionamento da democracia e ao futuro da democracia americana. Portanto, penso que isto é uma tática deliberada e não é, de todo, uma elaboração de pessoas que tenham ligações às teorias da conspiração.

Eu vou parafrasear o Charles Dickens. Pode ser no início da "História de Duas Cidades", em que ele começa o livro a dizer: "Foram os melhores dos tempos, foram os piores dos tempos." Eu adapto isto ao meu linguajar e vou dizer: isto foi tudo muito divertido, mas isto foi uma canseira. E é sempre assim. Donald Trump, de facto, tem sido um manancial de diversão, não só do ponto de vista cômico, eu diria também de diversão no sentido em que é sempre muito difícil prever o futuro com este presidente, inclusive para Mike Pence. Mike Pence foi, sem dúvida, um vice-presidente muito leal. Ele é muito diferente do seu presidente, do seu número um, isso saltava à vista logo ao início. Até durante as primárias, Mike Pence criticou Donald Trump, mas isso acontece regularmente, nem é por aí. Donald Trump, seguindo um bocado a tradição dickensiana, fala muito assim também. Ele diz uma coisa e depois geralmente sai do teléponto e acrescenta uma frase que logo desdiz o que estava para trás. Por exemplo, em 2016, ele vai para as eleições e diz assim: "Eu vou aceitar os resultados." E depois, fez uma pausa e disse: "Se eu ganhar." Porque se ele perdesse, evidentemente, não aceitava. Quatro anos mais tarde, acabou por fazer isso. Depois, mais à frente, houve aquela manifestação com neonazistas em Charlottesville, e ele dizia que havia pessoas muito boas na manifestação, dos dois lados, e, portanto, do lado dos neonazistas também havia gente recomendável. E ontem ou anteontem foi aquela altura em que ele diz: "Mike Pence, ele é um grande homem. Claro que, se não conseguir reverter os resultados, não vou gostar assim tanto dele." Mike Pence acaba por cair um bocado nesta estrutura frásica de Donald Trump, que também revela a sua estrutura cerebral, neste sentido em que se as coisas não forem conforme os seus ditames, vai ser complicado. Mike Pence cai nesse problema. Eu espero que ele esteja à altura das suas funções hoje. Enfim, não parece que ele tenha grande poder para reverter esta situação. Felizmente não tem. E se calhar até felizmente para ele não tem, porque poupa-se a algumas chatices. Agora, não sei é se vai ter grande carreira política pela frente, porque ele não vai conseguir, por um lado, fazer aquele papel de republicano moderado que, por exemplo, o Mitt Romney poderá tentar fazer numa nova ocasião, mas também não vai poder fazer passar-se por trumpista, a partir do momento em que ele poderá ser o homem que dá o aval para o fim desta presidência e para o início da próxima.

Mas voltando ao tema de herdeiros de Trump. Trump deixa aqui uma armadilha muito complicada a Mike Pence, porque ele não tem poder para fazer aquilo que Donald Trump lhe pede. Vários constitucionalistas já explicaram que os desejos do presidente relativamente ao papel do vice-presidente nesta contagem são precisamente desejos, não disposições constitucionais. E portanto, Mike Pence fica aqui na complicadíssima posição em que se lhe exige, por um lado, um ato de terrorismo constitucional e, por outro, um ato de terrorismo constitucional que não é possível.

Mas ao mesmo tempo, ele também apoia a iniciativa, obviamente legítima e legal, perante as regras do processo, de senadores colocarem objeções a vários estados na votação de hoje.

Essa também é a narrativa oficial. Seria estranho que não tivesse algum apoio dentro dos republicanos. Aliás, Lou Dobbs, um daqueles apresentadores de programas de televisão e um grande defensor de Donald Trump, disse aqui há dias que parece extraordinário que nós sabemos que aconteceram todas estas fraudes e não encontramos provas passado tanto tempo, por que está a passar, por que não conseguimos provas? E a verdade é que se calhar não conseguem provas porque não aconteceu fraude, pelo menos a fraude ao nível que a versão oficial parece querer dizer. Mas Mike Pence não tem aqui o papel que Donald Trump acha que ele tem. E provavelmente Donald Trump sabe isso e esta armadilha a Mike Pence pode não ser inocente, porque Donald Trump, mesmo que não seja candidato em 2024, vai querer ser certamente a pessoa que decide quem é o seu herdeiro, e essa dinâmica não devia ser excluída. Ao mesmo tempo, para introduzir aqui um novo ponto, eu acho que nós estamos a falar aqui de todas estas tentativas de desvio à legalidade e à Constituição americana, mas que estão a ser paradas precisamente porque Trump e estes senadores estão inseridos no quadro institucional. Se Trump, deixando de ser presidente, perde poder, ele também fica solto dos freios e contrapesos da Constituição e fica muito mais livre para defender.

Eu não creio que ele se tenha sentido propriamente muito preso e com muitos freios até agora.

A verdade é que não houve este terrorismo constitucional, apesar de tudo. Se olharmos de longe, houve palavras, novamente, mas as conspirações não tiveram atos assim tão lesivos quanto poderiam ter tido. E eu acho que Donald Trump fora do sistema, fora dos limites do sistema, pode ser muito mais perigoso do que é e do que foi dentro.

Certo, mas eu acho que isso é um medo que tu tiveste talvez às 04h00, porque obviamente Trump sem ser presidente não vai ter tanto palco, não vai ter tanto poder, não vai ter tanta atenção, tudo isso se vai esvair um pouco.

Trump continua com muita influência dentro do partido. Trump continua a ser uma máquina pra arranjar fundos, continua a ser influente nas primárias em todo o país. Não é à toa, por exemplo, na Geórgia, que Kelly Loeffler começa como uma centrista e vai evoluindo até ser a mais conspiracionista dos conspiracionistas. Trump continua com muito poder dentro dos republicanos e achar que não estar na Casa Branca ou não ter acesso à Sala Oval, que sempre foram coisas que lhe pareceram secundárias, o projeto dele nunca foi de governo, mas de conquistar poder. Eu acho que não vai ser um grande impedimento. Trump continua a ter uma grande base de fãs, continua a ter milhões de seguidores no Twitter, continua a ser capaz de influenciar eleições e, sobretudo, primárias em todos os estados dos Estados Unidos. E portanto, achar que agora vem aí Joe Biden, esse encantador de multidões, e tudo vai acabar bem, isso sim é um doce sonho das 04h00, Madalena.

Eu não estava a dizer isso.

Não é que vai desaparecer. Eu aí concordo com a Madalena. Eu não acho que a Madalena esteja a dizer que Donald Trump vai simplesmente desaparecer. Agora, com a tomada de posse de Joe Biden, porque ela significa que todo o argumentário, todas as alegações, toda a narrativa até agora não resultaram com os resultados da Geórgia, que se confirmar a vitória de Ossoff, é o pior cenário possível para os republicanos. Eu acho que com o avançar do tempo, o próprio partido terá de perceber, e irá perceber, que tem que fazer alguma descolagem. É verdade que Donald Trump continuará a ser importante, mas eu não tenho assim tanta certeza que se mantenha sempre assim tão importante até 2024.

Mas isso é muito difícil dentro de um partido e de um sistema como é o americano. Que eu diria que até felizmente, mas depois com estas questiúnculas, é recente em eleições primárias. Aliás, o João estava a falar disso há pouco. Que Donald Trump domina. Não é necessariamente Donald Trump, mas o trumpismo, mas também às vezes Donald Trump, por simplesmente apoiar determinado candidato, ele tem dominado as eleições primárias pra tudo que são eleições no Partido Republicano. Estamos a falar de pessoas que vão pro Congresso, portanto pra Câmara dos Representantes e até noutras coisas.

Eu só não acho que isso seja eterno e com a mesma intensidade. Acho que essa intensidade se vai perdendo.

Não é eterno, mas 2022 é já ao virar da esquina e há as eleições intercalares nessa altura. Não sei se até aí poderá haver já assim um desaparecimento.

Sobre a Geórgia, os candidatos ao Senado deram-se melhor em novembro, quando estavam no boletim de voto, juntamente com outros boletins com o nome de Donald Trump, do que se deram agora. David Perdue esteve a três décimas de vencer a eleição, de alcançar os 50% que eram necessários pra não haver segunda volta. Agora vai perder as eleições. O que aconteceu desde então? Donald Trump não fez campanha, estava mais preocupado com as teorias de conspiração. Donald Trump não aparece nos boletins de voto e portanto, achar que a influência de Trump vai desaparecer parece-me um cenário muito otimista. Até porque não fez em novembro, não fez em dezembro, não fez em janeiro.

Lá está. Mas estás a fazer o que Donald Trump faz. Nenhum de nós está a dizer, nem eu nem a Madalena estamos a dizer que vai desaparecer. Estamos só a dizer que não vai ter sempre a mesma intensidade e seguramente não é eterno. Agora, também há uma maneira diferente, uma perspectiva diferente possível em relação à Geórgia. É que estes senadores a dada altura começou a perceber-se que poderiam ser prejudicados precisamente pela narrativa de Donald Trump e com tudo o que estava a acontecer a seguir à declaração de vitória de Joe Biden. E até se antecipava que houvesse uma moderação de alguns republicanos, preocupados precisamente com as consequências que essa narrativa podia ter nestas eleições do Senado, que deviam ter passado a ser a prioridade imediata dos republicanos para não perderem o controle dessa Câmara. E o que me parece é que se houve, de fato, esse movimento, o movimento foi muito tardio, porque pelo menos um dos lugares já foi e o segundo, pelo que se percebe, pode ainda pender pros democratas. E, portanto, nós podemos olhar pra esses resultados e dizer: não foram tão bons como tinham sido antes, porque Donald Trump não fez campanha, ou podemos olhar pra eles e dizer que não foram tão bons precisamente porque Donald Trump esteve a fazer o que esteve a fazer até agora.

Eu acho que a grande culpa aqui também é pra isso, que é que Donald Trump esteve a fazer o que esteve a fazer, que é, não podemos escamotear isto, que é pôr em causa a legitimidade e o funcionamento do processo eleitoral. Ponto, é isto.

Exatamente.

E portanto, há uma série de pessoas, e vamos lá ver, é uma série de pessoas que até poderão ser residuais, mas a verdade é que nós estamos a falar de vantagens. Ossoff estava com uma vantagem que não chegava aos 20 mil e, portanto, estamos a falar sempre aqui de pequenos números. Mas a partir do momento em que ele põe em causa a legitimidade do funcionamento das eleições, é natural que as pessoas que até sejam mais pró-Trump não queiram ir às eleições, porque isto é tudo uma fantochada, pelo menos na lógica destas pessoas. E, portanto, Donald Trump acaba por semear ele próprio, e o mais espantoso no meio disto tudo é que é um erro repetido, porque isto já aconteceu nas eleições a nível nacional, em que precisamente em estados fulcrais, como foi o caso da Pensilvânia, houve pessoas que não foram votar ou não votaram antecipadamente, porque não fizeram por questões meramente propagandísticas.

Bom, meus caros, aquilo que eu sei, e isso posso dizer já com minha previsão acertada, é que vai ter golpe, sim, mas é um golpe aqui no Café América. Este é o último episódio do João de Almeida Dias conosco, que vai escolher prêmios pra outras paragens. Nós vamos ter saudades tuas, meu caro doutor, mas sabemos que vais continuar a subscrever o podcast, isso também é muito importante pra nós. E portanto, continuamos a contar contigo desse lado e pra mandares uns comentários ao que formos dizendo por aqui.

Muito obrigado, também foi um prazer. Deu pra falar sobre Kanye West, Lady Gaga e Charles Dickens, portanto pra mim está feita esta missão. Agradeço a todos os que partilharam esta antena comigo e pronto, vamos vendo por aí e ouvindo, certamente. Eu vou ouvir-vos.

E não te esqueças de dar estrelinhas, João. Muitas estrelinhas ao nosso podcast.

Vou dar estrelinhas cinco e vou escrever aquela avaliaçãozinha pra aparecer na loja dos podcasts.

Acabaste a falar como um radialista dos anos 50 que esteve aqui em antena. Termina aqui o Café América. Nós voltamos na próxima semana.