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Começa agora mais uma edição do Contracorrente. Já sabe que contamos sempre consigo. Depois de ouvirmos a crônica do José Manuel Fernandes, queremos conhecer a sua opinião. O número é o de sempre: 91 002 41 85. João Alexandre.
E foi finalmente na passada sexta-feira que foi possível ter acesso ao famoso relatório da IGAI, Inspeção-Geral da Administração Interna, sobre a festa do Sporting. A festa que foi em 11 de maio, mas tivemos de esperar mais de dois meses para saber, afinal, o que se passou. Mas a polêmica promete continuar. Depois daquilo que José Manuel Fernandes leu no relatório, não foi bem, José Manuel Fernandes, bom dia mais uma vez, não foi bem aquilo que leu também o ministro Eduardo Cabrita. Daí, José Manuel Fernandes, que queres também discutir no Contracorrente: quanto tempo mais teremos de suportar este ministro da Administração Interna? É assim?
É isso mesmo. De facto, começa a ser mais difícil entender como é possível ter no governo alguém assim. O que nós descobrimos agora? Várias coisas, eu devo dizer que nenhuma delas é agradável. A primeira é que o ministro é realmente incapaz de assumir a responsabilidade, seja do que for. Na organização das comemorações, percebeu-se agora, houve várias entidades envolvidas, quatro ou cinco, enfim, quatro se não considerarmos as entidades de saúde: o Sporting, a PSP, a Câmara de Lisboa, o próprio ministério. Ora, o ministro precisou de vários dias para ler o relatório, porque lhe foi entregue na segunda-feira, ele esperou até sexta para divulgá-lo. Já aqui de manhã o Miguel Pinheiro explicou o timing de tudo aquilo, de fazer com que as pessoas não lessem o relatório antes de ir into de fim de semana e só terem a versão do ministro. E depois de ler o relatório, deu a sua conferência de imprensa e só parece ter tido uma preocupação: dizer que o ministério não teve culpa no que corra mal. A Câmara também não, naturalmente, a Câmara é socialista e Medina corre para uma reeleição. A PSP fez o que pôde, logo, é preciso sacudir a água do capote. E para onde? Para cima do Sporting. Para Cabrita, o Sporting não só foi responsável por tudo, como ainda por cima não colaborou com a IGAI durante o inquérito. Ora, uma das coisas que resulta da leitura do inquérito é que o Sporting pediu uma reunião para os festejos, não uma semana antes, não 15 dias antes, não um mês antes, mas dois meses antes da festa, e a reunião a sério só aconteceu a 5 de maio, isto é, a uma semana de distância da festa do título, quer dizer, a menos de uma semana.
José Manuel Fernandes, mas o Sporting colaborou ou não com a Inspeção-Geral da Administração Interna? Pelo menos o ministro Eduardo Cabrita foi dizendo que não.
Ora bem, o relatório diz que o Sporting não enviou uns documentos que a IGAI pediu, mas o Sporting respondeu a dizer que enviou essa resposta a 14 de junho, portanto, há mais de um mês. Vamos ver. Para além disso, há outro aspecto que é: 17 de junho, o diretor de segurança do Sporting, segundo o Sporting, testemunhou perante três inspetores da IGAI. Nós não sabemos se é esta a figura misteriosa do Sporting que está no relatório, porque como sabes, também foi aqui referido hoje de manhã, todos os nomes próprios do relatório estão rasurados, mas suponho que deve ter sido. O diretor de segurança do Sporting, aparentemente falou, colaborou com a IGAI. Há aqui contradições, mas Cabrita fez o que sempre faz: tratou, no fundo, de arranjar o tal bode expiatório. Como te disse, a culpa foi do Sporting, a culpa foi de quem organizou a festa, a culpa foi das classes, ao ponto de ele agora até querer mudar a lei das manifestações.
Mas essa de mudar a lei das manifestações pareceu um pouco caída do céu.
Bem, já lá vamos. Eu acho que nem vou entrar muito por aí, que isso é uma discussão que não saímos dela. A mim o que me parece mesmo essencial, neste momento, é outra coisa, que é: a PSP não queria a Festa do Marquês, não queria desfile em caminhonete aberta pelas ruas de Lisboa, nem queria concentrações de adeptos em redor do Alvalade, nem queria video walls, nem essas coisas todas. Portanto, transmissão do jogo. O que a PSP propôs foi aquilo que naquela noite muita gente disse que ia ser o mais razoável: que se tivessem aberto as portas do estádio, deixado entrar, de forma controlada, alguns milhares de adeptos e feito a festa lá dentro. Que, aliás, tinha-se feito a festa, tinha-se dito às pessoas para ficarem em casa. Nós estamos a dizer a 7 milhões de portugueses para ficarem em casa neste momento. Que eu saiba, o Sporting não reivindica ter 7 milhões de adeptos. Nem o Benfica reivindica tantos, acho que só reivindica 6 milhões, se eu não estou em erro. Ora, a única solução que permitia algum controle da multidão, como se veio a provar, é a solução que funcionou bem em muitos estádios por essa Europa fora durante o Euro, de facto, é ter as pessoas num espaço controlado. Não era a solução que o Sporting queria, o que é natural. E como todos sabemos, no nosso país, até há bem pouco tempo, agora as pessoas esquecem, mas até há bem pouco tempo o futebol mandava na política. O Sporting não queria, o ministro Cabrita obedeceu, porque a Câmara de Lisboa também queria ir para o bailari com o Sporting. É isso que todos sabemos. E sabemos porque Sabemos que a PSP sugeriu formalmente ao gabinete do ministro para impedir as comemorações de rua e do gabinete do ministro vieram ordens para a PSP tomar providências para controlar multidões. Vieram ordens para o impossível. Ainda por cima, foi tudo feito em cima do joelho, porque como te disse, foi tudo pensado e preparado em poucos dias.
Consideras, portanto, que o ministro da Administração Interna deveria, neste caso, ter atuado de outra forma?
Acho que entra pelos olhos dentro. Em Portugal temos um governo que é capaz de criar uma cerca sanitária à volta da área metropolitana de Lisboa. Temos um governo que da noite pro dia exige aos donos dos restaurantes para verificarem os testes COVID dos seus clientes à entrada, alguns deles feitos mesmo ali à porta do restaurante. Temos um governo que impõe recolher obrigatório a 70% da população, sem se perceber bem pra quê, apenas porque sim. E acha que controla sete milhões de portugueses. Ou seja, vivemos num país onde não há dúvidas que temos um governo forte com os fracos. O que não temos é um governo também forte com os fortes, pelo menos com aqueles que julgam que são fortes, porque até aqui há umas semanas tudo quanto era futebol estava entre os intocáveis. Um governo responsável, e eu acrescento, e uma Câmara de Lisboa, talvez um pouquinho menos eleitoralista, não teriam embarcado desta forma nos festejos do Sporting por muita pressão emocional que houvesse na altura. E havia, eu não nego que havia, pelo contrário. Não teriam sequer ficado à espera que fosse o Sporting a pedir para preparar os festejos. Tinham feito antes os seus planos, tinham feito os seus cenários, tinham ido pra famosa reunião já com uma ideia, em vez de chegar ali e ser o Sporting a dizer o que é que queria. Não tinham guardado tudo pra última semana, sobretudo. A PSP no meio disto tudo, ainda por cima, foi a entidade que foi a última a saber. Quando foi a PSP, que foi quem se portou melhor, o comandante-geral esteve contra, o comando metropolitano também esteve contra. Aliás, foi também a PSP que disse à Câmara que mais festa no dia seguinte era mesmo pedir mais problemas.
E Fernando Medina, o presidente da Câmara de Lisboa, falou também numa grande receção no espaço do Conselho.
Era laró. Medina já se sabe que acha que o futebol dá popularidade. Foi o Benfica, agora o Sporting, é tudo o que der. Aliás, Medina também não seguiu o parecer dos serviços de proteção civil, porque os serviços de proteção civil da Câmara de Lisboa também eram contra o cortejo. Mas a posição que a Câmara levou pra reunião foi: "Vamos fazer cortejo." Tudo isto pra mim é verdadeiramente inacreditável. Improvisação, incapacidade de decisão, cedência à pulsão do futebol. E por fim, como se tudo isso não fosse já suficientemente grotesco, percebe-se também lendo o relatório da EGAI, que o Sporting ficou sabendo das decisões do Ministério antes da própria polícia. Isto é falta de educação. Como é óbvio, só podia ter acabado mal. Como é óbvio, aquilo que ninguém quer saber, aquilo que ninguém também quer investigar, foi o papel que aquela noite pode ter tido, não estou a dizer que teve, pode ter tido na disseminação da variante Delta na região de Lisboa. Isso, como é óbvio, ninguém quer saber, porque disso ninguém pode ter culpa. Como é sabido, disso ninguém pode ter culpa, porque toda gente sabe que a culpa é dos milhares de pessoas aos gritos e aos montes, numa tarde e numa noite inteira. Não foi cinco minutos, foram horas e horas. Isso não tem problema nenhum. O que tem problema, isso já sabes, isso está estudado, é almoçarmos no fim de semana com a nossa família no restaurante, isso é que transmite a Delta.
Mas consideras, Manuel Fernandes, que essa noite do dia 11 de maio pode ter sido uma noite também importante para o surto na região de Lisboa?
Como te disse, eu não tenho opinião sobre isso. Mas há muitos especialistas que têm essa opinião. Logo em 21 de maio, três dias depois, o que estava a acontecer? Nessa altura, Lisboa era a única região do país que tinha um RT superior a um. Nessa altura, o epidemiologista Manuel Carmo Gomes, tanto que se fala, dizia que existe uma forte plausibilidade de haver uma relação entre os festejos e o aumento das infeções. Um outro especialista, um matemático, o José Felgueiras, foi um dos homens que colaborou no plano de reabertura do país, considerava que havia uma coincidência temporal clara entre o início do aumento do número e aqueles festejos. Não sou eu que estou a dizer, são essas pessoas que estão a dizer. Eu esperava que deste inquérito que estava a ser feito ia também haver alguma coisa sobre isto, mas não, o inquérito é só à polícia. É só pra saber quantas balas foram disparadas. Passam-se imensas páginas a saber o que aconteceu às balas que foram disparadas. Mas pra saber o que aconteceu ao vírus, nem uma página. O que é natural, porque a EGAI não tem essa competência. Portanto, não estou a culpar a EGAI disso, porque sou parte da EGAI, a EGAI fez bem o seu trabalho. É evidente, logo na altura, por quê? Porque logo na altura o governo disse que não tinha nada a ver, porque tudo o que possa ser sua responsabilidade, o governo nunca tem nada a ver. Aliás, este mesmo governo, do não ter nada a ver, é o governo que esconde tudo o que consegue esconder.
Este relatório, ainda assim, não ficou escondido.
Não, este relatório não ficou escondido. Durou até o limite dos limites, mas não ficou escondido. Já agora, por falar de escondido, escondido ficou a auditoria às obras do Hospital Militar de Belém, que é um documento de 47 páginas, portanto, mais pequeno que este, da inspeção do Ministério da Defesa, que é uma obra Cujo preço mais do que triplicou, que está sem utilidade nenhuma, porque o hospital voltou a fechar. As empresas são, desculpem-me o termo, mais que manhosas. Talvez volte ao tema. Ali há muito para escavar, mas o extraordinário é que o ministro da Defesa tentou esconder a auditoria mais de seis meses, classificando-a como confidencial, como se fosse secreta, como se houvesse ali um segredo de Estado. De facto, ficamos envergonhados como é que o Ministério da Defesa faz uma obra daquelas. Não havia nenhum segredo, só havia lá é segredo sobre o lamaçal em que algumas coisas se passam em Portugal. Mas havemos a melhor dia de falar disso. Por isso é que aquilo que me aflige já nem é só o Eduardo Cabrita, que vai de disparate em disparate, de problema em problema. O que me aflige mesmo é o primeiro-ministro achar que pode continuar a tê-lo como ministro e ver estas coisas todas a passarem-se à volta dele e não fazer nada. Aflige-me isto e aflige-me o PS, que por exemplo, ainda na semana passada, nas jornadas parlamentares, acha que as críticas ao Cabrita só existem porque são cabalas contra António Costa. Francamente, acho que não são, mas se Costa não se despacha, um dia destes ainda acabam por ser.
E vamos tentar perceber também qual é a opinião dos nossos ouvintes em relação a tudo isso que fomos falando agora nos últimos minutos. Vamos só, Maria João Simões, recordar qual é o número pelo qual podem ligar os ouvintes.
É o 91 002 41 85. Eduardo Cabrita e José Manuel Fernandes têm leituras diferentes sobre o relatório da IGAI relativo aos festejos do Sporting. O ministro tem ou não responsabilidade pela situação que se criou? Queremos saber o que pensa. O número do Contracorrente é o 91 002 41 85. Ligue para nós.
E vamos agora ao encontro de André Azevedo Alves, é professor do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica, nosso convidado para este Contracorrente. Muito bom dia, André Azevedo Alves. Temos aqui estas explicações do ministro Eduardo Cabrita, que tem estado de alguma forma debaixo de fogo também ao longo dos últimos tempos. Têm-se avolumado esses casos que vão envolvendo o ministério e neste caso mais específico, o próprio ministro Eduardo Cabrita. Começo por lhe perguntar uma coisa: Eduardo Cabrita poderia e deveria ter sido mais claro naquilo que disse sobre este relatório, depois de várias semanas em que muito se falou sobre a necessidade de conhecer os pormenores também deste relatório? E também se essa eventual falta de eficácia na comunicação e nas explicações que foram dadas pode tornar-se aqui em mais um problema para o governo e também para o primeiro-ministro António Costa.
Parece-me que a preocupação de Eduardo Cabrita neste caso, como na generalidade dos outros casos em que tem estado envolvido e têm sido muitos, até é difícil de manter o registo e a memória, tal o número de casos em que o ministro Eduardo Cabrita vai estando sucessivamente envolvido. Mas dizia eu, parece-me que a preocupação principal é mais o afastar e o evitar a responsabilidade do que propriamente clarificar o que quer que seja. Nesse sentido, não sei até se será a melhor forma de descrever.
Ou seja, André Azevedo Alves, notou aqui da parte do ministro da Administração Interna uma espécie de passa-culpas em relação a esta matéria?
Sim, aliás, em linha com o que tem acontecido basicamente nos casos anteriores em que o ministro está envolvido. Ou seja, se nós formos elencar as várias reações, os casos são de natureza diferente, mas um elemento que há comum é que normalmente o ministro Eduardo Cabrita reage sempre atirando as culpas ou a responsabilidade para outra entidade, para outra pessoa, para as circunstâncias, etc. Recordo até o caso do SEF e da morte do cidadão ucraniano, em que depois até o ministro Eduardo Cabrita chegou ao ponto de dar aos restantes as boas-vindas ao combate pela defesa dos direitos humanos, já não me recordo exatamente a expressão. Mas chegou até ao ponto de depois se colocar na posição de acusador em vez de prestar contas por aquelas que seriam as suas responsabilidades políticas.
A frase era simples, fiz agora uma pequena busca, era: "Bem-vindos ao combate pela defesa dos direitos humanos." Era isso que dizia na altura o ministro.
Exatamente. E eu acho que isso talvez tenha sido o expoente máximo do não assumir de responsabilidades. E acho que é um padrão que se mantém também neste caso. Eu gostava só de chamar a atenção para um aspeto, e concordo com o que o José Manuel Fernandes referiu em termos da análise do caso, mas chamar a atenção para um aspecto que não foi referido, que é o papel de Marcelo Rebelo de Sousa, o presidente da República. Eu creio que face à gravidade dos sucessivos casos, sendo verdade que o presidente da República já exprimiu publicamente e já sinalizou publicamente o seu desconforto, mas eu creio que começa também a ser um pouco penoso, depois disso, o silêncio de Marcelo Rebelo de Sousa e depois de António Costa ter reforçado a confiança em Eduardo Cabrita, começa a ser um pouco penoso o facto de Marcelo Rebelo de Sousa se ter remetido ao silêncio e de alguma forma dar cobertura, ainda que com base no silêncio, à manutenção de Eduardo Cabrita no governo.
Aliás, numa entrevista à TVI aqui há alguns meses, Marcelo Rebelo de Sousa, questionado também e muito sobre esse episódio, por exemplo, que envolve esse cidadão ucraniano que morreu às mãos do SEF no aeroporto de Lisboa, de alguma forma, sem se dirigir de forma muito direta ao ministro e a esta situação, dizia qualquer coisa como: "Bom, eu já dei os sinais que poderia dar enquanto presidente da República, mais não posso fazer. E esta é uma matéria que compete ao chefe do governo António Costa."
E tem formalmente razão, mas também é verdade que Marcelo Rebelo de Sousa usa frequentemente as suas intervenções públicas para passar mensagens políticas. E a verdade é que desde que António Costa sinalizou que continuaria a manter a confiança de Eduardo Cabrita, Marcelo Rebelo de Sousa optou por não reforçar publicamente a pressão. Só para concluir, gostava de sugerir que comparássemos Sucessivos episódios que se têm dado com o ministro Eduardo Cabrita, com o passado há alguns anos, quando o presidente Jorge Sampaio demitiu o primeiro-ministro Santana Lopes. Gostava de sugerir que as pessoas fossem comparar as razões da altura do presidente Jorge Sampaio, com o que se tem passado sucessivamente, nomeadamente com o ministro Eduardo Cabrita. E creio que a comparação é bastante elucidativa face ao quão estranho, quão grave é que Eduardo Cabrita continue em funções, não obstante este acumular de casos e a gravidade de alguns desses casos.
André Azevedo Alves, já vamos perceber também com a ajuda dos nossos ouvintes, qual é a opinião em relação a tudo isto. Peço-lhe que se mantenha conosco em linha neste Contracorrente para termos aqui também uma nova opinião, depois daquilo que serão também acrescentes por parte dos nossos ouvintes. E vamos já ouvir o primeiro que está em linha, António Silva, tem 60 anos de idade, é funcionário público, liga-nos de Odivelas. Muito bom dia, António, qual é a sua opinião?
Muito bom dia a todos. A minha opinião é simples. Eu tenho aqui uma preocupação com esta alteração que se calhar se vai mexer na lei das manifestações. É a única preocupação que eu tenho. Agora, sinceramente, o Cabrita, coitado. O homem é um boçal, o homem não sabe fazer nada, o homem é um incompetente. Mas a culpa, se calhar, também nem é dele, a culpa é do primeiro-ministro que o mantém lá e a culpa é do Presidente da República, que se calhar por muito menos, como o seu colega disse, já foi dissolvida a Assembleia da República para haver eleições. Só que eles não querem eleições porque têm medo do Chega, é a única coisa. Mesmo para o Presidente da República também não lhe convém muito que haja eleições. Mas ele também é um dos culpados. Isto falar também não chega. Eu também ainda gostava de ver qual é o político que seja responsável. Não há nenhum. Desde o 25 de Novembro para agora, não há nenhum político que seja responsável. Eles fazem as coisas, não são responsabilizados por nada. A vida mantém-se dia a dia, ano a ano. Eles cada vez têm menos vergonha. Se fosse um ministro em condições, se fosse um ministro, uma pessoa que tivesse o mínimo de dignidade, o mínimo de caráter, o mínimo de ética, alguma vez quando aconteceu aquilo que mataram o homenzito lá no aeroporto, este ministro tinha algumas condições, mesmo ele próprio. Não tinha. Já se tinha demitido, pelo menos demitir, que é uma culpa. Isto também não é nada. "Ah, é culpa política." Isto também não é nada, culpa política. Olha, tomara eu ter na vida muitas culpas políticas, ficava na mesma, não tinha nada. Portanto, a minha preocupação aqui é realmente se eles mexem na lei das manifestações. Aliás, não sei se vocês conhecem, o doutor Rui da Fonseca já manifestou uma preocupação muito grande, por quê? Porque isto é pessoal que gosta muito da Coreia do Norte e de Cuba, que acham que a democracia na Coreia do Norte e em Cuba é um exemplo a seguir. Isso é pessoal deste. E esse pessoal pode começar a deixar só que as pessoas se manifestem da cor deles. Essa coisa de mexer na lei das manif é muito perigoso. Espero que os portugueses abram os olhos para este tipo de gente. Muito obrigado.
Agradeço a sua participação, António Silva. Vamos agora ao encontro de António Prado e Sousa, tem 67 anos, liga-nos de Matosinhos e é engenheiro agrônomo. Muito bom dia, António, qual é a sua opinião?
Muito bom dia. Sobre este inarrável ministro, só me apetece fazer dois comentários. O primeiro é: o senhor, cada vez que intervém, é como diz o povo, cada cavadela, uma minhoca. O segundo comentário, e agradecendo do fundo do coração ao Observador estas oportunidades que dão às pessoas como eu, simples cidadãos, terem vez e terem voz e expressarem a sua opinião. Eu acho que o ministro Cabrita, como é óbvio, fazendo jus ao nome, precisa sempre de um bode expiatório, um bode para o Cabrita, claro. Nem que seja expiatório, obviamente. Muito obrigado, é só isso. Um grande abraço para toda a vossa equipa e bem-haja pelo serviço público que prestam a este país.
Nós é que agradecemos a sua participação, António Prado e Sousa. Vamos também ao encontro do nosso próximo ouvinte em linha, Duarte Nunes. É economista, liga-nos de Oeiras, tem 37 anos de idade. Muito bom dia, Duarte Nunes, qual é a sua opinião?
Olá, bom dia. Em primeiro lugar, acho que é uma prática que deve ser feita, agradecer ao Observador pelo excelente trabalho que faz, sou um ouvinte assíduo. Sobre esta situação, eu começo a ter uma opinião um bocadinho disforme, da qual tenho um pouco receio até. Começo a achar que, na verdade, ninguém quer ganhar as próximas eleições legislativas. Começo a achar que o Governo não quer, não poderia. Também as falhas dos seus próprios ministros e também as falhas de vários aspetos da governação, incluindo com a gestão toda esta situação do coronavírus. Porque na altura parece: será que António Costa quer que seja eleito? E depois, por outro lado, vou à oposição e vejo apatia. Aquela oposição que efetivamente poderia formar Governo, que seria liderada pelo PSD. Vejo uma apatia que me leva a pensar: será que o PSD quer formar Governo? E depois penso: que razão será isto? O próximo ciclo que aí vem vai ser um ciclo, eu diria, catastrófico do ponto de vista económico. Ou seja, é aquele ciclo em que quem governa diz que o país está de tanga ou está nu. E dá-me ideia que a direita já percebeu que não quer apanhar um país de tanga novamente, como apanha sempre. Apanhou com o Durão Barroso, apanhou com Pedro Passos Coelho. A ter que tomar medidas impopulares para depois perder as próximas eleições de forma categórica. As eleições já do segundo ciclo O meu PP sabe que se ficar com o milho nas mãos agora, vai ter quatro anos de governação horrores, com também medidas impopulares para tomar, sem saber o que fazer, com finanças públicas completamente desfeitas. Como a economia a precisar não é de uma bazuca de 1 milhão de paia, mas de um esmerilhador de 1 milhão de paia, eu começo a pensar que ninguém quer governar. Estamos todos a tentar, uns fazer asneiras para ver se os portugueses não votam neles, e outros não corrigir essas asneiras, nem atacar essas asneiras para ver se os portugueses não votam neles.
Eduardo Nunes, agradeço a sua opinião. Temos que ficar por aqui, até porque a qualidade da chamada não é a melhor, mas ainda assim conseguimos perceber de forma mais genérica também a sua opinião. Agradeço a sua participação. Ligou-nos de Oeiras. Vamos agora também aqui com a Judite França perceber como estão esses comentários no site do Observador e também nas redes sociais. Judite.
Começamos, João, por ouvir o que vem nas redes sociais, nomeadamente Ruben Faria, que nos fala do governo de Santana Lopes e diz que o governo de Santana caiu por menos. António Guterres pediu eleições por menos, o governo de Costa e os seus ministros são imortais, não fosse António Costa o número dois de José Sócrates e talvez isto tudo surpreendesse alguém sem que ninguém ficasse surpreso. Quando se nivela por baixo, nunca se esperam grandes melhoras. Temos outro ouvinte, Ernesto de Sousa, a dizer que o PS é absolutamente medíocre desde o início, com uma falta de quadros confrangedora. É um governo dos requentos de Sócrates numa espécie de reciclagem, chefiado por um incompetente que nem sequer conseguiu melhorar em seis anos de aprendizagem. Temos ainda um outro ouvinte que diz que Cabrita ficará na história como o pior ministro de sempre, o maior erro de casting, o mais incompetente, desajeitado, arrogante e vergonhoso personagem que alguma vez ocupou um lugar de ministro. Há ainda um outro comentário sobre os festejos do Sporting, especificamente, dizendo que não é só a questão do Sporting, é a ausência total de um Estado de direito. A função da administração interna é manter o primado e a aplicação da lei, mas este governo de mafiosos fascistas apenas tem servido a coisa pública para impor as suas ideologias e subverter precisamente o Estado de direito. E depois faz uma historiografia sobre o último ano, primeiro em relação a 1 de maio, quando o governo alargou a situação de permanência regular no país dos imigrantes com processos pendentes no SEF e determinou que os descendentes desses cidadãos passassem a poder aceder a abono de família. Faz ainda uma contabilidade sobre o número de imigrantes ilegais que foram legalizados e diz que pelas contas são 10% da população, ou seja, ultrapassa um milhão de pessoas, sem contar este alargamento com os respetivos descendentes. Este ouvinte diz ainda que o governo tem estado a preparar uma limpeza étnica dos portugueses para nos substituir por gentes vindas de outros pontos do globo. Vamos só ler aqui mais um em que o ouvinte, neste caso, fala também sobre a questão do Sporting, especificamente, e diz que o diretor-geral da PSP, ao enviar relatórios para o Ministério da Administração Interna e nada serem feitos, vê a defender este ministro. E ainda conclui: "Gostam mesmo de ser enganados". E isto referente a um outro ouvinte que antes vem defender o ministro da Administração Interna e escreve: "Querem ver que foi Cabrita que ordenou a festa do Sporting." João.
São muitos os comentários, como percebemos aqui com a Judite França, vários ouvintes que querem também responder a essas perguntas formuladas também pelo José Manuel Fernandes: Eduardo Cabrita sobrevive a tudo. A culpa é ou não do Sporting? São algumas das perguntas do Contracorrente de hoje, mas também, de uma forma um pouco mais ampla, discutimos aqui na edição de hoje essa posição de Eduardo Cabrita e a manutenção no executivo de António Costa. E foram muitas as reservas dos ouvintes em relação a esta matéria. André Azevedo Alves, professor do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica, está conosco aqui neste Contracorrente especial. Mais uma vez, bom dia, André Azevedo Alves. Como ouvimos aqui pelos nossos ouvintes, a maioria considera que Eduardo Cabrita não tem condições para permanecer no governo, mostram-se preocupados com aquilo que pode vir a ir por diante com a lei das manifestações. Afirma também um dos ouvintes que Eduardo Cabrita precisa sempre de um bode expiatório e há até um ouvinte que diz que neste momento parece que ninguém quer ganhar as eleições. Isto quer dizer que a própria oposição tem aqui culpas no cartório, tendo em conta aquilo que têm sido esses casos sobre os quais já falamos e que vão envolvendo o Ministério da Administração Interna?
Sim, parece-me também que sim, essa é também uma dimensão importante, nomeadamente também para compreender, e na minha primeira intervenção fui crítico e mantenho essa crítica da atuação do presidente da República neste caso, mas também é preciso ter em conta que a atuação do presidente da República tem necessariamente também Ter em perspectiva qual é a alternativa política que se posiciona. A margem de atuação do Presidente da República também é reduzida pelo fato de, nomeadamente, as sondagens e a percepção da opinião pública, não obstante sinais de insatisfação e problemas com o governo e com o Partido Socialista, não apontar para uma alternativa clara de governação. Aliás, estamos bastante longe disso. E depois Eduardo Cabrita, além da relação pessoal muito próxima e de longa data com António Costa, acaba por funcionar como uma espécie de para-raios do governo. A quantidade de casos e de problemas com Eduardo Cabrita é de tal ordem que outros membros do executivo, estou a pensar na Ministra da Saúde e no Ministro da Educação, acabam por estar, do ponto de vista das críticas e da exposição mediática menos positiva, calmos.
E é nisso que António Costa pode estar a apostar até as próximas eleições, que neste caso são as autárquicas?
Eu não diria que será um plano deliberado, ou seja, de ter Eduardo Cabrita sucessivamente envolvido em casos para funcionar como para-raios pro resto do governo. Eu diria que pode funcionar como um fator que minimiza o custo político de manter Eduardo Cabrita no governo. Eu creio que esse custo político existe e creio que há um desgaste que se estende ao próprio primeiro-ministro e ao governo, mas também há esse fator. Não é por acaso que hoje e noutras circunstâncias, estamos a discutir o ministro Eduardo Cabrita, não estamos a discutir os problemas ou os erros de outros ministros e portanto, de alguma forma, o facto de Eduardo Cabrita e essa virtude pelo menos tem que ser reconhecida, ter uma extraordinária resistência no cargo e permanecer em funções mesmo nestas condições e não obstante os sucessivos casos, acaba por dar alguma folga e algum descanso do ponto de vista mediático e da crítica política até aos seus colegas do executivo.
André Azevedo Alves, peço que se mantenha em linha. Vamos só aqui perceber também com o José Manuel Fernandes, qual será o futuro de Eduardo Cabrita, tendo em conta e pego aqui nesta expressão utilizada por um ouvinte, que diz que Cabrita poderá ficar na história como o pior ministro de sempre em Portugal. É ou não um caso para dizermos isto neste momento, José Manuel Fernandes? Obviamente que o tema de hoje era um pouco mais centrado nesta questão do relatório que se seguiu a esses festejos do Sporting em maio, mas a verdade é que os ouvintes vão também assinalando vários episódios, vários casos que envolvem o ministro da Administração Interna e há este que inclusive diz que Cabrita se arrisca a ser o pior da história.
A nossa história é longa e mesmo da história democrática já leva 40, quase 50 anos e piores ministros há muitos pretendentes. Portanto, não me arrisco a fazer tal previsão. Eduardo Cabrita já tem, de facto, uma acumulação enorme de casos e tem uma maneira de estar em cada vez que vai ao Parlamento, em vez de dar explicações, segue aquela máxima de que a melhor defesa é o ataque e a melhor forma de estar no Parlamento muitas vezes é praticamente o insulto, que não me parece ser a forma mais brilhante e mais educada de debater e que não esclarece nada. E portanto, não é um ministro que eu penso que os portugueses vão ficar com especiais saudades no dia em que ele sair. Agora, não faço ideia no dia em que ele vai realmente sair, porque já se percebeu que não será enquanto se falar de remodelação. Há uma velha regra na política, que habitualmente os governos, os primeiros-ministros não remodelam quando se está a falar de remodelações e procuram remodelar de surpresa, quando ninguém está a falar do assunto. Talvez a única exceção que me recordo que tenha acontecido isso, foi uma remodelação feita por António Guterres, que nem sequer lhe correu muito bem, porque ele entrou por uma porta das traseiras em Belém, depois o carro foi apanhado, enfim, uma história um pouco rocambolesca, já há mais de 20 anos, em que de facto havia também uma grande pressão para remodelar e esse governo até acabou por não acabar bem, para assim dizer. Foi a altura em que saiu Pina Moura, entrou Guilherme Oliveira Martins, por exemplo, para a pasta das finanças. Não foi uma remodelação particularmente feliz, foi uma remodelação sob pressão, já numa altura em que havia claramente falta de energia no executivo. Já pelo contrário, as remodelações que às vezes procuram dar outro alento são aquelas que procuram tirar os chamados abcessos de fixação, os ministros que estão permanentemente nas páginas dos jornais e que toda a gente está permanentemente a falar deles.
Mas essa ideia que falava André Azevedo Alves de um ministro que serve como para-raios do governo é uma imagem feliz? Pode estar António Costa a pensar nisso mesmo até ao outono, até às eleições autárquicas?
Poderá estar a pensar nisso, só que há mais ministros que surgem com problemas. Eu diria que do ponto de vista do escrutínio político, haveria mais ministros a merecer mais escrutínio, primeiro de todos a Ministra da Saúde, mas também há vários problemas com a Ministra da Justiça, problemas com o Ministro da Defesa, o Ministro da Educação é outro caso gritante. Semana passada houve aqui um encontro sobre educação e foi muito participado e bastante E as pessoas que vieram traçaram um retrato problemático. Portanto, há muitas situações que exigiam mais discussão, mas simplesmente não são tão vistosas como o caso de Eduardo Cabrita. Pode ser uma situação em que, de facto, como os outros ministros não estão em choque com nenhuma corporação, vão se dando bem com as corporações, Eduardo Cabrita vai servindo para aparar as fúrias midiáticas. E portanto, é capaz de ser uma forma de o primeiro-ministro ter ali uma espécie de bombo da festa para nos entretermos e passarmos o verão ainda mais "silly season" do que costuma ser.
E vem aí o verão e normalmente o verão é uma altura muito complicada também para os ministros da Administração Interna, com a questão dos incêndios. André Azevedo Alves, tendo em conta esses meses que temos pela frente de incêndios e é sempre uma incógnita também aquilo que podem ser os efeitos políticos desse período, antevê meses muito difíceis para Eduardo Cabrita nos próximos tempos? E pergunto-lhe também se antevê também que há alguma possibilidade de o próprio ministro da Administração Interna se retirar ou se essa terá mesmo de ser uma decisão por parte do primeiro-ministro António Costa.
Em relação aos incêndios, é muito difícil fazer uma previsão. Isso vai depender também das próprias condições climatéricas e das condições naturais, portanto é difícil. Eu diria que se tivermos um mau ano a esse nível, poderá ser mais um fator de pressão e desgaste para o ministro Eduardo Cabrita, ainda que face ao acumulado de casos, eu acho que também começa a ser difícil até de imaginar qual o tipo de situação que poderia conduzir à demissão do ministro, face ao que já está acumulado para trás. Em relação ao que poderia ser uma decisão do próprio de se retirar, e o que eu dizia há pouco, acho que se há virtude ou se há qualidade que tem que se reconhecer a Eduardo Cabrita, é a sua extraordinária resistência em funções. Para a generalidade das pessoas, o estar na própria situação em que ele está teria também um desgaste psicológico brutal. Especialmente alguns dos casos, não diria todos, mas alguns em particular, teriam um desgaste muito significativo. E a verdade é que, também como referiu o José Manuel Fernandes, Eduardo Cabrita mantém-se em funções, vai dando as respostas, habitualmente também num registo por vezes a roçar o insulto ou mesmo a pisar esse registo em termos de comunicação. E portanto não parece dar sinais de estar pessoalmente muito afetado ou muito influenciado por esta sucessão de casos. Ao mesmo tempo, acho que ainda assim é humano admitir, é razoável admitir que humanamente exista algum desgaste e portanto eventualmente poderá haver uma conjugação de fatores que leve à saída do ministro, mas também parece que se acontecer, dificilmente será, até pelo que tem sido o perfil de atuação de António Costa, dificilmente será no pico de um destes casos.
Com aquela ideia de que se um ministro sair em determinada altura, essa situação estará a dar razão à opinião pública.
Sim, exatamente. Será provavelmente no momento em que não esteja na ordem do dia, provavelmente será inserido numa remodelação um bocadinho mais ampla e apresentada como tal. E não provavelmente num destes momentos de pico relacionado com um dos inúmeros casos em que Eduardo Cabrita tem estado envolvido.
Agradeço ao André Azevedo Alves, professor do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica, a participação neste Contracorrente, que hoje esteve a discutir esta permanência de Eduardo Cabrita no cargo, mas de forma mais específica também essa questão relacionada com esse relatório que foi divulgado pelo Ministério da Administração Interna, que foi feito pela IGAI a propósito dos festejos do Sporting. A pergunta hoje era: Eduardo Cabrita sobrevive a tudo? A culpa é do Sporting. Ora o Contracorrente está de regresso amanhã para mais uma edição, um novo tema e como sempre com o José Manuel Fernandes.
Eu sou o José Manuel Fernandes, obrigado por ter ouvido este podcast. Pode subscrevê-lo ou partilhá-lo. A Rádio Observador, pode ouvi-la online ou em 98.7 na Grande Lisboa ou 98.4 no Grande Porto