Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
E hoje no "Com Humor Se Paga" temos o comediante Miguel Neves. Bem-vindo à Rádio Observador, Miguel.
Muito obrigado por me terem recebido.
Eu gosto que, pronto.
Olá, Rita.
Tivemos uma falsa partida.
Pois tivemos.
Porque não estava a gravar. Conheces o conceito de baby brain?
Não.
Sim, as pessoas quando grávidas ficam com o cérebro, porque estamos sempre a pensar no bebê, então há um monte de coisas que nos passam ao lado, nomeadamente começar a gravar.
É normal.
Mas também foram só cinco segundos.
Mas perdeu-se a espontaneidade, sabes?
Não, não se perdeu, porque foi mesmo no início.
Ok, perdeu-se um bocadinho a espontaneidade, mas ganhamos a relief. Toda aquela ansiedade: "Não, está a gravar." Agora é um segundo take, é tipo: "Ah, who cares?" Está feito.
New Slang, de The Chains. Tu escolheste porque gostas, não é?
Ya, mesmo isso. Obrigado por perguntares se há uma razão por trás, porque eu não pensei de todo na escolha. Foi: "Quais são as últimas músicas que ouvi? Olha esta, está suave." Ok.
Tu já começaste a fazer stand up há muito tempo. Nós começámos, na verdade, estávamos a falar disso há pouco tempo, começámos mais ou menos na mesma altura. Se calhar tu um bocadinho antes, nem sei.
Acho que tu começaste antes.
Pronto, ok.
Acho que começaste muito antes.
Calma, calma.
Muito antes.
Mas já desisti. Foi o quê? Há 15 anos? Por aí.
Desististe de fazer stand up?
Sim, agora não faço.
Ok.
Se quiser voltar, volto. Não sinto essa pressão.
Mas por que a gente diz desistir? Só não faço há algum tempo.
Porque não quero que me convidem. Acho que é mais isso.
Ok. Ya. Como os jogadores quando fazem a seleção. "Não, retirei-me."
Retirei-me mesmo.
Por favor, não me metam na lista de convocados.
Mas a cena fixe do stand up é que tu podes sempre voltar com a idade que tu quiseres. Envelhece-se bem, acho eu.
Sim, eu concordo perfeitamente contigo. Eu vejo muitos comediantes muito mais velhos. Acho que é o oposto do hip-hop.
Então, por quê?
Não sei se estou a ser polémico, mas a maior parte dos melhores álbuns de alguns artistas de hip-hop costumam ser os primeiros. É sempre o debut, quando lançam com entre 18, 19 anos e depois quantos rappers já conheces que conseguem manter uma carreira relevante a partir dos 30?
Sei lá, tens o Sol Jay, por exemplo.
Vais dizer agora mais 20 rappers e eu vou ficar calado. Acabei de dizer uma cena que não faz sentido nenhum. Deixa-me dizer cenas sempre base.
Se calhar fica estranho um homem de 50 anos ter esse new slang, estar com o jargão.
Mas stand up também. Estar aos 50 anos.
Sim, mas no stand up podes fazer sempre coisas diferentes. Ou seja, recupera-se bem também, mesmo que tu tenhas falhado muito no passado.
Acho que quanto mais falhares no passado, mais material interessante tens a longo prazo.
Por acaso recentemente vi uma entrevista aqui no Observador, num CEO, agora não me lembro do nome, que falava que os portugueses têm muito medo de falhar. E o stand up é um bocadinho a antítese disso.
Qual é a palavra portuguesa para delusional?
Ilusão.
Acho que é isso. Acho que existe um grau gigante delusional dentro do meio de stand up que faz com que façam. Acho que nem é medo de falhar.
Achas?
Ya, acho que só não tenho noção.
Se calhar muita gente fica muito ansiosa. Isso não é medo de falhar.
Já viste o Man on Wire, aquele documentário? É outro documentário sobre um tipo. O documentário é hilariante, porque é um cara que vai subir uma montanha qualquer e o documentário tem piada porque a mulher dele grávida e com filhos a dizer: "Pô, não faças isso, podes morrer." E ele: "Eu nasci pra isso, é isto que eu faço." E o documentário é interessante, mas depois fizeram uma análise ao cérebro dele e descobriram que ele não tem na cabeça a cena que faz sentir medo.
Ah!
Eu depois disse meio que não tenho mesmo.
Medo?
Não, respeito por ele.
Porque achas que ele pode ter vantagem.
Ya!
Tipo o Michael Phelps, que tinha uma caixa torácica.
Galgas. O cara tem galgas. É um tonico.
Respirava era debaixo d'água.
Sim, acho que é. Quando descobriram isso. Mas não lhe tiraram as medalhas.
Não.
Porque ele ainda era um peixe macho.
Porque era homem, sim.
Ya, esse tipo de seres meio peixe, o pessoal não se importa, mas ai de ti se tens algum nível de estrogênio.
Sim, se parecer mulher ou homem.
Nós aceitamos barbatanas, mas não...
Anfíbios, tudo bem.
Sim.
Mas tu achas que com o tempo também foste perdendo essa capacidade de ter medo de falhar?
Depende. Há noites de stand up que são mais importantes que outras.
Embora tu aceite, não sei como é que estás agora, porque antigamente tu ias a tudo. Dizias que aceitavas tudo.
Sim.
Um folhado e uma Coca-Cola. Não, estou brincando.
Sim, também é verdade. Eu descobri que ao aceitar tudo, eu estou a perder outras atuações. E então eu percebi que ter um bocadinho de critério faz com que eu tenha acesso a outro tipo de atuações que não teria se descobrem que me podem ver atuar no pátio.
Ok, sim, começaste a ter mais critério também dar mau respeito, no fundo.
Sim, mas tenho pena que seja assim. Tenho genuinamente pena que seja assim. Gostava de continuar a atuar em pátios.
Eu sinto que tu, dos comediantes, já és da velha geração, se calhar. Da média geração. És dos mais punks. Porque não tens um solo ainda, mas nem sequer tens essa pretensão, pelo menos não tiveste durante muito tempo. Ias fazendo porque querias, ou porque sentias que tinhas de fazer, ou porque te dava, não sei, alguma coisa te puxava.
Ok.
Então explica. Posso estar enganada.
Não, está se bem. A única razão para eu poder fazer um solo era se eu achasse que fosse fazível, ou seja, se eu chegasse a um nível de reconhecimento que me permitisse acreditar que um número relevante de pessoas pagasse o bilhete para me verem em mais do que um sítio. Agora, fazer um solo como se fosse uma festa de anos.
Sim, estou a perceber o conceito.
Não queria muito fazer isso.
Mas material tens em barda, não é?
Tenho montes. Eu aborreço-me a ver solos. Eu não sei como é que é. Estamos a falar de hip-hop, mas eu prefiro muito mais ouvir um álbum de Farside, quatro gajos a rapar, do que necessariamente um álbum a solo, sem feats. Tens de ser muito bom para captar o meu interesse durante mais de uma hora.
Mas também às vezes é esse tempo. Às vezes o tempo também não é muito respeitado. Às vezes fazem solos de uma hora e meia, que eu acho uma tortura.
Completamente. Concordo.
Acho que não devíamos deixar as pessoas sentadas tanto tempo.
Mete um gajo a abrir 15 minutos e faz entre 45 minutos a uma hora no máximo e está se bem.
E está bom.
Concordo perfeitamente contigo.
Qual é o teu tempo? 45 minutos?
Depende. Como é que eu vou dizer isto?
O teu tempo de atenção.
Não tem só a ver com isso. Isso é pessoalmente, o que me interessa ou não. Eu não gosto de standup em teatros, tipo espetáculo.
Preferes em bares?
Eu prefiro quando há um certo despretensiosismo. Uma coisa que eu sempre gostei no standup é a ausência total de quarta parede. Em que tu não podes fingir. O Doug Stanhope falava disso, era muito engraçado, e eu concordo perfeitamente com ele. No teatro, basicamente o público tem de fingir que não está a ver teatro. E o pessoal que está a fazer teatro tem de fingir que não está ali um público. Tens de fingir que estás a ver uma parede onde uma parede não existe. Claro que por vezes existe aquela cena de teatro abstrato e avant-garde, está pecheto. Mas é verdade, tu tens de estar a imaginar um conjunto de coisas que não estão lá. Há quase como uma espécie de aperto de mão entre os artistas e a audiência de vamos fazer aqui um gigantesco suspension of disbelief para isto funcionar. Enquanto no standup, não. És um gajo de pé ali a dizer piadas. E é isso que estás a fazer e é isso que a audiência está a ver. Tu estás a ver a audiência, se a audiência não reage, corre mal. Aliás, o standup só funciona se houver uma reação específica da audiência nos momentos chave. Portanto, não há quarta parede nenhuma. Uma cena que sempre me irritou quando vejo standup é quando eu noto que há uma tentativa de quarta parede ali, em que é uma performance cómica. O que está se bem, atenção, já existe one man shows e monólogos teatrais, super ok. Mas a essência de um solo, muitas vezes, eu vejo é tipo, isto é um monólogo escrito com uma coluna vertebral de standup, aborreço-me.
No fundo é isso, aborreces-te. Se calhar não seria para ti.
Não.
E gostas mais de fazer-
Mas quando eu fizer, por favor paguem o bilhete e venham ver.
Imaginas a fazer um dia?
Claro, faço na boa, sem problema nenhum.
Se te apetecesse já, era só reunir material.
Sim, o quê? Tomar uma em palco a dizer piadas. Fácil, easy, sem problema nenhum. Tu achas que standup é difícil?
Eu acho que sim, por acaso.
Por quê? Subir ao palco e dizer piadas.
Sim, acho. Por acaso acho. Porque é a ansiedade, a mim dá muita ansiedade.
Mas eu diria que então isso é como qualquer outra craft, em que é só a prática que te faz sentir confortável.
Sim, é preciso a prática. O problema é que de cada vez que se faz, se for um bocadinho traumático, nós acabamos por evitar um bocadinho essa situação.
Ficaste traumatizada?
Sim, várias vezes, mas voltei.
Quando corre mal?
Sim, quando corre mal.
Ya.
Nunca ficaste traumatizado?
Não.
Que bom.
Eu não vou dizer que gosto quando me corre mal, mas eu já cheguei a um ponto em que eu me divirto.
Isso é fixe.
Se me está a correr mal, eu fico tipo: "Bem, vamos ter de continuar nisto. Eu estou aqui para fazer meia hora, pessoal, só passaram ainda 15 minutos, portanto vão ser 15 minutos terríveis para todos nós."
Mas sim, ganhaste esse conforto. Tu ficas confortável lá, se calhar por isso mesmo também por não veres essa terceira ou quarta parede. De repente, parece que estás com o teu grupo de amigos, no fundo.
Espera aí, eu até acho ainda mais que é embaraçoso exatamente porque não há quarta parede. Isso pode fazer com que seja ainda mais embaraçoso e mais traumatizante, que é tipo, tu nem consegues abstrair-te e fingir que estás num universo à parte. É tipo, não, está a correr mal porque obviamente vocês não estão a gostar e estamos todos a sentir isto.
Sim, mas também há uma arte em pegar nesse desconforto, não é?
Ya. Acho que sim, não sei. Mas não me importo. Quer dizer, depende. Não quero fingir que não sou afetado quando corre mal.
No dia a seguir tens logo outra atuação e esqueces?
Vou dizer assim: não me importo quando corre mal, importa-me quando eu desiludi.
Ok.
Não é a mesma coisa.
Mas como é que tu notas que desiludiste?
Se me contrataram, por exemplo, para uma coisa específica e não está a correr bem, e houve uma expectativa por parte das pessoas, que às vezes corre-te mal e tu percebes: "Ok, a culpa não é minha, isto foi muito mal feito, isto não foi bem organizado."
Vais culpar o resto.
Não tem problema nenhum, a ideia de que o público tem sempre razão é estúpida. Há gente burra para caraças. Pensa nas pessoas mais burras que tu conheces e mete-as todas numa sala. Pode acontecer e então está verde. Não, eu já apanhei públicos que são, não vou dizer slurs, mas continuando. Agora perdi-me. Mas acontece, por exemplo, contratarem para fazer um gig e há uma expectativa por parte das pessoas e das pessoas que organizaram e estão contentes e esperançosas, e depois não corre bem. Isso é desiludir pessoas que realmente fizeram o devido trabalho de casa a priori para que as coisas corressem bem, não correram. Isso sim.
E depois como é que dás a volta?
Não dou. Tipo, tchau, desculpa. Peço desculpa, pego no dinheiro e vou-me embora.
E ficas a remoer nisso? Ou seja, custa-te a adormecer?
Já não.
Já não? Pronto, isso é bom.
Mas é porque já faço há algum tempo.
Lá está, que idade tens?
Acabei de fazer 35.
És de 80 e...
Nove. Yes. Late 80s.
Está bom. Envelhece-se bem, começaste por dizer isso. E tu já trabalhaste em montes de sítios, ao mesmo tempo que fazes stand-up comedy. Agora estás só dedicado à comédia ou continuas-
Vou tentar, é muito engraçado.
Finalmente! Para quem não sabe, tiveste um tuc-tuc durante muito tempo, eras guia turístico.
Sim. Que é um universo mais cómico que stand-up comedy.
Pois imagino.
Por acaso é engraçado os anos que estive nesse meio completamente.
Estiveste para aí quê, 10 anos nisso?
Não tanto, mas devo ter estado in and out seis anos, sete.
E tinhas mesmo um tuc-tuc, compraste? Um rickshaw?
Yes, e vendi. Não, era o motor, eu não tenho pernas pro rickshaw.
Sim, eu digo rickshaw, mas não é. Era o rickshaw o motor.
Yeah, e vendi há uns três meses.
Como é que funciona? É como um carro?
Deixa passar aquele prazo para poder falar de crimes à vontade.
Ok, está bem. Sim, ainda não passou.
É muito difícil falar disso. Como é que se chama isso? O prazo de validade jurídico para não seres prosecuted.
Prescreveu. A prescrição.
Exatamente.
Deixa prescrever.
Algumas prescrições.
Então voltas daqui a não sei quanto tempo.
Deixa-me falar com o meu advogado.
Estiveste cinco anos, seis anos a ser guia turístico e as pessoas apercebiam-se que tu eras comediante também, tu dizias ou era algo que aproveitavas para convidá-los para ir para os espetáculos?
Sabes o que é engraçado? 95% dos espetáculos que eu faço é em português e 95% das pessoas que eu levava não eram. Portanto, convidar era sempre um bocadinho difícil. Eu não quero, honestamente. Falar nisso, tu já fizeste durante muito tempo stand-up, mesmo que corra bem ou mal, tu queres falar com as pessoas do público no fim?
Não.
Nem eu. Não, é tipo, por favor, não falem comigo. Mas a verdade é que mesmo quando corre bem, há uma ligação que foi estabelecida, ok é uma relação completamente desigual, mas sim, criaste uma ligação, é perfeitamente normal que as pessoas possam querer falar contigo no fim.
A ti importa.
Não me importa, atenção, não fico todo chateado, mas se for para dizer: "Olha, gostei ou não gostei", eu fico obrigado. E ok. Não vamos falar de assuntos, por favor.
Criticar é que é horrível. Porque nós somos os primeiros a perceber onde é que errámos.
Se for para tu me dares um roast, se correu mal e tu com maior de audiência, vieste comigo no fim e ficaste tipo: "Dude, tu foste horrível" e tu souberes fazer um roast, eu divirto-me contigo e fico ok. Vamos falar disto, vamos fazer esse exorcismo do que acabou de acontecer.
Mas tu até em tempos disseste que como expões muito a tua vida pessoal e pelo que já passaste, quando és confrontado com o público e te falam sobre isso, sentes-te despido. Se calhar também há esse lado de te sentires meio violado.
Ya. Sim, sem dúvida. Por isso é que há coisas que já não falo em palco. Há um conjunto de temáticas da minha vida que guardo para mim próprio. Porque percebi isso.
Que era desconfortável para ti.
Ya, mas fui eu que abri essa porta, portanto, era perfeitamente natural se viessem falar comigo sobre este ou aquele assunto que eu abordei em palco, e eu tipo: "Ah, fuck, fui eu que falei disso." Portanto, sim.
E então decidiste agora mudar um bocadinho, não é?
Continuo a ser uma besta, mas há certos assuntos que já não falo.
Tu metes muitos reels de interação com o público, que é uma coisa que tu te safas muito bem a fazer, és muito engraçado.
Muito obrigado.
E isso é também muito confortável para ti, não é? Lá está, é aquela coisa de estarem todos no mesmo grupo.
Isso chama-se o crowd work.
Sim, mas há que saber fazê-lo. Nunca te apeteceu incorporar um crowd work no teu material?
Já faço isso. Eu percebo que há muita gente neste momento que deve gostar de stand-up, mas está farto de crowd work, porque crowd work tornou-se uma espécie de go to O way de estares a partilhar material teu sem teres de pôr em prática uma criatividade constante. Ou seja, se tu estiveres sempre a escrever piadas e estás sempre a metê-las na net, é mais cansativo. E crowd work é um bocadinho tipo, é improviso, é fácil, se eu filmar isto e meter na net.
E se correr mal também não interessa.
Exato, eu não perco nada em pôr isto aqui, enquanto que se tu filmares material teu e meteres na net, é tipo: "Ok, não vou voltar a fazer essa piada, porque está na net, já está, morreu." E então há uma saturação de crowd work nas redes, é verdade, é chato. Onde é que eu queria chegar com isso? Voltando ao assunto inicial, como é que tu incorporas crowd work, por exemplo, ou uma espécie de descontração em que tu misturas tanto material com crowd work num espetáculo a solo, num teatro? Não dá.
Sim.
Eu gosto muito mais de poder estar a dizer o teu material enquanto estás só a dizer o que te vem à cabeça, sem grandes limitações de linguagem, de interação.
Olha, nós vamos aqui ouvir, estamos mesmo a terminar e vamos só meter aqui um bocadinho do teu stand up. A terminar em FM, porque continuamos em podcast. E isto é sobre guerra, no fundo.
E agora por causa da guerra de Israel, a guerra da Ucrânia desceu de visão, já ninguém quer saber. Guerra da Ucrânia, eu não sou patriota, mas quando construíram a Ponte Vasco da Gama, aquilo era a ponte mais longa da Europa. Grande cena. Mas depois a Rússia anexou a Crimeia e eles fizeram uma outra ponte e essa ficou a ponte mais longa da Europa, ficámos em segundo. Eu não sou patriota, mas há uns meses, quando bombardearam essa ponte, houve uma parte de mim que ficou tipo: "Número outra vez, ? Traz a feijoada outra vez, traz o ferry. Vamos bater o recorde outra vez, vamos ver no voo na margem sul. Vamos embora!"
Miguel, por que estás com tanto sofrimento a ouvir isto?
Caraças.
Por quê?
Tu estás a ouvir-me, tu não estás bem a perceber o quão triste estou neste momento. Eu estou a suar do regue neste momento. Eu estou a sentir cataratas do Niagara a descer pela minha coluna.
Olha, Miguel, ainda não falámos do facto, deves também estar um bocado farto de falar sobre isso, de seres açoriano.
Sim. Não, nunca farto, na boa.
Não há nada a fazer.
Não, desde que seja um-
Porque vives no sítio mais bonito de Portugal.
Eu não vivo já lá.
Vivias. Eu sei.
Cresci lá.
Nascestes no sítio mais bonito de Portugal. Sem dúvida alguma.
É possível, sim.
E São Miguel é a minha ilha favorita, por acaso era.
Se não é, podes dizer.
Não, mas é. Também é a que eu conheço melhor.
É que tem mais para conhecer.
É porque tem mais coisas, não é?
Sim.
Tu já disseste que não conhecias o resto das ilhas. Já conheces mais, espero.
Nunca fui ao Corvo e às Flores, às outras já fui todas, acho eu. Acho eu. Porque quando és miúdo, por exemplo, vocês aqui no continente têm uma grande facilidade de ir a qualquer festival, facilidade como quem diz, mas imagina, tu tens 16 anos e queres ver os Paredes de Coura, tens de apanhar um avião e ir literalmente aos 16 anos. Não é assim tão fácil.
Sim.
Se calhar ainda existe, mas quando era miúdo havia cruzeiros entre as ilhas, que só existiam no verão, e tu tinhas um cartão que pagavas 20 paus por um cartão e cada viagem era 1€. E andavas de cruzeiro em cruzeiro, calhas entre as ilhas, e depois tinhas a Semana do Mar no Faial.
Isso é altamente. Tinhas visitas de estudo.
Festas da praia na Terceira. Não era de estudo, éramos nós no verão, nós com uma tenda de campismo, íamos apanhar boleias nas ilhas a ver festivais cuja cabeça de cartaz era Blind Zero.
Ou Blessed Mechanism.
Ya. Blessed Mechanism parei cinco vezes nessa altura.
O primeiro concerto do meu marido foi Scorpions.
Lindos.
Em São Miguel, se não estou em erro. Nos Açores. Não sei se foi em São Miguel, foi nos Açores.
O Dan foi ver Scorpions a São Miguel?
Sim, foi o primeiro concerto da vida dele.
Como?
Sim.
Espera, eu lembro-me miúdo de Scorpions terem ido lá e foi uma cena. Ele estava lá?
Estava lá, sim, foi o primeiro concerto da vida dele e diz que foi super marcante.
Rock you like a hurricane.
Cada vez mais há uma oferta maior lá. O stand up, já fizeste stand up lá?
Já, uma vez.
Uma?
Ya.
É que tu durante 10 anos nunca tinhas feito stand up nos Açores.
Não, primeiro, eu sou muito-
Tu querias organizar, no fundo, não é?
Sim. Quando eu fui lá fazer foi porque organizaram uma noite e convidaram. Ou seja, não tenho qualquer relutância em fazer stand up na minha ilha.
Desde que não sejas tu a organizar.
Ya. Sim.
Porque não te apetece estar a ligar às pessoas, não és produtor.
É só quero dizer piadas.
E é por isso, se calhar, que também nunca fizeste, por exemplo, um podcast. Já tiveste, por acaso já tiveste há muito tempo, mas na realidade também não eras tu a tratar de tudo.
Se tu sentires que isto é uma intervenção, Rita, que é: "Miguel, podes começar a fazer coisas sem ser sets de 15 minutos em bares."
Nada disso.
O que eu estou a levar, eu não estou a levar a mal, estou tipo: "Obrigado, é sempre bom saber que há uma pessoa que acredita que eu possa almojar algo mais do que..."
Não, é fixe, é bom saber que há coisas que tu não gostas de fazer, e organizar coisas se calhar não é a tua cena.
Sim, sem dúvida.
Gostas de dizer piadas.
Ya.
Por isso é que eu digo que tu és punk, porque gostas de fazer aquilo. Se calhar és um purista do stand up, como existem os puristas do fado
É uma ótima maneira para dizer preguiçoso.
Mas achas que isso vem da preguiça, mas também tinhas outras coisas. És pai.
Verdade.
És pai, foste pai aos 22 anos.
That is true.
Aliás, trouxeste a tua filha hoje.
Já está no telemóvel a ignorar completamente esta entrevista, a ver TikTok. Tu vais ser mãe? Olha, uma cena. Tu achas que vais ser uma mãe fixe?
Sim.
Não vais. Desiste dessa ideia. Eu fui pai aos 22, portanto, imagina, eu e a mãe sempre fomos os pais mais jovens, de longe, em reuniões de pais, etc. Obviamente que éramos os pais com mais estilo. Todos os outros pais vestiam-se como agentes da PSP à paisana e eu ia lá com uma camisa havaiana. A gente meio que se distinguia. E tu pensas: "Ok, quando eu for buscar minha filha à escola, ela não vai ter vergonha." Não vai. Vai, a minha filha tem vergonha de mim. "Não, pai, por favor, troca de carro. Pai, por favor, não metas musical. Pai, não, para."
Por acaso, às vezes pergunto-me se vão gostar do mesmo estilo musical que nós, os pais.
Não. Pediste-me para escolher uma música para pôr no início. E claro: "Vitória, o que é que achas?" Ela escolheu as piores músicas que já ouvi na minha vida. A minha filha tem um gosto musical terrível. Eu estou a dizer isso porque ela vai ouvir este podcast. Vitória, está uma intervenção. Tens de mudar o teu gosto musical.
O que é que ela escolheu?
Agora não posso dizer, porque são artistas portugueses e eu não quero queimar aqui. Mas já só não fazia sentido meter. Uma das músicas era pão com queijo, uma cena qualquer. Mas isso era ela a gozar.
Era um roast.
Sim, ela está sempre a gozar comigo, não há nada a fazer. A minha filha nasceu e eu pensava: "Uau, vou te mostrar John Coltrane, vou te mostrar Sufjan Stevens, tu vais ter..." E depois tem ela 10 anos, eu estou a levá-la à escola e estamos a ouvir os Elos Barcos. "I'm blue, yabaday, yabaday, yabaday."
Ouve isso?
Há uns anos já era o que a gente ouvia. Isso intercalado com músicas de K-pop. A pala dela tem uma biblioteca.
K-pop, a sério?
Yes. Stray Kids, os BTS também, Blackpink. "Here I come kicking the door."
E aquelas trends de TikTok e as danças, como é que tu geres isso?
Ela tem as redes muito limitadas.
Achas que vai haver uma altura em que vai-te sair do encalce?
Já meio que saiu. Ela às vezes filma-me e depois descubro que ela está a editar para fazer vídeos.
Isso é tão fixe.
Qual foi a última?
Isso é bom.
A pulguinha, que ela estava a filmar de cima para baixo, a andar, e era como é quando tu estás a andar e tens 1,60 m. Depois ela andou a seguir-me com o telemóvel por cima de mim, o que notou-se perfeitamente a minha careca, o que mexeu com as minhas emoções, a dizer como é que é quando és uma pulga de 1,80 m. Eu nem percebi, mas já me atrante. Já não acompanho nada disso.
Pronto, mas isso para dizer que não és fixe, não és um pai fixe.
Não.
Mas para os outros pais, se calhar, és. Isso é o que importa também, não é?
Sim.
Tu já deixaste os Açores há algum tempo. Por acaso acabaste de vir de lá.
Cheguei ontem à noite.
Chegaste ontem à noite. Mas continuas a ir lá de vez em quando, veres a família?
Sim, vou lá pelo menos duas vezes por ano, sempre. Desta vez estive lá um mês. Já não estava lá assim tanto tempo seguido há muito tempo.
Trabalhaste em África, na construção?
Jesus, não estava à espera dessa mudança. Uau! Ok. Viste, uma cena que é overrated em stand-up. Como é que eu passo desta piada para esta piada? Não faz sentido. Just say it, who cares? Ninguém quer saber de segueis. Trabalhei, sim.
Mas foi pouco tempo ou não?
Foram seis meses.
Ainda foi um bocadinho.
Sim, em Moçambique.
E tu disseste que durante essa altura não sentiste vontade de fazer stand-up comedy. Era quase relaxante? Ou não, de todo, era construção?
Quando eu estive lá, não só estive esse tempo sem fazer stand-up lá, como estive um ano sem fazer stand-up antes de ir para lá.
E gostou-te?
Não, eu não faço stand-up há um mês. Eu não tenho aquela cena de quando paras de fazer stand-up e: "Eu preciso de palco." I'm fine. Eu gosto muito de atuar e neste momento também é um ganha-pão. Mas não morro de paixão. É mau dizer isso, a sério.
Tens assim paixão por alguma coisa?
A minha filha.
A tua filha?
Para ficar bem. Pára aí, eu estou a falar sem pensar. Eu gosto imenso de stand-up, mas gosto também muito de ver.
Sem ser em teatro.
Também. Há teatro ótimos. Eu gosto muito mais de me rir do que fazer rir. Se calhar, fazer rir deve ser eu a querer poder dar aquilo que eu recebo.
Como Jesus Cristo dizia.
Atenção, eu sou como Jesus Cristo, Rita, acho que é esta a comparação.
O António Variações também dizia isso: "Dar e receber devia ser a nossa forma de viver."
Pois é.
Pronto. No fundo, também segues a máxima do António Variações.
Sim, somos ambos como Jesus.
E agora, estás a pensar em dedicar-te inteiramente ao stand-up, não é?
Ya.
Diz lá.
Eu não sei, tenho alguns projetos em carteira.
Então conta! Meu Deus, 30 minutos para chegar aos teus projetos em carteira.
Por que não foste direta, Rita? Por que tu disseste: "Miguel, o que é que vais fazer amanhã?"
Por que não disseste logo?
Eu não sei, porque eu sou muito eficaz a não avançar com ideias.
Ok, então tens medo?
Podes usar uma palavra menos masculinizada.
Aí cresce o medo.
Sinto que a partir do momento que eu verbalizo os projetos na minha cabeça, vi um TikTok sobre isso, que quando tu verbalizas é como se tivesses concretizado a ideia e então já não avanças.
Percebo perfeitamente isso, por acaso.
Isso não é BS?
Não, percebo isso.
Mas é verdade, quando eu falo muito de uma coisa que vou fazer, não vou fazer, porque é quase como se estivesses a ganhar dopamina ou whatever. Ao falares sobre um projeto futuro, tu estás mentalmente a compensar-te como se estivesses a efetuar. Isso faz sentido?
Pode ser também ter medo de desiludir, como tens essa coisa de não gostar de desiludir. E o fato de estares a pensar fazer alguma coisa e teres expectativas altas em relação a ela.
Tu estiveste em psicologia, não foi?
Ya, também, sim. Mas também porque eu reconheço isso.
Tu também és assim?
Às vezes sim. Sinto um bocadinho. Mas queres que fale sobre algum projeto?
Eu vou-me dedicar muito mais a stand up.
Ê!
Boa, obrigado. Vou dizer assim, estive o último mês nos Açores e não sei, não tive nenhuma epifania.
Escreveste?
Eu não escrevo, by the way. Como é que é o teu processo criativo?
Já passei por vários. Na última cena era só tópicos, porque já percebi que quando eu escrevia tudo, ficava muito mais presa.
Eu sinto que há uma diferença entre linguagem escrita e linguagem falada. Não é? Sinto obviamente que há.
Sem dúvida.
E eu pelo menos em stand up, isso é mau, porque há muitos anos eu escrevia e eu gosto de escrever, mas como a nível de output criativo, o único que tive durante muito tempo foi stand up. Eu desabituei-me totalmente à escrita e dediquei-me só a falar bullshit around em palco. Às vezes vês pessoal a fazer stand up que tu ouves as vírgulas.
Sim, percebo. E as pausas.
Tu não vês que aquilo no papel tem piada. Ya, mas a partir do momento que é uma linguagem falada, há qualquer coisa diferente.
E curiosamente, quando começamos a fazer stand up, isso se formos a algum curso por aí fora, ensinam-nos assim. Escrever tudo e ver as pausas. Mas há tantas formas de fazer, é como cinema.
Concordo.
E há pessoas assim mais que gostam.
Mas eu acho que deves começar assim, por acaso. Quer dizer, podes começar como quiseres, who cares, mas eu aconselho sempre sim. Eu também comecei assim. Como é aquela frase felora, mas é verdade, queres quebrar regras, conhece-as primeiro.
Sim.
E então pelo menos eu aconselho sempre a começarem dessa maneira, mas também stand up é basicamente subir ao palco e fazer rir pessoas, não é física quântica.
Estavas a dizer, escreveste muito ideias.
Sim.
Estiveste um mês nos Açores a pensar em algum projeto. É que ainda não falaste sobre isso.
Tu estás a fazer o teu trabalho, que é tentar. Eu estou a sentir que estou em terapia, Rita, que eu estou a ser confrontado com as minhas limitações, receios e a minha incapacidade de desenvolver uma carreira sustentável e com projetos.
Nada disso, calma. Não, de todo.
Não, eu agora estou super na defensiva. Neste momento, tenho os ombros a tocarem-me nas orelhas. Eu estou inclinado.
Não, Miguel, nota-se perfeitamente que vais fazer isso para o resto da vida, que é ser comediante.
Thank you.
Isso é fixe, está em ti. E é só teres as coisas cá para fora, no fundo, mas se calhar fazê-las. Preferes fazer do que dizer, do que falar sobre elas.
Exatamente. Continuem a seguir o meu trabalho, porque coisas vão suceder.
Queres acabar já? Podemos acabar já.
I don't care, it's fine. Eu senti que estavas a chegar a um ponto de: "Eu não sei mais o que é, esse cara não fala de projetos, eu não tenho nada."
Não, eu tenho várias coisas.
He has shit going on in his life. O cara fala de Moçambique, Miguel.
Não, estávamos a falar de paixões. Tu gostas muito de comédia, gostas da tua filha, música de algumas bandas.
Sim.
Mas há uma coisa, tipo um clube, Santa Clara, dos Açores. Não? Ok. Por acaso eu gosto muito.
Eu também, adoro Santa Clara. Santa Clara é espetacular, eu sou superfã de Santa Clara.
Eu adorei.
Foste ver um jogo de Santa Clara?
Sim, fui. Lá nos Açores, em São Miguel.
Contra quem?
Foi contra o Nacional da Madeira e ganharam, foi espetacular. Foi a Taça de Portugal.
Um leão contra leão, isso é tipo inception de uma carnésia.
Mas eu andava a fazer alguns jogos em trabalho e notei que o melhor ambiente foi mesmo nos Açores, foi mesmo em São Miguel.
Ambientes superfixes.
Adorei.
Não apanhaste chuva?
Não.
Awesome, que é a parte chata de estar lá a ver jogos.
Não, por acaso apanhei.
Mas é aquela chuva tão fixe.
Já nem me lembrava. Foi tão fixe.
Sabes que eu cresci lá e por uma terra que chove tanto, eu não me lembro de usar guarda-chuva.
Porque passa.
Ya, tu habituas-te a estar um bocadinho molhado.
Há algum mito
A sério.
Sim. Há algum mito sobre os Açores que te irrita de alguma forma? Ou coisas que dizem, alguma coisa.
Os Açores são um magnet de hippies gigantescos.
Bem, abri aqui uma porta.
Não é verdade. Que está-se bem, eles é que mantêm aquilo tudo, é verdade, mas pessoas que não são dos Açores que adoram os Açores são extremamente irritantes. E eu percebo, é verdade, porque se tu não és dos Açores e escolheste ir para os Açores É porque tu queres ir para os Açores, tu gostas dos Açores, aquilo atraiu-te. Eu não escolhi estar lá. Eu nasci lá, cresci lá, eu e milhares de pessoas. Portanto, permite-nos ter um bocadinho de uma relação ambígua em relação àquele espaço. Eu posso dizer que não gosto. Eu gosto dos Açores, atenção, adoro a minha ilha, mas eu posso dizer que não gosto e a minha açorianidade não me é retirada.
Sim.
Enquanto que essas pessoas que não são de lá, mas foram para lá, parece que têm sempre de usar aquele cartão de: "Eu adoro os Açores, é incrível." Mas também são esses gajos que fazem com que coisas aconteçam lá. Não é verdade, não somos nós.
Tipo os timbres com o Scorpion, se calhar.
Sim, isso por acaso parece super-
Da cara
...Miudalances que fizeram.
Sim.
Mas tipo Tremor, de certeza.
Ah, sim.
Atenção, deve haver Miudalances a fazer o Tremor. Não quero parecer um mocho a ignorar isso.
E o Rapaz, gostaste da série? Não a viste?
Ok, posso dizer uma cena?
Podes.
Eu não gostei.
Nós estamos em podcast.
Mas eu sinto que perdi toda a legitimidade para falar mal da série. A série não é má, atenção, mas tudo aquilo que eu podia criticar na série, eu deixei de poder partilhar a partir do momento que mandei um e-mail ao realizador Augusto Fraga a dizer: "Posso participar na segunda temporada?" E agora, como eu não estou na segunda temporada, eu sinto que se falar mal, pareço um ressabiado, ressentido, que como não conseguiu participar da série, está só: "Aquilo era uma merda", tipo sour grapes.
Eu por acaso não a vi. Estava aqui pronta para te perguntar.
Não tens o toque extra.
Vi o primeiro episódio. Às vezes chateia-me um bocadinho aquelas histórias de amor, parece que de repente estamos numa novela e essa parte que eu acho que é desnecessária.
Sim, mas também o que é que isto é? Uma ilha inteira a dar na coca durante seis episódios. É que basicamente a história é quilos de coca que foram parar à zona mais pobre da Europa. É incrível. Deus decidiu mesmo pregar uma partida à granda malta.
Tu lembras-te dessa altura?
Vou dizer assim, estavas a falar de mitos, eu pensava que isso era um mito.
Ah.
Durante o tempo todo que eu cresci lá, ouvia-se isso, mas aquilo aconteceu em 2000. Eu nasci em 89, portanto, não tive essa memória.
E também não era uma conversa ao jantar.
Exato, não. E depois bem antes da série sair, houve um artigo no The Guardian que saiu, daqueles tipo "The Long Read", daqueles que falava disso. E eu: "Oh shit, isso é verdade, isso aconteceu mesmo. Incrível." E foi a partir daí que eu soube, mas não tenho memória nenhuma disso ter acontecido.
Continuas a surpreender-te com a tua ilha?
Ouve, eu este mês estive lá e eu fui a sítios que nunca fui. E também, sabes o que é aquela cena de quando estás num sítio tu-
Tens tempo.
Não é só tempo. Eu quando tinha 10 anos, estava-me a cagar para as sete cidades. Estava-me a cagar para aquilo, eu estava no Game Boy. I couldn't give two fucks. Só nos últimos anos, mais tarde, principalmente a trazer, estou numa relação, isso ou amigos, e ver através dos olhos deles quando estão na Lagoa de Fogo ou estás no Parque Terra Nostra: "Dude, isso é incrível." E eu: "Ok, realmente é." Só que aquilo para mim era nada quando eu cresci lá, não tinha qualquer relação com aquilo. E agora, principalmente com a minha filha, quando volto lá, eu este ano fui ao Ilhéu da Vila Franca, que não ia há mais de duas décadas.
Assim, para mim é o sítio mais bonito do mundo.
É incrível, aquilo é incrível.
Eu fiquei completamente fascinada com o Ilhéu de Vila Franca.
Aquilo é brutal. Agora imagina, não ia lá há duas décadas e tinha algumas memórias de ir lá quando era mais novo.
E é tão barato, é só pagares o-
Ya, vendem poucos bilhetes.
Sim, mas pronto.
É tipo 12 paus para ti, seis para mim.
Eu não sei, por acaso pensava que tinha pagado menos.
Os preços estão a subir agora.
Ok. Eu fui na altura da pandemia, uma vez.
Hã?
Fui na altura da pandemia, não havia lá ninguém, era espetacular.
Pois, e a pandemia acho que deu um boost turístico à economia e então os preços agora subiram todos. Mas voltei agora este ano, a primeira vez em duas décadas ao Ilhéu e eu estava: "Isto é incrível, realmente isto é brutal, mas foi preciso sair."
É lindíssimo. Olha Miguel Neves, gostei muito de ter-te aqui.
Muito obrigado por me teres convidado.
Obrigada por teres vindo à Rádio Observador. Sigam o Miguel Neves.
Um abraço à Filipa, que não está aqui.
Sim, Filipa Duarte, pois ela já volta para a semana.
A vibe dela esteve aqui.
Esteve, sim senhora. Já sabem, sigam o Miguel Neves nas redes sociais, também fisicamente.
Não, por favor, não. Não falem comigo.
Ele terá projetos em breve.
Pois vou.
Há de falar sobre isso quando os fizer. Queres dizer mais alguma coisa?
Estava a pensar porque raio eu conhecia essa música, como é que eu conheci essa música, e foi através de um filme que era o Garden State. Te lembras desse filme?
Não.
Do Zach Braff. Te lembras da série Scrubs?
Sim, claro.
O principal escreveu e realizou um filme.
Ah.
O Garden State, com a Natalie Portman. E eu lembro-me de ver aquilo miúdo. O filme é 100% millennial, completamente da nossa geração. E eu lembro-me miúdo de ter adorado o soundtrack e esta música está no soundtrack.
Ah, boa.
Foi assim que eu descobri essa música, acho eu. Anos depois em 12.
Como é que se chama? Diz lá outra vez.
New Slang, The Skunk Anansie.
Não, digo o filme.
Garden State. Não sei como é que é o título em português. Aposto que é tipo-
Não interessa
...sei lá, Um Romance numa Caravana, I don't know.
Obrigada, Miguel, mais uma vez.
Obrigado, não sabia que estava a gravar.
De certeza que não tens mais nada para dizer, um projeto-
Eu sinto-te a desiludir, Rita.
Não, não estás, nada disso.
Tens mais alguma coisa, Miguel? Dá-me sumo, estou aqui sozinho, não está a Filipa e não me estás a dar.
Estás com 42 minutos, já devia ter acabado há muito tempo.
Eu sou people pleaser, Rita, e eu sinto que estou a falhar.
Não estás.