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Cassete 60.
Não é de agora que a habitação faz manchetes. Em 1993, o governo anunciou o lançamento de um programa de 15 mil casas econômicas destinadas à classe média, mas dois anos depois, nem uma casa tinha começado a ser construída.
A construtora contratada pelo governo, a Abrantina, dizia ao jornal Público que houve mais de mil interessados nas habitações, mas não sabia quando estariam prontas. Ao jornal, dizia que a única preocupação até era mesmo começar a obra.
O programa de construção de habitações econômicas prometia T2 a menos de 7300 contos e T4 a 9700 contos, com isenção do imposto de sisa. Para isso, o governo deitou mão de terrenos que estavam há mais de duas décadas na posse do Instituto de Gestão e Alienação do Patrimônio Habitacional do Estado.
Neste programa em especial, as câmaras deixavam de ter competência em atribuir licenças de construção e de utilização, e os empreendimentos passavam a ser certificados pelo Laboratório Nacional de Engenharia Civil.
O jornal Público conta que, apesar da época difícil que atravessava o sector da construção, os primeiros concursos lançados para Almada e Setúbal não atraíram concorrentes. Os projetos foram considerados maus, mas uma fonte ligada ao caso disse ao jornal que pelo menos um teria de ser validado para que o ministro pudesse apresentar. E foi o que aconteceu. Ficou a empresa Abrantina com a construção desse empreendimento.
E como se esta trapalhada não fosse suficiente, o Laboratório Nacional de Engenharia Civil, que era parte integrante do programa lançado pelo governo, através da certificação das construções, apercebeu-se de que ninguém esperava, na realidade, que eles interviessem. Bastava olhar para o caderno de encargos em que as exigências do LNEC não eram tidas em conta.
Exemplos dessas exigências eram o número de lugares de estacionamento, por exemplo, ou as normas pelas quais o empreiteiro teria de se reger durante a fase de construção. As regras não estavam a ser cumpridas porque o instituto do Estado, que estava a gerir o processo, alegava que era preciso marcar a diferença entre o que é habitação econômica e habitação social.
Mas isto ainda piora, porque entretanto ficou a saber-se que através da empresa perdedora no concurso, a Abrantina apresentava piores condições de preço, ou seja, propunha-se a vender as habitações a preços superiores às dos concorrentes.
Quem também não estava contente era a Câmara de Almada, que dizia que a densidade de construção prevista para o local contrariava o plano diretor municipal.
Entretanto, a empresa construtora queixava-se do atraso e do dinheiro empatado no projeto.
O caso a envolvendo a parte respeitante à qualidade piorou substancialmente quando do próprio Ministério das Obras Públicas saiu um decreto lei que limitava as competências do Laboratório Nacional de Engenharia na atribuição da marca de qualidade. O laboratório passou a apreciar apenas a qualidade das construções.
Com isto tudo, das 15 mil casas econômicas prometidas, as primeiras 400 estariam prontas, na melhor das hipóteses, no último semestre de 1997. Já se falava em lançar novos concursos em Setúbal, Oeiras, Alfragide e no Porto. Até lá, e para o primeiro dia de obras da Abrantina em Almada, ficou logo marcada uma cerimônia com a presença do secretário de Estado da Habitação. Uma fonte ao Público dizia que iria ser um grande acontecimento midiático.
O que aliás se percebe por esta história é que midiatismo foi coisa que não faltou. A construção, essa, é que se atrasou por mais dois anos até estar pronta.
Uma das minhas partes favoritas nesta história é quando tem que se atribuir uma licença, pelo menos para fazer a figura, de apresentar o projeto.
Sim, pelo menos um. Tem que ir lá lançar a primeira pedra.
Exato. Por isso, despassem-se lá com isso, faz favor, que o ministro ou o secretário de Estado precisam de ir lá meter uma pedra. Bem, o problema da habitação é transversal há alguns anos aqui em Portugal. Estamos a viver, de facto, uma nova crise, mas hoje fizemos esta viagem no Cassete 60, a 93 e a 95. Olhe, eu fiquei-me aqui pelo ano de 93, um ano que teve como grande campeão de bilheteira nos cinemas o filme "Parque Jurássico", mas que fica também marcado pela estreia de "A Lista de Schindler", que viria a conquistar no ano seguinte sete Oscars da Academia.
Mas 1993 fica também marcado pelas mortes dos atores Brandon Lee, filho de Bruce Lee, vítima de um acidente durante as rodagens do filme "O Corvo", e ainda de River Phoenix, devido a uma overdose na discoteca Viper Room, em Los Angeles. Já a carreira de Arnold Schwarzenegger não morreu, mas abanou com o falhanço comercial do filme, que é um dos meus preferidos dele.
Eu gosto imenso deste filme.
"O Último Grande Herói".
Também eu. E quem é que resiste a esta guitarrada? Tinha um ótimo vilão com olho de vidro.
Era o Charles Dance.
É ótimo ele.
Muito bom. E este filme é escrito pelo Shane Black, que é autor de alguns dos argumentos mais originais de Hollywood. Foi ele que escreveu o "Arma Mortífera", por exemplo, ou "A Fúria do Último Segredo". Muito bom. E realizado por John McTiernan, do "Perdedor".
Mas acho que este filme perdeu dinheiro que se fartou.
Pois foi, foi um grande fracasso.
Em Portugal, o top de música de 93 é dominado pelo estilo eurodance, pelas baladas de Eros Ramazzotti e pelo single "La Cabra", da banda Farma & Lopes.
Que não vamos ouvir hoje.
Ainda bem. Mas pelo meio também consta um sucesso de Marco Paulo, esta "Amante, Irmão, Amigo".
Se é o teu corpo que eu procuro na minha cama, que hás de fugir de quem te ama. O destino está traçado, será cumprido. Serei teu amante, irmão amigo
A disposição do Bruno de Vieira Amaral melhora logo com isto.
Não quero levantar falsos testemunhos, mas se não estou em erro, esta canção não passava na Renascença.
Não passava? "Amante, Irmão, Amigo".
Não sei porquê.
Não percebo porquê. Bem, Eurodance era um género que também dominava a tabela internacional das músicas mais ouvidas em 93. O "What Is Love" do Haddaway e o "Informer", de Snow, fecham o top cinco, que tem ainda os 4 Non Blondes no terceiro lugar com o "What's Up?" e os UB40 em segundo com a "I Can't Help Falling in Love With You", um sucesso que foi popularizado por Elvis Presley. E é essa mesma que vai fechar o "Cassete 60" de hoje, até porque no primeiro lugar ficou Meat Loaf com "I'll Do Anything For Love ", e eu essa não me apetece ouvir hoje.
Também não vais fazer essa.
Pode ser? Não.
I won't do that.
É verdade.