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Car7, 60.
Há 58 anos, os Beatles aterraram nos Estados Unidos e aí que se pode dizer que a Beatlemania explodiu como um fenômeno.
Os jornalistas norte-americanos descreviam-nos como os Fab Four, vestidos de fato e com uma imagem de marca, o cabelo em forma de tigela. Foram recebidos por três mil fãs, quase todas mulheres, aos gritos, que quase provocaram um incidente no aeroporto ao bloquear os acessos.
Na conferência de imprensa, dada mesmo à saída do avião, os meninos de Liverpool encantaram os jornalistas.
"What do you think your music does for these people?"
"Well, it pleases them, I think. There's enough people to buy it."
"Why does it excite them so much?"
"We don't know, really. If we knew we'd form another group and be managers."
Não se percebe muito bem, mas basicamente o que eles dizem é, os jornalistas perguntam: "Então, o que é que encanta tanto os vossos fãs?"
"Não faço a mínima ideia".
"Não faço a mínima ideia, se soubesse, fazia outra banda e era manager dela".
Essa é a boa resposta.
O New York Times escrevia que parecia que tinham vindo do ar, mas a verdade é que todos sabiam de onde vinham, porque quatro meses antes de aterrarem nos Estados Unidos, já a Grã-Bretanha tinha sido tomada de assalto e as tabelas musicais americanas começaram a dar conta disso mesmo.
Em novembro de 1963, os Beatles apareceram pela primeira vez na televisão, uma peça de quatro minutos que foi vista por milhões em todo o país. Tinha sido até ao momento, a maior audiência que uma banda tinha conseguido fora da Inglaterra.
Por muito estranho que pareça, não há nenhuma cópia dessa peça nos arquivos da NBC, onde foi emitida. Mas de alguma forma, o áudio sobreviveu e foi recentemente descoberto.
The hottest musical group in Great Britain today is The Beatles. That's not a collection of insects, but a quartet of young men with pudding bowl haircuts and who spell Beatles B-E-A-T-L-E-S. They were all born during the Blitz in the Merseyside section of Liverpool, the toughest section of one of the toughest cities in the world.
Há uma frase deliciosa do jornalista na NBC, nesta peça, que é uma peça de quase quatro minutos, que diz: "Talvez o sucesso da banda seja o facto de ninguém conseguir ouvir no meio de tantos gritos".
A verdade é que os Beatles estiveram várias vezes a acumular sucessos antes da viagem para os Estados Unidos. Aliás, Paul McCartney recorda como sendo uma das frases mais arriscadas e mais atrevidas que disseram ao manager da banda, o mítico Brian Epstein, não iriam à América sem terem uma música no top. Foi esta aqui.
Foi essa, exatamente. Foi uma das três que saíram em Inglaterra, todas seguidinhas, e foram essas que tomaram de assalto os Estados Unidos. Nós estamos a construir uma espécie de um fio, porque foi difícil convencer os Estados Unidos de que estes quatro miúdos chamados Beatles eram assim tão bons. Agora, em 1963, estes três êxitos, de seguida, deixaram certo que o sucesso nos Estados Unidos estava perto.
Um deles é este "Please Please Me", que estamos a ouvir, que sai em maio de 1963.
Dez dias depois e após uma série de programas de rádio, televisão e concertos, os Beatles voaram para a Suécia para fazerem uma turnê. Foi um sucesso, claro, quando regressaram, quem estava no aeroporto de Heathrow com mil fãs aos gritos? Pois, claro, o próprio Ed Sullivan, que pouco depois leva mesmo a banda ao maior programa de música do mundo. A revista Variety, norte-americana, publica até um artigo com o título "Beatle Bugs Bites Britain". É melhor em inglês, mas é algo como "Os Caravelhos que Pica Inglaterra", não é? Não sei se é os caravelhos Beatles.
Não faço ideia.
Mas o título aqui é sugestivo, é.
A revista do New York Times publica: "Ingleses sucumbem à Beatlemania". Logo de seguida, é a Life Magazine, com uma fotografia do encontro dos Beatles com a Princesa Margarida.
E aí os americanos então caem de costas, não é? Porque como eles adoram a realeza britânica.
E a 10 de dezembro, a CBS estreia uma reportagem sobre a banda.
Estava tudo pronto para viajarem para os Estados Unidos.
Hoje percebe-se que a imprensa norte-americana estava concentrada nos penteados e na gritaria feminina e nem tanto na música.
Mas não demoraram muito tempo a perceber que os Beatles eram mais do que uma banda, eram um cisma geracional e uma mudança profunda na cultura popular.
Mas se dúvidas houvesse, ficou claro que quando se estima que 40% da população dos Estados Unidos tenha visto o Ed Sullivan Show, bom, aí ficou tudo dito.
And now, here he is, Ed Sullivan.
Thank you very much. You know, something very nice happened, and The Beatles got a great kick out of it. We just received a wire, they did, from Elvis Presley and Colonel Tom Parker, wishing them a tremendous success in our country, and I think that was very, very nice. Now, yesterday and today, our theater's been jammed with newspapermen and hundreds of photographers from all over the nation, and these veterans agree with me that the city never has witnessed the excitement stirred by these youngsters from Liverpool, who call themselves The Beatles. Now, tonight, you're gonna twice be entertained by them. Right now and again in the second half of our show. Ladies and gentlemen, The Beatles!
E terão sido cerca de 73 milhões de pessoas que viram este primeiro espetáculo.
Depois disso, os Beatles ainda vão mais duas vezes ao programa.
É muito engraçado porque no início o Ed Sullivan diz que chegaram dois telegramas ao programa a desejar parabéns, felicidades e boa continuação nos Estados Unidos, e um deles foi de Elvis Presley.
E do coronel, o manager de Elvis Presley, que às vezes é um bocado mal-afamado. Parece que não era muito simpático, mas que é o grande responsável também por toda a carreira do Elvis Presley. Bela viagem esta, a chegada aos Estados Unidos dos Beatles em 1964. Gostei daquela parte em que tu dizias que eles eram muito famosos, porque estava tudo muito concentrado na gritaria, não tanto nas músicas, e esse era parte do sucesso. As pessoas gritavam tanto que não ouviam as canções deles. E eu acho que essa foi uma das razões, até porque os próprios Beatles invocaram para o final da carreira e para aquele último espetáculo nos Estados Unidos, no estádio em Nova Iorque, no Shea Stadium. Eles diziam: "já não dá para dar concertos com tanta gente aos berros e nós queremos que a nossa música se ouça, se calhar ainda vamos gravar mais algumas coisas, mas concertos estamos fartos disto". E tchau Beatles, foi bonito. Bem, de facto 1964 parece ser um ano em que a música explode, ou então quem explode é a música pop. Acho que foi mais isso que aconteceu. E uma das provas foi dada logo a 1 de janeiro de 1964, é a data da primeira emissão do programa da BBC, "Top of the Pops".
"Yes, it's number one, it's Top of the Pops!"
Esteve no ar todas as semanas entre 1964 e 2006, o que faz dele o mais longo dos programas de televisão dedicados à música popular, ajudando a lançar e a consagrar vários artistas.
Também em janeiro de 1964, Bob Dylan lançou o seu terceiro álbum de estúdio. O tema título, "The Times They Are A-Changin", permanece até hoje como uma das mais emblemáticas canções deste Prémio Nobel da Literatura.
Aliás, fazendo verdade a máxima de: "ai, tem uma bela voz para escrever à máquina". Por isso é que ele ganhou o Prémio Nobel da Literatura.
Bom, o tema da mudança foi inspiração para vários temas e ainda em 1964, o músico Sam Cooke faz sucesso com a "A Change Is Gonna Come", um sucesso que cresceu em dezembro, depois da misteriosa e suspeita morte do cantor.
Uma das melhores músicas de sempre, fica já saberes.
Há um documentário sobre a morte ou homicídio de Sam Cooke, creio que está na Netflix.
É o "Remastered", é uma série em que cada episódio é sobre um músico ou a morte de um músico. Um dos "Remastered" é sobre Sam Cooke.
Pois, então foi-se.
Morrem muitos músicos, de forma estranha.
1964 é também o ano da primeira participação portuguesa no Festival da Eurovisão, que foi ganho pela adolescente italiana Gigliola Cinquetti, com "Non Ho L'età". Já as cores nacionais foram defendidas por António Calvário com "Oração", que recebeu zero points.
Bem, mas temos que ser justos. Esta canção fica em último, de facto, em 1964, mas há quatro países que ficam em último, exatamente com zero points. Por isso estamos em consolação com vários países em último neste ano.
Nós quando ficamos acompanhados na cauda de qualquer coisa, já nos sentimos sempre melhor.
É um bocadinho melhor. Bem, vamos fechar a nossa viagem por 1964 com os Kinks, a única banda que poderia nesta altura rivalizar em popularidade com os Beatles ou com os Rolling Stones. A pop explodia, o rock também lançava as suas fundações para géneros que depois vieram a surgir, como o punk ou mesmo o heavy metal. Um caminho que, em parte, foi aberto por esta "You Really Got Me". É um dos grandes sucessos em 1964. K760.