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José Manuel Fernandes quer hoje falar-nos de um tema que suspeita que não é lá muito contra corrente. E então que tema é esse?
Bom dia. O tema é o Banco Alimentar contra a fome. E quero falar dele porque ele está a realizar mais uma campanha de recolha de alimentos. É uma campanha que desta vez é sem voluntários, não há voluntários nos supermercados, naturalmente, por causa desta pandemia, é na internet. Aliás, quem quiser basta procurar um site que é: alimente esta ideia. Mas não é bem por isso que eu quero falar do assunto. Eu digo que não é muito contra corrente, porque estas campanhas têm sempre uma grande adesão, sobretudo, penso eu, em alturas como esta, em que se tem a noção de que as pessoas estão com fome, que há muitas famílias a passar necessidades. Aliás, segundo os números do banco e segundo o Presidente da República disse este fim de semana, haverá uns 400 mil portugueses a receber este tipo de ajuda, o que é um número incrível. 400 mil é imensa gente. Acho, que eu não me engano, dizer que o Banco Alimentar é daquelas instituições que são queridas pela maioria dos portugueses. É uma instituição em que confiam e é uma organização que sabem que trabalha para o bem comum.
E é por isso que estas campanhas também têm sempre muito sucesso, não é?
Sim, eu acho que é seguramente por isso, até mesmo sendo verdade que os alimentos recolhidos nessas campanhas não representam senão uma pequena parte do que é distribuído pelo Banco Alimentar. Eu acho que é uma realidade que a maior parte das pessoas não tem muita noção, mas a maior parte das doações vêm de empresas, sobretudo as empresas de distribuição. Simplesmente isso não é publicitado, porque é um trabalho que se faz, pronto, está feito, todos os dias, em todo o país, e é assim que funciona.
E é assim que funciona, mas há muitas pessoas que não têm noção disso.
Eu acho que isso faz um pouquinho parte do que é o Banco Alimentar. Quer dizer, não é feito muito pra publicidade. Mas eu acho que não era sobre isto que eu queria falar, porque esta parte é a parte, digamos, que não é contra corrente. Há uma outra parte que me faz muita impressão sempre que há estas campanhas, que vem sempre ao de cima um lado de ódio ao Banco Alimentar que me faz imensa impressão. Particularmente o ódio à figura mais conhecida dos Bancos Alimentares, que é a Isabel Jonet, que é a coordenadora do Banco de Lisboa e dos Bancos Nacionais. Por exemplo, ainda ontem no Twitter lá estava, quem havia de ser, o secretário de Estado João Galamba a atacá-la.
A atacá-la. E por quê?
Foi numa resposta a um tweet onde alguém perguntava àqueles que se batam de casca na Isabel Jonet, a expressão era esta, o que eles andavam a fazer, de facto, pra ajudar os mais desfavorecidos. E então lá vem logo o nosso João Galamba, que nunca é capaz de assistir ao Twitter, e veio com a seguinte resposta: "Simples, defender o Estado social universal, que Jonet tanto desvaloriza e até critica." Eu acho esta resposta mesmo extraordinária. Primeiro que tudo, é extraordinária porque neste momento o tal Estado social universal do governo, de que até o João Galamba faz parte, na prática deixou sem rendimento dezenas e dezenas de milhares de pessoas. De um dia pro outro, houve milhares e milhares de famílias que ficaram literalmente no ar, a verem os frigoríficos esvaziarem-se. Eu já falei muito dessas situações aqui, muito nesta crônica. A Isabel Jonet também já esteve várias vezes na Rádio Observador e noutras rádios, nas televisões, a descrever um pouco o que se está a passar. O próprio presidente da República já tem chamado a atenção para esta situação, que são trabalhadores independentes, são feirantes, são pessoas que tinham empregos informais e nem tudo isto está previsto nos lay-offs, não é abrangido pelo subsídio de desemprego. Portanto, há, de facto, inúmeras situações que são de enorme aflição, não causaram ainda nenhuma explosão social, mas a verdade é: quem é que tem acolhido essa gente? Não é seguramente o tal Estado social universal do nosso secretário de Estado João Galamba. Têm sido, goste ele ou não, os voluntários da Isabel Jonet.
E o Estado, também tomou muitas medidas de exceção.
As medidas de exceção do Estado nunca chegam a todo lado. É mesmo necessário nós termos noção disso. Quem está no terreno sabe que é precisa a capilaridade, o facto de haver muita gente voluntária no terreno a fazer coisas, às vezes a todas as horas do dia, porque sem isso, se fosse com os horários das repartições das 9 às 16h, os problemas não iam ser resolvidos. Mesmo assim, aquilo a que eu costumo chamar a esquerda ululante, não perde uma oportunidade para satirar a Isabel Jonet. Às vezes há disparates puros e duros. Eu lembro, por exemplo, que aqui há uns anos houve uma altura em que houve uma polêmica e mesmo uma pessoa com pau poderoso, como é propriamente uma pessoa desprovida, sugeriu que o Banco Alimentar não existia por causa da fome, mas para corrigir os defeitos da distribuição comercial de alimentos. Eu acho que é preciso não ter noção nenhuma da realidade pra escrever uma coisa dessas. Ele escreveu no blog dele. Mas aquilo que mais me irrita, devo te dizer, aquilo que mais mexe com os nervos, é quando começam a falar de caridadezinha.
Por que te irrita?
Primeiro, irrita-me este tom sarcástico de caridadezinha. Primeiro ponto: parece que caridade é uma coisa má, quando caridade é uma virtude. Aliás, pra ir direto ao assunto, eu acho que na cabeça dessas pessoas, muitas dessas pessoas, a caridade é mesmo uma coisa má. Para elas, no mundo não devia ter lugar a caridade, porque o Estado trataria de tudo. E, de facto, era muitíssimo mais confortável, quer dizer, para essas pessoas era muito mais confortável, era muito mais confortável pras suas consciências. Em vez de se incomodarem em fazer voluntariado, bastava fazer aquilo que habitualmente fazem: pedir mais impostos sobre os outros e depois alguém distribuía o dinheiro desses impostos. Em vez de se levantarem cedo num domingo para ir para a porta de um supermercado ou de irem pra rua numa noite de inverno distribuir refeições, exigem ao Estado que faça tudo isso por eles e, naturalmente, com o dinheiro dos impostos dos outros. Portanto, é muito fácil, de facto, ser solidário, desde que não se suje as mãos. É muito fácil ser solidário, mas da boca pra fora e desde é claro que seja o Estado a fazer. Ora, a verdade é que mesmo os mais perfeitos Estados sociais, mesmo aqueles que nós damos como exemplos, há fome, sempre houve. Por exemplo, mesmo na Suécia, há Bancos Alimentares. Eu estou a falar da Suécia, rica, social-democrata, Bancos Alimentares. Ora, por isso, além de que nenhum Estado substitui o dever que cada um de nós tem de se preocupar com o seu próximo, porque no fundo, cada um de nós tem algum dever de praticar o bem e não apenas de achar que os outros é que devem fazer isso em nosso nome.
José Manuel Fernandes com o Contracorrente de hoje, todos os dias aqui nas manhãs 360 e também sempre que quiserem para escutarem em formato podcast. Eu sou o José Manuel Fernandes, obrigado por ter ouvido este podcast. Pode subscrevê-lo ou partilhá-lo. A Rádio Observador, pode ouvi-la online ou em 98.7, na Grande Lisboa, ou 98.4, no Grande Porto.