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Getting funky! Something funky in here. I think it's the D. Funky D. E hoje no "Com Amor se Paga" temos Sofia Bernardo, comediante que está neste momento nas Caldas da Rainha, aliás, ela é nas Caldas da Rainha, mas agora está em São Martinho do Bispo. Mas no fundo está em Lisboa, São Martinho do Porto, e não do Bispo. Bem-vinda, Sofia. Tudo bem contigo?
Muito obrigada pelo convite, Rita.
Obrigada eu.
Está tudo bem. E contigo também?
Também impecável. Sim, tinha saudades tuas. Eu que já não te via há algum tempo.
Já não nos víamos há muito tempo.
Tu és capaz de ser das primeiras mulheres da comédia, não é?
Do stand up comedy.
Do stand up comedy. Claro, sim, não é da comédia.
Mas começámos mais ou menos na mesma altura há 20 quilos atrás.
Não, tu estás muito bem. Já foste mais gordinha.
Não, acho que não.
Eu estou a falar disso porque tu falas isso também no teu stand up.
Não, digamos que já estive melhor. Já piorei.
Estás muito airosa.
Estou airosa?
Sim.
Mas isso é aura.
Sim, mas também pouco importa.
Sim.
Estás com uma pele ótima, deixa-me te dizer. A sério, parece que os anos não passam por ti. Por acaso não faço ideia que idade terás.
Agora podia fazer aquela-
Que idade me dás, não é?
Que idade é que me dás?
Eu dava 30 e picos.
Picos. Eu tenho 40 e picos.
Eia, a sério?
É dois só. Também não são muitos picos.
Espetacular.
Tenho 42.
Estás muito bem.
E não me sinto nada com 42 e sinto que é uma merda ter 42. Estou a falar de dores nas costas.
Porque se calhar não te sentes.
É muito isso. É como se tivesse uma síndrome de Peter Pan e tenho 25 anos num corpo de 42 e acho que posso fazer tudo o que fazia aos 25 anos.
E na verdade podes.
Dói um bocadinho mais.
É isso. Dizem que a recuperação é mais difícil.
É só isso.
Eu um dia fui fazer um treino com o Pedro Henriques, o árbitro, ex-árbitro, que ele treina muito, e ele disse que o pior da idade é mesmo a recuperação. De resto?
Sim.
Mas a recuperação é tudo, no fundo. Vendo bem as coisas.
Não, é muito isso. É muito não corresponder já algumas coisas à cabeça. Isto é um discurso que parece que tenho 80 anos.
Não, mas tens 32.
Quando eu tiver 80 anos, vou mandar toda a gente para todo lado e vou dizer tudo o que eu quero.
Tu começaste a fazer stand up com que idade?
28.
28. Também já foi numa fase mais tardia.
Já foi uma fase mais tardia.
Já eras mais adulta.
Já. Foi mais ou menos há 15 anos. Eu comecei a fazer algumas experiências em 2009 e depois fiz meio que uma estreia oficial em 2010.
Ok.
Com o curso da Banga.
Também tiraste.
Também tirámos, todos nós estivemos lá. E é muito interessante. Ou seja, para começar, eu acho que é um ótimo começo.
Sim, dá-te as ferramentas e o palco.
Sobretudo isso, dá o palco e é uma oportunidade de começar a testar sem grandes compromissos. E eu acho que isso é muito importante.
Até porque há também um circuito, e rapidamente entramos nesse circuito de stand up.
Sim. E é muito interessante para começar a perceber os problemas do início, e sobretudo, começar a entender como é que se pode começar a fazer evolução. Isso sim.
Achas que ainda hoje faz sentido fazer, por exemplo, um curso de stand up comedy?
Eu acho que faz muito sentido, porque essas pequenas ferramentas, e às vezes até são pequenos conselhos, porque as ferramentas estão nos livros, nós podemos ler os livros todos.
Sim, verdade. Mas isso também os cursos que nós tiramos.
Exato. Mas a questão é que por vezes ter alguém com experiência que diz qualquer coisa, um conselho, é muito importante. Eu acho que pode ser transformador se a pessoa quiser ouvir, claro.
E que leia o teu texto, não só o formador, como também os colegas. Portanto, é um bocadinho já pôr-se à prova.
É colocar à prova e sobretudo, há coisas que nós com o tempo conseguimos prever que não vai funcionar. Quando começamos não conseguimos prever. E ter esse trabalho antes de ir para palco, ou seja, ter esse trabalho: "Repara que aqui podes trocar esta palavra por esta."
Sim, verdade.
E de repente aquilo pode ser outra coisa e dá um bocadinho esta ideia. Ou seja, começa a trabalhar esta ideia da previsão do que vai acontecer em cena.
A comédia tu consideras que evoluiu ao longo destes anos, em 15 anos que tu fazes stand up, evoluiu? E os cursos também se calhar estão muito diferentes do que aquilo que eram há 10 anos.
Sim, acredito que sim.
Há coisas que se calhar não fazem tanto sentido agora.
Eu neste momento tenho um pacote de workshops também.
Pois, tu dás aulas de comédia.
E stand up comedy também está num desses pacotes. O meu workshop tem muito a ver com a metodologia de trabalho em palco que eu estou a desenvolver na minha tese de doutoramento.
Ah.
E então é muito através desta metodologia, que é muito própria. Não vamos abordar a questão do mercado, por exemplo.
Não falas tanto do conteúdo, é mais a forma, é isso?
A minha intervenção não é tanto sobre o mercado e sobre o que funciona no mercado, mas sim técnicas de palco e como transformar aquilo que se escreve numa boa performance em palco. Ou seja, o meu foco é muito mais a performance.
Mas eu não estava a falar tanto de exigências de mercado, eu acho. Tantas é a própria consciência social e a sociedade também evoluiu, não é?
Sim, mas eu acho que se transformou Não sei se evoluiu, transformou-se.
Ok.
Transformou-se. Gosto desta democratização da stand up comedy e de repente poder haver muitas vozes. Claro que isso tendo alguns perigos, e os perigos é haver uma uniformização de temas e às vezes de pontos de vista. O que é ótimo também.
Para haver necessidade de inovar.
Exatamente. Que aí acaba por se quebrar. Vai-se começar a quebrar com isto. Mas é muito interessante. Eu estive a fazer o Última Rir, tu também fizeste a primeira edição, eu fiz a segunda. E é muito interessante ver.
O Última Rir, que é um concurso de comediantes.
Exatamente.
Só ganha um. Quer dizer, no fundo, ganham todos.
Ganham todos. No fundo, ganham todos.
Sim, é verdade. É um pouco como um curso de stand up comedy, só que não há propriamente aulas.
Exatamente. Os tais conselhos, não é? Os tais conselhos de melhorias.
E é aquela coisa de entras no circuito, dá-te palco, é isso?
É muito interessante. Tem muito o fator concurso, não é uma coisa que eu prefira.
Sim, concordo.
Tanto que estou sempre muito desconfortável quando tenho que apreciar a atuação de quem acabou de mostrar o seu trabalho. Eu tento sempre ter um truque que é eu dou um elogio e um conselho.
Como uma boa mãe.
Como uma boa mãe, sim.
E depois a crítica.
Não é essa a questão. A questão é que quando nós começamos, a grande probabilidade é de nós não sermos bons.
Claro.
É uma grande probabilidade. O que não quer dizer que não venhamos a ser muito bons. E de repente ter ali pessoas que estão a expor-se daquela forma, não deixa de ser uma coragem da parte deles, e eu não sou capaz de dizer: "Não, esse texto não vale nada." É impossível para mim.
Sim, claro.
E isso custa-me um pouco. Agora, adoro a parte do: "Pronto, ok, então vamos lá. Tens este texto, vamos aqui. Falta-te isto, isto e isto." Essa parte aí adoro, de trabalhar com as pessoas, acho o máximo.
E tu estás a tirar outro elemento, porque tu dás aulas. Tu já dás aulas de teatro há muito tempo. Aliás, a tua formação é em teatro, não é?
A minha formação é em teatro, sim.
E tu és atriz há 20 anos, provavelmente.
Desde 2002.
Desde 2002, portanto há 22 anos.
22 anos. Sim.
E dás aulas de teatro também.
Eu dou aulas de teatro. Eu dava ateliês de teatro no Centro de Educação Especial Rainha Dona Leonor, no Fórum Sócio-Ocupacional, e agora há uns dois anos comecei a dar aulas de teatro, de técnicas teatrais aplicadas à performance. E agora o curso básico de teatro no Conservatório das Caldas da Rainha, portanto agora no ensino articulado.
Pois, que é onde se alguém quiser tirar representação naquela zona, vai para o conservatório, certo?
Se alguém quiser começar a fazer o articulado de teatro, sim.
Articulado é isso?
O articulado é o ensino artístico, ou seja, os adolescentes a partir do quinto ano podem ter aulas de música, ou ter aulas de teatro, ou ter aulas de dança articulado com o ensino regular. Portanto, as notas do teatro e da dança são valorizadas.
E depois dá para continuar. Não é só para a malta mais nova. Também para pessoas adultas?
Para pessoas adultas é aulas livres, não o ensino articulado. Ou seja, pode-se dar aulas livres. O que é bom no ensino articulado, nós já não vamos formar atores. Nós vamos é formar cidadãos através da prática do teatro, e isso é muito interessante. Ou através da prática da música.
E a despertar esse interesse. Se quiserem seguir teatro, se calhar é uma boa forma de descobrirem. Porque às vezes por acaso aflige-me às vezes não haver uma oferta disciplinar para os miúdos, para a malta que está na escola, e assim nunca vai saber se é bom naquilo ou não. Por exemplo, salto à vara. Eu nunca experimentei. Se calhar era muito boa, não sei. Mas convém dar essa oferta, tanto desportiva como cultural e em todas as áreas. Eu por acaso tive a sorte de ter teatro na escola e fez toda a diferença no resto da minha vida, na verdade. Descobri que tinha essa paixão. E tu foste do teatro, descobriste também esta paixão na comédia porque gostavas disso.
Porque dentro do teatro sempre fiz comédia.
Olha, que giro.
Em teatro não conto pelos dedos de uma mão as vezes que fiz um espetáculo sério. Portanto, eu sempre trabalhei em comédia.
Quando fazias um papel sério dava-te vontade de extrapolar.
Já aconteceu.
Lá está dentro de ti.
Aconteceu num espetáculo em que eu tinha uma frase, e fazia de porteira, e sempre que eu entrava era sempre a mesma frase, e eu repetia a frase e o público ria-se, e supostamente não era para acontecer.
Que engraçado. Então usavas muito também a comédia física.
Também. Eu sempre trabalhei comédia, e sempre foi aquilo que eu gostei de trabalhar, inclusive no teatro amador. E depois, precisamente porque trabalhava muito em comédia, comecei: "E se eu experimentasse stand up comedy?" Foi muito por aí. E comecei com este interesse. Eu costumo dizer que o teatro é a minha mulher. Nós temos um documento de uma universidade portuguesa que firma o nosso compromisso entre eu e o teatro. Casei com o teatro, mas tenho uma amante, que é stand up comedy.
Que é muito diferente.
Que é muito diferente e que não me apetece oficializar, ou seja, não me apetece que passe a ser esposa legítima.
Não te consegues imaginar a dedicar inteiramente?
Não
À comédia.
Não, porque o teatro-
Até porque nem vale a pena.
Sim.
Isso é a primeira.
Eu sou mulher, sou gorda e sou portuguesa. Esquece. É melhor ficar pelo teatro.
Não, é porque se calhar também tens paixões noutras coisas.
Não, também é mesmo o teatro. O teatro dá-me uma liberdade que eu às vezes não tenho na stand-up comedy. Precisamente por isso, no último espetáculo eu decidi fazer um one woman show e não necessariamente dizer que era stand-up comedy, apesar de ser quase tudo dentro das técnicas da stand-up comedy, porque eu precisava de ter mais flexibilidade naquilo que faço, ou seja, com muita música e também com apoio de vídeos e de imagens. E, portanto, eu quis deixar isto. Acho que o stand-up comedy é um outro produto que eu tenho.
Achas que o stand-up comedy, a forma como é feito e concebido aqui é muito estanque?
Não acho. Por acaso não acho. Acho até que começa a haver novas linguagens e isso é muito interessante.
Portanto, podemos considerar o one woman show também essa stand-up comedy, no sentido em que se o stand-up comedy pode abraçar todas essas-
Sim, eu poderia, mas sinto que dentro daquilo que eu faço, me interessa mais chamar o one woman show. Tem muito mais storytelling do que stand-up comedy.
Porque tu tiveste já vários espetáculos, vários solos. Este é o teu segundo, terceiro?
Terceiro.
Terceiro.
De stand-up. Espetáculos de teatro, depois tenho outros.
Sim, escritos por ti também?
Sim. Escritos e encenados por mim.
Olha isso.
Que é o meu calcanhar de Aquiles, a escrita. Eu só escrevo porque não tenho duas coisas essenciais para ser outra pessoa a escrever pra mim. Uma delas é dinheiro pra pagar e a outra é lata pra pedir alguém pra escrever pra mim. Borla.
Mas é porque gostas também, não é? Tens esse talento.
Não, é por necessidade. É por necessidade mesmo.
Há alguma peça que te orgulhes verdadeiramente?
Eu tenho um espetáculo de teatro, que é um espetáculo de teatro muito popular e foi feito pra ir a vários locais, não só teatros, como associações, coisas mais pequenas. E tenho sempre muitas dúvidas no que escrevo, mas quando estou uma temporada sem fazer e depois volto a fazer, volto a ler o texto e penso: "Ah, mas não está mau."
Isso é giro, é ver com outros olhos, como se fosse outra pessoa a olhar pro teu material.
Exatamente. E penso: "Não está mal pensado, não."
Até te surpreendes a ti própria, não é? "Até gosto desta merda."
Apesar de não gostar do final, desde a estreia que não gosto do final, mas nunca encontrei nenhum melhor.
Como é que se chama?
"A vida é curta demais para passar lençóis a ferro."
E é mesmo. Tens toda a razão. Isso é de que ano?
Olha, isto foi estreado em 2017 e tem rodado sempre.
E quantas pessoas em-
Sou eu.
Só tu?
Sim.
No fundo, é um one woman show.
É, é um one woman show. É um monólogo teatral. E tenho também um monólogo teatral que estreei em 2021, depois da pandemia, daquelas coisas que foram adiadas.
Sim.
Esse foi muito interessante o processo de escrita, porque o espetáculo foi adiado três vezes e eu tive três textos pra o mesmo espetáculo, porque cada vez que eu adiava-
Mas melhorava.
Sim, sem dúvida. Mas cada vez que eu adiava: "Não, não podemos, porque estamos em confinamento, agora vamos adiar para..." E eu reescrevia o espetáculo todo. Portanto, aquele espetáculo foi três e eu fui buscar o melhor das três versões pra no final estreado.
Isto é que é uma refinaria.
Sim, mas foi porque tinha que ser.
Sim.
E o meu processo de escrita é supercaótico, eu sou uma procrastinadora nata.
Tu quando pensas numa ideia, pensas logo no princípio, meio e fim, ou começas só?
Olha, por exemplo, os lençóis, "A vida é curta demais para passar lençóis a ferro" começou pelo título. Foi uma coisa que eu disse em casa. Possivelmente, estava a dobrar lençóis e disse: "Não vou passar estes lençóis, porque a vida é curta demais para passar lençóis a ferro."
Quem é que passa lençóis, Sofia?
Exatamente. Não há porquê.
Sim.
Não há porquê.
Isto é desistir logo.
Não.
Sim.
E a verdade é que isto começou pelo título, e eu pensei: "Isto é um bom título pra um espetáculo." E escrevi o título. E mais tarde, quando decidi fazer um espetáculo, fui buscar isto. E então comecei a criar a personagem que podia estar ali e comecei a criar o cenário que podia estar ali, e a última parte é o texto.
Mas sempre compondo com as tuas experiências pessoais, ou seja, apesar de ser um monólogo, um teatro, tem também um bocadinho isso de stand-up em que tu depôs as tuas experiências.
Neste caso, não. Neste caso é personagem pura e dura, que eu falo sobre a vida de uma mulher que não conseguiu ser o que queria porque não tinha dinheiro e porque teve que ser empregada doméstica, porque a mãe era, e depois uma série de histórias, e nunca conseguiu ser o que queria. E isto tem muito a ver, porque este espetáculo, o "Seja um ditador em 10 passos", que é o outro monólogo, e o "Nem famosa, nem falhada", que é o one woman show, é uma trilogia sobre o poder. Então é sobre o poder econômico, sobre o poder político e sobre o poder social.
Isso é muito interessante.
Sim.
Olha, eu vou só passar aqui, porque temos que terminar em FM, mas não vamos terminar sem passar um bocadinho do teu stand-up comedy. Isto já tem algum tempo, mas é intemporal, como o amor e a música e a comédia. Não, a comédia não é intemporal. Depende da comédia, mas esta é.
Agora, há uma coisa em Fátima que é a aparição quatro D da Nossa Senhora. Diz que é uma aparição em 3D e o 4D diz que é cheirinho. Diz que cheira a alfazema. Os putos guardavam cabras e tomavam banho ao sábado, devia cheirar a alfazema. Agora imaginem o que era fazer esta aparição em 4D em funk brasileiro. Era só dinheirinho a cair. A gente entrava, metia os óculos, vinha o cheirinho, que era o 4D, e de repente aparecia um holograma dos três pastorinhos. "Foi a 13 de maio, lá na Cova da Iria, que apareceu brilhando a nossa Virgem Maria." E de repente aparecia a santa atrás da asneira. "Estou ficando aparecida, estou ficando aparecida, estou ficando." Não era tão lindo? Era genial!
Adoro este. E dá vontade de cantar, na verdade, fica na cabeça. Sofia Bernardo, nós ficamos por aqui em FM. Antes de irmos para podcast, queres promover algum espetáculo?
Os espetáculos que tenho em carteira, neste momento, são estes três que eu falei.
Exato.
Estes quatro, com o Deves Ter a Mania, que é stand up comedy puro e duro, e que vai se transformando e vai mudando o texto, e vão havendo textos novos e outros não. O Deves Ter a Mania é stand up puro. E depois tenho o one woman show Nem Famosa Nem Falhada, e os destes monólogos de teatro, Seja um Ditador em Dez Passos e A Vida é Curta Demais para Passar Lençóis a Ferro. E agora começamos com os workshops nesta próxima temporada.
É muita coisa, então o melhor é seguirem mesmo a tua página de Instagram.
Sim.
Também estás no LinkedIn.
Eu estou aqui há um tempo para fazer um site como deve ser. Eu prometo que brevemente possa.
Mas para te contactarem será Instagram, não é?
Se me contactarem...
Sim, escrevam Sofia Bernardo na net.
Exatamente.
Comediante.
Pode sim. Insta da Bernarda.
Ah, Insta da Bernarda, pois é.
Insta da Bernarda. Pronto. E há de ter também no Facebook a página Sofia Bernardo também tem todas as novidades e os contactos.
Muito bem. Agora passamos para podcast. E é curioso estares a falar destes quatro projetos que tens, é giro tu criares e continuares com eles.
Sim.
Isso é bom, não é? E é incrível tu conseguires multiplicar-te nestes projetos todos.
Sim.
Às vezes acredito que num mês consigas fazer ou faças mais do que um.
Sim, eu às vezes tenho que estar sempre a mudar o chip.
Pois.
Porque depois também crio espetáculos na escola, com os miúdos.
Podes fazer isso e dar aulas.
Portanto, eu tenho que estar sempre em mudança de chip completa.
Sim.
É um bocadinho confuso, mas dentro da maneira como funciona a minha cabeça, não é difícil. Se eu tivesse que descrever a minha cabeça, seria aquele vídeo do Eminem a cantar 350 palavras num minuto.
Sim.
Pronto, seria mais ou menos isso. Eu posso estar aqui e estar a pensar numa coisa que eu: "Ah, ok, tive aquela ideia, mas não sei o quê." Estou sempre assim.
Deve ser défice de atenção. Mas consegues concentrar-te?
Sim, consigo. Nunca me foi diagnosticado, mas eu acho que consigo ter uma hiperatividade mental ou uma coisa assim. É estar sempre alerta e sempre atenta para poder estar sempre a criar coisas diferentes, em lados diferentes, para coisas diferentes, em contextos diferentes, com linguagens diferentes. Mas é muito prazeroso para mim.
E tu aqui na sinopse deste one woman show, começas com, acho que é one woman show, se não estou em erro.
Sim.
"Uma comediante à beira da morte tem vontade de rir?" Já estávamos aqui a falar em off, mas eu disse: "Não digas, porque falamos em podcast." O que terá acontecido para surgir esta pergunta? Aconteceu, de facto, alguma coisa.
Sim, aconteceu.
Quase morte na tua vida, não é?
Sim, aconteceu em 2018. E essa é até a razão pela qual ultimamente tenho feito menos espetáculos, porque esse episódio de quase morte depois acabou por desenvolver um transtorno de estresse pós-traumático e acabou que, sobretudo stand up comedy, deixava-me muito despida. E quando estamos a atravessar este processo, pelo menos a cura deste processo, era muito complicado para mim fazer stand up comedy.
Mas o que é? A cura são? Desculpa.
Não, não foi. Foi uma coisa um pouco charmosa. Foi uma peritonite.
Não sei o que é.
Uma peritonite. Tu tens uma coisa lá dentro da barriga. Tens um perínio.
Ok.
E então tens uma inflamação lá. E tiveram que me lavar toda por dentro.
Meu Deus!
Sabes aquela coisa que sempre me disseram? Que eu sou bonita por dentro? Eu tenho um cirurgião confirmando que sou bonita por dentro.
No entanto, agora és.
Naquela altura não estava muito, mas não é não era, era não estava. Continuava a ser.
Exatamente, olha, boa. O ser e o estar. Boa.
Continuava a ser.
Mas isso agora está controladíssimo, não é?
Não, agora está. Há sequelas, como é óbvio, já passou. Há sequelas.
Davam-te dores grandes?
Olha, isso é muito interessante. Ninguém sabe bem por que eu tive isto. Eu tive uma inflamação do apêndice, trompa de Falópio, que deu depois uma infeção generalizada na barriga.
Eia!
E então ninguém estava à espera. Por quê? Porque eu não tinha dores Supostamente, naquele quadro eu devia estar em prantos. E eu estava ótima, estava bem.
Totalmente silencioso, não é?
Exatamente. Tanto que na cirurgia foi meio de urgência, porque eles achavam só que iam tirar o apêndice e a trompa e, de repente, quando fizeram a primeira incisão, parecia o videoclipe da Katy Perry, quando ela tem chantili nas mamas.
Aquele último, não é?
Não.
Não, estou sempre mal falada. E durante essa época, não sei quanto tempo durou isto, esse problema, sendo que depois desenvolve este estresse pós-traumático desse problema, mas tu conseguias pensar em comédia?
Vou contar aqui uma coisa. Eu conto isto um bocadinho no espetáculo, mas vou contar de outra maneira. Eu tinha visitas no hospital. Eu estava muito combalida, digamos.
Prostrada?
E tinha visitas. Eu não sou religiosa, eu não acredito em religião nenhuma. E tinha duas visitas: uma do senhor padre, do capelão do hospital, que a primeira vez que entrou eu pensei: "Meu Deus, não". E dos palhaços.
Que fria!
O padre. Tu não imaginas, eu não sei por quê, eu juro, Tir, eu tenho que tratar isto na psicoterapia. Eu não sei por quê. Tu não imaginas o quanto me irritava.
E falavam assim?
Sim. E eu não conseguia entender por que. Eu cheguei a fingir que estava dormindo quando os ouvi no corredor e fingi que estava a dormir. E isto pra mim é das coisas mais fascinantes que me aconteceu, que foi eu trabalhar em comédia a vida toda e naquele momento, no momento em que não aconteceu, mas eu estava a morrer, eu não suportava comédia. E eu não sei se suportava a comédia ou se não suportava a ideia que a última comédia que eu ia ver era tão má.
Isso é bom.
Porque era muito mau. E então eu pensava: "Não, eu não vou ver isto pela última vez". E era muito engraçado, porque depois o padre nunca me falou de religião, falávamos da vida, falávamos de tudo.
Pensava que usavam os palhaços só pra crianças.
E também. Mas tu estás numa situação em que o teu corpo está a ir e ouves alguém entrar na porta a fazer: "Olá!"
"Como está? Como está essa barriguita?"
Eu pensei: "Não, tragam-me um filme do Vasco Santana, porque isto não vai ser a última coisa que eu vou ver".
Espera lá, e o padre não entrava pra te fazer a extrema-unção?
Não.
Graças a Deus.
Não, porque ninguém sabia que eu estava nessa fase.
Mas estavas em cuidados?
Não, estava internada normalmente. Estava em cuidados normais.
Normais, sim.
Não sabiam. Aliás, toda a gente só soube que eu estava naquele estado quando começaram a fazer a cirurgia, porque ninguém estava à espera disto.
E a tua família, as pessoas que te são mais próximas não devem ter achado graça nenhuma.
Não acharam muita graça. Eu não sei se eles não acabaram por sofrer mais do que eu, no sentido em que o teu corpo anestesia-te naquele momento. O cérebro já sabia o que ia acontecer, então essa dúvida é muito zen. Está tudo bem, está tudo ok, tudo é fixe. E então eu não percebi muito bem. Eu só comecei a ter noção do que aconteceu depois, quando comecei a melhorar. Ou seja, naquela fase, tanto que eu não me lembro de muita coisa. O teu cérebro deita-te uma data de hormonas e de substâncias pra te anestesiar e a coisa até passa mais ou menos. Depois é que é complicado.
A recuperação é: "Lá está, partos quarenta, a recuperação é mais difícil". Mas então tu acabas por falar disso também no teu one woman show.
Eu falo sobre esse episódio.
Foi o ponto de partida para criar outro sol.
Exatamente. E este foi o ponto de partida, foi no acontecimento, mas não o acontecimento. O cirurgião que me foi operar e que basicamente salvou a minha vida, veio falar comigo.
Como é que ele se chama? Sabes o nome?
Rui Garcia e o Nuno Juano, foram os dois.
Nuno Juano?
Juano.
Juano.
Foram os dois. E o doutor Rui Garcia falou comigo e perguntou-me, enquanto estava a falar. Eu acho que ele estava a fazer aquelas coisas de psicologia positiva.
Quer ser a palhaço.
Exatamente.
Então eu sabia.
Mas estava a fazer aquela coisa da psicologia positiva, como é óbvio. Mas ele disse uma coisa muito interessante, que foi: "Então, o que é que faz?" Eu: "Eu faço espetáculos de comédia." "É? E faz com quem?" "Eu faço sozinha." E ele vira-se pra mim e diz assim: "A sério? Está sozinha em palco? Meu Deus, que coragem!" E eu olhei pra este homem e pensei: "Coragem? Espera, este homem só abre pessoas e mexe nas pessoas lá dentro."
Sim, salva vidas.
Salva vidas. Isto é que é coragem, eu jamais conseguia fazer uma incisão numa pessoa com bisturi. Quer dizer, olha a pessoa que é precisa de ter mais coragem do que você.
Nem animais, provavelmente.
Nem isso! E quando ele me diz: "Ai, é preciso muita coragem." E de repente parece que aquilo fez e deu ali uma chapadona de: "Ya, se calhar preciso ter um bocadinho mais de calma." Porque eu era muito estressada com os resultados. Então vamos acalmar um bocadinho.
De fato, é preciso coragem pra estar sozinha em palco, como é óbvio.
Sem dúvida, mas consegui relativizar um bocadinho. E este espetáculo partiu desta frase. Eu estou a trabalhar para quê? Eu estou a trabalhar para chegar a um objetivo, eu estou a trabalhar para ser conhecida, eu estou a trabalhar porque eu gosto de comédia. E essa frase desse cirurgião foi um fator transformador na maneira como eu estou e como eu vejo o meu trabalho hoje. E neste momento eu já não tenho objetivos.
Ou seja, sentes-te muito mais feliz agora, então?
Sim, muito mais.
Mais satisfeita?
Exatamente. E daí o título, que é aquilo que eu não sou nem famosa, nem falhada.
Isso quer dizer que passaste por algum momento e essa ansiedade, por algum momento em que sentias que se calhar por estar mais longe de Lisboa ou por estares num circuito um bocadinho mais longe dos grandes polos de comédia, que é Porto e Lisboa. Fez com que, ou estás mais sozinha a trabalhar, fazia com que tivesses menos ou visses menos repercussão na mídia e por aí fora. Isso te traz algum rancor?
Não, não traz. Eu acho que trazia alguma tristeza, neste momento não traz nada.
Sim, tristeza, claro.
Neste momento não traz nada. Porque eu acreditava, no início, eu acho que eu tinha 28 anos, ainda era parva.
Também começaste nessa idade.
Exatamente, ainda era parva. Eu achava que a comédia podia ser um sítio fixe pra meritocracia, e depois uma pessoa vai crescendo e vai percebendo que a meritocracia não existe em lado nenhum. E não chega, trabalhar não chega. E não estou a dizer que a culpa está do lado de lá, a culpa está em mim também. E a culpa está em mim no sentido de eu não estar disponível a fazer algumas coisas, que eu sei que me fariam chegar mais rápido a ser reconhecida ou ao reconhecimento do meu trabalho.
Nomeadamente o que queres?
Olha, neste momento, por exemplo, se eu trabalhasse muito mais redes sociais, era mais fácil.
Sim.
Mas eu tenho que escolher. Isto é um exemplo, neste momento. Se calhar há uns anos seria outra coisa.
Sei compreender. Se calhar consegues focar-te nisso, porque isso rouba-te energia para outras coisas que queres fazer e onde és boa e se calhar sentes que nas redes sociais não és grande coisa, não apetece sequer.
Nem é questão de ser grande coisa, é questão de não tenho nada que vá acrescentar mais do que aquilo que já é feito. Eu não tenho saco pra fazer vídeos de: "Olá, malta. Então, no outro dia estava no autocarro." Não me interessa isso. Não me interessa a exposição de mim. Não me interessa, porque a minha vida é muito banal para ser romantizada. E outra coisa, não me apetece.
Sim.
Não me faz feliz.
Percebo perfeitamente.
E eu tenho muita coisa pra fazer. Quer dizer, eu tenho aulas pra dar, tenho espetáculos pra fazer, tenho outros pra escrever, tenho digressão, tenho que fazer a produção da digressão, porque eu tenho que convencer os outros, os câmaras e as outras entidades.
Se calhar é aí que é mais chato. Esta parte da promoção dos espetáculos. E aí tu vês, caramba, se eu fosse melhor. Eu digo melhor no sentido de mais empenhada. Se eu fosse mais empenhada nas redes sociais, se calhar isto vendia-se muito melhor. Mas no fundo, também estás a fazer o teu trabalho. Eu estou a dar o meu melhor.
Sim, claro.
E o meu trabalho fala por mim, ponto final.
Mas a questão é estarmos apaziguados com isto.
E agora estás?
Completamente.
Que bom! Isso é ótimo.
Uma pessoa quando está quase lá, deixa de fazer fretes na vida, não é?
Sim, bem visto.
Deixa de fazer fretes na vida. Sobretudo a ideia de saber o que eu não posso fazer. E há coisas, por exemplo, dentro da stand-up comedy, que eu não posso fazer. E não é não posso porque não tenho capacidades, é não posso porque o produto que eu tenho não se adequa àquilo. Não se adequa a jantares de empresas, não se adequa. Aquilo que eu faço e aquilo que eu digo em stand-up comedy, não é pra aquele sítio. E eu achava que dantes podia ser, e não é. E é preciso nós também entendermos este posicionamento. E não é mau dizer não, porque achamos que o nosso produto não se adequa àquele evento, não é uma coisa má.
E isso também se estende, por exemplo, a fazer stand-up de forma regular em Lisboa ou no Porto e se calhar criar algo, já deves ter criado nas Caldas da Rainha, existe algum sítio onde costumas ir fazer stand-up?
Não.
Não?
Não. Eu já tive essa ideia e depois acabei por não.
Tens mais coisas pra fazer, lá está. És professora.
Mas temos agora um festival, o Alcoça com Graça.
Ok, Alcoça com Graça, boa.
E fizemos esse festival do nada. O Óscar Santos ligou-me: "Eu queria fazer um festival de comédia. Podes vir?" E eu: "Pronto, está bem".
E fazem falta coisas na zona centro, não é? Dizem que centro é Lisboa, mas não, centro é Lisboa a Aveiro.
Faz muita falta, mas sei que há pessoas já a trabalhar essa zona. Ali nas Leiria, zona de Pombal, de Coimbra.
Estou a lembrar também do Vidal, que faz ali também no Entroncamento, não é? É um festival.
Albergaria, não é?
Albergaria, sim. É perto do Entroncamento, certo? Albergaria.
Eu acho que não.
Ok, está bem.
Mas sim, eu acho que já vai começando a movimentar.
Sim, e é importante, para as pessoas não ficarem reféns daqui da capital. Das capitais.
Sim, do Norte e daqui desta zona. Isto era importante, era importante a descentralização, acho eu.
Continua a ser.
Acho que sim.
Está se a fazer muito devagarinho. Primeiro foi pra o Porto. Começou em Lisboa, foi pra o Porto
Está-se a fazer sempre. Eu acho que é muito importante que haja. Porque a descentralização vai fazer com que o mercado passe a ser um mercado de comédia e não tanto um mercado de comediantes. E isso é importante, essa transformação.
E é importante essa heterogeneidade também, de temas, de visões. Eu costumava dizer que a malta de Lisboa adorava fazer aquele humor de nomes: "A Jéssica, a esteticista de Odivelas." E eu: "Que seca. Parem, por favor, parem com esse humor. Isso é tão de Lisboa e já estou farta de ouvir, já são 20 anos."
Quem é a Jéssica?
Não interessa, que seca! Pronto, isto já foi um desabafo, desculpa. Mas sim, fazem falta outras visões e isso também nasce muito do sítio onde nós somos criados e crescemos.
Sim. Um comediante que está fora dos grandes centros urbanos há de ter uma visão, até mesmo sobre esses centros urbanos, muito diferente. E isso é rico. Isso é muito interessante.
E da vida e de tudo e mais alguma coisa. Sofia Bernardo, foi um gosto ter-te aqui no "Com Humor Se Paga".
Foi um gosto estar aqui.
Podem sempre, lá está, se chegaram até aqui é porque estão a ouvir em podcast. E continuamos aqui "Com Humor Se Paga", todos os domingos em FM, depois do jornal das 11h e sempre em podcast. Sofia, beijinho.
Beijinho.
E boa viagem. Ainda vais fazer coisinhas por cá?
Ainda vou fazer coisinhas.
Vou ter de dizer isto, coisinhas, como parece a Anela, fazendo comercial: comprar maquilhagem no centro.
Que não há naquela zona, que fica fora de centros urbanos.
Não, mas há. Há melhores até, e há sempre estacionamento, que é espetacular.
Sim.
Eu adoro centro. Adoro descentralizar.