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Começa agora mais uma Comissão de Inquérito das manhãs 360. É nosso convidado o escritor Pedro Mexia. Bom dia.
Bom dia.
Bem-vindo.
Bom dia.
Obrigada por ter aceitado o nosso convite. Eu fiquei um bocado inquieto, porque as pessoas que entendem de atualidades sabem que quem vai a comissões de inquérito faz figuras tristes. Portanto, aqui não é o caso.
Então, pronto, já sabe.
Só não pode dizer nada que não me lembro.
Não me lembro. Não me recordo. Exatamente.
Vamos lá. São cinco perguntas, cada resposta certa vale cinco pontos. Se pedir ajuda e acertar, recebe dois.
Ok.
Vamos a isto?
Sim. E os pontos convertem-se em quê?
Em honra.
Prestigio.
Nota curricular.
Junta-se a uma galeria de imortais que já conseguiram os 25 pontos.
Vamos lá. Qual foi o primeiro livro, em Portugal, a ter a voz do autor clonada por inteligência artificial? Um antigo primeiro-ministro.
Eu não sei se percebi a pergunta. A voz do autor?
Sim, ele gravou a sua própria voz, a leitura de algumas páginas da sua obra, e depois uma empresa aproveitou essas gravações e gerou a sua voz para a leitura da totalidade das 1000 páginas do livro.
É muito recente.
Um ex-primeiro-ministro, um livro de memórias com 1000 páginas. Temos aqui muitas pistas, Pedro Mexia.
Só estou a ver-
É da sua casa.
Só estou a ver. Mil páginas? Quem é que tem um livro de memórias de 1000 páginas? O Professor Cavaco tem um livro de memórias de 1000 páginas?
Se calhar de discursos terá.
Confesso que não sei.
Sabe, sim. Então vou dar ajuda.
Adoramos. Dois pontinhos ao menos.
"Mudar", de Pedro Passos Coelho, "Memórias", de Francisco Pinto Balsemão, ou "O Primeiro-Ministro e a Arte de Governar", de Cavaco Silva.
"Memórias." Está bem.
É isso mesmo.
Estava perto.
Estava longe.
Não, estava mais perto, em termos de primeiros-ministros.
Mais dentro da política ainda.
Estava na política.
Pois. Pedro Mexia, como escritor, preocupa-se com o uso e o impacto da inteligência artificial, os escritores virtuais?
Preocupo-me e as pessoas preocupam-se por mim também, porque eu devo dizer que fui mais vezes convidado, sem nunca aceitar, no ano passado ou durante este ano também, a falar sobre inteligência artificial do que sobre qualquer outro assunto. E eu sei aquilo que leio nos jornais, não tenho nenhum valor acrescentado. Lembro-me uma vez que me ligaram de uma televisão há uns anos a falar sobre a localização do novo aeroporto e se eu ia lá de manhã dar a minha opinião. E eu disse à pessoa que me ligou: "Mas eu não sei nada sobre esse assunto."
Mas não foi em engano.
Não, mas o extraordinário foi o que me responderam: "Não faz mal, venha mesmo."
Não importa se sabe ou não.
Portanto, eu sobre inteligência artificial, conheço todos os problemas que ela levanta do ponto de vista, nomeadamente do ensino, dos direitos de autor, de tudo isso, mas não tenho nenhum contributo a dar sobre essa matéria. Eu até assinei uma carta aberta sobre isso, embora não seja propriamente tradutor. Já traduzi uma ou outra coisa, mas não sou tradutor. Mas um grupo de tradutores que elaborou uma carta dizendo que os editores estavam a recorrer, coisa que eu aliás desconhecia, à inteligência artificial para traduções literárias, o que aliás me parece quase impossível, porque a inteligência artificial faz muito bem, por exemplo, falsos bombeiros, como vimos esta semana.
A devidos motivos.
Mas, nos meus domínios, por exemplo, a inteligência artificial continua a não saber escrever um poema. Não há hipótese nenhuma, não chega lá.
Mas não acredita que isso poderá acontecer, por exemplo, nas traduções, quando tiver a informação suficiente ou que seja apenas necessário depois uma espécie de supervisor dessa tradução ou até da obra literária?
A inteligência artificial pode fazer uma coisa que se faz às vezes até só com a inteligência humana. Eu tenho essa experiência numa coleção de poesia. Por exemplo, alguém que traduz de uma língua que nos é inacessível, por exemplo, do polaco, alguém que sabe polaco, naturalmente, e depois há alguém, português, que põe aquilo em poesia portuguesa. Se calhar, a primeira função de tradução quase automática, literal, digamos assim, eventualmente pode ser feita, mas há uma série de valores da literatura que têm a ver com a ambiguidade, com o ouvido, etc.
As nuances.
Evidentemente que a informação que se lá põe já faz parte do sistema depois. Mas não se tem ouvido porque se diz que é preciso ter bom ouvido.
E não acha que a inteligência artificial se pode desenvolver a ponto de chegar a esse nível? Deixe-me então perguntar assim: alguma vez pediu à inteligência artificial para escrever um poema ao estilo de Pedro Mexia ou uma crônica?
Não, isso nunca perguntei. Perguntei só ao ChatGPT a lista das minhas obras e-
Enganou-se.
Não, sete não eram minhas e uma anotei, porque à míuda era um bom título.
De certeza que uma era sobre o aeroporto.
Era qualquer coisa no telhado, mas era um bom título, ficou no meu caderninho.
Já tem telhados em quente.
Portanto, a inteligência artificial até pode dar ideias, é isso que se percebeu aqui.
Pode dar. Tudo dá ideias.
Tudo dá ideias. Vamos à próxima pergunta. Ao Pedro Mexia, ao João Pereira Coutinho, ao Pedro Lomba, é-lhes atribuída A paternidade da blogosfera portuguesa. Sabemos disso com a Coluna Infame, o blog. Lembra-se da data do primeiro post?
Outubro de 2002.
15 de outubro, consta que às 12h40.
Se não for isso. Acho que só o Thiago Cavaco te dá os parabéns todos os anos pelas efemérides.
E não só. Mas Pedro Mexia, como é que passámos, não foi assim há tanto tempo, 2002. Como é que se passou daquele clima de discussão aberta, democrática, às redes sociais e ao ódio e à indignação das redes sociais? Historicamente é tão pouco tempo.
Pois é, é verdade, e eu justamente por isso fui um entusiasta dos blogs e nunca fui um entusiasta das redes sociais. Neste momento tenho Instagram por uma questão quase de agenda e a certa altura dei por mim já a escrever post de blog.
Mas há algumas publicações recentes que-
Não, mas já não há
Já não há, acabou.
Já atualizou.
Já atualizei. Estava com vontade, fiquei com itchy finger, como se diz em inglês. E portanto, eu acho que o que aconteceu foi o que aconteceu no mundo. Aconteceu a partir de 2016, mais ou menos, mas antes disso já, uma mistura das guerras culturais americanas, dos líderes bizarros ou perigosos, que foram eleitos, legitimamente eleitos, o que ainda é mais inquietante, em vários países, tornou o diálogo impossível. Eu lembro-me, por exemplo, que o Gregório Duvivier uma vez foi ao programa que nós fazemos na Sic Notícias, e que se chamava Governo de São Paulo.
Sim. Não vai mudar.
Bom, veremos. E que disse que era impossível fazer no Brasil um programa permanente, um painel fixo, com pessoas que discordavam politicamente. Ele disse que não era possível.
No Brasil já não é possível.
Não, já não é possível.
Estamos longe disso cá?
Na televisão ainda é possível, apesar de tudo. Eu fiquei um pouco apreensivo quando, por exemplo, em termos de prática parlamentar, nomeadamente, se desceram os padrões mínimos de civilidade e algumas pessoas responderam a isso, incluindo pessoas que eu conheço e pessoas que eu prezo, a dizer: "A civilidade não é tudo." Mas é um bom começo. Não é tudo.
Essa foi a principal mudança, essa degradação dos modos com a chegada do Chega ao Parlamento?
Sim, eu acho que a alteração nos modos foi pelo menos tão importante como a alteração dos temas, não só porque é contagiosa, porque as pessoas do outro lado ou dos outros lados tendem a copiar, porque passa a ser esse o padrão, e porque passa a ser aceite, passa a haver uma espécie de continuidade entre a nossa conversa em casa, no café, na televisão e no órgão de soberania, é tudo a mesma coisa. Não há nenhum protocolo, as pessoas tratam-se todas por tu, chamam-se isto e aquilo, dizem os apartes. Aparentemente, os jornalistas parlamentares relatam que o nível dos apartes da bancada do Chega, que é uma coisa assim nunca vista, sobretudo em determinadas deputadas, e portanto isso eu acho que veio para ficar. No fundo, isso é um pouco como o efeito Big Brother na televisão. Eu lembro-me que vi o primeiro do princípio ao fim.
E foi uma indignação. O combo acho.
E o José Maria e não sei quem mais, coitado, que ainda por cima teve um resto de vida não muito feliz. Não tenho sabido dele, mas pelo que vi nos jornais a certa altura. Mas acho que quando se abre essas portas, depois é difícil voltar atrás.
Mas as redes são uma causa ou um efeito? Isto é, elas alimentam esse extremismo, essa discordância ou refletem isso?
Eu acho que nenhuma tecnologia é propriamente uma causa, mas é um amplificador. Isto é, não há nada que exista nas redes sociais, o bullying, etc., que não existisse já. A diferença é que uma coisa é, por exemplo, uma adolescente que é vítima de bullying na escola, por exemplo, ou que é vítima de bullying na net e nas redes e que publicam fotografias dela e aquela coisa-
Tem um alcance muito superior.
É um alcance. Por exemplo, aquela coisa que hoje se chama, e que aliás nos Estados Unidos já é criminalizada, que se chama revenge porn. Quando as relações acabam e as pessoas que gravam ou fotografam ou filmam relações íntimas e que depois para se vingar dos seus ex-parceiros põem online. Isso é novo, ou seja, isso era uma coisa que podia se mostrar aos amigos ou coisa do gênero, mas não havia maneira. Quer dizer, ninguém ia à RTP: "Tenho aqui um VHS muito interessante, se quiserem passar."
Se não fosse arquiteto, estava tudo bem.
Pois, exatamente. Não seria eu a dizer mal dele. Trouxe momentos inesquecíveis à língua portuguesa.
Por falar em momentos inesquecíveis para a língua portuguesa, vamos à terceira pergunta, que é: que cantora-
Tem sete pontos neste momento.
Sete pontos. Que cantora interpreta o tema "A Moda do Pisca-Pisca"?
Queres cantar, Bruno?
Isto é cultura pop.
O Bruno canta sempre tantos esta manhã.
Isto é cultura pop.
"Eles olham para a direita e pisca pisca, eles olham para a esquerda e pisca pisca, andam para aí a piscar para ver se arranjam alguma conquista." Parece que está a dar.
Já sei qual é.
Tem dois nomes próprios.
Tem dois nomes próprios. Confesso que não sei. Eu confundo muito essa galáxia.
Então quer arriscar numa das galáxias?
Não, é que eu só me lembro de nomes únicos. Não sei, Clara. Só há uma ou duas pessoas que eu singularizo pela sua subtileza artística. A Rosinha, por exemplo, é de uma particular subtileza.
Não é a Rosinha. Isto é mais subtil que a Rosinha.
Toda a gente. Tudo é mais subtil que a Rosinha. Confesso que não sei.
Quer ajuda, Pedro Mexia?
Então vamos lá. Micaela, Mónica Sintra ou Ruth Marlene?
Ruth Marlene.
Está certo. Muito bem. Eu já acabei de recitar aqui um pouco deste poema, creio que da autoria do Ricardo Landún, esse génio da música popular portuguesa, que fala da esquerda e da direita. Politicamente, como é que o Pedro Mexia se define?
Boa pergunta. Eu sinto que estou mais ou menos no sítio onde sempre estive.
O mundo é que foi mudando.
Sim. Houve uma vez no Primavera Sound em que um rapaz munido daquilo que ele chamou caipilitro, que é uma caipirinha de um litro, avançou para mim e disse assim: "Eu vejo-te no programa, mas não sei dizer se és de esquerda ou de direita." Eu disse: "Eu não sei dizer se tu estás bêbado ou não." Porque eu não digo nada substancialmente diferente do que dizia quando comecei a escrever. Talvez tenha, porque entretanto a idade passa, um tom menos provocador. E no entanto, tenho a noção de que as placas tectónicas se mexeram e coisas que eu achava evidentes hoje são consideradas ultrapassadas e coisas que eu achava chocantes hoje são consideradas normais. Eu não acho normal que em 2025 as pessoas discutam coisas como leis penais bárbaras ou hostilidade à imigração num país de emigração, etc. Nesse sentido, historicamente, tenho em algumas áreas posições que são mais próximas da esquerda do que da direita, embora muitas delas tenham nascido à direita. Por exemplo, tenho certamente uma visão sobre a cultura que não se coaduna com as visões que a direita portuguesa tem. Certamente não sou favorável a uma instituição como o atual Ministério dos Tempos Livres. Cultura, Desporto e qual é a terceira? Das Juventudes.
Já podemos falar dessa questão do Ministério da Cultura, até para saber se tem aspirações políticas. Já vamos falar disso, mas o Pedro Mexia começou, ainda há pouco falávamos dos blogs, tornou-se ainda mais conhecido, já escrevia em jornais, com os blogs, e nessa altura estavam claramente delimitadas as fronteiras entre o que era a esquerda, o que era a direita. Nessa altura estava claramente à direita.
Se me perguntarem: é esquerda ou direita? Eu sou de direita. Agora, hoje em dia, ser de direita significa coisas diferentes. A direita clássica não é a direita do senhor Órban, etc. Ou a do senhor da motosserra. Em relação a isso, eu não me reconheço na inflexão à direita que a direita teve na última década. Isso não posso dizer que sim, acho que o trumpismo é uma aberração de um nível nunca visto. E lá está, também dos modos, não apenas nas políticas, porque sempre houve tentações isolacionistas, protecionistas, etc. Mas nunca houve ninguém, um presidente da República ou um candidato a presidente da República no início, por exemplo, a fazer pouco de um herói de guerra como era o John McCain, ou a gozar com um jornalista deficiente.
Transformou profundamente e permanentemente o Partido Republicano. Essa onda.
Foi uma OPA sobre o Partido Republicano. Aliás, há uma frase muito interessante que o Trump diz. Na verdade, a única resistência significativa ao Trump dentro do Partido Republicano, no princípio ainda havia alguma, mas a duradoura e a ininterrupta é entre os chamados intelectuais do Partido Republicano e entre os chamados intelectuais conservadores, que como se sabe, têm desde os anos 60 muita importância no panorama americano. E eles insistem muito que o Trump não é conservador. Uma vez confrontaram-no com isso e ele disse: "It's called the Republican Party, not the Conservative Party." O que é eventualmente factualmente verdade. O partido chama-se Republicano e não Conservador, mas é um partido conservador. Nada do que o Trump faz é conservador.
Claro.
Salvo erro, numa das eleições do Reagan, em que se falava as virtudes de um presidente serem competência, honestidade e caráter.
"Shall say no more."
Estamos longe. Pedro Mexia está com nove pontos. Vamos à próxima questão, a quarta e penúltima: que jornalista fundou e foi o primeiro diretor da revista "Grande Reportagem", onde Pedro Mexia colaborou? O primeiro.
O primeiro, antes do Miguel Sousa Tavares?
Antes. E aí já estamos a excluir um: o próprio Miguel Sousa Tavares.
Sim. Boa pergunta. Eu não lia a Grande Reportagem antes disso.
O fundador era da RTP e tinha um programa homônimo.
Tinha uma voz muito característica.
Exatamente. E liderava um programa homônimo na altura, na RTP.
O Joaquim Letria?
Excluí outro.
Agora que o Paulo descobriu, o Paulo tinha aqui.
Exato. É curioso, tinha aqui três hipóteses.
Duas já foram.
É sim, vamos fazer um quiz às 9h da manhã.
Vamos a-
Eu estou a falar com muletas, isto é andar de bicicleta com quatro rodinhas.
Tinha aqui Joaquim Letria, Miguel Sousa Tavares ou José Manuel Albergaria Feio.
É verdade. Por acaso eu sabia. Até porque eu conheço e sei. Essa eu sabia mesmo. E também sabia a da Mónica.
A da Rute Marlene.
Da Rute Marlene, aliás. Também tinha que ser com ajuda. Está uma desgraça.
Tem que considerar dois pontos.
Já acertei algum direito. Acertei um que era o-
Que era o blog.
Só acerta em coisas minhas.
Que desgraça.
Ainda bem.
O Pedro Mexia começou a colaborar cedo com jornais e revistas. Nunca exerceu Direito, que foi o curso que fez logo à partida. Por quê? Ou então por que fez o curso?
A razão porque fiz o curso é mais simples de explicar, porque nas Humanísticas, Direito era a única hipótese que não desembocava apenas no ensino. Ou seja, se eu tivesse tirado História, Filosofia, etc. O que eu queria era Filosofia, era a única coisa em que eu era realmente bom aluno e que realmente gostava. Mas nunca quis ser professor e, portanto, foi um pouco por-
Exclusão de campo
...talvez um nadinha influência daquele glamour cinematográfico e televisivo das séries de advogados, mas que toda a gente sabia e eu próprio sabia que não se passava assim, naturalmente. Não fui a um engano.
E por influência paterna. O seu pai, que se destacou como ensaísta e crítico literário, formou-se também em Direito.
Mas por influência paterna não seria, certamente, porque o meu pai fez Direito, detestou Direito e tinha pesadelos sobre exames orais 50 anos depois de os ter feito. Não, não foi.
Então foi pra provocar.
Em casa havia desincentivo suficiente.
Não, houve liberdade total e eu escolhi aquilo. E, na verdade, no começo do curso gostei, porque tinha sobretudo as cadeiras de Direito Público, que têm algum interesse constitucional, etc. Tive aulas com o professor Jorge Miranda e com o professor Marcelo Rebelo de Sousa. Mas depois, quando entrámos nos contratos em especial e nos direitos criados.
Mas ficou alguma coisa, é-lhe útil ainda aquilo que aprendeu? Ou nem por isso.
Útil juridicamente, não. Não tenho competência pra dizer nada jurídico de valor a alguém. É útil às vezes pra perceber certas questões, certa terminologia. É, acho eu, mais do que útil, acho que evita, nalgumas matérias, um certo deslizamento que algumas pessoas têm, por exemplo, em matéria de Direito Penal e de Processual Penal. Eu apanhei uma educação jurídica, quero dizer, garantística, e mantenho-me fiel a ela. E, portanto, continuo fiel ao princípio de que mais vale um culpado à solta do que um inocente preso.
Muito bem, vamos à última questão.
Vamos à última questão. 11 pontos até agora, Pedro Mexia. Esta eu acho que é fácil. Em que ano foi criada a Cinemateca Portuguesa, então denominada Cinemateca Nacional?
A Cinemateca Portuguesa teve duas fases. Deixa-me ver, quando passou a ser Cinemateca Portuguesa.
Esta é logo a primeira.
Quando foi criada.
Quando foi criada mesmo, por Manuel Félix Ribeiro.
1948.
Está certo, muito bem.
Certíssimo.
Foi diretor da Cinemateca, Pedro Mexia.
Fui subdiretor.
Subdiretor e depois-
Fui intríno até entrar numa nova.
Admite algum dia vir a assumir responsabilidades políticas na área da cultura?
Dito assim, admito. Isso é uma cláusula tão genérica que sim, admito aceitar convites que me façam pra coisas, mas não tenho nenhuma. Eu pensava que seria a pergunta mais clássica de-
Ministro.
Sim, seria isso.
Então, podemos reformular a pergunta.
Não, isso não é pensar.
Então, por que ministro é absurdo e outro tipo de responsabilidade, não?
Por uma razão, porque o ministro da Cultura, para ter sucesso, tem que ter um conjunto de características e de meios, que, na verdade, só Manuel Maria Carrilho é que teve, e por isso é que costuma ser o ministro lembrado.
Mas o que faltou aos outros? Características ou meios? Ou os dois?
É preciso ter uma ideia global sobre o que é o mundo da cultura e não apenas setorial. É preciso ter peso político junto do primeiro-ministro. É preciso ter tempo, é preciso ter dinheiro E é preciso saber fazer sala com os artistas e com o meio cultural. Essas cinco características não se encontram facilmente. Uma das questões que se pôs quando morreu o João Bernardo Costa foi: como é que encontramos outro João Bernardo Costa? E eu certamente não era um outro João Bernardo Costa e participei ativamente na procura de um novo João Bernardo Costa que não se materializou. Portanto, nunca aceitaria nada que não sentisse que tinha capacidade ou condições para o fazer.
E faz sentido continuarmos a ter o Ministério da Cultura ou não? Há quem radicalmente ache que não faz sentido.
Não sei se há um lado onomástico que pode-se dizer que é o menos. Isto é, eu prefiro uma boa Secretaria de Estado da Cultura a um mau Ministério da Cultura. Agora, há uma questão simbólica, por um lado. Há ministros da Cultura em praticamente todos os países da Europa e o Estado tem deveres culturais, em matéria cultural, que no meu entendimento passam não apenas pelo património, mas também pelo apoio à criação artística, alguma da qual não existiria de todo. Estou a pensar na ópera ou em parte na música erudita, o bailado, etc, sem o apoio do Estado. Portanto, não vejo porque é que é sempre uma questão a Cultura ser ministério e os outros ministérios terem o estatuto garantido. Claro, há uns que são evidentes, a Defesa, a Saúde e a Educação. Mas há outros que são mais discutíveis como ministérios e que vão ficando.
E que nunca são discutidos.
É como a discussão do dinheiro da cultura. Todo o dinheiro da cultura é visto como um escândalo. Nós fizemos estádios inúteis em Barda e isso gerou menos choque no país do que uma companhia de teatro ser subsidiada com isto ou aquilo. E foi subsidiada porque não existiria. Agora, há pessoas que dizem: "Bom, deixe o mercado mandar." Eu acho que na cultura o mercado é pouco.
Pedro Mexia, sai daqui com 16 pontos, foi o melhor desta semana.
Vá lá.
Sim, mas de andarilho.
Obrigada por ter aceitado o nosso convite. Obrigada, Zé Luí, obrigada.