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Olá, professor Carlos Filhais.

Olá, João Miguel.

Professor, estamos na mudança do ano, é por isso a oportunidade perfeita para falarmos de um sistema de organização do tempo inventado há milhares de anos: o calendário. Professor Carlos Filhais, quando é que foram criados os primeiros calendários? Creio que estão ligados aos ciclos do sol e da lua, não é? Confirma?

Sim, confirmo. João Miguel, eu confirmo sempre estas coisas. És uma pessoa muito bem-informada.

Bom aluno.

Os calendários são sistemas que nos permitem contar o tempo e organizar o tempo. O tempo está organizado naturalmente, eu reforço a palavra naturalmente, em dias, meses e anos. Dias, por quê? Dias porque é o tempo que a Terra demora a dar uma volta de rotação em todo o seu eixo. Meses, por quê? Porque aproximadamente um mês é o tempo de uma lua até à próxima lua na mesma fase. Portanto, uma lua nova a lua nova, por exemplo, são 29 dias, é praticamente um mês. Anos, por quê? Porque é o tempo de que a Terra, no seu percurso elíptico, mas quase circular à volta do Sol, demora a dar uma volta completa, do 1 de janeiro até ao 1 de janeiro, embora 1 de janeiro seja bastante convencional, quer dizer, podia ser uma coisa mais astronômica, como o solstício de inverno ou outra qualquer data que tenha um significado associada às estações do ano. O problema dos calendários é que estas contagens naturais que estão associadas à nossa circunstância astronômica, portanto, ao fato de estarmos neste planeta com este movimento a rodar em torno da estrela e com a Lua a rodar em torno de nós. O nosso calendário é marcado por estes astros, pelo Sol e pela Lua. E o problema dos calendários é que estes tempos, o tempo de rotação, o tempo de translação, o tempo da volta da Lua, não encaixam bem uns nos outros. E, portanto, a organização dos calendários é resultado das nossas circunstâncias, de estarmos aqui neste sítio onde estas várias unidades naturais não encaixam bem umas das outras. Os calendários não sabemos, mas os calendários mais antigos de que temos registro são naturalmente a partir do momento em que passa a haver história, em que passa a haver documentos escritos.

Portanto logo aí nasceu a necessidade de fixar em superfícies.

Claro, que na pré-história já contavam as luas, como é evidente, e já contavam os dias, o sol, com certeza. A palavra dia tem dois significados: pode ser as 24 horas ou pode ser a parte do dia que estamos virados para o sol. Mas isso já se contava na pré-história. A questão é que haver documentos, a organização de todos estes tempos ao longo de um período grande, só começou com as primeiras civilizações que inventaram a escrita. Foi o caso dos egípcios, cerca de 3 mil anos antes de Cristo, a dar registros de calendários, e dos sumérios, um bocadito depois. É muito difícil também datar com precisão. Mas podemos dizer que o calendário egípto era muito bom, era um calendário de base solar, o que significa que os egípcios já sabiam que o ano demora 365 dias. Enfim, não com a precisão absoluta, mas já tinham o ano dividido em 365 dias. E depois o tempo do Egito, no Nilo, a Terra que era marcada pela atividade fluvial, é muito marcado por estações. Eles tinham, principalmente, três estações. Era as inundações, que era de setembro a janeiro. Depois, de janeiro a maio, eles chamavam de o inverno. E depois era o verão, que era o tempo de menos água, de maio a setembro. E portanto, era a quantidade água no rio que dizia quais eram as estações. E estas estações eram de 120 dias, três estações de 120 dias, dá o número don 360. Não dá os 365, de modo que eles tinham que meter uns dias a mais ou uma estação pequena a mais, qualquer coisa, mas já tinham quatro blocos de 30 dias em cada estação. E isto é, de facto, solar, embora eles também tivessem calendários lunares, mas a certa altura preferia-se o solar. Os sumérios combinam as duas coisas. Combina o lunar com o solar. E então o que é que eles fazem? Têm também os meses, que é do começo de uma lua nova até à próxima lua nova. Portanto, era preciso observações astronômicas, saber quando é que começava o tempo. E depois a questão é a dos 12 meses lunares, que não encaixam bem com o ano. E portanto, tinha de haver aqui umas coisas metidas. Toda a série dos calendários consiste em fazer estes ajustes. E depois vieram os gregos, e depois vieram os romanos. Os romanos tinham uma organização de calendários muito boas. Aliás, a própria palavra calendário vem do latim.

Vem do latim.

Vem do latim, sim.

Qual é a palavra?

A palavra calendário. Aliás, até se usa uma palavra chamada calenda. Calenda era o primeiro dia do mês em latim. E também tinha um significado, era que os registros deviam ser feitos nesse dia, era uma espécie de prestação de contas. E portanto, a palavra calendário tem também a ver com registro. É o primeiro dia do mês, o dia dos registros, nesse aspecto, mais que os gregos. Os gregos tinham calendários, mas não tão bons Como os romanos, até há uma expressão popular que é: "Fica para as calendas gregas". As calendas gregas é o dia de São Nunca, não existe. Porque eles não tinham a prestação de contas, não havia a palavra calendas, do primeiro dia do mês. E portanto, as calendas gregas não existem.

Uma balburdia. Os romanos aperfeiçoaram o calendário, não foi, professor?

Aperfeiçoaram o calendário. Eles tiveram, a certa altura, durante muito tempo, um calendário de 10 meses, que começava em março. No tempo da República Romana, o período áureo da civilização romana, fizeram já os 12 meses, que basicamente são os meses que hoje temos.

Incrível.

Pouco antes de Cristo, 46 antes de Cristo, o grande imperador Júlio César decretou um aperfeiçoamento, que os sábios fizeram, com certeza não foi ele, o imperador só decretava, que é o calendário juliano, ficou conhecido pelo nome dele. Tem a ver com a questão dos anos bissextos. Nesse calendário, apareceu a questão de haver um dia que de quatro em quatro anos era metido a mais, precisamente para encaixar, porque o ano não são 365 dias, são 365 dias e um quarto e seis horas. Ou aproximadamente seis horas.

Depois ao fim de quatro em quatro anos é preciso fazer o ajuste.

Ainda há os restinhos que só haviam de ser corrigidos depois no calendário gregoriano. E portanto, durante muito tempo valeu o calendário juliano, é um dos legados ao mundo da civilização romana. E a organização dos anos bissextos é dessa altura, a organização dos 12 meses, com os nomes que hoje têm, é dessa altura. E portanto, está de algum modo tudo organizado. Nós devemos isso aos romanos. E os cristãos herdaram depois aquilo e mantiveram naturalmente aquilo, com a semana de sete dias, a organização da semana, o dia do Senhor, tudo isso.

Até porque há vários calendários em vigor no mundo, sendo que o mais usado é o chamado calendário gregoriano.

De longe. Há muito poucos países que não usam, mas de facto uniformizou-se lentamente porque o calendário gregoriano-

Quando é que isso aconteceu, professor?

Foi em 1582, no Papa Gregório XIII. Tinha havido, mais uma vez, uma comissão de sábios ligados à Igreja, um dos quais até Cristóvão Clavius, que tinha passado por Portugal por um colégio jesuíta em Coimbra. E curiosamente, Portugal aparece aqui porque Portugal já estava na União Ibérica em 1582. Mas juntamente com Espanha e juntamente com os estados ligados ao Vaticano, na Itália, e com o território que hoje é Polónia e Lituânia, são os primeiros países do mundo a adotar o novo calendário, que era um calendário muito melhor que o outro, corrigia aquela questão de o ano não ser exatamente 365 dias e seis horas, mas um pouquinho menos. E portanto, o que é que aconteceu? Aconteceu que isso foi decretado pelo Papa e muitos países, por exemplo, a Grã-Bretanha, a Inglaterra não quis obedecer ao Papa. Há uma frase do astrónomo Kepler, alemão, que diz: "Os ingleses preferem desobedecer aos céus do que obedecer ao Papa". Portanto, aquilo estava muito bem feito e Portugal foi dos primeiros países a entrar no novo calendário. Houve países, por exemplo, a Inglaterra, só em 1752. O Japão, tenho aqui a nota, só em 1873. Há países, até da Europa, a Grécia, só em 1923. Só há 100 anos é que a Grécia passou.

A Turquia em 1926, não foi?

Exatamente.

E a China em 1949.

A China foi em 48. A Rússia em 1918. A questão do calendário gregoriano, tem muita piada, porque houve um buraco de 11 dias. Isso aconteceu no dia 4 de outubro de 1582, passou-se diretamente para o dia, por decreto papal, aqueles que aceitaram, passaram para dia 15 de outubro de 1582. Não existe o dia 5 de outubro de 1582, nem 6, nem 7. Aqueles 11 dias foram feitos para tapar umas discrepâncias de tempo que tinham sido descobertas para alinhar as coisas e isso tinha a ver com a comemoração da Páscoa, com coisas desse gênero. As festas religiosas também têm a ver com o calendário. Uma curiosidade: a Santa Teresa d'Ávila, de Espanha, morre a 4 de outubro de 1582. Só foi enterrada a 15 por uma razão muito simples, 15 foi o dia seguinte ao dia 4.

Coitada da senhora. Portanto, o calendário gregoriano é aquele que é, como dizia o professor há instantes, de longe o mais usado. Mas há outros. Por exemplo, os judeus têm um calendário.

Muito complicado.

É complicado?

É um calendário tradicional.

Eu socorri-me aqui num site, a internet ajuda nestas coisas, e fui meter aqui o dia 31 de dezembro de 2023. Hoje, segundo o calendário hebraico, estamos no ano 5784. Incrível, não é?

Isso é uma coisa bíblica.

É, não é?

Deve ter a ver com a criação, deve ter a ver com o Gênesis, com o Antigo Testamento.

Estamos no mês Tevet, no dia 19.

Não sabia, João Miguel, não sabia. Estamos sempre a aprender. Ainda o ano não acabou e ainda estou a aprender.

Sabem em que ano é que estamos no calendário islâmico? 1445. Incrível.

E há o calendário Maia.

Exato.

Há uma multiplicidade enorme de calendários, mas de facto o calendário gregoriano é um standard neste momento em todo o mundo. Se nós queremos tratar de coisas uns com os outros, temos que ter um calendário comum, senão não nos entendemos, não conseguimos fazer encontros.

Senão haveria uma confusão.

Por exemplo, este programa tem um certo dia, uma certa hora, quando aparece, a gente diz sempre que usamos o calendário gregoriano.

É verdade. Olhe, professor Carlos Filhais, foi um enorme gosto ter partilhado este espaço consigo aqui na Rádio Observador.

Igualmente consigo. Um bom ano para si.

Um bom ano e feliz 2024 também aos nossos ouvintes. Diga, ia dizer, professor.

Ia dizer que gostei muito de fazer este programa consigo. Foi uma oportunidade extraordinária, mas ano novo, vida nova e haverá outras oportunidades de fazermos outros programas. E portanto, desejo a todos os ouvintes um grande ano e tenho a certeza que se fizerem por isso, vai ser. E portanto, façam um bocadinho por isso, para que seja um grande ano.

Vamos todos fazer por isso. Feliz 2024, professor.

Feliz 2024. Bom ano novo.