Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Bom dia, José Manuel Fernandes. Queria comentar no Contra Corrente uma notícia deste fim de semana que passou relativamente despercebida, mas que tu achas que é uma notícia importante e também reveladora. Afinal, que notícia é essa? Conta-nos lá.

Bom dia. É a notícia da decisão da Juventude Socialista de apoiar nesta candidatura presidencial não apenas Ana Gomes, o que eu diria de esperar, mas também, Marisa Matias e João Ferreira. Não se ficaram por menos. Fazem logo um apoio tripartido. Foi uma decisão tomada no sábado, numa convenção nacional virtual e em concreto, os dirigentes dos JS decidiram, eu vou citar: "Recomendar aos seus militantes analisar, apoiar e envolverem-se nas campanhas dos candidatos à esquerda." Todos de uma vez. Repara que não foi apenas uma recomendação de voto. A JS vai ao ponto de recomendar aos militantes que se misturem com os militantes do Bloco na campanha da Marisa e que se misturem com os militantes do PCP na campanha do João Ferreira. Não é apenas o espírito da geringonça, é o regresso à cultura da Frente Popular, à mitologia de que todas as esquerdas são no essencial, iguais. A JS, pelos vistos, fez uma espécie de salto atrás na história e voltou aos anos 30 do século passado, quando havia Frente Popular.

José Manuel Fernandes, o argumento da Juventude Socialista é de que tanto Marisa Matias como João Ferreira têm um percurso de vida com provas dadas na luta contra as desigualdades e as injustiças sociais.

Quando ouço os socialistas usarem essa linguagem, eu fico um bocado assustado, porque é o tipo de linguagem estereotipada que estávamos habituados a ouvir nos bloquistas, nos comunistas, mas não nos socialistas, porque é um tipo língua de pau, palavras sempre repetidas, mas que têm pouco significado. Nos dias que correm continuam a significar pouco. O que tem imenso significado, neste caso, é o ato político. Nós sabemos que o PS preferiu não comparecer às eleições presidenciais, mas também sabemos que alguns dos seus principais dirigentes já disseram que vão votar Marcelo Rebelo de Sousa, o que se compreende depois do que foram os últimos cinco anos. Mais, todos nos recordamos que na prática, o anúncio de recandidatura de Marcelo foi feito por Costa, por António Costa, durante uma visita à Autoeuropa. Ao mesmo tempo, há também muitos dirigentes da ala mais à esquerda do PS que apoiam Ana Gomes. Estávamos todos à espera disso. Há afinidades. Ela é uma militante socialista, foi durante dois mandatos eurodeputada eleita pelo PS. É a candidata mais à esquerda em condições de passar a uma eventual segunda volta. Era o natural.

José Manuel Fernandes, tu consideras que o natural seria a Juventude Socialista apoiar um candidato, apoiar Ana Gomes? No caso de apoiar alguém, seria mesmo a candidata socialista, que neste caso não tem o apoio oficial do PS.

Era aquilo que eu acho que estávamos à espera que acontecesse, pelo menos eu estava à espera que acontecesse. Se existissem outros candidatos independentes, como por exemplo existiam há cinco anos, como Sapata Nova, também seria possível a JS dirigisse o seu apoio. Eu nada tenho contra a irreverência dos mais novos, alguma divergência com os mais velhos. Não defendo que as juventudes partidárias tenham que seguir caninamente as orientações das direções partidárias. Para além disso, neste caso, nem sequer há orientações, não havia nada a seguir. Agora, passar daqui para o apoio a candidatos de outros partidos e partidos de extrema-esquerda, como aliás é bom chamar-lhes, é um salto muito grande, sobretudo quando esse apoio vai ao ponto do envolvimento nas suas campanhas, de aparecerem nas suas campanhas. Isto não é a geringonça, porque a geringonça é uma negociação dura de medidas concretas que sabemos, mesmo no tempo em que a geringonça funcionava, era assim todos os anos nos orçamentos. Isto é um grande salto para um abraço fraternal com gente que a JS devia saber que pode dizer ser de esquerda, mas é de uma esquerda que é outra esquerda, uma esquerda que em muitos aspectos não presta, mas pelos vistos a JS não sabe isso.

José Manuel Fernandes, mas o que queres dizer exatamente com isso de ser uma esquerda que não presta?

Nós em Portugal temos muito a opção de dividir tudo entre esquerda e direita e só usar essa classificação política. E há outras classificações políticas. Ora, esquecemos tanto na esquerda como na direita há extremismos que não prestam, de facto, extremismos que são destrutivos. Ou melhor, nós lembramo-nos muito dos extremistas de direita, mas esquecemos com muita frequência e com muita facilidade os extremismos de esquerda. Não devia acontecer isso, porque há 40 anos os pais socialistas destes jovens da JS estavam nas ruas deste país a lutar contra os extremismos de esquerda. Estavam a lutar, por exemplo, contra os que ocupavam jornais e rádios e que daí expulsavam pessoas, expulsavam até socialistas, pra limitar a liberdade de imprensa. Estavam a lutar contra os que realmente sonhavam com uma sociedade em que não houvesse propriedade privada, apesar de eles hoje não dizerem isso. Estavam a lutar contra aqueles que, por exemplo, andavam a dizer àquele lavrador que nem sequer podiam Conservar a propriedade da sua enxada, como por exemplo vimos naquele filme da Torre Bela. Essas coisas não são ficção, aconteceram. E não foi em inilar o tempo, foi há 40 anos. Quando o PCP e o Bloco dizem que querem voltar ao espírito do 25 de Abril, o que estão a dizer é que querem voltar a esses dias de ocupações e saneamentos. É bom ter isso presente, é esse o seu imaginário. O que a JS acha que é com eles que deve fazer campanha, é uma coisa que eu acho que deve fazer Mário Soares dar voltas no túmulo.

José Manuel Fernandes, mas se bem nos recordamos também, nos últimos anos de vida, Mário Soares juntou-se muitas vezes a manifestações, quer com bloquistas, quer também com comunistas.

É verdade, mas eram manifestações com objetos bem concretos. Não creio que fosse fazer campanha por um candidato deles, sobretudo quando há um socialista, ainda por cima um socialista de esquerda, na corrida. Mário Soares acho que sabia bem definir as suas prioridades e sabia definir os seus campos. Mário Soares, numa altura dessas, não colocaria certamente entre as 15 reivindicações mais importantes a fazer ao próximo presidente, como colocou agora a JS, a legalização e consumo recreativo da cannabis. Colocar isso, neste momento que estamos a viver, como uma das 15 coisas mais importantes do país, diz um bocadinho sobre aquilo que vai na cabeça nestes dias sombrios, sobre as prioridades que pelos vistos vão na cabeça dos nossos jovens socialistas. De facto, terem como secretário-geral alguém que diz que começou a preocupar-se com as desigualdades porque estudou num dos colégios mais caros do país, como diz o líder da JS, talvez ajude a explicar um tanto desvario lunático. Só que este desvario lunático, além de lunático, é perigoso.

José Manuel Fernandes com o "Contracorrente" na Rádio Observador. Amanhã há nova edição depois do jornal das 20:00. Eu sou o José Manuel Fernandes. Obrigado por ter ouvido este podcast. Pode subscrevê-lo ou partilhá-lo. A Rádio Observador, pode ouvi-la online ou em 98.7, na Grande Lisboa, ou 98.4, no Grande Porto.