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Este é o som da Comissão de Inquérito das manhãs 360, com a presidente da Câmara Municipal de Almada, a socialista Inês de Medeiros. Bom dia.

Bom dia.

Bem-vinda. Foi fácil chegar aqui?

Foi facilismo. Nós temos a sorte de poder passar pelas infraestruturas.

Dá uma volta ali no acesso à ponte, não é?

Vamos lá. Sabe como funciona? Já ouviu.

Sei. E digo já que estou aterrorizada como eu estava a dizer, eu sou péssima da Trivial Pursuit. Como sou jogadora, fico logo em pânico. Não vou acertar nada, certeza.

Vamos começar por uma simples e sem pratucar a boca. O pastel de Belém foi novamente eleito o melhor do mundo nos prêmios do Taste Atlas. Como se chama a sala onde são fabricados?

Não faço a mínima ideia. Os pastéis de Belém, ali de Belém.

Não são os pasteis de nata, são os de Belém.

Hoje em dia, aliás, há vários prêmios, já foram ultrapassados.

Claro.

Até por a Lorna de Campo de Ourique. Agora, a sala propriamente dita.

Então eu vou dar três hipóteses: Oficina do Doce, Oficina do Segredo ou Sala do Pecado.

Penso bem.

Oficina do Segredo. Acertei! Fantástico.

Disse muito bem. Tem-se falado no nome de António José Seguro numa eventual corrida a Belém. Também vê nele o rosto da moderação, como o próprio se define?

Sem dúvida nenhuma, é muito moderado.

E isso é bom para uma presidente da República?

Eu acho que hoje em dia, não haja dúvida nenhuma, apelar à moderação é essencial. Não sei é se corresponde aos anseios, sobretudo de uma população mais nova. Não sei se esse discurso vinga. Eu acho que mais do que uma moderação, temos é que ser capazes de dar um discurso que tenha minimamente alguma esperança, que não seja um discurso pela negativa, mas sim pela positiva, um modelo qualquer alternativa que seja inspirador. Pelo menos é isso que eu sinto relativamente a uma camada mais jovem, que é essa que me preocupa acima de tudo. Também porque tenho filhos mais ou menos dessa idade, mas não só, enquanto autarca também contacto muito. Há um sentimento de revolta, de descrença, de algum niilismo, que eu acho que é fundamental combater. Portanto, eu não sei se o discurso da moderação só por si funciona. Funciona nos mais velhos, nos mais novos acho que não inspira, porque eles estão com vontade é que qualquer coisa mude.

Mas algum dos nomes associados à área política do PS e que têm sido falados para a candidatura às presidenciais, parece oferecer isso. Como Mário Centeno, António Vitorino, o próprio António José Seguro.

É, sim. Eu acho que há pessoas que são capazes de encabeçar um discurso desse nível, mas para já ainda não conhecemos o discurso de nenhum deles. Inclusivamente do favorito, supostamente. Acho que não.

Do favorito?

Nós estamos segundo as sondagens.

O governo, não.

Acho que os discursos ainda não os conhecemos. Agora, acho que todos os agentes políticos devem fazer uma reflexão profunda sobre o que nós temos a oferecer como modelo. Acontece que nós estamos todos numa posição muito conservadora, mais no sentido de guardar e de preservar o que nós temos, o que é fundamental, porque nalguns casos são direitos fundamentais, são as conquistas de Abril e tudo isso é positivo, mas temos que lhe dar um discurso que seja de alguma maneira estimulante e inspirador.

E quer dizer que não está a ver entre os nomes que estão a surgir na praça pública, não há nenhum que corresponda a essa tal necessidade de mudança que uma parte da população pretende. Ainda não vi nenhum nome que encaixe nesse perfil?

Eu não gosto muito de me focar nos nomes. Eu acho é que as forças partidárias ou até estes movimentos um bocadinho inorgânicos estão com falta de inspiração ou de capacidade de responder, de facto, a este sentimento algo difuso, confuso, mas há esta vontade profunda de mudança.

E mereceria uma boa ideia.

E como há um vazio, esse vazio é preenchido pelas forças que o preenchem pela negativa e não pela positiva, ou seja, pelo medo, pelo ódio, pela exclusão, por criação de bodes expiatórios, porque de facto não estamos a conseguir ter um discurso agregador, inspirador e que nos dê força para encarar desafios que são reais, que são as angústias relativamente às alterações climáticas, as angústias relativamente a uma situação de guerra premente e a uma insatisfação com o modelo e não estamos a conseguir criar um modelo diferente.

Inês de Medeiros, por que sente que há uma resistência tão grande ao nome do almirante Gouveia e Melo?

Eu não sinto que haja resistência.

Não?

Eu sinto é que é uma incógnita, mas é diferente. O almirante Gouveia e Melo surgiu num período muito crítico, muito sensível, que é o período da pandemia. Surgiu um bocadinho nesta ideia de que todo o sistema estava um caos e que de repente ele veio pôr ordem Não desfazendo o trabalho do senhor almirante, acho que é um pouco injusto em relação aos municípios, porque se não fossem os municípios, e aqui eu sei que estou a falar também em causa própria.

Sozinho não teria conseguido fazer.

Sozinho não tinha conseguido fazer, mas o que é bom é poder também garantir essa articulação. Eu acho que em relação ao almirante Gouveia e Melo, não é uma questão de resistência, é uma questão de não sabermos, na realidade, exatamente o que ele pretende, o que ele pensa, como ele se posiciona. Eu acho que é mais isso do que propriamente resistência.

Ainda sobre a questão das presidenciais, o que lhe parece a ideia proposta de Ferro Rodrigues sobre umas internas, umas primárias para a escolha do nome da área socialista para as presidenciais?

Na área socialista há tantos candidatos que pode ser uma solução, mas umas primárias internas. Acho que não faz sentido que sejam externas, à semelhança do que se fez noutros momentos. Agora, é verdade que as candidaturas presidenciais são totalmente pessoais e, portanto, acho que antes de chegarmos à situação de primárias, acaba por vencer aquele que quer muito. Essa é uma regra em política, é preciso querer muito. E na realidade, consegue quem quer muito.

Vamos passar à próxima pergunta.

Agora, qual era a relação entre isto e o pastel de nata? Era tua, Maria. Eu pensava que era a sala do segredo.

Aqui nada é ao acaso.

Nada é ao acaso. Dois pontos neste momento. E vamos continuar com o tema eleições, mas agora para outras. Carla Tavares venceu as eleições de sexta-feira, as intercalares para a Federação da Área Urbana de Lisboa. Com que percentagem é que Carla Tavares venceu?

Eu vi que eram 70 votos, mas eu não faço parte da faulha. Mas eu estou na distrital de Setúbal.

Está no outro lado.

Há um rio ali pelo meio.

Confesso, há um rio pelo meio. Eu li, confesso que não tenho os dados, eu vi uma questão de 70 pontos. Não sei se está certo ou errado.

Sim, 71% dos votos.

71. Então valem os cinco. Está ótimo, está bem.

E isto parecia que era o que faltava para surgir já ou finalmente, há quem diga finalmente, o nome do candidato do Partido Socialista à Câmara de Lisboa. Acha que Alexandra Leitão pode trazer essa vontade de mudança de que estava a falar para um presidente da República, também fará falta em Lisboa?

Eu não tenho dúvidas que a Alexandra Leitão pode ser não apenas uma boa candidata, mas sobretudo uma boa autarca. E eu que fiz um percurso, comecei pela Assembleia e depois fui para as autarquias, eu neste momento aconselho, de facto, todos os políticos a passarem um pouco pelas autarquias. Não tenho dúvida, porque grande parte do desenvolvimento do país passa por uma reformulação e um reforço dos poderes autárquicos. E a política, no melhor sentido da palavra, não tenho dúvidas que está nas autarquias.

Se agora voltasse a ser deputada, ia ser de forma diferente aquilo que foi?

Não tenho dúvidas nenhumas. Eu gostei muito de ser deputada, devo dizer. Gostei muito de ser deputada, mas o trabalho de deputada é bastante teórico e, portanto, esta passagem pelo terreno junto às populações e esta necessidade de prestação de contas permanente, que é aquilo que os autarcas têm que fazer, é fundamental. É fundamental até no reforço das convicções que nós temos. Temos que ser claros naquilo, na defesa dos valores que defendemos e no tipo de escolhas e de políticas que fazemos. Mas também sabemos que temos sociedades diversas, pontos de vista diversos, de forma muito clara e imediata. Há um contacto de proximidade, isto é uma paliçada, todos nós sabemos.

Mas posso concluir com isso que estava a dizer que é bom que Alexandra Leitão saia do Parlamento. Já foi ministra.

Eu não estou a dizer que é bom que ela saia do Parlamento. Eu não estou a dizer que saia do Parlamento. O que eu acho é que é sempre enriquecedor.

É um banho de realidade que se pode ter quando se entra no poder local?

Eu não diria que é um banho de realidade, porque eu não diria que o Parlamento está fora da realidade. Agora, é uma outra forma de encarar uma realidade, um ponto de vista muito mais prático, mais pragmático. E eu não tenho dúvidas que vamos ter que reforçar cada vez mais estas políticas de proximidade. Eu sou uma defensora da descentralização de competências, sou uma defensora da regionalização, que eu acho que é fundamental. Não tenho dúvidas que as autarquias, a grande maioria das autarquias, embora haja situações muito desiguais entre autarquias, neste momento, em muitos casos, são até mais qualificadas do que até alguns serviços centrais do Estado, que são fundamentais, mas que estão claramente envelhecidos, empobrecidos, sem meios e sem grande espírito crítico E, portanto, acho que o grande motor, hoje em dia, do desenvolvimento do país são as autarquias. E acho que as políticas do Estado central devem ter em conta, cada vez mais, a realidade autárquica. Isso não significa que não haja matérias que são fundamentais, que se mantenham ao nível do Estado central. Não sei se foi o último programa com a Carlos Carreiras e estou absolutamente de acordo. Por exemplo, a segurança pública é uma matéria que tem que continuar ao nível do Estado central. Eu não acredito que tudo deva ir para as autarquias, até para garantir alguma harmonia no desenvolvimento nacional. Agora, há uma série de outras políticas, nomeadamente ao nível daquilo que é a gestão do território, que deve ser feita não apenas ao nível autárquico, mais local, mas sobretudo ao nível regional. Preocupa-me os termos e o fato de não serem terrenos para habitação pública.

Está a falar da alteração à lei dos solos?

Da alteração da lei dos solos. Eu acho que parte de uma boa intenção, que eu acho que é importante, que é reforçar os poderes das autarquias, que eu volto a dizer, eu não tenho dúvidas nenhumas que a maior parte deles têm muito mais consciência e têm que prestar contas. Aquela ideia dos anos 80, das autarquias que faziam crescer as construções mais caóticas, acho que hoje em dia já não é uma realidade. Agora, reconhecendo que é preciso pôr limites e que é preciso uma revisão profunda da lei da gestão dos solos, das REN, das RAN, todos esses sistemas devem ser todos revistos, mas que depois a decisão deve ir para as autarquias e eu defendo isso.

Muito bem.

Vamos à terceira pergunta, ainda aqui no domínio da política local.

É pouco.

Ainda tem 15.

Ainda tenho 15. Pronto.

Em que ano foi inaugurado o Parque da Paz, o pulmão da cidade de Almada?

Eu já sabia que me iam fazer essa pergunta.

Não tem aí? Não trouxe cábulas?

Não, não trouxe cábulas sobre a habitação, sobre os imigrantes. Posso lhe dizer o ano em que fechou a Lisnave.

Posso lhe dar aqui uma ajuda. Não sei se é uma grande ajuda.

Anos 90.

É anos 90.

É anos 90.

Então, mas será 1990, 1995 ou 1999?

Eu diria 95. Sempre aqui no meio.

Está certo.

Vai lá.

Acertou. Quando se candidatou à Câmara em 2017, conhecia bem o Conselho?

Em 17, sim. Eu devo dizer, eu comecei a interessar-me por todo o distrito de Setúbal em 2015, porque fui deputada por Setúbal em 2015. Fui candidata a deputada e depois eleita em 2015. E depois, quando se pôs a hipótese da candidatura a Almada, eu devo dizer que comecei a percorrer cada esquina do Conselho um ano antes. E devo dizer, quando cheguei às eleições, já tinha um conhecimento profundíssimo. Até brincava a desafiar qualquer almadenense que tivesse nascido a dizer: "Então vamos lá ver quem é que conhece melhor".

E depois nas funções como presidente da Câmara, o que é que isso surpreendeu mais, pela negativa ou pela positiva, no Conselho de Almada, na cidade de Almada?

Só para terminar. Agora, é evidente que este conhecimento não é o mesmo conhecimento de alguém, que há um conhecimento emocional que eu não tinha pretensão em 17 de ter. Agora, sete anos depois, acho que já o ganhei. Aliás, porque a minha vida, de facto, é Almada o tempo todo. Perguntem à minha família, que já não suportam ouvir-me falar de Almada. O que mais me surpreendeu foi que havia uma perceção de Almada muito desfasada do resto de uma realidade nacional. Ou seja, havia um certo espírito de aldeia gaulesa, sob forma do Asterix, devo dizer. Com lados positivos e simpáticos, com outros que me parecem claramente penalizadores para o território. Era um território muito virado sobre si mesmo e que não assumia a sua posição na centralidade da área metropolitana. Ora, aí nós desde o início assumimos que o grande desafio era que Almada ocupasse o espaço que é seu naturalmente, que é ser a outra margem mais direta de Lisboa. E falava-se muito na cidade das duas margens. Não são a mesma cidade, são cidades diferentes, com realidades diferentes, e acho que é importante que isso se mantenha, mas não deixa de ser, se isto for um coração, é o ventrículo direito e o esquerdo. E, portanto, o que mais me surpreendeu foi uma espécie de anulação de si próprio perante essa afirmação naquilo que Almada deve ser, deve fazer parte do centro do desenvolvimento da área metropolitana.

E ainda tem trabalho por fazer em Almada.

Oh, e tanto. Tanto trabalho.

Prioridades para um próximo mandato.

Eu não estou aqui a falar de recandidaturas.

Seja claro.

Já fica claro. Quando é que fala? Qual é o momento para falar de candidaturas?

Quando me candidatar.

Está em reflexão profunda?

Eu estou sempre em reflexão profunda.

Mas ainda se pode recandidatar, ainda se pode tornar uma dinossaura.

Ainda, é? Ai credo!

Ainda tem um mandato, dos três. Com os três mandatos.

Não haja dúvida que a tarefa é tão pesada, rapidamente nos sentimos dinossauros. Mas relativamente ao trabalho a fazer, há imenso.

Só tem que estar em um.

Sim, mas de uma forma moderada. Outra das coisas que me surpreendeu foi a quantidade do território. As zonas mais estratégicas de desenvolvimento de Almada não estavam no poder da autarquia de Almada. Falo da Margueira, do Ginjal, da Costa da Caparica.

Entrega à Marinha ou aos empreendedores. Porta costeira.

Estava entrega à Marinha, ao Estado, aos privados no Ginjal ou à Costa Polis, que é um dinossauro em extinção há muito tempo, mas não há maneira de se extinguir. E, portanto, uma das grandes lutas é o município poder, por fim, começar a ter domínio sobre o seu território. O IRHU, o maior número de terrenos para construção de habitação é do IRHU, nem sequer estão no nosso plano diretor municipal. Havia zonas absolutamente fulcrais para o desenvolvimento de Almada que, por determinação ou dos anteriores executivos autárquicos, não sei, ou por determinação do próprio Estado, não dependiam ou estavam fora do poder da autarquia. Já para não falar das áreas da APA, do ICNF, das zonas militares. No fundo, eu acho que os anteriores executivos se contentaram em reduzir o seu espaço de manobra e nunca reclamaram a totalidade do poder de decisão sobre o seu território.

Muito bem, vamos a mais uma questão, é a penúltima. Inês de Medeiros, neste momento o município de Almada está dividido em cinco freguesias, mas houve uma reforma administrativa em 2013 e antes disso elas eram mais. Sabe quantas eram?

11. Pronto, aí foram os cinco pontos.

Só tinha cinco. Cinco pontos.

Já vai com 14.

Pronto.

Cinco pontos.

Pronto, já passei os 12 e meio.

Que é o limite.

Não é aceitável. Já estou no suficiente mais.

Nós temos neste momento em curso no Parlamento uma certa contrarreforma parcial desta reforma. Precisamos disso, de voltar a separar freguesias?

Eu acho que isso depende dos territórios. No caso de Almada, aliás, de forma surpreendente, porque sabemos que o PCP militou muito para a reposição das freguesias, mas uma coisa é certa, esse pedido deve vir das próprias freguesias e nós não recebemos nenhum pedido. Aí não é o município que decide, são as próprias freguesias que se organizam e que fazem o pedido para uma redefinição, e nós em Almada não tivemos nenhum.

Estão satisfeitos assim.

Eu penso que sim. Na altura, eu fui contra, não a reforma em si, mas a forma como ela foi feita, a reforma Relvas. Não tenho dúvidas que na altura um maior debate poderia ter redesenhado ali, nalguns casos, algumas freguesias, mas eu acho que no caso de Almada, neste momento está estabilizado e a prova disso é que de facto não recebemos nenhum pedido de alteração. Não houve nenhum movimento, não houve nada, nem sequer numa das freguesias que ainda está sob jurisdição da CDU, que estávamos à espera que fizesse algum pedido, mas não.

Portanto, é ou não assunto em Almada.

É ou não assunto em Almada.

Vamos até ao cinema. Não poderíamos esquecer aqui esta faceza da Inês de Medeiros. Costuma ir ao cinema, consegue ir?

Cada vez menos. É tristíssimo.

É difícil. Qual é o filme-

Se for recente, estou completamente alérgica, mas diga

Vamos ver. Talvez conheça. O filme português que é candidato a uma nomeação para os Oscars deste ano, qual é?

Não é...

Foi o que o realizador foi premiado em Cannes.

Sim, mas não é o nosso filme. Não, o filme de animação foi no ano passado.

Sim, o "West Mashants".

Esse foi nomeado.

Sei. Pronto, lá está, o quiz. O Trivial Pursuit.

Aquela branca. Peça ajuda.

Pronto, peço ajuda.

Sempre são dois pontinhos. Está na ponta da língua. Com a ajuda vai se lembrar. A Flor do Buriti.

Sim, o Salavisa.

Não, são três.

Vai dar três opções. A Flor do Buriti, O Teu Rosto Será o Último ou Grand Tour?

Grand Tour. Do Miguel Gomes.

Do Miguel Gomes. É esse mesmo, estava ali. A política também é uma forma de representação, Inês de Medeiros.

Parece-me evidente que tudo é uma forma de representação. Agora, convém é sermos claros o que significa a representação. Eu lembro-me que a certa altura, quando fiz o meu programa sobre cinema, na RTP, chamado O Filme da Minha Vida.

Muito bom.

Sim, por acaso tenho saudades desse momento.

Ainda me lembro que o António Vitorino escolheu 2001.

Pois. Mas eu lembro-me muito do Laborinho Lúcio, que escolheu os Doze Homens e Fúria. E foi das entrevistas mais fascinantes, pela inteligência do Laborinho Lúcio, onde ele fazia um comparativo entre aquilo que era uma sala de tribunal e uma sala de teatro. E em que ponto é que o próprio anfiteatro de teatro, a própria representação, se quiserem, é o momento de onde surge a verdade. E portanto, se quisermos, de facto, sim, a política é uma representação, não haja dúvida nenhuma.

Que papel é que ainda quer fazer?

Mas a representação são momentos de verdade, não são momentos de mentira como as pessoas acham.

Claro que não. E que papel é que lhe falta fazer na política?

Há uma coisa, como sabe, os atores, e eu deixei de ser atriz antes de entrar na política, porque talvez por isso goste de ser mais dona do meu destino. Mas os atores normalmente dependem mesmo da vontade e do desejo dos outros.

Está disponível para o papel que lhe for colocado à frente.

Não, nem todos. Mesmo como atriz escolhia os papéis que representava. Portanto, convém ler o guião e perceber quais são as nossas opções.

Quem é o seu realizador preferido da política portuguesa? Present or past.

Eu confesso, eu sou mesmo uma grande admiradora do António Costa. E assumi isso desde o início. Foi um grande presidente de câmara, foi um grande ministro antes de ser presidente de câmara, foi um grande primeiro-ministro a viver um período absolutamente único, como mais ninguém viveu. E tenho mesmo uma profunda admiração por ele. Como sempre, quando sai um primeiro-ministro, haverá esta coisa, agora tenta-se pintar como um momento terrível, etc. e tal. Daqui a uns anos estamos todos a reconhecer, de facto, a capacidade que ele tem, não é apenas de consenso, mas de lançar grandes alterações. E de facto, lançou uma quantidade enorme de grandes reformas que não têm efeito imediato. Há algumas que espero mesmo que não voltem para trás, como a reforma da saúde, que já está a voltar para trás, mas que precisam de tempo para dar frutos. Agora, que é de facto um grande impulsionador e até de forma consensual, que é especial, eu devo dizer que tenho uma profunda admiração política ativa. Depois, naturalmente, tenho grandes referências, o Jorge Sampaio, que é quem me trouxe, no fundo, é o grande culpado.

Que foi mandatário da candidatura.

Foi o grande culpado de me pôr este bichinho. Mas era alguém que admirava profundamente. E depois há o incontornável Mário Soares. Imbatível, incontornável.

Inês de Medeiros, foi um gosto tê-la connosco. Obrigada. Sabe que conta 16 pontos.

16 pontos? Então, isso aí. Obrigada.

Obrigada por ter vindo à atenção.

Muito obrigado.

Foi um gosto.

Obrigada.