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Começa agora a Comissão de Inquérito das manhãs 360. Hoje é nosso convidado Nuno Artur Silva, autor, produtor, antigo administrador da RTP, ex-secretário de Estado com a tutela da Comunicação Social e podia continuar por aqui a manhã toda. Bom dia, bem-vindo.

Bem-vinda.

Olá, bom dia.

Bom dia. Muito obrigada por ter aceitado o nosso convite.

Obrigado pelo convite.

Sabe como é que isto funciona? Cinco perguntas.

Sim.

Sabe?

Creio que sim.

Estou bem informado.

Então vamos lá. Vamos começar por uma muito simples, só aqui pra aquecer. Nasceu no dia da implantação da República, 5 de outubro, uns aninhos mais tarde, em 1962, mas neste caso vamos até 1910. Que político foi à varanda da Câmara Municipal de Lisboa anunciar o fim da monarquia?

Quem foi o republicano? Não me lembro.

Quer ajuda?

Quero ajuda.

Ajuda aqui do público. Somos nós. Vamos lá. Teófilo Braga, José Relvas ou Manuel de Arriaga?

Foi o José Relvas.

Foi.

Certíssimo.

Mais de um século depois, a nossa República está bem entregue, temos bons governantes?

Já tivemos melhores. Não está muito bem entregue. Creio que podemos fazer melhor.

Em que sentido?

No sentido em que podemos escolher melhores governantes.

E em termos de presidência, acredita que também venha a ter a pessoa certa?

Acredito que com todos os seus defeitos, somos capazes de vir a ter saudades do Marcelo muito depressa.

Isso é uma afirmação polêmica, Nuno.

É, mas não sei, o que se perfila, como se diz, não é muito entusiasmante.

Mas os bons valores que podemos ter afastam-se da política, não querem nada com a política, é isso que torna também mais difícil a eleição de bons governantes?

Sim, hoje em dia é muito mais difícil abdicar da vida civil para ir pra política, porque de fato os danos são imensos. É muito mais complicado hoje em dia depois da vida política, sobreviver aos danos.

Nuno, tu próprio tiveste essa experiência, como a Maria João disse há pouco, foste secretário de Estado. Tu sentes que, de fato, isso de alguma forma te penalizou ou te condicionou o exercício de funções públicas a este nível?

Sim, eu gosto muito daquela máxima: never explain, never complain. Nunca muito explicar, nunca muito se queixar. Mas, de fato, é assim, eu fui pro governo num momento muito particular, porque eu entrei como secretário de Estado numa altura que foi outubro de 2019. Tínhamos um plano, obviamente, pra nossa área, e passado três meses começou uma pandemia. E portanto, tudo o que tínhamos pensado fazer foi completamente alterado por essa coisa maravilhosa, que é os acontecimentos. Ou seja, tivemos que fazer outra coisa que não aquilo que estávamos a pensar fazer. Portanto, foi particularmente frustrante, sobretudo porque eu vinha da sociedade civil, eu vinha do setor da área e vinha com um conhecimento que era mais da área e menos da função pública. Eu não tinha particular competência no sentido de perceber como é que funcionam os mecanismos da função pública. Também não tinha ligações, eu era independente, não tinha ligações. E portanto, foi-me particularmente difícil perceber como é que eu ia encontrar meios para poder resolver os problemas do setor. Mas lá está, eu não estou a queixar-me, porque fui sempre muito bem acompanhado no governo pelos meus colegas na altura e sempre demos o nosso melhor. Mas a sensação, devo dizer que foi algo frustrante, porque não consegui fazer o que pensei que ia fazer e sobretudo depois, o fato de ter abdicado uma série de coisas pra fazer isso. Depois paguei um preço grande, mas isso é o menos importante, porque isso foi uma opção minha, ninguém me obrigou.

Vamos chegar agora um bocadinho por aí, Nuno Artur Silva. Está com dois pontos, vamos agora à segunda pergunta: que antigo presidente da República chegou a ser administrador da RTP e diretor de programas antes de ser eleito chefe de Estado?

O Ramalho Annes.

Muito bem. Esta era fácil.

Cinco pontos.

Cinco ou mais vale sete.

Cinco pontos nesta.

Pronto.

Já fica com sete. Nuno, o atual governo queria acabar com a publicidade na RTP, a medida acabou por ficar pelo caminho. Muito se fala sempre do rumo que a RTP deve tomar. O Nuno passou por lá e depois de lá ter passado, ficou com alguma ideia diferente? O que defenderia agora que já lá por lá passou e que já lá não está para o que deve ser a RTP?

Eu mantenho a mesma ideia. Eu sou um defensor de que a RTP deveria ter um financiamento estável e maior do que aquele que tem atualmente. Aliás, comparativamente com outros serviços públicos da Europa, a RTP tem cerca de cinco vezes menos orçamento do que a média europeia. Portanto, é impossível fazer milagres. Sou também um defensor que, para clarificar a sua missão, a RTP deveria deixar de ter publicidade. Só que não podemos fazer, e acho que isso foi o que o governo anterior, que é do mesmo partido que está agora, tentou fazer, e me parece que isso seria terrível, que era tirar a publicidade sem garantir previamente o reforço de financiamento, pelo menos no valor que corresponderia à publicidade. Portanto, tudo que seja tirar a publicidade num contexto de não acrescentar, é diminuir a capacidade da RTP e fazê-la definhar. Isso é inaceitável e depois caímos aqui num problema, que é se a RTP não tem dinheiro, não pode cumprir a sua missão e, portanto, entramos num ciclo que diz: "Está a fazer mal, está a cumprir mal, para que precisamos da RTP?" E, portanto, entramos aí na espiral negativa.

Mas retirando a publicidade da RTP, esse reforço deveria ser feito de que forma? Aumentando a CAV ou através do orçamento do Estado?

Sim, contribuição audiovisual. Aquilo que cada um de nós paga pela RTP é ínfimo, as pessoas nem têm bem noção do que estão a pagar.

Mas cria sempre alguns anticorpos, é um aumento e várias pessoas não gostam de aumentos.

Sim, mas isso tem a ver com a comunicação e da maneira como se comunica. Atenção, é importante dizer que os mais desfavorecidos não pagam. E, portanto, isto é uma coisa que se aplica às pessoas a partir de um certo rendimento. E depois estamos a falar de qualquer coisa que mensalmente é equivalente a três cafés por mês, ou digamos, se quisermos, um café por semana, uma coisa assim. E, portanto, se isso nos permite ter, por exemplo, como temos, uma plataforma de conteúdos portugueses como a RTP Play ou acesso aos arquivos todos da RTP na plataforma, não me parece que seja caro, tendo em conta que grande parte das pessoas consome plataformas audiovisuais muito mais caras. Sendo que aqui ainda está a contribuir para outra coisa, porque nós falamos da RTP e muitas vezes parece que esgotamos a conversa da RTP na conversa sobre a informação da RTP. E a missão da RTP é muito mais para além disso, por exemplo, a dinamização do setor audiovisual em Portugal. Se não houvesse RTP, por exemplo, não havia documentários sobre figuras portuguesas. Não eram os privados que o iam fazer, porque os privados têm também uma situação muito difícil, porque vivem da publicidade e a publicidade, como sabem, migrou para as plataformas digitais multinacionais.

Nuno, mas muitas vezes diz-se que um dos problemas da RTP é precisamente o de tentar competir com os canais privados, não oferecendo uma grande variedade na programação, nomeadamente no caso da RTP1. Concordas com essas críticas?

Concordo, porque acho que é um erro muito comum dentro da RTP e nos diretores de programas da RTP, quererem lutar pelas audiências. Eu acho que, para já, a RTP comete um erro estratégico, que é em 2025, centrar a sua estratégia e a grande parte do seu orçamento na RTP1 é uma coisa completamente obsoleta. Eu acho que a RTP deve ser entendida como um conjunto de canais e eu diria até que estrategicamente aquilo que a RTP devia fazer era investir na plataforma RTP Play e não no canal RTP1. E sair da luta das audiências, porque não é por aí que a RTP faz a sua diferença, é pela relevância, pelo interesse público. Aliás, é uma estação de capitais públicos e, portanto, isso significa que não está no campeonato das audiências, está no campeonato da relevância e do interesse público.

Nuno Artur Silva, vamos à terceira pergunta. Esta tem que ver também com televisão e com humor. Dois temas que são gratos. Em que ano estreou o programa de televisão dos Monty Python?

Em Portugal? Não, Inglaterra.

Em Inglaterra.

1969, eu até digo o dia, 5 de outubro.

Ah, até é verdade.

Sabem por quê, não é?

Claro. Já sabemos.

Começámos por aí, claro.

Também vos posso dizer outra coisa. No dia 5 de outubro de 1962, que foi quando eu nasci, também se estreou outra coisa, que foi um grupo chamado os Beatles, editaram o primeiro single. 5 de outubro de 1962.

Só por causa disso, merecias mais dois pontos.

E já agora, mais lá para trás, o Tratado de Zamora, que no fundo determinou a independência de Portugal em relação à Espanha, também foi num 5 de outubro.

Exatamente, pois foi.

5 de outubro é uma data muito marcada e marcante, sabias?

Deu bem o dia para nascer.

Não só na história de Portugal, mas na história do mundo.

Se há uma razão para ser feriado, eu acho que 5 de outubro é uma razão.

Além dos Monty Python, quais são as tuas grandes influências no humor? Partindo do princípio que os Monty Python foram uma das tuas influências.

Foram, absolutamente. Eu vi os Monty Python pela primeira vez em 1975, quando eles passaram na RTP, logo a seguir ao 25 de Abril. E eu tinha 12 ou 13 anos e vi aquilo e pensei: "Uau!" Aliás, o primeiro episódio foi logo a piada assassina, para quem conhece os Monty Python, era a história de uma piada, que era usada como uma arma letal. Eu fiquei absolutamente, era como eles próprios diziam: "And now for something completely different." Era uma coisa completamente diferente.

Ainda hoje resiste ao teste do tempo?

Resiste, absolutamente. E os filmes também. Os filmes como "A Vida de Brian", por exemplo, tornaram-se absolutamente icônicos mesmo. Sim, os Monty Python, depois o Woody Allen. E depois eu li muita banda desenhada, portanto, eu era muito influenciado pelo humor dos argumentistas de banda desenhada, e nomeadamente o Goscinny, que era um grande argumentista francês.

Astérix, não?

Astérix, sim. E muitas coisas, mas sobretudo Astérix. Em Portugal, claro, o Herman. Houve ali aquele momento do Tal Canal, que eu costumo dizer que foi o 25 de Abril do humor em Portugal na televisão, foi o Tal Canal.

Tu que depois escreveste muito e para diversos meios, para o Herman José, tens saudades desses tempos de escrever muito para outros e para programas de televisão?

Eu agora estou um pouco na fase contrária, que é: eu comecei a escrever sozinho e solitariamente, e depois, precisamente porque conheci o Herman, o Herman me convidou para escrever para ele, eu comecei a ter muito trabalho e comecei a formar uma equipe de escrita, que deu depois nas Produções Fictícias. E a minha vida depois passou a ser quase de diretor criativo de projetos. Hoje, enfim, a expressão inglesa usa-se o showrunner. E eu acabei por fazer uma série de coisas que me foi afastando da escrita propriamente dita. Portanto, hoje em dia, é verdade que tenho muitas saudades, não tanto da escrita, mas de estar num sítio, num escritório, onde circulava muita gente, com muitas ideias diferentes, as Produções Fictícias, durante aqueles 20 anos em que trabalhamos todos no mesmo sítio. Antes da internet nos pôr cada um em casa a escrever. Íamos todos ao mesmo sítio e encontrávamos num escritório onde num sítio se estava a escrever o contrainformação, no outro lado estava-se a escrever para o Herman, no outro estava-se a desenvolver projetos que nunca iam a lado nenhum, mas aquelas conversas que tínhamos nos bastidores, estamos a falar de pessoas de gerações diferentes que conviviam todas no mesmo espaço, várias gerações de humoristas, desde a minha, a primeira, com o Ricardo Martins, o José Pinho, o Miguel Guterra, o João Quadros, Eduardo Madeira, Felipe Homem Fonseca, depois veio o Marco, o Ricardo Araújo Pereira, e depois as mulheres também que tardiamente chegaram, mas acabaram por chegar, todas elas, a Maria João Cruz, Patrícia Castanheira, Susana Romana, Joana Marques, tudo isso. Estou me a esquecer de tantos, o Mário Botequilha, o Nuno Costa Santos, foram dezenas de pessoas que trabalharam lá.

Uma fábrica de talento no humor.

Tinha uma coisa incrível, que era aquela coisa de encontrávamos no mesmo sítio, o que andas a ver, o que andas a ler. Isso eu tenho saudades.

Claro.

Mas para dizer a verdade, neste momento, sinto-me muito bem como estou, que é back to basics, a escrever sozinho.

Nuno, vamos seguir 12 pontos e seguir até este fio de conversa. Já falaste isso e a próxima pergunta é esta: em que ano estreou precisamente o Contrainformação na RTP?

O Contrainformação terá estreado em 97. 96.

Mas não foi em 5 de outubro.

Não foi em 5 de outubro.

Não sabia de cor.

Não, foi em 29 de abril, portanto, quatro dias depois de uma data também histórica.

O dia do Tratado de Tordesilhas.

Nuno, de alguma forma já falámos disso, as Produções Fictícias foram uma das criadoras e produtoras deste programa. Falaste também de uma altura em que muita coisa se passava na televisão e juntávamo-nos todos à volta da televisão para ver o último programa do Herman. Hoje em dia, o grande palco do humor deixou de estar na televisão e passou para as redes sociais e para os palcos também?

Sim, não completamente, mas sim. Ou seja, é muito interessante porque os humoristas são dos primeiros artistas a deslocarem-se para o meio mais recente. Acontece isso com os músicos, acontece também com a pornografia, que é sempre aquilo que se desloca para o meio mais recente. E os humoristas, é muito evidente, no início da história do cinema, estavam lá os humoristas que depois se vieram a revelar os melhores, o Chaplin, o Buster Keaton, os Irmãos Marx. E isso sempre foi assim, quando surge a rádio, a televisão.

Eles são inovadores.

Sim, são das primeiras linhas de experimentação. E de facto, o que aconteceu, ainda no meu tempo de vida profissional, digamos assim. Eu lembro-me que quando comecei a escrever para o Herman, escrevia numa máquina de escrever e mandava os textos por fax para a computadora e depois telefonava por um telefone fixo a perguntar se tinha chegado bem. E portanto, isto quando comecei a trabalhar no início dos anos 90. Depois veio a internet, os telemóveis, tudo isso. E de facto, hoje em dia, um humorista dispensa a televisão. Há casos evidentes disso, como por exemplo, a Boomer, na Fofinha, nunca fez um programa de televisão e é um êxito incrível. E de facto, os humoristas deslocam-se para o meio mais recente, mas, no entanto, ainda convivem com a televisão. Muitas vezes o que acontece é que os programas são financiados pela televisão, mas depois são muitas vezes mais visionados na partilha de internet.

Mas perdeu-se um pouco essa partilha de uma experiência, que era de ver televisão e todos no dia a seguir estarmos a comentar o mesmo.

Não, mas isso tem a ver com a maneira como mudam os meios de comunicação social. Eu acho que isso tem a ver um bocadinho com o urbanismo mediático. Eu, na minha juventude, era do tempo em que chegava à escola e dizia: "Viste aquilo ontem?" E toda a gente sabia do que eu estava a falar, porque todos tinham visto a mesma coisa. Isso hoje não é possível. Aquilo ontem era, por exemplo, o Herman, o tal canal, por exemplo. Viste aquilo ontem. Todos tínhamos visto. Hoje em dia, está tudo disseminado nas tais bolhas e nos seus grupos. A internet é essencialmente, de facto, essa ramificação absoluta que nos faz não estarmos a ver todos a mesma coisa.

Sobretudo ao mesmo tempo, não é?

Sobretudo ao mesmo tempo, sim, mas traz graves problemas, desde logo, que é o centro do vosso trabalho, o problema dos media atualmente, hoje em dia, é que de facto, neste momento, a política é feita em sítios onde as regras já não são as mesmas. Isto é, os jornais, por exemplo, deixaram de ser os grandes agregadores, e as redes sociais é o faroeste onde muitas vezes a contrainformação, a desinformação circula mais do que a informação.

E as regras já não são as mesmas.

E não há os mediadores, não há o jornalismo, não há o regulador, de facto.

Vamos em frente? Nuno Artur Silva, tens 17 pontos neste momento.

Ah, boa!

Enfim, fica ótimo.

É ótimo e ainda vai chegar aos 22.

Potencial de 22, eu te coloco aqui no quadro de honra.

O Bruno facilitou.

Esta é muito fácil: qual o título do primeiro álbum dos Anjos?

Ah, esse eu não sei.

Como não? É de 1999, e é o título também de uma das canções mais conhecidas deles.

Não consegues nem mentalmente trautear?

Confesso que-

Lembras-te de alguma canção dos Anjos?

Não, tirando a versão deles do "Hino Nacional", não me lembro de nenhuma.

Até me dás uma ajuda.

Eu confesso que não é propriamente uma música que ouça muito. Falhei na reta final.

Calma que ainda podes conseguir dois pontos. Eu dou-te três ajudas, três hipóteses: "Partirei", "Voltarei", "Ficarei".

Eu acho que é o "Voltarei". Não, não é.

Não é.

"Ficarei mais perto do céu".

Ok.

Pronto, ok. Mas ficavas lá.

O meu conhecimento da cultura popular portuguesa é fenomenal.

Nós achamos que é, de caras.

Nuno, como olhaste para tudo, que ainda não terminou, para este processo dos Anjos contra Joana Marques. Deixou-te preocupado? Divertiu-te? Qual foi a tua reação?

Divertiu-me mais do que deixou preocupado, porque não passa pela cabeça que a Joana venha a ser condenada de qualquer maneira. Quer dizer, seria um precedente gravíssimo. Acho que será inaceitável qualquer tipo de condenação pela expressão humorística da Joana. Portanto, divertiu-me muito mais do que outra coisa. Quer dizer, ao longo dos anos também já tive que ir a tribunal em situações semelhantes.

Era isso que te ia perguntar, se foste processado por alguma coisa que tenhas escrito à nível humorístico.

Já fui como testemunha de praticamente uma data de gente das produções de notícias que, de uma maneira ou de outra, tinha já sido alvo de processo por muitas coisas diferentes, coisas de futebol, a religião. Ao longo de 20 anos, fui várias vezes a tribunal depor em situações semelhantes a esta da Joana, só que não foi tão mediático na altura. E felizmente, nunca houve qualquer tipo de-

E dessas áreas todas, Nuno, vês alguma que seja mais melindrosa?

Não, tradicionalmente, o humor que suscitava reações mais apaixonadas, como em tudo em Portugal, era o futebol. A única vez que eu recebi ameaças de morte, que iam lá e partiam tudo, foi por questões de piadas sobre futebol, e vieram das claques dos clubes. Depois não se concretizaram, felizmente. Mas hoje, como estamos outra vez numa trivialização, isso hoje já é mais comum também na área da política. Embora eu não esteja agora no ativo humorístico. Mas pronto, esta situação dos Anjos é precisamente riquíssima.

Mas o "Contrainformação", por exemplo, era muito político. Deu alguns problemas desse gênero ou não?

Não, o "Contrainformação", no início, foi ali um período em que o "Contrainformação" não se afirmou. Até houve ameaças. Lembro-me que na altura o Futebol Clube do Porto protestou. Devo dizer com alguma razão, porque o primeiro boneco a estar pronto foi o do Pinto da Costa.

Com o Bobby e o Tereco.

Exato. O Bobby e o Tereco é mais tarde. É precisamente porque o Pinto da Costa disse que só admitia que gozassem com ele, o cão e o gato, e a filha. E nós tínhamos o boneco com o cão e o gato, e portanto, creio que foi o Rui Cardoso Martins que se lembrou de que sempre que o boneco do Pinto da Costa falasse, aparecia o cão e o gato a rir. Mas eles tinham razão, porque só viu o boneco do Benfica aparecer bastante mais tarde. E o do Sporting. Portanto, no início, havia de fato esse protesto do Porto, parece que só gozam com o Porto.

O que também era uma homenagem, até certo ponto.

Era o mais relevante.

É. Houve ali uma ameaça de retirar os direitos dos jogos da RTP. Mas aí contámos com a excelente e claríssima posição dos diretores de programas na altura, que era o Joaquim Furtado e o Joaquim Vieira, que disseram: "Era o que faltava haver aqui qualquer tipo de ameaça". Mas depois lembro-me da "Última Ceia", que aliás, foi uma das cenas que eu escrevi com o Marco. Houve vários momentos.

Aí com a Igreja, o mal-entendido da Igreja.

Aí com a Igreja, que hoje já não seria a mesma coisa. Ao longo do tempo, houve de fato umas tentativas, até muitas vezes, de condicionar. Mas eu acho que o grande condicionamento acaba por ser, até atualmente em Portugal, menos político e mais econômico. Ou seja, os patrocinadores retirarem-se se houver qualquer coisa que os incomode. Também já tive essa experiência no passado de ter o programa patrocinado e lá se foi o patrocínio, porque transmetemos com o patrocinador.

É verdade.

Ossos do ofício.

Exatamente. Nuno Artur Silva, sais daqui com 17 pontos.

Não é mau.

Não é nada mau. E gostámos muito de ter contigo. Muito obrigada por teres estado connosco. Um bom dia, muito obrigada.

Obrigado