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Hoje no "Como o Amor se Paga" temos Eduardo Marques.

É isso mesmo.

Bem-vindo. Hoje não está a Filipa Duarte, ela está de férias e bem merecidas. Portanto, serei só eu, Rita Camarneiros. Eduardo Marques, tu que vieste do Norte, vieste do Porto hoje.

É verdade. Hoje vim do Porto.

E chegaste a hora, antes do tempo. Isso é espetacular.

Sou obcecado por chegar a tempo às coisas. Não é para parecer bem, é porque eu não sei lidar com chegar tarde.

Mas deixa-te extremamente ansioso, é isso?

Tenho que controlar tudo na minha vida. Não gosto de surpresas, era o que eu estava te a dizer, é mesmo isso. Lembro uma vez que cheguei muito em cima ao Ferro, tive que montar a sala, fui comer, estava atrasado em tudo e fui pra palco e foi uma porcaria. Ia dizer uma asneira, mas acho que aqui convém não.

Olha, não estou habituada a ver-te com fio.

Eu tenho várias facetas.

Sim, tens várias facetas.

Rita, eu tenho várias facetas.

E é engraçado, porque tu és muito bom no improviso. Tu és várias vezes mestre de cerimônias, portanto o apresentador que também faz stand up.

É verdade.

Estou a tentar... MC?

Sim.

É como se diz. E és provavelmente o melhor MC, pra mim, o melhor MC em Portugal. Não é passar a mão pelo ombro lá porque vieste do Porto.

Não, eu já te ouvi dizer isso.

É mesmo porque és mesmo diferente.

Tem a ver, foi um coincidir de situações que me ajudam a mim. Eu tenho o Ferro.

O Ferro, que é um bar muito conhecido no Porto de comédia.

O Ferro Comadre, no Porto. Somos provavelmente a noite mais antiga de sempre, cinco anos, todas as terças-feiras estamos lá. E as minhas características, já mesmo na escola de teatro, que eu estudei teatro antes de ir pro humor, diziam-me que eu era forte naquela cena do ligado em cena. Era a melhor coisa que me diziam sempre.

Sim, ou seja, consegues meter conversa com qualquer pessoa. Interessas-te verdadeiramente e estás a ouvir a pessoa e é diferente aquilo que vais dizer. Ou seja, não parece que tenhas algo já, não é aquela coisa: "Ah, vocês são um casal?"

É porque posso ir por aí às vezes também.

Não, mas sim, sei o que eu estou a dizer. Parece que não tens um guião para isso.

Tudo na vida é prática. Ainda hoje estivemos a falar disso, eu e o João Pedro, ele veio comigo na viagem. Não há nada que tu faças 10 vezes, que se fizeres 100, à 100 não faças melhor.

Mas não te aborreces a fazer à centésima vez, por exemplo?

O Crowd Work tem essa cena fixe que é tipo...

Não é monótono.

Tu não levas nada. Pode ser muito bom pra ti quase todas as noites e pode ser muito mau pra ti quase todas as noites. Não é aquele texto, tu tens aqueles 10 minutos batidos que tu sabes. É muito mais: eu não tenho nada na mão. Às vezes quando estou a brincar com eles, eles estão a rir lá atrás, os humoristas, quando eu digo eles, é os humoristas, e eu digo: sem nada na mão.

Sem truques na manga, é isso?

Não, sem nada na mão, sem texto.

Sim.

Ter gargalhadas como eles que estão a fazer texto e eu não tenho texto nenhum, cheguei lá e comecei a falar e as pessoas estão rindo tanto. Isto é o que eu lhes digo a eles: "Estão a ver? Sem nada, sem nada na mão." Mas isso é só porque eu tenho essa skill, que os humoristas, todos eles dentro do humor, têm uma skill. Esse é o meu skill, e eu pude explorar esse skill à mesma velocidade, todas as semanas, e isso fez com que eu fosse seguro, pelo menos, a fazer de MC. Mas é a coisa que mais me valorizam, por acaso, Rita, e tu és uma das pessoas que valorizam também.

Sim, verdade. Digo porque é genuíno. No Ferro Bar, quem começou essas noites de comédia? Foi ideia tua.

Não. Nós estávamos na Casa do Livro. Eu confundo sempre, sou meio disléxico. Casa do Livro, que era um barzinho. E a ideia foi mesmo essa, foi um bar pequeno, que esteja aberto a ideias novas e que tenha no máximo 25 lugares, porque vamos começar a fazer isso semanalmente. Não havia no Porto, no centro do Porto. E começamos aí, fizemos, foi um ano e meio giro, só que dava muito trabalho montar a sala, aquilo estava perdendo um bocadinho de força, porque já não estávamos muito em sintonia e eu deixei de ter noites. Houve um dia que o Kes, o rapper, foi ao Igor e disse-me: "Tenho que falar contigo depois em off, tenho que te dizer uma cena." Eu: "Não, mas diz". E ele: "Olha, há uma sala que tu tens que ir ver, que eu acho que é perfeita pra tu fazeres as tuas noites de stand up." Eu conhecia já o Maus Hábitos, já tinha estado com eles. Não era hipótese, era uma primeira hipótese que eu tinha, eu falava com eles, eles não estavam abertos a isso. E eu: "Vou ver o que ele está a dizer." E era o Ferro. Eu cheguei, tinha sala dedicada, porta fechada. Olhei, tem espaço pra 70 pessoas. É isto que eu quero, semanalmente.

E é uma salinha e o bar funciona à parte, ou seja, dá perfeitamente pra as pessoas estarem, se não quiserem ir ver.

Tem terraço, tem mesas cá dentro, sala dedicada. Quando eu digo sala dedicada, é sala que fechas a porta e só acontece aquilo. Não tem bar, não tem nada. Foi fixe. Quando lá cheguei, o dono é meu amigo, aqueles amigos que tu tens, mas não é teu grupo de amigos. É meu amigo e diz-me: "Olha, curioso estás aqui a fazer isto, porque eu já tinha pensado falar contigo pra termos aqui stand up, porque isto abriu agora, tem a sala dedicada, só dá pra fazer concertos ou DJs, e ali entre as 21:00 e as 23:00 não temos nem concertos. Às vezes não temos concertos, outras vezes não temos DJs. Então era giro explorar isso." Então eu meti em cima da mesa o que eu queria, ele disse-me que sim. Ele não se mete Nas minhas escolhas ou na maneira como a sala fecha a porta, é minha.

A curadoria é absolutamente tua.

Não só a curadoria, a maneira como eu produzo. Eu também comprei material para ser feito à nossa maneira, tudo. Ele não se mete e por isso aguentamo-nos ali há muitos anos e é de onde tem saído grandes artistas.

Tu tens uma produtora, é isso? Pode-se dizer assim? Ou é um grupo?

Quem produz o Ferro sou eu e o José Bernardo, que é aquele youtuber que é nosso amigo, não sei se conheces, um que faz entrevistas a velhos, é muito conhecido por causa disso.

De?

Mourinho.

Sim.

Pronto. É do nosso grupo de amigos.

Do nosso ou do teu?

Do nosso, sim, do meu grupo de amigos, do pessoal do Porto. Se cruza com o teu grupo de amigos cá.

Exato. Estavas a olhar tão de frente pra mim que eu pensei: "Será que é do meu e eu não sei?" Mas se calhar sim.

Percebes? Por simbiose.

Sim, claro. Tens razão.

Um grande nosso amigo é o Carlos Content que está agenciado por uma pessoa que diz muito também a ti, não quer dizer, que more em tua casa.

Sim, o meu marido.

Exato. Não sabia se era completamente público.

Agenciado pelo Freak Show.

Exatamente. Aliás, eu hoje vou dormir em casa do agente dele.

Era muito engraçado dizeres que vais dormir em minha casa.

Não, e isto tu não sabias.

Podia ser uma qualquer coisa ali com o Pedro Durão.

Por isso é que o Pedro me disse pra eu hoje não dormir em casa, já estou a perceber.

Mas sim, Eduardo, estavas a dizer então que vocês produzem tudo sozinhos. Foi uma iniciativa que tiveram por vocês. E nem sequer havia um modelo por onde podem seguir.

Eu copiei. Eu emulo tudo dos Estados Unidos. Ok?

Sim. Gosta da frontalidade. Sim, é o melhor.

Formatos que eu acho que são interessantes e que dava para eu explorar aqui, eu estou a dizer o formato, não estou a agarrar numa piada de um humorista dos Estados Unidos e estar a fazer aqui. Até porque condeno para caraças isso. Lá está, porque em Portugal há muito esta coisa de: "Quem é o melhor jogador?" Nunca dizem um jogador português. Dizia-se o Cristiano, na altura, mas o Messi ou não sei quem, é lá fora sempre. E depois quando é na arte, pensa-se aqui: "Não, deixa-me ver quem é que inventou o stand-up, onde é que é o melhor sítio, deixa-me ver como é que eles fazem." E sentimos que havia falta de uma noite de testes.

Sim.

E basicamente emulámos a noite de testes do Comedy Store, que é uma terça-feira também, que é basicamente meter humoristas a fazer 10 minutos a seguir uns aos outros. Eu sou o host, mas o Comedy Store, por acaso, não está em S, estão sempre a trocar. E a ideia é testar material e surgiu assim.

E o sítio é mesmo espetacular, o bar é muito bom. Eu já lá fui e foi das últimas vezes que eu fiz stand-up e senti-me genuinamente feliz. O ambiente é mesmo acolhedor. Não encontrei isso.

Lembro-me de tu falares exatamente disso. E isso ficou-me na cabeça a pensar: "Não, estamos aqui a fazer as coisas bem, porque a Rita deu conta."

Sem dúvida.

Eu lembro que tu estavas a dizer, já não sei a quem, e eu passei e estou assim: "Por que nós não temos isto lá?" E eu pensei: "Não, ela está a perceber o que é que se está a passar aqui."

Sim, imagina, porque cá em Lisboa existem vários sítios de stand-up e atenção, falam muito bem de um Barril, no Barreiro, que eu tenho lá ido.

Ouvi dizer que-

Ouvi dizer que é espetacular

...o público é espetacular também. Sempre me disseram.

Mas eu fui algumas vezes ao Lisboa Comedy Club e é porreiro, claro, são boas noites, só que o ambiente sinto mais hostil, não sei porquê. Não sei se é de ser a capital, ser muita gente.

Estamos a falar da noite de testes, que é suposto tu poderes bombar numa noite de testes, mesmo um gajo bom, porque está a testar material, para o sítio, a Champions. O Lisboa Comedy Club, o único comedy club de Portugal. O peso da coisa nada tem a ver com o Ferro. O Ferro é o oposto do peso. O Ferro, tanto o público como os humoristas estão tipo: "Ya, está-se bem." Mesmo os humoristas agora que se habituaram à ideia, porque isto demorou algum tempo até para entrar pra cabeça dos humoristas. Se correr mal, já se estão a cagar.

Não, estás à vontade, sim.

Já não interessa assim tanto. Interessa é tu estares livre ali pra poder explorar mesmo a sério. Eu lembro-me uma vez, quando o Vítor disse isso, eu pensei: "Era isto que eu queria", que era o Vítor Sá. Teve a ideia de: "Eduardo, deixa-me fazer uma coisa que eu acho que vai ser muito fixe." Ele queria se esconder atrás das cortinas.

Sim.

Durante toda a noite. E ele fechar a noite e eu dizer: "Agora Vítor Sá." E ele saía por trás das cortinas e eu estava: "Vítor, tu és gordo. Tu vais estar uma hora e meia atrás das cortinas, tu vais sair, sei lá, pareces um leitão. Não faças isso." Quando ele disse isso, um gajo respeitado, bom humorista, quer fazer uma coisa meia nonsense só porque quer 10 segundos e nem é tanto o público que ele quer fazer rir, é nós. Por que ele quer se esconder ali atrás? É o contrário. Por isso é que tu também te sentiste lá bem.

Sim, é uma comunidade, ou seja, a vossa comunidade de comediantes, claro que têm pessoas de todo lado do país, mas há mesmo companheirismo e é mais próximo. Eu também nunca atuei no Comedy Club.

Também é meio falso isso. É meio falso por quê? Porque tu chegas lá e dizes: "Ei, aqui no Porto os humoristas são." Não, aqui no Ferro os humoristas são.

Não, estou a dizer no Ferro, exatamente.

Mas isso foi também uma das coisas que eu emulo.

Tem a ver com as pessoas que também organizam.

Eu não gostava, no Porto estava muito assente de: acabou a atuação, vamos nos sentar numa mesa e apontar o dedo e dizer o que é que está bem e o que é que está mal.

Ainda por cima dá seca isso.

Não há nada que se sinta mais a morte, talvez, de um familiar, mas um bombing é impossível o teu corpo deixar fugir um bombing. É impossível tu não dares conta de um bombing. E depois estás numa mesa com gajos mais velhos a dizerem-te: "Epá, tu estavas em bombing." "Ya, eu sei." "Não faças aquele texto assim." É a pior altura pra se falar disso.

Bombing, pra quem está a ouvir e não está a par, é um fracasso total. Bombing é o fracasso e rebentar.

Partir, rebentar.

Inglês diz bomb?

Pode dizer murder ou murdering, quando é mesmo a sério.

Quando corre mesmo muito bem.

É murdering. Sim, perdi-me. Para dizer o quê?

Então é isso, que o ambiente é genuinamente porreiro.

Eu não gostava nada disso.

Não estão a apontar o dedo, não há aquela coisa de dissecar.

Não é o problema de apontar o dedo. Os humoristas precisam de apontar o dedo uns aos outros. O timing da coisa.

Não tem que ser logo a seguir à atuação.

Não, porque a seguir à atuação-

Que as pessoas também sabem

...podes conviver. E uma das coisas que eu mais gosto, volto ao nosso grupo de amigos de humoristas e que liga ao teu, o que realmente as pessoas gostam de fazer é rir. Mais do que fazer stand up, mais do que fazer sketch, é rir. E eu gostava disso quando via nos Estados Unidos, há uma mesa que eles estão a gozar uns com os outros no final. Está toda a gente a partir-se a rir. Eu adoro isto. Nós vamos ter que instalar mais isto, estar todos numa mesa e agora vai falar aquele.

Com papel e caneta, não.

Não.

Percebo exatamente ao que te referes.

No dia a seguir, se gostaste muito do humorista, ligas e dizes assim: "Olha, vamos tomar um café." Senta-se. "Olha, aquela piada podias fazer aquilo." Eu nunca faço isso, porque eu não me considero um grande escritor de humor. Também não sou mau, mas acho que há gente muito melhor para os miúdos se sentarem e dizerem: "Olha, faz assim, faz assado." Mas eu prefiro muito mais isso, uma coisa mais íntima, porque um open micer, uma pessoa que está a começar, se tu falares para ele mal à frente de 15 pessoas, ele não te vai ouvir.

Sim.

Porque ele está a começar e eu respeito os peers. Então se no dia a seguir tu lhe ligares assim: "Olha, aquela cena que tu fizeste, não faças aquilo, porque aquilo não funciona assim, funciona assado." "Ah, ok." Já ouve, já lhe entra e ajudaste.

Sem dúvida.

E eu tentei separar um bocadinho isso. O público do Porto é isso que vocês todos dizem, eu não sou do Porto, eu sou da Guarda.

Sim, era isso que eu ia falar.

O público é incrível. Então tu tens que ter uma atitude incrível quando o público é assim tão fixe.

Faz todo sentido. Eduardo Marques, tu nasceste na Guarda?

Nasci em Guarda.

Não, atenção, na Guarda.

Foda-se, ia vomitar se dissesse isso. Eu disse foça-se. Ok? Foi por isso, eu disse foça-se.

Tu nasceste na Guarda, viveste lá até que idade?

19.

19 anos, depois mudaste para o Porto?

Levei para o Porto e fiquei no Porto a minha vida inteira.

Porque tu estudaste teatro, não é?

É uma longa história. Eu vim estudar gestão industrial, que era um curso que todos os meus amigos são ricos. Fiz meio curso.

Para seres meio rico, não é?

Sim, mas não. Também foi esse o meu pensamento. Se eu fizer meio curso, sou meio rico, mas não. Fiz exatamente meio curso, acho que eram 50 cadeiras, fiz 25. E fiz uma viagem com um amigo meu a Itália, depois de uma conversa com umas portuguesas e o ambiente fez-me pensar: "Não, eu sou ator." Houve ali um clique e disse ao meu pai: "Pai, olha, temos um problema entre mãos. Eu estive aqui a rebentar dinheiro, a descapitalizar-te", como diz o meu pai. "E agora quero tentar outra cena." "Mas que cena? Teatro? Não, Eduardo, não." E eu: "Mas olha que são 200 pessoas a concorrer, só entram 15. É uma semana de provas." E o meu pai pensou assim: "Ele nunca consegue nada do que quer."

Para que desista, não é?

Não, ele tipo: "Ai, é uma prova e no final passa-se? Ok. Ele vai para a Guarda, certeza." E então eu disse: "Está bem, então faz lá as provas." Até porque o meu pai tinha estado a fazer férias com o meu padrinho, que é o melhor amigo do meu pai, é uma longa história. Estava uma miúda que tinha concorrido à minha escola e a miúda disse assim: "Ele está a concorrer às MAE?" "Está." "Ele nunca fez teatro?" "Não." "Então, de certeza absoluta que ele não vai entrar." Ela diz isto ao meu pai. E o meu pai diz: "Vai, embora."

Adoro a expectativa. É bem baixinha.

"Se correr mal, vens para a Guarda." E o meu pai trabalhava num banco na Guarda e dizia assim: "Meto-te num destes..."

Sim.

Estes cunhas que há nas cidades pequenas do nosso Portugal e em todo lado. Pai, eu entrei em último.

Isso é espetacular.

E quando eu liguei ao meu pai, o meu pai não estava a processar. "Mas entraste? Mas como assim? Mas deixaram-te entrar mesmo no edifício da escola?" "Não, pai, as notas estavam. Estavam lá as notas e eu entrei." E a partir daí fiz teatro.

Ele viu que não havia volta a dar.

Não, era uma relação gira para falarmos durante seis horas, a minha relação com o meu pai.

Que ainda existe.

Que ainda existe, sim, o meu pai ainda existe. E a nossa relação também. Às vezes não, mas somos muito parecidos. Eu fiz um ano e eles foram ver o teatro do final do ano e ele é de poucas palavras comigo e parou lá ao meu lado e disse: "Não, é isto." Só disse isto. E eu olhei para ele e eu: "A sério?" E ele: "Não, é isto." Depois foi isto. E depois, de repente, eu faço o curso até ao fim e o Cândido Pazó, o melhor contador de histórias, para mim, que eu já vi na minha vida, e ele é considerado um dos melhores da Europa, deu-me uma cadeira que era contador de histórias. Tive a melhor nota da turma, eu tinha 12 a tudo e ali tive 19. E o gajo é que me disse: "Tu devias ser humorista, tu tens a linguagem das histórias de humorista." E eu a partir daí foi mais o reiniciar: "Pai, afinal sou humorista." E o meu pai, pronto.

E ó Eduardo, antes de irmos para intervalo, vamos só ouvir aqui um bocadinho de tu a seres MC, na verdade.

Certo. Ser ouve.

A ser ouve, sim. E a falar da tua idade, que é extraordinariamente.

Já foi mais.

És velho.

Sou velho.

Ninguém diria.

Que idade é que eu tenho? Manda aí, deixa eu ter a idade. 27. 27? Está a falar sério? Sério. Eu dou-lhe um linguado. Você não abuse de mim. Mais, 27, mais! 35. É mais ou menos o que me costumam dar. 36. Não é para comprar, minha senhora, tenha calma. Foi logo direta. 36, vou levar para casa. É pequenino, arrumo lá na cômoda. Não, estou a brincar. Agora era brincadeira. Eu tenho 42 anos, pessoal. Não faz sentido nenhum. 15/06/1981. Eu digo que é elegância, meu pai diz que é um atraso que eu tenho. E é nas pequenas coisas que eu reparo que estou velho. Por exemplo, no outro dia, sentei-me de repente, aleijei-me nos . Eu toco no elevador, não vem, foi para o menos dois, está lá embaixo. Às vezes ando na rua, penso que estou a tocar a música da Pequena Sereia, só se ouve: Aqui no mar, aqui no mar. Leva-me para o mar, ao menos boio.

Não és nada velho. Neste momento tens 43.

Verdade.

Mas de facto não parece e deve ser daquelas coisas que tu adoras surpreender as pessoas com a tua idade.

Já foi mais. Eu chocava multidões.

Primeiro sugiro a toda a gente irem te ver à NET, Eduardo Marques.

E fiquem. Já agora fiquem também a observador. Fiquem lá.

Podem ir ao YouTube e ver.

Verdade.

Nós temos de fazer aqui uma curta pausa, mas continuamos em podcast. A versão FM fica por aqui, com O Amor Se Paga, hoje com Eduardo Marques. Sigam-no nas redes sociais, também no YouTube. Ele tem muito material, tem o Trailer Podcast, o Ramon, que podem ver que é o som dele.

O meu meio sol, com o João Pedro Pereira.

Exatamente. Tens também o Eduardices, que já vai em mais de 170 episódios.

Verdade.

Portanto, deixem isso ficar conosco.

Verdade. E mandem muitos beijinhos à Rita, que ela é muito fixe.

Continuamos agora em podcast. Estávamos a falar da tua idade, que não parece, de facto, que tens.

É o que eu estava te a dizer, já parece mais agora. Agora já não choco ninguém. Eu digo: "Tenho 43", e as pessoas dizem: "Parece que tens 36." Já não há aquele choque, mas quando tinha 20 era assustador.

Mas parecia que tinhas 15 para aí.

Eu fui a Lloret de Mar na viagem de finalistas, já com 19.

Agora tinhas Lloret.

Eu digo sempre Lloret. E as pessoas gozam comigo e eu vou sempre dizer Lloret. Sempre.

E foste a Lloret de Mar.

Eu fui a Lloret de Mar na minha viagem de finalistas e eu quando cheguei ao hotel, entrei em pânico porque não conseguia encontrar o meu BI. Bilhete de Identidade, na altura.

Gigante, deve-se morrer grande.

E pensei: "Pronto, vim passar como aqueles velhos de 90 anos, vão para Lloret e ficam lá. É o que vai acontecer." Fui comprar uma Schweppes, pediram a idade, pediram o BI. Na viagem de finalistas, eu tinha 19 anos. Eu estava a passar por 10 anos. Tem muito gás a Schweppes para este garoto. É melhor pedirmos a idade, porque se este miúdo tem esta idade, vai meter este gás todo dentro dele. Era estúpido mesmo.

Isso fez-me lembrar também uma cena que tu tens de stand up. Não é de stand up, é no Eduardices, que falas quando foste a uma festa da espuma em que a espuma te ia matando.

Não, mas isso já tem a ver com ser estúpido.

Sim. Mas na altura se calhar eras muito baixinho, não sei.

Eu sempre fui baixo e eu dei um salto. Eu tenho esta altura que tu vês, eu dei um salto. Eu quando digo "eu dei um salto", as pessoas riem sempre.

Com que idade é que deste o salto?

Não sei, tarde.

23.

Eu cresci até aos 23. Eu lembro-me no sétimo ano, estar a pedir uma bola de Berlim no bar e ter que pôr-me de bicos pés e passar a mão por cima. Aquilo dá-me pela cintura. Para um sítio me dar pela cintura. Por isso eu no sétimo ano era anão mesmo. Claro que não havia namoradas no sétimo ano.

Sim.

Só me faziam festas na cabeça e diziam: "Tão fofinho", como se fosse um cão.

Sim, ou uma criança mesmo.

Está bem, mas eu estava horny, Rita.

Sim, claro. E tu na festa da espuma foste parvo por quê?

É assim, se a espuma te vai cobrir, tu não vais respirar. Ok? Isso é um ponto de partida.

Devia ser como nas montanhas-russas, devia haver uma altura mínima para entrar, não era?

Sim, é que claramente alguém devia informar as pessoas à porta. Os baixinhos não se metam ao lado do canhão. Só que é onde estavam os mini saias. Isso é para estar de biquíni na discoteca, deixa-me ver. Não vou estar lá longe e os meus amigos todos ao lado das miúdas giras, eu com 16 anos.

Tu estavas na boca do canhão que lançava espuma.

Tu nem imaginas. Eu morri, eu basti e morri. Sabes quando vês o limbo? Eu estive no limbo. Foi um amigo meu que me puxou, porque eu desisti de tentar respirar. Porque eu dava saltos e respirava ao máximo e entrava-me espuma até ao cérebro. Aquilo era cada vez pior, cada vez que respirava estava pior.

É angustiante. Tu tens razão, eu já fui a uma festa da espuma, havia em Quiais, da zona de onde eu sou, e de facto aquilo é angustiante. Também era baixa. Sempre fui, mas não fui para a entrada do canhão, mas eu acho que aquilo deu-me algum nojo lá estar.

Não.

E assa-te todo, ficas todo assado.

Aquilo é nojento.

É horrível.

Eu vi, eu nessas festas da espuma vi roubos, vi assédio, vi de tudo o que tu possas imaginar. Embaixo daquela espuma. E depois aquilo cria um lago. Lago de quê? De porcaria que as pessoas levam ali. Tinha um amigo meu que não andava sobre a espuma, andava sempre embaixo da espuma, com o nariz debaixo. Arranjou um vácuo debaixo da t-shirt. Então andava lá num mundo à parte dele só. "Onde é que ele está?" "Ele deve andar aí." Parecia aqueles tubarões.

Mas achas que se tu tivesses levado um snorkeling, até te conseguias safar.

Não sei, porque era tão baixo. Eu não faço ideia. Eu lembro-me de estar a correr e a tentar saltar para respirar e era tudo branco, não via nada, só via espuma. Aquilo é muito rápido.

Sim, imagino.

Tu já tiveste.

Sim, é horrível. Tu de facto tens vários episódios. O Eduardices tem quantos anos já?

Muitos. Não tem sido tão regular como eu queria, porque vida e as pessoas ficam chateadas comigo. Eu comecei, salvo erro, no mesmo mês que o Salvador começa o Ar Livre, por isso vê tu bem.

Isso são o quê? Cinco anos. Porque tu antes tinhas o Minimamente Conhecidos.

Sim, isso foi um formato que eu fiz.

Antes.

Antes, que é supostamente uma série digital, mas aquilo estava pensado, não tem nada a ver com o Eduardices

É uma evolução quase, o Eduardo disse.

Quando eu estava no "Minimamente Conhecidos", as pessoas diziam: "É o Eduardo, aquele gajo maluco do robe."

Sim.

E eu quando me começam a pôr em gavetas, eu vou à minha vida. Então eu pensei: o que é mais o contrário? Porque eu sempre defendi, eu posso não ser o melhor humorista, mas eu não sou só uma cena no humor. Eu gosto de ser tudo. Se sentas num sketch, eu consigo escrever, se sentas num game, eu consigo escrever. Então eu pensei: o que é o mais oposto do "Minimamente Conhecidos", que é uma coisa que tem uns 300 cortes, são cinco minutos, muito rápido, é uma personagem nonsense, não se percebe bem se aquilo é verdade, se aquilo é mentira.

Sim.

Passei para um formato que é play, é uma conversa, nada está escrito, uma hora, longa duração, não tem um único corte para as pessoas não me fixarem numa coisa só.

Sim, ainda assim a tua identidade mantém-se.

Eu vou ser sempre o maluco.

Exato, é isso.

Mas eu não me importo com isso. Eu lembro-me do Nuno estar sempre a dizer: "Eu vou ser sempre o grande maluco." Dentro do humor, eu sou isso. Lá está, eu meto a mão no rabo. "Ah, quem é o Eduardo? É aquele gajo que se despe." Eu ouvi isso três vezes, eu não vou despir mais. Deixa de ter piada. Eu não sou o gajo que se despe, eu não sou o gajo do robe, sou um humorista que gosta de fazer coisas diferentes.

Sim, és completamente fora.

Sou louado. Há gajos muito inteligentes que esticam as formas e a técnica do texto.

É o teu caso, Eduardo.

Não, o meu é mais esticar o palco. Deixa-me ver se eu consigo ser completamente estúpido. Deixa-me ver se eu consigo fazer rir as pessoas num sítio que ninguém mais consegue fazer. É mais isso.

Sim, mas é giro. Tu brincas mesmo com os limites, com tudo.

Sim.

Com o que as pessoas acham mesmo de nojento.

Sim.

De tudo. E isso é corajoso, não é?

E às vezes a meio até é: "Eia, estou a alienar toda a gente, mas vou continuar."

Isso também é giro, não é?

Vou continuar porque eu acho que agora consigo às vezes fazer isso. Antigamente achava isto e nunca voltava. Mas se eu vim para aqui e se eu estou a insistir nisto, malta, vocês vão ter que aguentar até o fim, porque isto lá debaixo da lama, vamos voltar para cima.

É como as festas da espuma.

Exato, estás a ver? Estás a ver como as coisas se colam na vida, Rita? Viste? É como o meu grupo de amigos e o teu. Estás a ver?

Continuaste a fazer teatro. Continuas a fazer, aliás.

Sim, eu sou ator também.

Sim. As pessoas esquecem-se.

As pessoas esquecem-se.

Mas tu és ator também.

Mas eu sou ator também.

Qual foi a última peça que fizeste?

A última coisa que fiz, sou o protagonista do anúncio da Solverde, que está a passar agora.

Ah!

Sim. Foi a última peça que eu fiz. Eu respeito muito os bons atores. Eu estudei numa escola de onde saíram os melhores atores emergentes que há: o Calhou.

Estamos a falar de, por exemplo?

António Parra, depois Manuel Tour foi para a parte da produção e da direção de cena e de encenação. Depois tenho o Tiago Correia, que ganhou prêmios atrás de prêmios de SPA pelas escritas dele, as peças dele estão a ser apoiadas e distribuídas a nível mundial.

Estamos a falar do ESMAE, não é? Onde tiraste o...

Sim, eu respeito muito bons atores a sério. E é por isso que as pessoas quando dizem: "Tu és ator." É, sou. Mas o que eu quero como ator é basicamente o que o Louis C.K. estava a dizer. Eu quero ter o skill como ator para conseguir fazer coisas que eu quero fazer para mim ou me convidarem. "Olha, anda fazer como ator esta série, porque esta personagem surgiu-me na cabeça e é a tua cara."

Ok.

E eu conseguir ir lá e fazer as coisas, como por exemplo, fui às manhãs do Vítor e fiz um gajo sem braços e o Vítor disse: "Eu tenho a certeza que vais fazer isto bem." Eu li aquilo e pensei: "Não, isto é a minha cara."

Sim.

E fiz aquilo. Depois vou não sei onde. Eu tenho esse skill, por isso eu não acho que sou um ator a sério, mas sou um ator que consegue fazer coisas de humor.

Sim, porque também não queres ser um camaleãozão.

Não sou. Queria, quero, mas não sou. Aliás, a última ideia que eu tenho é um drama chato mesmo, onde eu tenho que ir para níveis de ator absurdos.

Por quê? Mas tiveste uma ideia para um drama chato?

Sim, chato. Pesado mesmo.

É? Queres descortinar um bocadinho? Não, claro que não.

A ideia é essa, que teu marido já me disse: "Se tu não fizeres essa ideia, eu vou ficar chateado contigo." Sempre que estamos os dois, ele fala-me dessa ideia.

Que engraçado.

"Já tens novidades aquela ideia?" "Não tenho nada." "Eduardo, tu não podes, a sério, por favor." É uma ideia que eu gosto.

Há sempre um lado muito dramático na comédia, não é?

Sim, porque tudo se equilibra na vida.

Quando estás sozinho. É sempre triste.

As pessoas viram-se para a minha namorada, às vezes, ou para os meus pais ou para as pessoas que estão muito próximas de mim. "Épa, lá em casa deve ser..." Não, tudo se equilibra. Se eu sou completamente extraviado cá fora, depois eu tenho que descansar em alguma altura. Os cérebros são todos iguais. A certa altura, eu tenho que descansar.

Sim.

Eu sou enfadonho em casa, no meu dia a dia.

Permita-me um bocado, mas sim, eu percebo o que estás a dizer. Tu gostas calado, se calhar, não é?

Adoro estar.

A pensar.

As pessoas que me conhecem já sabem que há dias, seis dias por ano, que eu tenho que estar a olhar para um canto branco da minha casa e ninguém pode estar lá. E eu estou sozinho a olhar para gesso, um canto.

Estuque.

Exato, estuque!

Sim.

Isto não é um canto, é estuque, eu estou a olhar para estuque. E a pensar, vou-me matar porque estou farto disto ou a pensar vou ser o maior de sempre. Coisas que loucos pensam em casa.

Tu gostas de praia ou há algum sítio É só para não estares a olhar para o estuque, estou a tentar substituir por alguma coisa.

É difícil eu estar fora de casa e estar bem. A 100%.

A sério? Por quê? Tens ansiedade social?

Foi aquela conversa, acho que tenho um bocadinho de fobia social.

Exatamente. Estavas a dizer que se encontras um grupo de amigos que não estava à espera.

Isso é o melhor exemplo que te posso dar.

Ficas nervoso?

Não, não foi isso que eu te disse.

Então diz lá outra vez.

Porque se eu vir esse meu grupo de amigos a 600 metros e eu os vir chegar, está tudo bem. Eu não posso é fazer uma esquina, curvar na esquina, e estão sete pessoas com quem me dou bem e eu não estava a contar com isso. Vou ficar vermelho nas bochechas.

Surpresa. Detestas surpresas.

Eu tenho que controlar tudo da minha vida. Não gosto de surpresas. Gosto de fazer, acho espetacular, até mesmo assustar pessoas, adoro assustar pessoas, que é uma surpresa.

Sim, é melhor.

Mas não me façam surpresas, a sério. Eu tenho que controlar tudo.

Mas por quê?

Não sei. Rita, desculpa.

Tens medo?

Tenho ansiedade, não me sinto bem.

Estavas a dizer que tens um bocadinho de ansiedade social?

É um bocado estranho, que as pessoas pensam que eu sou um monstro social, mas eu não sou. Eu finjo bem.

Ser ator e fazer comédia é uma boa forma de lidar com uma ansiedade social.

Não sei, eu sempre quis ser o centro das atenções em tudo na minha vida e depois fui para o humor. E agora reparo que há o nosso encontro anual dos meus amigos de infância, que somos 15, e eu antigamente era o que falava de longe mais.

Sim.

E agora não falo tanto, porque já não tenho essa necessidade.

Já estás consagrado.

Não é consagrado, é já tenho essa atenção a toda hora, porque estou todas as semanas em palco.

Ok.

Eu já não preciso da necessidade constante de atenção.

Sim.

Das pessoas estarem-se a rir comigo, eu ficar todo contente porque se estão a rir comigo. Não, isso já tenho em palco, há dias.

Tu nunca paraste. Tu tens o stand-up comedy, mas também tens sempre esses projetos digitais, não é?

Sim.

Sempre fizeste.

Porque é uma limitação minha.

Limitação em que sentido?

No sentido de que há ideias que me dão um tempo limite a mim, na minha cabeça, porque eu não sou de escrever as ideias, só as escrevo quando é para fazer. Então as coisas andam na minha cabeça até dizerem duas uma: ou isto tem que sair já, senão morro, ou tens que tirar esta que está a entrar uma nova. E como sou meio estúpido, não acho espaço para sete, só acho espaço para seis. Então o "Minha Mente Conhecidos" foi isso, foi: "Eu quero fazer isto." Já tinha a ideia há bastante tempo. E cada vez mais acontece isso, porque eu tenho ideias, eu só concretizo as minhas ideias melhores seis anos depois. E o "Minha Mente Conhecidos", se tinha saído na altura que eu gravei, tinha tido outras-

E foi teu primeiro projeto na comédia. Eu lembro-me do teu nome quando surgiu, foi mesmo assim uma entrada a pés juntos. É a sensação que se tem.

Sim. O programa era um bocadinho uma entrada a pés juntos.

É mesmo?

É. Mas eu acho que aquilo é das poucas coisas, por exemplo, há bocado estavas a pôr um beat meu, eu estava aqui por dentro a morrer.

Mas está-se bem.

Está-se bem para ti.

Ok.

Para mim não está. Eu estar a ouvir este talião que fala muito alto e irrita-me sou eu. Mas o "Minha Mente Conhecidos" acho que é dos poucos sítios onde eu estou me a ver, também até é uma personagem, e às vezes rio-me com as coisas que me saíram.

Isso é muito giro.

E as gravações daquilo foi o oposto do que aquilo parece.

Ou seja, aquilo parece hostil, não é?

Pessoas superinteligentes. Algumas do meio disseram: "Aquilo com o Quadros azedou mesmo." Não azedou. Acabamos aos abraços.

Claro.

Foi o episódio mais controlado que nós fizemos.

Foi o mais marcante para ti, o melhor episódio?

Há vários ângulos que podemos ir por aí. O meu episódio favorito-

Para quem nunca ouviu ou viu, que episódio ias sugerir? O primeiro, se calhar.

Difícil. Muito difícil. O primeiro grande episódio que eu amei foi com a Diana Nicolau.

Ok.

Eu e a Diana Nicolau temos uma cena.

Ela é espetacular.

Eu adoro-a. É a minha atriz favorita do humor. Ela entende a minha cabeça como pouca gente, nunca olhou para mim de lado. Tudo que eu a convidei, ela veio e: "Não, eu vou estar." E foi a primeira grande pessoa que foi trabalhar comigo, porque achava que eu tinha uma coisa interessante para fazer. Só que, para mim, o melhor episódio, porque tem as duas pessoas ao mesmo nível, é com o Guilherme Fonseca.

Ok.

As respostas dele são muito boas, foi o menos escrito lá. As coisas surgiram logo, todas, entraram todas direitinhas. Depois, o mais marcante é com o humorista.

Sim.

Fui tenso até lá.

João Cunha.

Sim. Sou amigo dele até hoje e dou-me muito bem com ele, mas aquilo foi tenso, a sério.

Foi mesmo tenso?

Ele entrou em personagem.

Ok.

Ele quando entra na porta já vem em personagem.

E a personagem dele choca com a tua personagem do "Minha Mente Conhecidos".

São as melhores personagens.

Arquinimigos, claro.

Tal e qual. Irmãos gêmeos arquinimigos.

Sim.

Aquilo foi tenso.

Parecem duas personagens principais de um filme de super-heróis de dois vilões.

Sim! Eu a certa altura pensei: "Não, eu vou a um estalamento. Isto está aqui num ponto..."

Sim.

Mas não, depois no final eles montou.

Tens de rever isso tudo.

E foi muito giro gravar. Nós tiramos uma semana, gravamos aquilo tudo seguido.

Fogo.

E quando aquilo acabou, eu pensei: "Eu vou me matar."

Ai, então, por quê?

Depois disto, de estar 10 horas, as pessoas dizem: "Trabalhar 10 horas, não consigo pensar." E eu

Ficas cheio de pica.

"Vamos embora? Daqui, agora?" Sempre que há grandes eventos, eu morro a seguir. Se calhar o Porto Comedy Fest. Morro a seguir. Coisas assim grandes que eu digo: "Uau".

Já estamos quase a terminar, porque temos de terminar algures no tempo.

Algures, sim.

Tens tantos projetos, até escreveste um livro, não fazia ideia. "A Maravilhosa Viagem do Alfa".

Sim.

Que é a tua primeira obra literária. Primeira e única, se calhar.

E única. Eles pediram-me mais uma, mas eu estou a demorar a escrever.

É pela Porto Editora, foi lançado em 2016.

Foi grande a cena. Artisticamente falando, foi o maior mérito que eu já tive, até porque isso foi uma empresa privada que detinha os direitos do Alfa, a personagem, pediram para eu escrever uma peça de teatro para o Alfa, que já era uma personagem que existia nos manuais dos putos da escola.

Será que era baseado no Alf? Não.

Não.

Nada a ver.

O Alfa é capaz de ser baseado, porque a única premissa que havia sobre o Alfa é: o Alfa é um extraterrestre que mora no planeta Maquineta, onde não há pessoas. Então ele anda pelo mundo, quer estar muito com pessoas, porque ele não tem seres humanos, então ele anda sempre atrás de seres humanos. E eu escrevi a primeira vez que ele veio, ou quando ele vem a primeira vez. E escrevi uma peça, nunca pensei que fosse livro, nunca me passou pela cabeça. Escrevi para a empresa privada e a empresa privada disse-me logo: "Olha, mas isto em princípio vai para o lixo".

Uma peça mais infantil, não é?

Sim, porque eu fazia adaptações de textos e encenações e escolhia o elenco para essa empresa privada, mini peças para crianças.

Quem te vê e ouve o teu material imagina-te a trabalhar com crianças.

Eu a adaptar a Rapunzel, a adaptar o Pinóquio. Adaptar o quê? Ela dizia-me: "Olha, só posso pagar seis atores. Adapta isso de maneira a escrever". Depois eles pediram-me: "Vais fazer o Principezinho." Eu estive meio ano a fazer "O Principezinho" com eles, fiz em Espanha e em Portugal, e eu adaptei o ponto de vista, porque quem conta a história do Principezinho é o aviador. E eu tive que trocar para o meu ponto de vista, que foi uma coisa que me comeu a cabeça fazer esse tipo de escrita. E essas saídas correram bem e ela disse-me: "Olha, faz uma coisa."

Deve ser engraçado também escrever pelo ponto de vista do aviador.

Incrível.

O puto loirito, pequenito. Ele a falar do Principezinho na terceira pessoa.

Lá está, ele estava a dizer: "Havia um menino, não sei o quê". Então eu encontrei um senhor que foi meu amigo para sempre. Tu estás a mudar um POV, é muito estranho e come-te a cabeça. Às vezes estás um bocadinho ao lado. Isto para dizer, para acabarmos, que ela disse-me logo: "Olha, vais escrever uma peça e a viabilidade de fazermos a peça", que era o documento todo, "nós mandamos para eles e eles, em princípio, vão deitar para o lixo, porque já mandámos duas ou três ideias, eles não querem". Pronto, eu também. Eu disse assim, já vais ver que vai colar atrás que eu disse: "Eu não vou escrever nada. Eu vou-te escrever cinco ou seis premissas que eu acho que eram giras para eu botar uma semana a pensar nisso, escrevo-te uma sinopse de uma possível história". Levei cinco ou seis e disse: "Olha, toma, estas são cinco possibilidades que eu tenho na minha cabeça para começar a escrever".

Pois, porque não ia estar a trabalhar desnecessariamente.

Claro. E ela disse: "Olha, a que eu gosto mais é aquela". Curiosamente, era a que eu mais gostava também. E ela mandou isso para lá e ela: "Não, nós gostamos dessa ideia". Pronto, já tínhamos um bocadinho de feedback. Eu mandei a ideia e depois eles é que disseram: "Olha, nós gostávamos de fazer livro disso". Porque nunca esteve em cima da mesa ser um livro, mas eles gostaram daquilo e porque a ideia é, para fazer uma conclusão, ele vem do planeta Maquineta e conhece um miúdo que está sempre no computador, então quer lhe mostrar o mundo e que a amizade é muito mais importante do que estar constantemente no computador. Então faz uma viagem, mostra miúdos a jogar ao berlinde, vai ao meio da Amazônia e os putos estão a construir os próprios brinquedos. E tem essa cena didática, o contrário.

Sim, de que o mundo...

De eu estar a mostrar o cu em palco. Exatamente o contrário.

Sim.

E eu mudo mesmo. Eu fui durante muito tempo professor e sou fumador e nunca um aluno meu me viu fumar. Eu tenho esse cuidado.

Sim.

Adoro crianças. Tenho mesmo uma ligação, sou pai de uma criança.

Que idade tem?

Tem agora 11, está na melhor altura. E tenho uma ligação muito forte com crianças. Adoro crianças e sempre que estão crianças e adultos, eu estou sempre com as crianças. Nunca estou com os adultos.

Que giro. Sentes-te mais aceite.

Curioso que os pais preferem que eu esteja ao pé das crianças e as crianças também. Eu posso dizer que o meu enteado joga no Salgueiros, eu nunca estou ao pé dos pais. Se puder, quando me deixam, eu estou ao pé dos putos. Estou sentado ao lado dos putos. Eu adoro putos.

Então só para terminar, temos "Eduardices", que continua a dar.

Sim, é um podcast direcionado para pessoas que gostam de humor e conhecer novos humoristas, que aquilo a ideia é essa. Tenho o "Trailer", que é um podcast novo com o Zé Bernardo, que é em palco, que eu acho que é muito giro.

É muito interessante e está no YouTube, portanto podem ver.

Está no YouTube também. Vou começar a sair mais. Eu tive uns problemas no computador, mas não se preocupem, vai continuar. E depois temos as nossas noites semanais e vou estar aí a atuar. No Ferro é o sítio onde eu estou sempre, é a minha casa, mas estou em todo lado.

Eu sei que não te apetece, mas vem mais vezes a Lisboa.

Eu adoro Lisboa.

Faz cá falta também.

Obrigado, Rita. Se tu disseres muitas vezes isso, eu venho mais vezes. Eu sou needy.

E escolheste esta música para começar e terminar, que é do Drake, "Broke My Heart".

Estou super viciado nesta música. Ouço-a três vezes ao dia, mínimo.

Isso é tão engraçado. Mas o Drake não está na modinha, mas não interessa, tu estás, é o que importa.

O Drake para mim está sempre na modinha.

Eduardo Marques no "Com Humor Se Paga". Já sabe, pode sempre ouvir em podcast. Aliás, se chegou até aqui é porque ouviram em podcast.

É verdade.

Beijinhos.

I put careers on shelves like Amazon distribution center hell. Really hate to call on broski for the dirty work, I'd rather do it by myself. Grrah, grrah, grrah. My tour routing leave a lazy nigga dizzy. Got more tracks than when a hair salon is busy. Flow for days like that river, Mississippi. Freaky nigga like I sing with Pretty Ricky. Huh? Yeah, yeah. Got that ad-lib from Smiggy. Nails done, but my trigger finger itchy. Clutching on the blicky, shit is getting tricky. People love to diss me. I hear every single thing, man, I'm all ears like I took the fan to Disney. Guess that's one way to tell me that you miss me. Don't go. Yeah. You broke my heart. I had my doubts about you from the start. Pushed to the edge like, "Brr." On Instagram, digging up dirt. You wanted to smoke with me first. Well, this one gon'... Yeah. This one gon' hurt. Down bad boys, sad boys, I've been representing since birth. Yeah, I was down bad about you, but I'm about to have you down worse. I swear you're dead to me. Does Mercedes make a hearse? Matter of fact, everybody in this bitch screaming out, "Fuck my ex." Yeah, fuck my ex. Fuck my ex. Fuck my ex. Fuck my ex. Fuck my ex. Fuck my ex. Middle fingers up. Fuck my ex. About to turn this bitch up. Fuck my ex. Fuck my ex. I should drop a name. Fuck my ex. Drop a couple names. Fuck my ex. Since you on some fame. Fuck my ex. Pussy niggas that you turning up with. In the whip, clowning on me, bitch. Fuck my ex. Fuck my ex. Fuck my ex. Yeah. Fuck my ex. Fuck my ex. Fuck my ex. Fuck my ex. Whoa, whoa, whoa. Fuck my ex. I can't let it go. Fuck my ex. Payback a bitch. Fuck my ex. If you ain't did the shit, you would've popped off and would've said shit. You would've posted shit. I know your ass too well. Fuck my ex. Fuck my ex. Lying. Lying to my face. Thought you would've shown a little grace. How can I expect someone who never had their own place to know their damn place? Treating me like I'm dumb or something, like you're running something. Like they dropped you on your head when you was one or something. Fuck my ex. Hey, hey. Yeah, yeah, yeah, yeah. Fuck my ex. Yeah, right, right, right.