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Olá, eu sou José Manuel Fernandes. Este é um podcast da Rádio Observador. Pode ouvir a rádio online e também em FM, 98.7 na Grande Lisboa, 98.4 no Grande Porto. Bem-vindos de regresso a mais um "Conversas à Quinta". Hoje vamos aproveitar o fato de estarmos a passar duas efemérides, e duas efemérides bem redondinhas, daquelas que batem mesmo certo, estamos a falar de séculos certos, para falar um pouco da forma como olhamos para os descobrimentos, um tema que tem dado o que falar. As efemérides são: faz agora, 27 de abril, exatamente 500 anos que morreu Fernão de Magalhães. Fernão de Magalhães foi morto num conflito menor em que ele se envolveu quando estava nas Filipinas. Portanto, não se percebe muito bem porque ele demorou tanto tempo aí, ou melhor, percebe-se, ele já não sabia bem como é que havia de regressar, uma vez que a missão da sua viagem, que era de alguma forma provar que as Molucas poderiam ficar no hemisfério espanhol, não se provou certa e portanto ele não tinha como trazer o seu prêmio ao rei de Espanha. E portanto, Magalhães acabou por se envolver num conflito local e morrer numa praia, aparentemente, no outro lado do mundo, literalmente. A 27 de abril de 1521. De alguma forma, era o fim do ciclo para Portugal dos descobrimentos. Podemos assinalar como o último grande navegador. E três séculos depois, no início de maio de 1821, temos Dom João VI a embarcar do Rio de Janeiro a caminho de Lisboa. Ele não tinha conseguido realizar o seu sonho de ter uma monarquia com dois grandes reinos, Brasil e Portugal. Tinha percebido que perderia Portugal se continuasse no Brasil, e no Brasil não tinha conseguido realizar as cortes que ele desejava, e em Portugal já estava o movimento liberal em andamento. Portanto, ele regressou a Portugal. E estava desencadeado o movimento que levaria à separação entre Portugal e o Brasil, e pouco depois, à declaração da independência do Brasil. De alguma forma, também se fechava aqui um ciclo. Nós estamos numa altura em que aproveitamos estas ocasiões para olhar para a nossa história e olhar para o nosso passado. E este período, e durante muitos anos, neste grande ciclo que foi Portugal global, Portugal do império, o Brasil desempenhou um papel central em todo esse processo. José Megam, quando nós olhamos para o que foi todo esse século dos descobrimentos, e depois para o que foi o Portugal do império, como é que nós devemos olhar para ele? É um tema de reflexão muito importante nos dias que correm e mais atual do que nunca.
Olhe, fundamentalmente, olhar para ele com os olhos da ciência e não com os preconceitos da ignorância. Ou seja, toda essa realidade é muito estudada, tem sido muito estudada, vai continuar a ser muito estudada, porque envolve componentes geopolíticas nítidas, envolve descobertas e investigação sobre técnicas de navegação, técnicas de navegação astronómica, envolve também reflexões sobre a capacidade para manter a ligação logística a todas essas expedições, para dotar as tripulações de condições de sobrevivência durante esses longos e difíceis trajetos. E, na verdade, se repararmos bem, Portugal é um país costeiro, é na altura um país bastante pequeno, tem as suas capacidades de expansão terrestre limitadas por um vizinho forte e poderoso. Não desenvolveu ainda uma grande marinha de navegação no Mediterrâneo, nem no Mar do Norte, embora conhecesse essas águas e tivesse experiências nessas águas. Tem uma forte interligação costeira nos burgos marítimos, feita através do que se pode considerar de uma marinha de cabotagem, e vai conseguir aliar ciência, conhecimento, cálculo matemático na sua aplicação Ao desenvolvimento do que podemos chamar um novo tipo de embarcação oceânica, com porte maior, com capacidade de realizar o enfrentamento de mar alto, mar poderoso e de conseguir regressar ao ponto de partida, sinalizando tudo isso em posições em terra, com padrões e também em cartas náuticas e indicações preciosas sobre a conduta das marés, das correntes marítimas, dos ventos e também sobre as realidades encontradas nessas paragens, umas não habitadas, outras habitadas. Portanto, isso é algo que contribui para a ampliação do conhecimento da humanidade. É algo que representa um resultado a somar, não um resultado a diminuir. E é isso que é muito valorizado, como é que um país pequeno, um país que tinha uma população à época escassa, é capaz de empreender essa tarefa, é capaz de congregar recursos internacionais de que não dispunha para os projetar naquilo que é uma grande aventura, uma grande obra, um grande trajeto. E que é um trajeto que soma à humanidade, não é um trajeto que amputa a humanidade, porque realizar esses contatos, esses conhecimentos, adquirir essa informação, é algo preciosíssimo. Aliás, há quem fale e caracterize bem a diferença específica do Renascimento Português, contrariamente, por exemplo, ao italiano, que é um renascimento de cópia dos clássicos de regresso à Grécia e a Roma, há quem caracterize o Renascimento Português como um renascimento feito de experiência e de ciência, mas algo fundado no estudo sobre a realidade do momento e não com os olhos também, olhos importantes e significativos, do regresso à leitura dos clássicos. Portanto, há uma soma nítida em conhecimento, em discernimento, em ciência, em mapeação, em registro histórico daquilo que são coisas novas, até aí nunca encontradas pelos europeus que nós éramos, porque nós éramos aqui a ponta da Europa e, portanto, somos quem dá esse passo. Por que é que somos nós e não outros? Outros porque ainda não estavam inteiramente unificados, outros porque estavam envolvidos em guerras internas, outros porque tinham disputas a resolver entre si, outros porque ainda não tinham completado a libertação do seu próprio território nacional. E, portanto, há aqui uma janela de oportunidade que é aplicada com um plano. E é, por exemplo, interessante ver-se como a Ordem de Cristo, que tinha sido um instrumento importante para a construção do Portugal na Península Ibérica como reino, já não se projetou tanto nas praças fortes de Marrocos, mas converte-se não numa ordem militar marítima, mas sim num poderoso recurso que financia, graças à opção e à missão do Infante D. Henrique, essa realização de construção de navios e embarcações, criação de tripulações, treino, aquisição de ciência para ser aplicada nessa tarefa de descobrir a terra ignota, a terra desconhecida, uma realidade inteiramente nova.
James Garapinho, muitas vezes nós falamos disto e agora o James Garapinho sublinhou particularmente tudo o que foram os avanços no conhecimento científico, enfim, podíamos ir por aí adiante, na geografia, na astronomia, na biologia, em tudo o que foi acrescentado, na matemática, inclusivamente, também. Mas há muitas vezes, e hoje em dia discute-se muito isso, que quando nós falamos de descobrimento, há quem diga que é um termo abusivo, porque já lá estava gente, já lá estavam seres humanos. Podemos dizer que descobrimos o Arquipélago da Madeira, o Arquipélago dos Açores, não eram conhecidos, não havia ninguém, mas mesmo quando chegamos ao Brasil, podia ser não muito densamente povoado, mas quando descobrimos rotas marítimas que não se sabiam navegáveis, ou pelo menos navegáveis daquela forma, como a Rota do Cabo, mas, por exemplo, o cruzamento do Índico, usamos pilotos árabes para nos levarem até à Índia. Portanto, há aqui mais do que um descobrimento, como nós tradicionalmente relatamos, há algo que é um processo mais complexo, mais amplo.
Sim, quando a gente fala em descobrimento, é como quando a gente diz que descobre uma pessoa, que descobre um personagem. Para nós, era desconhecido até aí ou podíamos saber que existia. Isso também acho que é um bocado uma destas sensibilidades que agora foram, não foi agora, mas já aqui há uns anos, acordadas. Porque até se encontraram fórmulas para dizer, por exemplo, o encontro de civilizações. A gente percebe quais são as sensibilidades feridas ou até as sensibilidades inventadas. Mas como o Jaime Gama estava a dizer, é evidente que as civilizações ou as culturas, ou o que for, são diferentes e também hoje em dia, o que me parece que há, e aí entrámos um bocado nestes choques. Havia, de facto, no estudo da história, nós temos alguma dificuldade, às vezes, em conviver com a história, se não assumirmos exatamente essa posição que o Jaime Gama estava a chamar a atenção, que é uma posição de uma certa isenção e de uma certa tentativa de procurarmos, com a nossa pele, do nosso tempo e com o que somos, também entrar nas mentalidades das épocas. Porque senão, vamos com certeza encontrar coisas que podem, às nossas atuais mentalidades e valores, podem até parecer senão absurdas ou cruéis. E aí o ensino da história, de facto, que é curioso, porque o ensino da história, por exemplo, deste período dos descobrimentos, e que não foi apenas do Estado Novo, muitas vezes diz-se que o Estado Novo focava muito os aspectos que se chamariam da cruz e da espada. Portanto, missionação e a conquista. Mas de certo modo, já era um bocado a história da República. Eu, por exemplo, estou me a lembrar de um livro do Júlio Dantas, que se não estou em erro, "Pátria Portuguesa", que é um livro para 1915, que é um livro para ser, não sei se para os liceus, para as escolas primárias, talvez até fosse para as escolas primárias. O livro é: os portugueses são os melhores do mundo em tudo. Foram sempre os melhores do mundo. Essa história, esse culto da história, os portugueses são os melhores.
Mas se nós pensarmos um pouquinho, até se formos mais atrás, mesmo escritores como quem estudou a decadência dos povos peninsulares. Partindo do princípio que havia um período áureo.
Claro, a gente, aliás, vê isso, por exemplo, no Oliveira Martins, nalguns contrastes que ele tem tratando as mesmas coisas.
O Oliveira Martins chamou ao D. João II, D. João II, consolidou o seu poder matando a punhalada um primo.
Sim, que era normal nessa época.
Que era normal. Assim era normal.
Quando eram italianos matavam 20.
Ele classificou como príncipe perfeito.
Príncipe perfeito. É razão de Estado. Ele não matou porque não gostava da cara dele, é porque achou que era sobre razão de Estado.
Era uma forma de afirmação do Estado central contra os poderes feudais.
E mandou decapitar o Duque de Bragança. Fez isso. Agora, a seguir, no período seguinte, pós 25 de abril, veio então uma história que é exatamente toda ao contrário. Deixou de haver conquista, deixou de haver missionação, deixou de haver essas coisas todas. E era só roubar, escravizar, negócio. Essa negação à realidade da história, quer dizer, a realidade da história é que todos esses fatores foram importantes. Se a gente olhar para os descobrimentos, é evidente que houve também razões econômicas fortes, porque basta olhar para a geografia de Portugal. No séc-- ia para a agricultura portuguesa no século XIV ou no século XV. Nós não tínhamos, por exemplo, uma das coisas fundamentais até ao século XIX, nas comunicações internas de um país eram rios navegáveis. Nós não tínhamos rios navegáveis, nenhum rio praticamente navegável. Tínhamos essa dificuldade. Depois nós tínhamos, agricolamente, éramos paupérrimos. Porque tirando, de facto, aqui as lezírias do Tejo e ali do Sado e um bocadinho da foz do Mondego, o resto do país é pobre do ponto de vista agrícola, portanto, tínhamos que fazer pela vida para sobreviver. Todo esse conjunto de circunstâncias, sim, senhor, depois também fatores de expansão, de missionação, combater o infiel, tudo isso está traçado. Aliás, "Os Lusíadas" lidos com atenção, está lá tudo. E sempre houve essa consciência do melhor e do pior. Às vezes pintam essa história antiga como se fosse uma-
Está lá tudo, incluindo os sopunha. Os que achavam uma má aventura. O Restelo também.
O velho do Restelo, que agora com a correção política se devia chamar o idoso do Restelo. Qualquer dia vamos ter isso. Mas não há dúvida que todos esses fatores, é essa complexidade que eu acho que é importante inculcar nos mais novos e nas pessoas em geral. Não é a ignorância dos slogans e esta ideologização permanente de tudo, "eram bons e eram maus", esse maniqueísmo projetado no passado, que dá coisas às vezes ridículas e de qualquer maneira são altamente negativas.
Bem, nós entretanto chegamos ao fim da nossa primeira parte. Regressamos dentro de alguns minutos para a segunda parte do nosso "Conversas à Quinta". Jaume Gama, esta saída de Dom João VI do Brasil e a separação entre Brasil e Portugal, dá origem ao nascimento de uma nova nação, o Brasil, e a própria identidade dessa nova nação, em muitos aspectos, ainda hoje se discute. E durante muito tempo ela foi vista de uma forma muito diversa, por exemplo, da identidade dos Estados Unidos. Os Estados Unidos olham para si de uma forma diferente da forma como o Brasil olha para ele próprio. Na formação dessa identidade, teve durante muitos anos, em importância, um livro famoso, "Casa-Grande & Senzala", de Gilberto Freyre, que na altura era um livro que procurava contrariar as ideias racistas desse tempo. Portanto, era um livro de conciliação de raças, foi escrito num tempo em que havia uma ideia de que umas raças predominavam sobre as outras e esse livro ia um bocado contra isso. Hoje em dia, o livro está completamente fora de moda, porque seria um livro, de alguma forma, defensor do chamado lusotropicalismo e da conciliação entre o modelo português e os outros modelos, e de uma certa benevolência do modelo lusitano de expansão, que de fato foi diferente, até por uma questão demográfica, dos restantes modelos. Nós como é que devemos olhar, por exemplo, para um Brasil e para os Estados Unidos, que têm modelos indiscutivelmente diferentes, onde em ambos teve muito peso o trabalho escravo durante muito tempo, mas que olham para eles próprios de forma realmente diferente e que tiveram sucessos econômicos também muito diferentes?
Sim, é um fato, mas apesar de tudo, o que eu penso que caracteriza muito o espírito analítico brasileiro, em detrimento norte-americano, é mostrar que o seu país, apesar de ter uma proveniência bastante diversificada, ao menos do ponto de vista humano, da convivialidade, tem realizado níveis de integração que são bastante aceitáveis. E, portanto, nós temos que compreender que o Brasil, numa certa altura, depara com o problema das comunidades ligadas aos países europeus que estão envolvidos na Segunda Guerra Mundial, a comunidade alemã, a comunidade italiana, também a comunidade japonesa, e valoriza aí bastante o fator integrador da língua, o fator integrador de uma cultura política comum.
Mas até mesmo a própria posição do Brasil foi ambígua na Segunda Guerra Mundial, numa certa altura, não é? Pelo menos no início. Não era uma potência aliada, digamos assim.
Mas não me parece, porque a simples circunstância de a Argentina ter sido mais lesta na aproximação à Alemanha, isso criou alguma enorme reação cautelosa no Brasil. Agora, a verdade é que no Brasil salientaram mais os fatores que ligam, do que os fatores que desintegram. Eu sei que a obra do Gilberto Freyre é vista hoje por algumas pessoas que sem a ler, quase como um símbolo execrável do que não deve ser um trabalho de ciências humanas sobre a sociedade. Mas é uma obra que merece ser lida, porque vai contra a corrente e nem tudo aquilo que ali está dito, pelo fato de ter sido escrito por Gilberto Freyre, deixa de apontar algumas coisas que são inegáveis e que são factos da vida no próprio Brasil. Porque com as condições sociais existentes no Brasil, outra qualquer sociedade teria sido, porventura, mais violenta, mais agressiva, mais antagônica. A própria circunstância de um espaço tão grande como o Brasil, ter podido resultar num país em detrimento do que é toda a parte de influência espanhola, que se pulverizou e dividiu
É algo que só é possível porque houve fatores de integração que ligaram mais, que uniram mais, que fortificaram mais. Sabemos as diferenças internas do Brasil, mas apesar de tudo, o Brasil faz sempre um esforço, não para cindir, mas para unir. E internamente também faz um esforço para não espicaçar o radicalismo. Pelo contrário, para o atenuar e o procurar modular com a sua música, com as suas opções religiosas, até com as suas práticas desportivas de massa, até com a sua culinária, usa fatores de aglutinação que funcionam no grande plano do país, e isso é indiscutível.
Não acha que às vezes nós nos iludimos um bocadinho? Quando olhamos, por exemplo, para as elites brasileiras, quando olhamos pro Senado, quando olhamos pros governadores dos principais estados, encontramos muito pouca representatividade de grande parte da população.
Isso é o que diz um evangélico norte-americano quando chega ao Brasil. Os Estados Unidos têm uma grande dificuldade em compreender o Brasil e também uma grande militância em projetar evangelismos radicais para fraturar essa unidade do Brasil, que os Estados Unidos veem com suspeição, porque não foram capazes de realizar. Diga-se o que se disser, a integração da população africana na sociedade brasileira é mais à compli, no sentido humano, do que aquela que ainda hoje está por realizar nos Estados Unidos. E isso também deve ser objeto de reflexão, de meditação, de ponderação. Portanto, nós temos aí até dois pratos de uma balança que devem ser vistos e ponderados. Agora, nós não podemos apreciar o Brasil com o bisturi social e a ideia de lançar na sociedade brasileira focos de fratura e dissensão que contribuam não pra solução de nenhum problema, mas pro agravamento de todos os problemas, porque depois você tem não só o problema da população negra, tem o problema da população índia, tem o problema das comunidades de origem europeia, de proveniências diversas, tem o problema da relação com os países da vizinhança que fazem fronteira com o Brasil. Ou seja, a quem serve um Brasil geopoliticamente desestabilizado e internamente fraturado? Seguramente que não ao Brasil. E não podemos aplicar, nem transpor com automatismo as análises de composição social ou de grupo, que é frequente fazer nos Estados Unidos, e que também não tem ajudado a resolver problemas nos Estados Unidos. Têm contribuído bem para fraturar os Estados Unidos. E isso também deve ser um motivo de reflexão grande, porque nos Estados Unidos perpassa muito esse antagonismo, e esse antagonismo alimenta teorias sobre o antagonismo, que em vez de contribuírem pra atenuar os problemas, só servem pra lançar rastilhos pra cima de uma fogueira que já está ardendo.
José Pedro Aguiar-Pinheiro, mas acha que nós podemos erradicar isso aonde? É na cultura política anglo-saxônica versus cultura política lusófona, portuguesa, naquilo que tem a ver com o fato de nós termos uma matriz católica versus uma matriz protestante? Onde encontra as raízes dessas diferenças culturais?
Vamos lá ver. Eu acho que tudo isso interessa, claro. A religião talvez até seja a matriz religiosa, que mesmo em sociedades que progressivamente se laicizaram, é evidente que a matriz religiosa é, de certo modo, essencial. Ora, enquanto as religiões reformadas, e sobretudo uma fortíssima carga puritana que dominou nos Estados Unidos, e aquela ideia que de fato aparece muito no protestantismo, cada homem é um sacerdote e, portanto, onde há exatamente essa ideia, o cristão acaba por ter uma espécie de relação direta com Deus. E, portanto, isso leva sempre a uns abismos de purismo e puritanismo e, na contrapartida, a umas quedas e a uns desesperos também totais e absolutos. A religião católica, ou melhor, o cristianismo dos católicos, como tem uma mediação, que é a igreja, e que tem muito a atenção e a noção do pecado e dos pecadores, e, portanto, é uma religião, de certo modo, mais preparada pra lidar com os pecadores e com as falhas dos homens, acaba por ser, de certo modo, um comportamento mais benigno, digamos, na relação, por exemplo, com outros povos O que não impede, e a gente viu isso, há uma diferença completamente fulcral e essencial nas Américas entre o comportamento, por exemplo, dos portugueses no Brasil e dos espanhóis nas suas áreas. Os espanhóis são bastante mais brutais, são bastante mais conquistadores.
Os espanhóis tiveram que enfrentar impérios. Impérios bem organizados, impérios centrais. E os portugueses não tiveram nenhum destes.
Não, os portugueses foram pra zona exatamente onde estava tudo fragmentado.
Fragmentado, pequenos reinos.
Os espanhóis apanharam dois impérios, no norte os Astecas e no sul e no Peru, os Incas. E, portanto, eles aliaram-se, inclusive.
E no caso do Brasil, tiveram que enfrentar os espanhóis, os holandeses, os franceses e os ingleses.
Claro. Agora, o que eu acho que é muito interessante nesse aspecto é que onde, como aconteceu na maior parte exatamente dessa área hispânica, onde os espanhóis venceram essas grandes unidades e depois os sobreviventes ficaram, houve sociedades dualistas, curiosamente sociedades onde o mestiço de certo modo ficava em cima. Que é uma característica também, por exemplo, da colonização portuguesa, quer dizer, o misto está para cima, não está para baixo. Enquanto na tradição, por exemplo, da colonização americana, é exatamente o contrário, quer dizer, o misto fica um bocado arrumado para baixo ou até nem existe muitas vezes. E nos Estados Unidos deu-se exatamente também esse fenômeno, quer dizer, como não houve grandes unidades também políticas para combater entre os locais, acabou por haver uma espécie de extermínio que se foi prolongando ao longo de todo o século XIX. Foi o que aconteceu também, por exemplo, no Chile. Onde houve grandes unidades, a partir de uma certa altura, houve uma dominação e uma pacificação. Agora, claro que há os elementos culturais, a religião conta e, sobretudo, aquilo que a religião imprimiu na cultura e nos valores, quer dizer, à partida, a religião é determinante dessa cultura e desses valores.
Nesse momento de separação em que nós estamos três séculos depois do fim da expansão, podemos chamar assim, quando acaba a saga dos descobrimentos, quando acaba a viagem de Magalhães, que já não é uma viagem portuguesa. Nesse momento de separação do Brasil, já não estávamos com energia nem força para algo diferente, não é, Jaime Gama?
Olha, até nós esquecemos, foi de aditar este mês de abril também, dia 22 é o aniversário da descoberta do Brasil, por Pedro Álvares Cabral.
Pois.
Isso também conta. Não é bem assim, porque vamos ver, esse regresso de Dom João VI é um regresso muito imposto aqui por Portugal, porque transforma-se em slogan, "Não queremos ser colônia da colônia". Isto é, colônia do Brasil. Porque, na verdade, o Dom João VI, que porventura não terá gostado muito de ir para o Brasil quando vieram as tropas napoleônicas, ele apaixonou-se pelo Brasil, porque o Brasil dá-lhe uma projeção e uma dimensão imperial que ele não podia ter no território europeu. E de certa maneira, ele vivia bem continuando no Brasil. E são aqui os portugueses e as cortes que se formam para elaborar a Constituição, que lhe fazem um ultimato para ele vir, e ele vai e até jura a Constituição, com a qual não concordaria muito, mas depois lá vai fazer o seu melhor para enfim mudar aquele texto e recuperar parcialmente o poder, não com o filho Dom Miguel, porque esse não conseguiu, mas com o filho que tinha ficado no Brasil como primeiro imperador do Brasil e que depois vem cá dar a mão à sua filha para que a sua filha conquiste o trono português. Portanto, o Dom Pedro IV vai num segundo momento em socorro do próprio pai e da monarquia. Mas esse regresso é um regresso, se se vir, ordenado. Ainda ontem o jornal "Folha de São Paulo" publicava um conjunto de pinturas da época, grande parte das quais de um famoso francês, com essas imagens da partida da corte portuguesa, do regresso, deixando algo no Brasil também organizado e controlado e uma linha de sucessão estabelecida. Portanto, há ali algo que deve ser apreciado. E se se vir, isso já não é também bem o que possa ser considerado um ciclo final, porque a independência do Brasil é o que depois vai favorecer a ocupação de territórios sob controle português no continente africano, porque o império africano português é o último império. A ideia inicial de império é o Oriente, depois há o Brasil, e depois é que há uma fixação nos territórios africanos quando o Brasil proclama a sua independência. Aliás, são muitos dos portugueses que estão no Brasil que vão fazer as grandes plantações de cacau e de café pra parte dos territórios africanos, que são ocupados de forma que não tinham sido antes. Portanto, há aí ainda um ciclo que está para vir e que tem uma duração e uma dimensão, obviamente, diferente das anteriores. Mas também é preciso observar o conjunto do que era o Império Português à época, que tem características específicas que o distinguem dos outros impérios europeus e também do próprio império vizinho espanhol, com o qual esteve ligado durante algumas décadas. Pois bem, isso se for também estudado, por exemplo, num contexto geopolítico, é algo que reforça a ideia sobre um país que tem a capacidade para estabelecer com a população que tem, com os recursos metropolitanos que tem, essas áreas de controle tão longínquas, tão distantes. É algo também que, penso que se pensar sobre essa realidade, não pode deixar de se valorizar esse empreendimento, porque é o contexto da época, são as grandes disputas por controle de território feitas pelos impérios, alguns dos quais muito mais poderosos que o império português, e, portanto, a forma como Portugal gere, com os recursos que tem, a efetividade do controle de algumas áreas no mundo, é também algo que, numa escala comparativa, não pode ser tirado ao lixo, como algo que não vale nada, porque outros, em relação aos seus próprios países, valorizam. E até valorizam a posição portuguesa, porque valorizam o fato de terem encontrado como adversário no terreno, um país que tinha na Europa a dimensão que tinha e que em várias partes do mundo aparecia como concorrente, como rival, como adversário e com capacidade de travar algumas batalhas.
Batalhas importantes. Bem, entretanto, o nosso tempo esgotou-se. Recordámos aqui a morte de Fernando de Magalhães, o começo da viagem de regresso de Dom João VI a Portugal. Tudo isto pra encontrar uma discussão sempre presente sobre o ciclo das descobertas e do império. Foi mais um "Conversas à Quinta". Reencontramo-nos dentro de uma semana.