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É hora de conhecermos o tema do Contracorrente. Depois, para participar, só tem que ligar para nós 91 002 41 85, mas já sabe que também nos pode deixar a sua mensagem nas redes sociais, no nosso site ou então enviar-nos o seu áudio através do WhatsApp 91 002 41 85. Carla. Depois do vento chegou mais chuva, muita mais chuva, tanta chuva que ninguém parece capaz de garantir que não tenhamos grandes cheias, estando o maior risco no Mondego. Hoje por hoje, a baixa de Alcácer do Sal já passou com água pelos tornozelos e há muita gente a olhar para as águas do Tejo com receio que o grande rio transborde. Num Contracorrente anterior, já falámos de rios, caudais e barragens e percebemos que, apesar de tudo, é mais fácil prever a chegada de uma cheia do que a dimensão de uma tempestade como é a Cristina. Há, contudo, um tema que com o risco de cheias volta a ser debatido, o de saber se com mais barragens estaríamos mais protegidos. José Manuel, achas que nos faltam mais barragens para estarmos mais seguros? Bom dia.

Bom dia, Carla. Acho que pelo menos há uma que fica no vale do Mondego, que toda a gente diz, os técnicos, as empresas, que já devia ter sido construída e que provavelmente poderia ajudar a controlar a cheia, a zona mais complicada, como tu dizes, que é o Mondego. É uma barragem que em boa parte não foi construída por causa dos acordos da geringonça, os acordos com o Bloco de Esquerda e com o Partido Os Verdes. Era uma barragem que era para ser construída pela Lindesa, que fica na zona de Seia, portanto ainda no princípio do Mondego. E de facto, isto não é um detalhe. Não é um detalhe, porque sobretudo na zona do Douro e no Tejo, e também no Mondego, nestes três grandes rios, a existência de grandes barragens, que em alguns casos ficam em Espanha, por exemplo, no Tejo é muito determinante uma barragem que fica localizada um pouco antes do Tejo entrar em Portugal, que é a barragem de Alcântara. No caso do Douro é parecido, apesar de haver também algumas barragens portuguesas muito relevantes, designadamente algumas no rio Tâmega, que também foram polémicas, para dizer o mínimo. Temos outras situações no Cávado e há barragens que não foram construídas por causa daquelas polémicas que há sempre das providências cautelares, das mobilizações, disto e daquilo e daquilo outro. E vale a pena revisitar essas questões, porque como nestas alturas, nós percebemos o valor de chegar a soluções que nunca são ótimas, mas são, porventura, aquelas que têm melhor impacto positivo na vida das populações e, no limite, também na vida da biodiversidade, na vida dos animais e das plantas, daquelas zonas ribeirinhas. Eu devo dizer que ao longo da minha vida, da experiência que tive, passei por várias fases e já me enganei bastante no que diz respeito a opiniões sobre barragens. Eu, por exemplo, durante muito tempo não acreditei que a barragem do Alqueva fizesse sentido ser construída. Eu hoje mudei completamente de opinião, completamente, radicalmente, e acho que ainda bem que temos lá a barragem do Alqueva, no rio Guadiana, que foi construída com muitos anos de atrasos, muitas polémicas, muitas controvérsias, mas se não fosse a sua existência, foram evacuadas, neste momento, tiradas do lar onde estavam 72 pessoas em Mértola, mas se calhar não teria acontecido só isso em Mértola e adjacente Mértola, portanto, naquelas povoações, Alcoutim, no limite Vila Real de Santo António, por aí abaixo até à foz. A mesma situação se passa em muitos outros rios e, portanto, vale a pena, na minha perspectiva, pelo menos, revisitar este tema, porque há sempre aqui um balanço de valores a ter em conta. Por um lado, as barragens não servem apenas para produzir eletricidade, não servem apenas para regular o curso dos rios e de alguma forma controlar melhor as cheias e o que exige uma gestão extraordinariamente complexa, devo já adiantar, ou então para abastecer água às populações. Por exemplo, a zona que tem sido mais crítica tem sido Alcácer do Sal. Alcácer do Sal está debaixo de água já não sei há quanto tempo, aliás, tu recordaste, e voltou a ter uma noite muito complicada. O Sado é um rio relativamente pequeno, comparativamente com o Tejo ou com o Guadiana ou com o Douro, é um rio relativamente pequeno, mas nele não existe nenhuma grande barragem. Portanto, existem várias barragens, algumas delas muito antigas, quase com 100 anos, mas que foram construídas para rega, o que quer dizer que a sua gestão é feita de forma diferente e o resultado tem sido dramático para o Alcácer do Sal, pelo menos à primeira vista. É evidente que tudo isto vai precisar de balanços e de avaliações e depois perceber o que é que se pode fazer melhor da próxima vez. Mas não podemos olhar para isto e dizer assim: "Há uma espécie rara aqui ou acolá" e depois verifica-se que, afinal de contas, por exemplo, dizia-se que a construção da Ponte Vasco da Gama ia dar cabo da reserva natural do Tejo. E hoje nós temos na reserva natural do Tejo mais aves e mais biodiversidade do que tínhamos antes da ponte, porque não é só a ponte que impacta, há muitos outros fatores que impactam. No caso da ponte, algumas das mesmas organizações que agora andam a fazer petições e ações judiciais, também andaram a tentar parar a ponte por todos os meios ao seu alcance. Mais uma vez, é necessário ter em conta todos os valores e vale a pena falar um pouco sobre isso.

Está combinado, então, depois das 10:00. Até já, José Manuel. Até já, ligue 91 002 41 85 e dê-nos a sua opinião em direto no Contracorrente. Tem também as nossas redes sociais, o site do Observador e pode sempre enviar-nos a sua mensagem de voz, o seu áudio por WhatsApp 91 002 41 85.