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Mariana Mortágua anunciou este sábado que não se vai recandidatar à liderança do Bloco de Esquerda, considerando que depois dos insucessos eleitorais, legislativas e autárquicas, haverá pessoas no Bloco com melhores condições do que ela para dar voz ao partido. É verdade que depois dos maus resultados, sobretudo depois da imagem que transmitiu ao decidir acompanhar a flotilha, deixando num primeiro momento o Parlamento, é verdade que muitos lhe pediam que deixasse a liderança, e é isso que vai acontecer. Mas uma vez que a convenção está marcada já pra novembro, o Bloco tem pouco tempo para escolher um novo líder e não parece ter ninguém que possa ocupar o lugar de Mariana na Assembleia e, ao mesmo tempo, dirigir o partido. Este fim de semana especulou-se em torno do nome de José Manuel Pureza, mas por enquanto é mesmo só especulação. No Contracorrente de hoje, vamos procurar perceber o que se passa com o Bloco e aproveitar para tentar também perceber o que se passa com o LIVRE, que hoje reúne para discutir a opção a tomar nas presidenciais. José Manuel, bom dia. Será que o Bloco consegue recuperar ou corre mesmo o risco de desaparecer?
Eu creio que o Bloco está numa fase em que corre mesmo esse risco. O Bloco era um partido, um objeto político dificilmente identificável, porque verdadeiramente era um partido que vivia muito de agendas midiáticas e da capacidade de criar temas que agradavam sobretudo a públicos urbanos, classe média e até nalguns aspectos, classe média mais pro alto que pro baixo. E neste momento há mais forças políticas a falar pra o mesmo tipo de eleitorado, com agendas em alguns aspectos semelhantes e que não têm aquilo que também se tornou mais evidente no Bloco nos últimos tempos, que foi as suas origens, as suas raízes, no fundo, a sua ideologia. Durante muito tempo, enfim, a última década, sobretudo com a liderança de Catarina Martins e João Semedo, Catarina Martins e depois só Catarina Martins, aquilo que eram as raízes ideológicas do Bloco ficaram de alguma forma mascaradas até pela presença na geringonça. Às vezes parecia que o Bloco era uma versão mais soft, mais urbana e mais moderna do PCP, apenas isso, e não aquilo que geneticamente ele era. O Bloco tem origem, e nunca perdeu completamente essa ligação às suas origens, num partido trotskista, o PSR de Francisco Louçã, e num partido que cresceu no maoísmo, que era a UDP de Luís Fazenda, temperado com a moderação de comunistas desiludidos com a ortodoxia do PCP, que no caso era Miguel Portas. E isto durante muito tempo não se falava, achava-se que as ideologias acabaram, passaram, são de outro tempo. O que interessa são estas agendas modernas e o Bloco teve umas circunstâncias que o favoreceram muito. Apareceu era líder do Partido Socialista, um católico que era contra as agendas fraturantes, António Guterres. Houve uma sucessão de eleições relativamente rápida, três assembleias interrompidas, em 2002, 2005. Quer dizer, ele apareceu em 1999 e depois duas assembleias interrompidas. E cavalgou também, como muitos outros partidos parecidos cavalgaram por essa Europa afora, a crise financeira. Foi o período áureo que ao lado da Espanha do Podemos, na Grécia do Syriza, partidos que até chegaram muito mais longe do que o Bloco e que estão hoje também pelas ruas da amargura. Vieram por aí abaixo novamente. Bem, o Syriza deixou o governo, deixou de ser o maior partido da Grécia. É difícil perceber o que pode ser o futuro do Bloco, porque atribuir as culpas à Mariana Mortágua, quando de alguma forma ela representava de uma forma mais fiel aquilo que é, no fundo, a natureza do Bloco, é porventura enganarmo-nos no alvo. Porque pra ter um LIVRE com um pouquinho mais cafeína, que é algumas soluções que às vezes apontam pra aí, não faz muito sentido. Ou pode não fazer muito sentido. O LIVRE apesar de tudo é um partido que sai do Bloco, o Rui Tavares foi eurodeputado pelo Bloco, mas tem hoje algumas diferenças importantes relativamente às políticas europeias, por exemplo. Eu acho que vale a pena falar um pouco disto até ver o que pode acontecer neste espaço político que não deixa de receber más notícias. E curiosamente, isto só não está na Europa nas ruas da amargura quando se casou de alguma forma com os setores mais esquerdistas dos socialistas tradicionais. Isto está a acontecer no Reino Unido, já aconteceu na Alemanha, já aconteceu em França. Não sei se é esse o destino em Portugal, não há sinais que isso possa acontecer, mas não se sabe.
Vamos ver então.
Portanto, vamos falar um pouco disso tudo, até porque há aqui uma questão mais de fundo, se quisermos, que é por que todos estes partidos que pareciam a caminho do poder há 10, 15 anos, estão agora neste estado tão catatônicos, digamos assim.
Sim. Até já então, pra discussão, José Manuel.
Até já.
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