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Que bela música para receber aqui Madalena Malveiro. Bem-vinda, Madalena. Ela que é tão novinha, é a primeira entrevista que faz na vida. Palmas para nós. Muito bem.

Sem ser de emprego.

Sem ser de emprego. Como é que te sentes, Madalena, nervosa?

Não sei.

Como não tens comparação, não é?

Como não tenho comparação, lá está.

Está mais perto. É a primeira entrevista que nem consegue falar para o microfone.

Lá está. Também não tenho nenhum podcast, portanto também falta de experiência.

Isso é estranhíssimo, mas tens 26 anos, já tiraste um curso. Parabéns.

Muito obrigada.

O que é que tiraste, Madalena?

Eu tirei vários, na verdade.

Vários?

Vários.

Fica na de Gestão.

Não, tirei Economia, depois mudei para Gestão, depois fui tirar Realização de Cinema.

Rapariga. Fui experimentar tudo.

Sim.

E acabaste algum?

Acabei todos.

Acabaste todos?

Acabei todos. Não, Economia, não. Fiz só um ano e meio.

Porque com 26 anos seria muito estranho já teres acabado tudo.

Pois.

Então, se calhar, foste considerada sobredotada?

Não.

Fizeste três anos num?

Não.

És normal, então.

Eu sou normal.

Ai, socorro.

Eu sou normal, tenho só muitos interesses. E muito tempo livre.

Até porque tu ganhaste um concurso de jovens empreendedores aos 17 anos. Com que ideia?

Olha.

O que é que levaste?

Ficámos em segundo lugar e que foi injusto porque nós fomos mesmo à pobres. Foi só por isso que ficámos em segundo lugar, porque nós fizemos protótipos de tecnologia em cartão e a outra equipa tinha a escola a patrociná-los. Portanto, eles tinham cartazes impressos, gigantes.

Mas qual é que era a ideia? O que é que foram apresentar?

Olha, a nossa ideia era uma aplicação para tu teres acesso aos transportes públicos. Tinhas uma aplicação, tu instalavas e fazias como se fosse um cartão virtual hoje em dia. Na altura, era muito para a frente.

Exato. Visionários. Isto foi há 10 anos, quase.

Isto foi há 10 anos.

Visionários, estou para te dizer. Hoje em dia existe isso ou não? É o MB Way, não é?

Não, é qualquer cartão virtual.

Virtual.

Virtual, exato.

Pois é. Não foi nada revolucionário. Mas, no fundo, era só um passe digital.

Era um passe digital, mas cheguei a dizer: "Que seca, temos sempre que ir à porcaria da máquina, tão bom ter no telefone".

A minha questão é então porque é que tinham um protótipo em cartão. Eu juro que pensei nisso também. Mas para que é que era o cartão? Porque é que vocês foram apresentar em cartão porque era uma app?

Porque nunca ninguém na nossa escola tinha chegado tão longe, então não havia fundos. Então nós desenhámos tudo, fizemos um vídeo também super amador, hilariante, que as pessoas vinham ao nosso stand ver, que era uma amiga minha a descer umas escadas a tentar apanhar o metro, mas como não tinha a aplicação, caía nas escadas.

Credo! Isso é muito giro. Pronto, mas valeu o segundo lugar.

Sim, impressionámos pelo nosso esforço.

Esforço e dedicação, claro que sim. Já tivemos para fazer esta entrevista algumas vezes, mas tu trabalhas, não é?

Eu trabalho.

Tens um emprego, digamos, normal também.

Tenho um emprego normal também.

É a palavra do dia.

É a palavra do dia. Vou mudar o nome para Madalena Normal. O meu nome de comediante.

Não, mas és comediante, não é?

É, mas durante o dia eu trabalho numa discográfica. Eu trabalho com música, na verdade, agora durante o dia. Tive trabalhos bem loucos, mas acho que este é o mais giro até agora. Eu antes trabalhava em cacifos.

Como assim?

Sim, eu era marketing manager de uma empresa, uma startup que faz cacifos inteligentes.

Ok, é que dito assim, só trabalhava em cacifos, imaginem aí dentro de um cacifo. Já estão feitos, não é?

Sim, sabes que eles não são inteligentes, estão lá pessoas a dar as coisas.

Sim, a Madalena lá atrás. Mas são aqueles que existem, por exemplo, no aeroporto e assim?

Sim, agora existem em todo lado. Não fiz assim um trabalho tão bom, porque tu não usavas muito a existência deles.

Não sei da existência de cacifos, mas já existem há tanto tempo.

Não, mas estes são do gênero, tu vais à Vintage e não queres mandar as coisas para tua casa e mandas para um cacifo.

Para um cacifo, numa loja.

Sim, onde houver super mercado, onde houver. E aqui estamos a fazer publicidade.

Mas olha, não interessa.

À Locky, que era onde eu trabalhava.

Não dissemos o nome, mas sim. Pomos um pi, se for preciso. Não, não faz mal. Mas tu chegaste a trabalhar numa empresa a servir vinho, foi teu primeiro trabalho, não é?

O meu primeiro trabalho, em um restaurante.

E o dono foi preso por burla? Qual era?

Não, espera.

Alerta.

São duas coisas diferentes. O meu primeiro trabalho foi a servir num restaurante vinho.

Ok. Entornaste quantos copos?

Entornei vários e várias garrafas e acabei por ser simpaticamente despedida.

Mandada embora.

Sim.

Convidada a sair. É assim que se acompanha.

Convidada a sair, sim. Pronto, e depois trabalhei numa agência, que eu desconfiei no início que aquilo estava a ser um bocado estranho.

Por exemplo, sentias que era um bocadinho pirâmide? Tu ganhavas mais se trouxesses mais pessoas para a empresa?

Olha, precisamente. Eu vou-te explicar. A minha entrevista foi do gênero: "Olá, tenho um curso" e eles: "Está contratado". E eu: "Isto está um bocado estranho".

Say less. Mas também tens dois, não é? Dois e meio, por isso...

Sim, é verdade.

Exato, com tantos cursos, eu também ficava impressionada.

Era tudo muito estranho, muito shade. E a minha chefe, entre aspas, que era a pessoa mesmo acima de mim, pediu-me para pôr todos os dossiês, aquilo era uma agência de talentos, ou seja, eles arrecadavam miúdos para depois os levar a castings. Vocês já estão a ver onde é que isto vai. O que eles pediram para eu fazer: "Pegas neste dossiê, temos aqui tudo em papel, e vais colocar no computador". E eu: "Ok, tudo bem". Aparecem símbolos. "Mas Madalena, vais deixar de fora os feios."

Oh, não!

O que foi?

Até bati no microfone.

O que é que eu fiz? Deixei todos em highlight os feios. Eu achei aquilo tão triste.

Oh, meu Deus, coitadinhas das crianças.

Isso é muito engraçado.

Não, se vocês sabem, eu estou num filme, mas não estou. Eu estou num sketch. Era tudo horrível.

E depois a pessoa...

E depois o que é que aconteceu? Eu tinha uns trabalhos de fim de semana, era ficar a fazer babysitting a miúdos enquanto eles recebiam aulas de uma professora de teatro, para eles terem mais uma skill para pagarem o portfólio que a agência simpaticamente oferecia por €500. E houve um dia que eu estava a fazer este babysitting, aparece-me uma mãe com uma filha a dar-me na cabeça, tipo: "Esta agência, não sei o quê, a minha filha está nesta agência, eu já paguei mais de €1.000 e a minha filha só fez um desfile em Vila Real."

E não ganhou nada.

E não ganhou nada.

Ou seja, deixa-me ver se percebo. Eles iam fazendo trabalhos e até fazer o valor que a empresa disse ter investido na pessoa, todo o dinheiro ia para a empresa. Ou seja, ela deve ter feito a passagem de modelos de graça.

Eu acho que muitas das modelos nem sequer chegavam a fazer trabalhos, não é? Era do género, tu pagavas €500 para estar agenciada.

Não, mas percebes, começas logo com uma dívida. No fundo, acho que era um bocado por aí.

Mas olha, eu não sei tão far, mas eu acho que nem era isso. Era só a agência ia para a rua dizer: "Uau, tu és linda, maravilhosa, tu podes ser modelo ou tu podes ser atriz. Vem para a minha agência e nós vamos dar-te tudo e vamos pôr-te em velas."

Mas a pessoa depois ficava a dever.

Não.

O portfólio?

Não, os pais pagavam.

Sim? Os pais pagavam.

Os pais pagavam antemão. O book porque os filhos precisavam disto para poderem-

Para depois ter o material. Já agora, Madalena, as fotos eram boas?

Não, era tudo horrível.

Oh, não.

Mas pronto, foi neste dia que eu vi: "Pronto, ok, isto é um esquema."

Para mim chega, vou-me embora.

Isso até deve ter aparecido em televisão, porque eu lembro-me de uma agência qualquer que foi denunciada.

Exatamente, porque eu despedi-me basicamente da agência, disse para nunca mais lá pusesse os pés. Ele quis me pagar.

Podes dizer o nome?

Não me lembro.

Oh, Rita, qual o problema?

Adorava lembrar.

Imagina, já está fechada mesmo. Já foi desposta.

Mas existe essa notícia.

Eu sei, eu lembro-me disso.

Apareceu nas notícias. O que aconteceu foi-

Faz aí uma bela pesquisa. Mas isso é muito shady.

É tudo muito shady. Olha, eu desapareci, ele disse: "Olha, vamos nos despedir, porque tu não apareces mais. Estou-te a dever X." E eu disse: "Não quero, não aceito dinheiro sujo."

Sou a íntegra.

Tipo, eu estava meio que pannada.

Chamava-se, por exemplo, Gold Models?

Eu acho que era uma coisa assim.

Era, capaz.

Rita. Só pesquisar.

Mas eu só descobri porque um ano depois estava a ver as notícias muito contente em casa e de repente, tipo: "Caso mais de 250 crianças enganadas por-"

Isto mesmo a tempo.

Foi mesmo uma coisa assim. Era um homem que estava sempre a mudar de nome e de nome de agência, ia mudando de sítio e ia fazendo o mesmo esquema ali.

Assustador, coitadinhas das crianças.

Olha, por falar em pessoas feias.

Aponte-se, sim.

Não, porque agora está na moda, eu agora não sei o nome, mas é uma trend.

Que envolve pessoas feias?

Sim, do feio bonito. Ou seja, do homem, como é que se chama?

Já sei.

Porque havia nos anos 90 o heroine chic. Sabem? Conhecem?

Sei. As modelos. Chic é de rapariga, heroína, de heroína. Heroína não é de super-herói, é mesmo da droga.

Não é da droga, heroína.

Não, mas é a Kate Moss, estás a ver?

Ok.

Muito magrinhas, com a cara assim meio cavada. Mas pronto, agora não me lembro do nome.

Já sei, é o ugly pretty, pretty ugly. É uma coisa assim.

É assim um nerd muito magrinho. Rato! É qualquer coisa rato. Espera lá.

Mas isso é uma trend de quê? TikTok?

Não, é para descrever um tipo de homem que agora está na moda, bonito. É um bonito feio, é um feio bonito. Isto para dizer que é muito subjetivo agora este conceito de fealdade, é também muito subjetiva, não é?

Verdade.

Isso, depois também imagina deixarem a Madalena, coitadinha, ver as crianças, tipo: "Isto é bonito, isto é feio." Para ti podia ser uma coisa, para mim podia ser outra, para a Rita podia ser outra.

Acho que essa não era a ideia que eles usavam.

Mas é isso. Na verdade, eles nem sequer queriam saber da estética.

Eles não queriam saber, eles só queriam dar-me um trabalho.

Para tu fazeres qualquer coisa.

Sim, eu nem sei porque é que estava ali.

Assustador. Pronto, então tu deixaste esse belo trabalho.

Hot rodent.

Ok, então afinal não sei. Hot rodent man.

Eu não gostava que alguém me chamasse um hot rodent. É um roedor atrativo.

Porque são homens que têm cara de rato. Têm os olhos esbugalhados, têm as maçãs do rosto mais saídas.

O namorado da Rosalía. Isso está-me a fazer... Já sei.

Hot rodent man.

Alejandro.

Sabes como é que ele se chama? Não. Já é outro.

Mudou de nome? Já sei.

É o protagonista do "The Bear".

Mudou de nome.

Mudou de nome.

Exatamente.

O protagonista do "The Bear".

Tu estás a pegar na descrição, é isso para mim.

Estava a pensar que o Raul Alejandro tinha mudado de nome artístico.

Esse homem é lindo. Sim, concordo.

Madalena, quando é que-

Eu ia só perguntar, ou seja, ela tinha deixado os trabalhos todos meio estranhos e agora estava efetivamente num trabalho normal e ia perguntar efetivamente o que é que tu fazes no teu trabalho agora. Dizes que trabalhas numa discográfica, mas o que é que tu fazes?

O meu título oficial é marketing manager. Basicamente, eu faço o marketing de artistas.

Estava aqui com a pulga atrás da orelha, queria perceber. Isso é muito porreiro.

O artista tem um single, um álbum, o que for. Eu faço muitas outras coisas, mas basicamente a minha função primária é ajudar com a criatividade e a execução.

Nas redes sociais e na publicitação.

Também.

Fixe, muito bom. E quando é que o humor apareceu na tua vida, Madalena Malveiro? Tenho de dizer o nome, que é um nome que uma pessoa vai começar a ouvir cada vez mais.

Deve ser MM.

MM.

Madalena Malveiro.

Sabem que eu tinha um sonho? Eu não sei se devia dizer isto em rádio. Já me arrependi da frase, vou dizer. O meu sonho era se eu casasse com alguém também com um M no final. E dois Ms também, nós íamos ser o casal "mmm". Lembrei-me disso e isto amigos meus: "Madalena, nunca mais repitas isso na tua vida."

E aqui está a Madalena Malveira a repetir isto na antena da Rádio Observador. Obrigada por isto.

Mas Madalena, conta-nos tudo, como é que apareceu o stand up? Como é que começaste a fazer?

Essa é aquela pergunta que eu acho que vou fugir sempre. Não sei.

Foi sem querer?

Não, sei lá. Eu acho que oficialmente como começou o meu caminho no stand up é porque eu ouvi uma piada numa festa. Eu ouvi uma piada numa festa de um miúdo. Eu chorei tanto a rir que eu chamei toda a gente individualmente para vir ouvir.

E lembras-te dessa piada?

Claro que sim, porque eu levei essa piada e repetia sem limite depois em todos os meus eventos sociais. E as minhas amigas já estavam fartas: "Madalena, por favor, tens de parar, chega." Porque eu desapareci e estava eu num canto a contar esta piada.

Desculpem, têm aqui um segundinho para eu contar aqui uma piada.

Bêbada, tipo: "Por favor, oiçam." E então eu percebi que precisava de mais piadas. O portfólio estava escasso.

Até porque não era tua a piada.

Não era minha. E vi um curso online de stand up. E então eu pensei: "Ok."

Na Bank?

Na Bank. E pensei: "Ok, vou ouvir piadas de outras pessoas e vou poder ter mais portfólio." Chego ao curso e é tipo: "Não, aqui tens que escrever as tuas próprias piadas." E eu: "Hã? Não era bem isto que eu estava à procura." Mas pronto.

Mas espera aí, tu conhecias stand up comedy internacional e por aí fora? Não conhecias o conceito de stand up.

Não, eu já tinha visto os stand ups normais do Ricardo Araújo Pereira naqueles bares. Aqueles vídeos que estavam online que já não estão agora, do Bruno Nogueira.

Do Levanta-te e Ri, se calhar.

Exato. Levanta-te e Ri, esses sítios todos. Mas nunca tinha associado, isto é uma coisa que se faz. Achei que eles faziam porque são eles. Não tinha mesmo qualquer tipo de noção e conhecimento.

E começaste com que idade?

Com 24. Há dois anos.

Dois aninhos. És muito ingénua. Eu pensava que...

Eu sou um baby.

Isso é giro. Mas em termos internacionais nunca tinhas consumido avidamente comédia?

Nada. E imagina, até estou contente, porque hoje em dia eu sinto-me na faculdade, eu estou no Comedy Club.

É mais um curso, não é?

Estou num curso.

Mais um.

Mais um, como sabem como eu gosto.

Sim, exato.

Mas estou com comediantes que são super veteranos e estamos lá e dizem-me nomes e eu vou ver. Cada vez mais vou vendo coisas.

Sim, uma constante aprendizagem.

E tu tiraste o curso de stand up comedy e foste logo atuar no Rock in Rio, em 2022.

Eu tirei o curso, acabei em novembro, depois fui em junho, sete meses depois, com o meu primeiro texto.

E como é que isso foi?

Foi uma experiência. É o que eu tenho a dizer.

É que lá está, uma carreira na comédia tão curtinha ainda.

E foi lá o Rock in Rio e Festival F.

Exato, e Festival F no mesmo ano.

Fui ao Festival F no mesmo ano. No Rock in Rio tinha cinco minutos, no Festival F tinha 10. O Rock in Rio é uma experiência, porque eu não sei se vocês se lembram do Digital Stage.

Sim, lembro. Estava ali no topo.

No topo. Não, é ali a meio entre aquele palco.

Subias um bocadinho, aquilo ficava num topo.

A minha orientação nula a tentar perceber onde é que era o palco.

Ficava na Serra da Estrela.

Exato, sim. Mas basicamente o meu texto é para ser ouvido com atenção e estou ali a dizer as minhas punchlines e eu tentava olhar para o público, a ver se alguém se estava a rir e ninguém.

A ver se alguém parava.

Não, estava uma multidão enorme, mas uma coisa chocante. E eu olhava para ver, eu estava a dizer as minhas piadas, muito contente, e olhava a ver se estava alguém a rir. Ninguém, não encontrei uma cara e pensei: "Bem."

Se calhar vou abandonar.

As multidões não são uma boa.

Não, aquilo é uma experiência. Eu diverti-me imenso.

Isso é o que importa.

Eu estou me a marimbar. Mas as pessoas não estão mesmo com a atenção. Ou estás aos berros e é uma cagada.

Esperem lá, o tempo passou muito rápido e temos de meter aqui.

Desculpa.

Não, a culpa é nossa. Vamos ouvir aqui um bocadinho do teu stand up.

Já que estamos aqui a falar de stand up.

E depois vamos despedir-nos logo e continuamos em podcast. Pode ser?

Pode ser que dê.

Então vamos a isso, espera lá. Vamos ouvir a Madalena no Lisboa Comedy Club.

Vocês sabem que as mulheres engatam de uma par, só que são muito discretas e não se percebe. As clássicas são sempre: vão pedir um isqueiro e nem fumam, ou olham fixamente e esperam que eles queiram casar conosco. São uma m****, não é? Eu inventei as minhas próprias, meninas se quiserem. Tenho três. Tenho nomes para elas, ok? A minha primeira chama-se Amish. Amish é uma pessoa que não sabe usar a tecnologia. E o que eu vou fazer nesta? Chocar um rapaz. "Olha, desculpa, boa noite. Podes ajudar-me? O meu telefone está a dar problemas." "O que se passa com o teu telefone? Eu gosto deles musculados."

E a voz de musculado.

Ao qual eu vou responder: "É que não tenho o teu número." Tem outra. Esta aqui chamei-lhe Não Fluffy. O que eu faço nesta? Arranjo um cão treinado para morder, depois chamo-lhe Fluffy para ninguém desconfiar. Pego no Fluffy, levo-o ao parque, escolho a minha vítima. "Fluffy, é aquele, vai." "Oh, Fluffy, não vás!" Ups, já foi. O Fluffy chega, o Fluffy morde e eu chego: "Desculpa, o meu cão mordeu-te, foi? Eu acho que ele pensa o que eu penso. É que tu és um pão." Tem outra, eu pensei nelas. Chama-se O Chuveiro. O que eu vou fazer nesta? Vou chegar a um rapaz. "Olha, desculpa, boa noite. Olha, precisava de ligar ao chuveiro." "Pá, o chuveiro, agora sim, não sei." E ele: "Então, mas por quê?" "Porque eu sou uma foreigner."

Gosto muito. Gosto quando acaba. E tem um bom build up. Até porque falta falar do fato de tu já teres atuado em Nova York.

Atuei em Nova York.

Como é que isso aconteceu?

É facílimo, eu recomendo. É facílimo, tu pagas para atuar.

Pagaste para atuar?

Tu pagas para atuar.

É um bocadinho como aquele book, como a agência de modelos.

Sim, é um bocadinho. Não, a não ser que sejas alguém, tu pagas para atuar lá. É como se todos os sítios em Portugal pusessem tudo num site e tu vais lá, tens as noites do open mic e inscreves-te e pagas $5 e atuas.

É pouco.

Sim.

Também tens de pagar para trabalhar. Mas é também uma boa forma de experimentar.

Eu percebo, porque os espaços para atuar são uma coisa incrível.

E é muito competitivo o mercado lá.

Muito. É chocante mesmo a quantidade de pessoas.

Aliás, há filas de espera. Cá já começa a haver, até no Lisboa Comedy Club, mas em Nova York são listas de espera de anos.

Sim.

Há pessoas que nunca chegam a entrar no Comedy Cellar.

No Cellar precisas mesmo de alguém que te veja e que te queira lá, porque senão aí nem sequer tens hipótese.

Foi o escolhido. Mas em Nova Iorque, claramente, tu atuas em inglês. E foi aonde? Lembras-te do sítio?

Eu atuei em vários. Eu atuei num clube que é o St. Mark's, depois atuei noutro que eu não me lembro o nome, mas que é em Brooklyn, e atuei noutro também que é perto de Brooklyn.

Mas só pagaste uma vez ou não?

Olha, eu paguei das três vezes que eu atuei e uma delas não, porque era um concurso, porque eu tinha atuado às 18h e depois o rapaz: "Gostei muito, vamos fazer um concurso daqui a uma hora. Podes ganhar $100, fica que eu acho que tens hipótese." E eu: "Então espera lá que eu vou ficar."

Aliás, até porque podes participar em muitos mais com $100.

Com os $100 que vais ganhar. Basicamente, é esse o pyramid scheme deles, que eles estão a operar lá.

Não. Mas tu dizes aqui que atuas regularmente em inglês. Mas espera, e correu bem?

Correu? Olha, eu acho que fui roubada. Eu tenho mesmo a certeza, porque era por palmas.

Isso é também meio estranho.

Eu vou sempre dizer "eu tenho a certeza que eu fui roubada," a minha amiga que estava lá e que me viu também acha isso, mas porque eu não sou de lá, eu sou uma foreigner. Nem sei dizer essa palavra bem.

Foreigner. É uma palavra muito estranha para se dizer.

Mas eu fui roubada. Mas eu fiquei bem classificada, fiquei em terceiro, que não é mau.

Terceira é o primeiro dos últimos, como dizia...

É fantástico. Éramos 12. E eu estava a competir com uma que ia atuar no New York Festival no próximo fim de semana.

Uau! E não pensaste assim: "Se calhar eu até tinha futuro aqui. Deixa-me cá ficar um ano para ver o que é que dá."

Em inglês as possibilidades são muito maiores.

Era aí que eu queria chegar. Tu atuas naturalmente em inglês, o leque de oportunidades é muito maior ali.

Não, aquilo é a Disneyland, tu não estás a perceber. Há um comedy club em cada esquina. Eu chorei quando entrei no Cellar, quase. Eu estou a rir, mas chorei.

Aquilo é lindo. Eu também já fui de Nova York e foi o único país-

Foste ao Cellar?

Sim, também fui.

Aos dois?

Fui aos dois, mas fui só ver a atuação num deles.

Ok, foste ver um comediante em específico ou foram vários?

Eram vários, que agora assim de repente não me estou a lembrar, mas eram todos bons. Por acaso havia um, sabes aquele que já caiu meio nariz porque foi muito viciado em cocaína?

Ui, não, mas quero mesmo saber quem é.

Vi-o e era muito bom. Mas já agora não me lembro do nome.

Eu apanhei incríveis também. Apanhei o Dave Attell, apanhei o Jeff Ross.

Estás a ver, até conheces o stand up comedy. Na altura não conhecia. Agora já estamos a perceber porque tu dizias as zonas. Mas Helena, isto foi quando? Ano passado?

Há dois anos, dois anos e meio.

Então estiveste a estudar durante três meses, foi isso, não foi?

Não, eu estou a estudar, entre aspas, há dois anos e meio.

Então são só seis meses.

Como assim são só seis meses?

Então foi há dois anos. Há dois anos tiraste o curso de stand up comedy.

Exato.

Foi há dois anos que foste a Nova Iorque?

Não, foi este ano.

Foi este ano que foste a Nova Iorque.

Foi em novembro.

Foi ano passado, então.

Exato, sim.

Olha que bom.

É recente, foi há relativamente pouco tempo.

Boa.

Se eu não tivesse ido e não tivesse este conhecimento e este gosto, eu acho que a experiência tinha sido metade. Porque agora estou lá e sei que o special do Louis C.K. foi aqui, eu estou na front row.

Se eu soubesse da Helena há três anos, já não...

Não, estavas a morar.

Estava ali noutra zona, se calhar.

Exato.

Possivelmente. Pronto, foi em Nova Iorque. Só que o problema de uma pessoa para trabalhar em Nova Iorque, tens de ter contrato. Terias de ter um contrato antes. Chegaste a pensar nisso?

O problema não é esse, o problema é o visa.

Pois é, é o visa. É o visto.

O visto. O cartão Visa.

Para teres o visto precisas de ter um contrato de trabalho.

Sim, depende do tempo que queres lá ficar. Se tu quiseres ficar, imagina, um ano, inscreve-te numa faculdade qualquer horrorosa e ficas lá.

Sim, podes ter um visto de estudante.

Podes ter um visto de estudante.

A Bumba na Fofinha fez isso, precisamente. A Mariana Cabral tirou lá um curso de improviso, acho eu, e estava com visto de estudante e esteve lá cerca de um ano.

Pois.

E depois voltou e começou a fazer stand up comedy. Por acaso foi engraçado, foi mais ou menos nessa altura.

Mas ela chegou a fazer em inglês?

Isso já não sei, mas deve ter feito. Deve ter experimentado. Se calhar gastou $100 assim. Para fazer stand up aqui e ali.

Esbanjou ali. Bem, na altura, se fosse $100 por atuação, eu reconsiderava a situação.

Era um. Isso é muito. Mas isso é giro. Embora o ideal é seres paga para trabalhar.

Sim.

E agora cá em Portugal fazes uma série de noites no Lisboa Comedy Club. Todas as semanas atuas? É todas as semanas.

Atuo todas as semanas. Pode não ser necessariamente sempre no Comedy Club, mas tu tens imensas noites.

Onde é que tu costumas andar?

Tens tantas noites.

A saber, Madalena.

Tens o Comedy Club, tens as noites do Bahir. Sabem? Que é no Barreiro, são incríveis.

Sim, já lhe falamos. Temos tido alguns convidados que passam por lá e falam muito bem do Bahir.

É uma experiência. Tu sais de lá: "Sou o maior." É uma experiência.

Bom público. É muito bom para comédia.

O público é incrível, o espaço em si é muito favorável, porque estão todos muito perto, as pessoas estão lá mesmo porque gostam daquilo. Não está uma pessoa que está ali tipo: "O que é isto?" Não, as pessoas fazem filas à porta, voltam no dia seguinte, não têm a certeza se vão ter lugar.

Altamente.

E estão lá na mesma. O espaço é incrível. O host é ótimo, que é o Hélder, que é um grande amigo meu, que está lá aquecer também as pessoas, portanto isso também proporciona um ambiente incrível.

É meio caminho andado, quase.

É. Aquele espaço é incrível. Depois tens imensas noites, tens agora o Domino's também.

Pois é.

O Domino's também passou a fazer uma noite no espaço Mosh. Tens as noites da Kilt.

Do Freak Show também.

Tens o Freak Show, exatamente. Tens tantas noites agora.

E tu vais passando por esses sítios.

Eu sou mesmo uma porca de stand up. Se há algum sítio que eu vou. Eu já atuei em restaurantes.

A Madalena Esponja. Então ainda não sentes ansiedade? Não sentes ansiedade, pronto. Essa é a pergunta.

Em nenhuma.

Isso é espetacular. Tu estavas a falar, estava a dar a impressão que não sentias nervosismo antes de entrar. Isso é ótimo. Por quê? Por que achas que isso acontece?

Eu não sei.

Se calhar por ser tão recente, não é?

Talvez. A postura que eu tenho é: o meu texto que eu tenho em casa e as piadas que eu trouxe, eu parti-me a rir com elas sozinha.

Ok. É impossível que alguém não se ri também.

Não é isso. Eu vou para palco e eu estou me a divertir, percebem isto? Eu estou me a divertir com a porcaria que estou a dizer. E se o público não se estiver a divertir, está ótimo. Eu saio contente na mesma.

Não ficas chateada com o público nunca?

Não, claro que já aconteceu. No início, eu tinha muito mais esta postura. Hoje em dia também levo a coisa mais a sério. Quero que as coisas corram bem, até porque agora sou regular no Comedy Club e tenho um bocadinho uma responsabilidade da noite. À noite não posso bombar. Tenho que levar coisas que eu sei que vão correr bem e que vão ser giras. Mas na mesma estou super divertida.

Ai, que bom! É uma ótima postura para estar.

Sim, acaba por ser uma boa experiência sempre. Claro que já saí, claro que já tive noites em que saí chateada, mas porque também tu és humano. E às vezes vens para aqui, se calhar estás na rádio e este é um dia que não me apetece trabalhar. Às vezes tens que ir para palco e estar e se calhar não me apetecia.

Não te apetecia estar .

Já uma vez cancelaste uma ida?

Por estares mal.

Nunca. Para mim é sagrado.

Se disseres chegas lá e mudas o chip.

Não, se disse que sim, nem que seja na parvoeira, eu vou lá ter. Eu lá estarei.

Boa. Madalena, nós ficamos por aqui. Podemos então seguir. Deixa-me começar aqui a meter uma música. É assim que nós acabamos.

Pois é, nós fazemos um belo de um ciclo, começamos com música e fechamos com música também.

Porque é que escolheste, ainda não chegámos a perguntar, porque é que escolheste Gabriel, o Pensador, o cachimbo da paz? Nem sequer dissemos qual era a música.

Olha, peço perdão.

Então nós vamos com a conversa. Fica para quem ouvir o podcast. O porquê da música.

Olha, porque eu acho que esta música é mesmo hilariante. Se vocês forem ver a história que ele está a contar, é mesmo engraçada, porque ele está a dizer que o presidente do Brasil cansou-se, que o Brasil está violento demais, então vai para uma floresta qualquer e vê um índio de fio dental a fumar um cachimbo da paz. E então, o que ele decide fazer é: "Vou ficar mais é aqui, vai tu, eu vou te nomear para Ministro da Justiça." E lá vai o índio de fio dental para o Brasil, levar o cachimbo da paz como solução para os problemas dos brasileiros.

É pá, Gabriel, o Pensador. Parece que fumou muito. Incrível.

Eu gosto imenso das músicas brasileiras que contam histórias mesmo what the fuck.

Porque tu antes até tinhas escolhido uma música que era da Catarina Filipe. Que eu nem sequer sei dizer qual era a música, atenção.

Youtuber que passou para a música. Eu agora realizo que eu escolhi essa música também porque tem uma dica que eu acho muito engraçada, que também é sobre droga. Não sei o que é que isto diz sobre mim.

Mas atenção, não, Madalena é uma pessoa limpa.

Mas a dica é basicamente: "Eu não sou mortadela para ser enrolada." Que eu acho que para mim é uma frase.

É uma boa dica.

De stand up.

Eu acho que isso era de se emoldurar essa frase. Era de se emoldurar.

"Eu não sou mortadela para ser enrolada." Para mim, ganhou.

Gostei. E acho que é uma ótima nota para terminarmos o programa.

É ótima.

No entanto, acabamos também com Mortadelas, do Gabriel Pensador, cachimbo da paz. Madalena Malveiro, muito obrigada por teres cá vindo.

Obrigada o convite.

À Rádio Observador, a primeira entrevista da tua vida.

Exato, obrigada por teres pensado: "Bem, sim, minha primeira entrevista vai ser com a Rita e com a Clélia."

Sim, é mesmo com estas duas que se faz uma entrevista.

A Madalena nunca tinha feito uma biografia. E agora já está feita para todos os meios que quiserem entrevistar.

Agora esta entrevista vai ser uma referência se alguém quiser entrevistar a Madalena, vão pesquisar e vão... Está-se a ver. Incrível. Madalena, muito obrigada. 26 anos, sempre aí em cima e a atuar todas as semanas por Lisboa e quem sabe por outros sítios. É assim que dá Madalena Malveiro nas redes sociais. Obrigada.

Obrigada.

Com tantas drogas, por que só o seu cachimbo é proibido? Marezia, sente a marezia. Marezia. Apaga a fumaça do revólver, da pistola. Manda a fumaça do cachimbo pra cajola. Acende, puxa, prende, passa. Índio quer cachimbo, índio quer fazer fumaça. Na penitenciária, o índio fora da lei conheceu os criminosos de verdade, entrando, saindo e voltando, cada vez mais perigosos pra sociedade. Aí compadre, está rolando um sorteio na prisão pra reduzir a superlotação. Todo mês alguns presos têm que ser executados e o índio dessa vez foi um dos sorteados e tentou acalmar os outros presos. "Espera aí, vamos fumar um cachimbinho da paz". Eles começaram a rir e espancaram o velho índio até não poder mais. E antes de morrer ele pensou: essa tribo é atrasada demais. Eles querem acabar com a violência, mas a paz é contra a lei e a lei é contra a paz. E o cachimbo do índio continua proibido, mas se você quer comprar, é mais fácil que pão. Hoje em dia ele é vendido pelos mesmos bandidos que mataram o velho índio na prisão. Marezia, sente a marezia. Marezia. Apaga a fumaça do revólver, da pistola. Manda a fumaça do cachimbo pra cajola. Acende, puxa, prende, passa. Índio quer cachimbo, índio quer fazer fumaça. Marezia, sente a marezia. Marezia. Apaga a fumaça do revólver, da pistola. Marezia, sente a marezia. Marezia. Índio quer cachimbo, índio quer fazer fumaça. Apaga a fumaça do revólver, da pistola. Marezia, sente a marezia. Marezia. Acende, puxa, prende, passa. Apaga a fumaça do revólver, da pistola. Marezia, sente a marezia. Marezia. Índio quer cachimbo, índio quer fazer fumaça. Apaga a fumaça do revólver, da pistola. Manda a fumaça do cachimbo pra cajola. Acende, puxa, prende, passa. Índio quer cachimbo, índio quer fazer fumaça. Apaga a fumaça do revólver, da pistola. Manda a fumaça do cachimbo pra cajola. Acende, puxa, prende, passa. Índio quer cachimbo, índio quer fazer fumaça. Apaga a fumaça do revólver, da pistola. Manda a fumaça do cachimbo pra cajola.