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Vamos ao tema do Contracorrente desta sexta-feira. Para participarem e nos dar a sua opinião em direto, basta ligar para nós 91 002 41 85 ou então enviar-nos a sua mensagem de voz pelo WhatsApp para o mesmo número 91 002 41 85. Contracorrente que hoje começa mais cedo, logo a seguir ao Jornal das 9. Carla.
O Orçamento do Estado foi ontem entregue na Assembleia da República e, ao contrário do que sucedia ainda há poucos anos, o documento não parece ter surpresas nem grandes novidades, nem sequer há muitas dúvidas sobre vir a ser aprovado. Mas será isso bom ou mau sinal? O que achas, José Manuel? Bom dia.
Bom dia. Eu acho que é bom sinal. O drama do orçamento é um drama que nos habituámos a viver, até com meses de antecedência. O que é que vinha, o que é que não vinha, negociações, propostas, isto para aqui e para acolá. Depois habituámo-nos também a viver o drama das alterações na especialidade, multiplicaram-se os partidos, multiplicaram-se as propostas, as listas são imensas, a votação nunca mais acabava. Essa parte é capaz de não desaparecer, imagino que vamos ter também esse romance, essa telenovela. Houve anos até em que governos caíram por causa de orçamentos não aprovados e até à última hora achou-se que eles podiam ser aprovados. Todos estes dramas, de alguma forma, parecem ter ficado para trás, até por sinais que vêm, por exemplo, do Palácio de Belém, do presidente António José Seguro, que já deu a entender que se não houver orçamento aprovado, ele não dissolve o Parlamento. Não segue a mesma orientação de Marcelo Rebelo de Sousa, o que também dá uma estabilidade a estas discussões e lhe retira o dramatismo que tiveram noutras alturas. Mas acho que o essencial é algo diferente e eu acho que a partida disso é positivo. E o que é positivo aqui são três ou quatro coisas. Primeiro: nós habituámo-nos a ter orçamentos equilibrados. Este será, penso, o quinto orçamento equilibrado, ou pelo menos com um pequeno saldo positivo. Isso hoje em dia na Europa é uma raridade. Num momento de tensão, de ameaça de crise de dívidas e agora de dívidas de países muito grandes como a França, de problemas também noutras latitudes. Ainda hoje foi conhecido o recorde de dívida dos Estados Unidos, que pressão sobre os juros. É bom que nós nos estejamos a diminuir o peso da dívida por comparação com a nossa riqueza, com o nosso PIB. Apesar de isso não evitar que estejamos a gastar mais dinheiro em juros, porque os juros estão a subir nos mercados mundiais, por vários fatores, e só aí vai uma fatia grande, isso pesa logo na conta do nosso orçamento, porque apesar de tudo, ainda temos uma dívida muito elevada. Esse é o primeiro aspecto positivo. O outro aspecto positivo é não tentarmos pôr no orçamento as reformas todas. Fazer uma reforma fiscal a cada orçamento que passa, tentar meter no orçamento tudo o que é preciso fazer na área da habitação ou da saúde ou da educação, e deixar isso para outros momentos em que, com outra dignidade, com outra profundidade, e o orçamento ser apenas o retrato de discussões que são tidas noutros momentos e daquilo que o Parlamento aprova noutros momentos. Dito isto, o que é que fica a sobrar? Fica a sobrar dois pontos, saber se aquelas pequenas dúvidas que o Partido Socialista colocou ontem relativamente à sua aprovação do orçamento são ou não resolvidas, são literalmente detalhes, têm a ver com o final do PRN e com o apoio às vítimas do Christine. Não creio que por aqui haja grandes problemas, especialmente dadas as letras pequeninas do investimento público e ontem nem sequer houve tempo para ver isso com detalhe. E outro tema é o apelo da AD para que o PS não se ponha a aprovar coisas que o Chega propõe com impacto na despesa. Mas também desse lado, creio que um Partido Socialista que percebeu a vantagem eleitoral das contas certas, talvez não entre por esse caminho. Espero que não se deixe tentar por algumas sondagens, designadamente uma sondagem de hoje que põe o Chega à frente. As sondagens nessas alturas em que ninguém está a pensar propriamente em votar amanhã, têm valor, mas não são determinantes. Portanto, é bom manter os pulsos frios e procurar seguir o caminho que está a ser seguido. É um orçamento sem grande emoção à partida, sem grandes novidades. Haverá muitas queixas sobre não haver mais medidas para a ajuda ao custo de vida, ao aumento do custo de vida, mas a própria inflação dá sinais de começar a estar relativamente controlada. Hoje em dia já achamos um drama ter uma inflação de 3%, quando foi o Covid e a saída do Covid chegámos aos 8%, 9%. Estamos numa situação diferente e eu acho que é bom não termos muita emoção nem muitas novidades. Voltarmos àquele velho tempo que praticamente só me recordo dele já no século passado. Dizer isto assim tem sempre um ar dramatismo, não é, Carla? Século passado. Que era quando o orçamento, havia um pouquinho de festa, os ministros das finanças chegavam ao Parlamento com uns caixotes de papel.
À meia-noite.
Às vezes não era à meia-noite, era meio-dia. Isto começou a tornar-se dramático depois de Maastricht, começamos a ficar preocupados com o déficit. As primeiras aflições foram ainda com Pina Moura, depois vieram vários ministros das Finanças, depois veio o país de Tanga, depois veio os anos de Sócrates e anos de atinanço e anos de desatinanço. Depois veio a Troika, depois vieram os orçamentos da Geringonça e olhando para isto tudo, que bem que nós estamos agora um pouco mais calmos. Que bom que é.
Ora bem. Vamos falar sobre isto a partir das 9 para depois às 10 acompanharmos o debate quinzenal. Até já, José Manuel.