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Olá, professor Carlos Filhais.

Olá, João Miguel.

Professor, tem acompanhado as notícias sobre a crise política?

Tenho, claro. Essas coisas não escapam a nenhum cidadão português.

É verdade.

E foi uma surpresa pra todos.

Em causa, estão alegadas ilegalidades em negócios em torno da transição energética, nomeadamente a produção de hidrogênio verde, gás sobre o qual já falamos aqui há uns meses, professor.

Sim, eu lembro-me disso. Falamos do hidrogênio.

E também-

Das cores do hidrogênio.

Exatamente. E também do lítio. Há suspeitas sobre negócios do lítio, um elemento químico que serve para fazer baterias. É precisamente sobre o lítio que vamos falar no programa desta semana. Professor, sei que o lítio é o terceiro elemento químico da tabela periódica, mas confesso que sei pouco mais. O que é o lítio?

O lítio é, de facto, um elemento químico, é o terceiro. Portanto, o primeiro é o hidrogênio, o segundo é o hélio e o terceiro é o lítio. Significa que tem três prótons no núcleo, portanto carga positiva três, e tem três eletrões à volta para equilibrar a carga. Os átomos são neutros. E desses três eletrões, um tá desemparelhado, o que significa que é muito reativo, é um elemento químico muito reativo e é um bom condutor, é um metal. Portanto, o lítio é um metal. É o mais leve de todos os metais. É leve porque o núcleo atômico é leve, tem, como eu tava a dizer, três prótons e depois há duas modalidades. O mais comum tem quatro neutrões e há outro, o chamado isótopo, que tem três neutrões, mas o mais comum, 90% na Terra tem quatro neutrões.

E quando é que esse metal foi descoberto, o lítio?

Isso é muito interessante. Há um português aqui, há um indivíduo que era nativo do Brasil, mas o Brasil, na altura, era do império português, José Bonifácio, que tinha estudado na Universidade de Coimbra e que havia também de ser professor na Universidade de Coimbra, professor de Metalurgia. E entre ser aluno e ser professor, ele fez uma grande viagem pela Europa, uma viagem de instrução durante vários anos. E esteve na Alemanha e esteve na Suécia. E na Suécia, ele encontra numas minas do sul da Suécia, um mineral chamado petalite, que é um mineral que tinha lítio, portanto, foi o primeiro mineral de lítio que foi identificado. O primeiro minério de lítio encontrado no mundo foi por um português numa excursão à Suécia. Escusava de terem ido tão longe, porque há cá lítio em Portugal.

Pois é.

Exatamente, esta petalite também há cá. Mas o que é certo é que demorou algum tempo a seguir, porque ele não identificou o elemento, ele identificou o minério, um minério novo, que mais tarde se revelou que tinha o elemento. Demorou 17 anos, porque foi depois o químico sueco Johan Arfwedson, em 1817, que disse que tava ali um elemento químico novo, o tal terceiro da tabela periódica. E muito interessante, um colega sueco também muito conhecido, Berzelius, um químico, deu-lhe o nome de lítio. Lítio vem do latim, significa-

Do grego, lithos, não é?

Lithos, exato. Pedra. Este nome pedra, de facto, pode-se pensar que é pesado, mas de facto, como eu já disse, é um elemento químico, é dos metais, é o mais leve e mesmo dos corpos sólido, dos elementos sólidos, porque o hidrogênio e o hélio são gasosos em condições normais. É o mais leve de todos. Olhe, por isso serve para as baterias, onde ele é usado, porque é um elemento bastante leve.

Já vamos falar do seu potencial energético. Professor, onde é que se encontram as maiores reservas de lítio do mundo? Já disse que há muito em Portugal, não é? Tem sido notícia nos últimos tempos.

Portugal é o maior produtor de lítio da Europa. Produtor e onde estão as maiores reservas. Portanto, na Europa ninguém nos bate. No mundo, o campeão é-- este é um programa da Rádio Observador, o campeão é?

É verdade. E o campeão é?

A Austrália.

A Austrália?

A Austrália tem 47% da produção de lítio no ano de 2022, portanto, tem quase metade da produção de lítio que vem da Austrália, mas a seguir, com 30%, tá o Chile, um grande produtor de lítio. Tem aquilo que se imagina que sejam as maiores reservas do mundo nos Andes. O terceiro é a China, 15%, e depois vem a Argentina, também lá está ligado aos Andes. Nos Andes há grandes lugares onde há lítio. E depois o Brasil, Zimbábue, Portugal aparece a seguir, em sétimo lugar. A seguir a Portugal, vem o Canadá. De todos os países, depois do Canadá, todos juntos, todos os países do mundo, equivale no total a Portugal.

Uau!

Portanto, junta aí os outros países, o resto do mundo. Antes usava-se no futebol, seleção do resto do mundo.

Exato.

Portanto, se formos ver aqueles que Portugal tem o sétimo lugar, o oitavo é o Canadá e todos os outros têm o equivalente a Portugal, que é 0,5%, digamos, da produção mundial. O que é, de facto, uma coisa notável, porque não é normal, eu não sou geólogo pra explicar isto, é que as reservas de lítio da Europa vão precisamente aparecer nesta ponta da Europa, num país pequeno. Haverá razões geológicas pra isso.

Tratando-se de um mineral, tem que se extrair da terra. A extração do lítio provoca danos para o meio ambiente, professor, pra além das crateras que vai deixar na paisagem, obviamente. Há efeitos secundários, digamos assim?

As crateras acabam por ser o menor dos males, porque é como uma pedreira, fica ali aquilo. Aliás, há duas maneiras de extrair lítio. Uma é a que se faz lá no Chile e nos países andinos, que é a partir de lagos, há concentração a partir de lamas, de lodos, conseguem tirá-lo daí. Mas em Portugal e noutros sítios, na Austrália, em particular, tira-se da rocha, e de minério, não é preciso cavar túneis subterrâneos, encontram-se em rochas à superfície. E há vários sítios do país, ainda agora esses sítios mais falados, Boticas, Montalegre, mas também há noutros sítios de Trás-os-Montes, também há no Minho, fala-se muito na Serra d'Arga e também há na Beira Interior, à volta da Guarda. E portanto, é o norte do país e o centro interior do país, são sítios onde existe o tal lítio. É preciso ir tirá-lo, se decidir que se vai tirar, e aí a coisa tem prejuízos. Tem prejuízos, vou dizer quais. Ambientais.

Sim.

Pra já, aquilo que era uma zona agrícola ou silvícola, uma paisagem natural, deixa de poder ser aproveitada. Há uma flora, uma fauna que fica prejudicada. Depois, não se pode fazer uma extração a céu aberto sem haver caminhões, combustíveis, instrumentos, ferramentas, muita água, é preciso usar muita água, o que significa que aqueles solos vão ficar de algum modo prejudicados. Depois há alterações de vários tipos, por exemplo, as chuvas, as linhas de escamente as chuvas vão passar a ser diferentes, toda a paisagem à volta vai ser influenciada. Portanto, não há mineração verde, quer dizer, não há em lado nenhum. Estamos a falar de lítio, podíamos estar a falar de outro mineral qualquer.

Sim.

Os minerais, em particular os que são tirados da superfície da Terra, causam danos no ambiente e, portanto, terá de ser feito minimizando o mais possível esses danos, porque nós não podemos deixar de usar recursos. A questão é usar os recursos da melhor maneira, apresentando que o risco seja os menores possíveis, em particular para as populações locais.

Exatamente, ponderação e equilíbrio, sempre. Há quem chame já ao lítio o petróleo branco. Qual é o potencial energético deste metal, professor?

É muito grande, porque as pessoas às vezes falam contra o lítio, mas usam o lítio nas suas baterias de telemóvel. Usam baterias de lítio nos seus computadores, usam baterias nos carros elétricos ou híbridos, e cada vez mais se usam telemóveis, computadores, carros elétricos ou híbridos. E, portanto, a questão é: precisamos de lítio, porque usamos as baterias de lítio nos nossos artefactos e cada vez mais vai ser preciso, em particular os automóveis elétricos vão ser cada vez mais. E há pouco eu voltei a dar nisso, porque é muito pior para o ambiente usar automóveis movidos a gasolina ou a gasóleo. E há outras razões, por exemplo, as eólicas e as centrais solares, que Portugal também tem, e bastante, e ainda bem, mas aquilo tem um funcionamento intermitente, só funciona quando há vento, só funciona quando há sol e há uma necessidade de guardar energia, de armazenar energia e, portanto, vai haver, está a haver tentativas de fazer com que haja baterias ou parques de baterias, baterias cada vez maiores. Nós vamos precisar de baterias e até baterias de tamanho considerável para manter a rede elétrica a funcionar de uma maneira mais regular e mais fiável, melhor para as populações.

E quando é que se inventaram as baterias de lítio, professor? E já agora, como é que funcionam as baterias de lítio? Funcionam como as outras feitas de outros materiais?

Não. A pilha é sempre um instrumento, a pilha, a bateria, é sempre um instrumento, um artefacto, um objeto que transforma energia química em energia elétrica. Este é sempre o princípio de tudo e a primeira pilha foi feita por Volta, a pilha de Volta, e foi de 1800. E as pilhas que usamos de grandes motores de arranque dos automóveis a gasolina ou a gasóleo, são baterias de chumbo, que já vêm do século XIX e depois vieram os cádmio-níquel. Portanto, há muitas tecnologias que se foram desenvolvendo ao longo dos tempos. E esta tecnologia das pilhas ou baterias, baterias é o melhor nome, de lítio, é muito recente. Há várias hipóteses de usar o lítio. Há uma que usa o lítio metálico e usar só uma vez e não ser recarregável. Há pilhas para isso, há pilhas de lítio, mas eu vou falar daquilo que é mais corrente atualmente, que são as pilhas de íons de lítio. Já vou explicar o que isso é. Pilhas de íons de lítio, que são aquelas que se usam normalmente nos telemóveis, nos carros, etc. Essas pilhas têm uma história recente. Essas pilhas começaram a ser desenvolvidas nos anos 70 e só apareceram no mercado, e o primeiro caso foi da Sony, no início dos anos 90. Mas o que se passou depois disso, depois de 1990, 91, foi extraordinário nestes últimos 30 anos, porque nós só hoje podemos ter os telemóveis no bolso, da maneira como temos os portáteis, os computadores, e andar de carro elétrico, porque houve este avanço portentoso da tecnologia.

Uau.

E esse avanço foi feito graças a físicos e químicos, mais aos químicos, e o Prêmio Nobel de Química foi dado no ano de 2019 a três cientistas que são responsáveis por estes desenvolvimentos e valerá a pena dizer os seus nomes. Há um americano que, na altura, nos anos 70, trabalhou para uma companhia de petróleo, a Exxon, e havia a questão de usar baterias elétricas. Depois, ele não teve grande sucesso na comercialização das baterias que ele propôs, mas já lá estava o lítio, o que significa o seguinte: uma bateria destina-se a fornecer energia elétrica a um circuito, onde se movem os eletrões. E aqui tem dois elétrons, duas inserções no circuito. Uma é o cátodo positivo e outra é o ânodo negativo. E o cátodo que ele inventou foi um material em que tinha o sulfureto de titânio, mas que se podiam lá meter íons de lítio. O que são íons de lítio? É o átomo de lítio que tira o elétron de fora, portanto, fica positivo. Em vez de três elétrons, tem só dois elétrons. E esses átomos então viajam no meio eletrolítico, no meio líquido, viajam para o ânodo e isso assegura a transformação de energia química em energia elétrica. E é recarregável, porque pode-se funcionar ao contrário, pôr eletricidade e as cargas vão para o sítio onde estavam e durante o tempo de vida da bateria podem, quando se carrega ou descarrega, vão de um sítio para o outro. Esta técnica foi aperfeiçoada e houve um americano, mas nasceu na Alemanha, John Goodenough. É um nome muito engraçado, Goodenough, traduzido à letra é suficientemente bom. Ele era suficientemente bom, o Goodenough. E o John Goodenough é um cientista notável e tem ligação a Portugal, já vou explicar. É um cientista notável, porque teve o Prêmio Nobel aos 97 anos. É até hoje o cientista que teve o Nobel. Ele morreu em junho deste ano

Uau!

Ele morreu em junho deste ano, com 90 e já mais algo. Porque ele ganhou o Prêmio Nobel em 97, em 2019, ele morre com 100 anos.

Uau!

É impressionante, não é?

É, sim senhor.

E este homem a trabalhar até aos 98. A ligação a Portugal: ele aperfeiçoou, porque pôs no cátodo o mesmo material, que é o que se usa agora, que é um óxido de cobalto. Cobalto também é uma coisa rara e difícil de encontrar. Há, por exemplo, na República Democrática do Congo, é o campeão da extração de cobalto. Eles arranjam então uma liga de cobalto, onde se põem os tais íons de lítio, e isso funcionava melhor, era mais seguro, havia menos riscos de haver incidentes, etc. Este homem tem uma ligação a Portugal, porque ele foi professor convidado da Universidade do Porto e tem uma colaboradora portuguesa, uma cientista da Universidade do Porto chamada Helena Braga, que até recebeu um subsídio do ganhador do Prêmio Nobel, que trabalhava com ela, deu 500 mil dólares para a investigação dela, porque ela está a tentar desenvolver uma bateria ainda à base do lítio, mas com um meio que em vez de ser líquido, é sólido. Já agora, nos telemóveis aquilo não é líquido, é um polímero, é uma coisa de plástico que está lá a fazer de meio eletrólito, está entre o cátodo e o ânodo. E essa portuguesa tem agora uma patente em que uma parte é americana, outra parte é portuguesa, outra parte até é da Universidade do Porto, de um novo tipo de baterias de lítio, não sabemos qual é o sucesso que têm. Portanto, há aqui uma componente portuguesa. Aliás, ele soube do Prêmio Nobel por ela, foi ela que lhe deu a notícia, estavam os dois numa reunião internacional e foi ela que lhe deu a notícia. Portanto, Portugal tem aqui participação. E o terceiro foi um japonês, Akira Yoshimo, que em 1985 trabalhava para uma grande companhia nipônica de materiais de química, mas depois quem começou a usar primeiro foi a Sony, uma companhia muito conhecida. E a partir daí, o lítio passou-se a usar, aquilo pegou. O que fez o japonês? Conseguiu, do lado do ânodo, evitar o uso do lítio e pôs grafite, que é aquilo que se usa nos lápis, que recebe os íons de lítio e quando aquilo está a carregar, é o contrário, emite os íons de lítio. E, portanto, um aperfeiçoou o cátodo, o outro aperfeiçoou o ânodo, e é assim que funcionam as tecnologias. As tecnologias funcionam por contribuições sucessivas de várias pessoas e entrou na vida corrente e as pilhas tornaram-se cada vez mais baratas.

É verdade. Ao ponto de, nos últimos anos, termos vindo a assistir a uma autêntica corrida do lítio, inclusive em Portugal. Mas o lítio já é usado há muito tempo, ou não, professor? Tenho ideia que até na medicina é usado, não é?

Sim, é verdade. Mas é interessante porque há 30 anos, antes de haver estes estudos, até direi menos, há 20 anos, para ver como as coisas são rápidas, os maiores usos do lítio eram industriais para fazer cerâmicas e vidros mais resistentes ao lume, o que significa entrava na composição. Era apenas um aditivo aos materiais cerâmicos para fazer melhor loiça, de algum modo.

Portanto, é possível que eu tenha lá uma fruteira em casa, professor, com lítio lá dentro.

Pode acontecer. Essas coisas que vão ao forno. Pode acontecer isso. E era o maior uso do lítio. Isso também se usava em lubrificantes para máquinas, etc. E atualmente, de longe, o maior consumo de lítio é precisamente para as baterias, para qualquer aparelho e para os automóveis. Portanto, mudou a finalidade do uso do lítio. E tem razão, o lítio também tem aplicações médicas, enfim, são minoritárias, mas desde há muito tempo que se sabe que um composto de lítio é um bom medicamento para a doença bipolar, para uma forma de doença mental, que é uma doença muito aborrecida, e as pessoas muitas vezes dependem de comprimidos de lítio.

Muito bem, já aprendi muita coisa sobre o lítio. Aposto que também os nossos ouvintes aprenderam muitas coisas novas sobre este metal. Se gostou deste episódio, partilhe-o com os seus amigos nas redes sociais. Eu já vi que o professor partilha os episódios do "Ciência Pop".

Sim, eu faço sempre isso. Aqui no meu telemóvel, que não por acaso tem baterias de lítio.

É verdade. Se gostou do episódio desta semana, partilhe-o então com os seus amigos. Se nos ouve no Spotify, na aplicação telemóvel, no final deste programa, daqui a uns minutos, pode encontrar uma pergunta. A pergunta é: qual é o símbolo químico do lítio? O professor não pode responder, porque sabe.

Não digo.

Não diga. Lt, Li ou simplesmente L. Professor, até para a semana.

Adeus, até para a semana. Foi um gosto, mais uma vez.