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Olá, eu sou José Manuel Fernandes. Este é um podcast da Rádio Observador. Pode ouvir a rádio online e também em FM 98.7 na Grande Lisboa, 98.4 no Grande Porto. Bem-vindos de regresso a mais um "Conversas à Quinta", mais um programa gravado em confinamento. Já não estamos em estado de emergência, mas continuamos, cada um de nós, nas suas casas e continuamos a gravar este programa sem a habitual parte do vídeo. No entanto, vamos continuar a conversar e desta vez vamos conversar sobre o Dia Mundial da Língua Portuguesa. Ou melhor, vamos conversar sobre a língua portuguesa. O dia mundial celebrou-se pela primeira vez este ano. Ele foi consagrado pela Unesco no final do ano passado e foi assinalado este último 5 de maio, portanto esta semana, pela primeira vez. O facto de termos um Dia Mundial da Língua Portuguesa não deixa de ser assinalável, já que a língua portuguesa é uma das línguas mais faladas no mundo, muito com a ajuda dos nossos irmãos brasileiros, mas é uma língua que, sem dúvida, tem hoje falantes em bastantes países, apesar de, mesmo assim, não poder ser considerada uma língua franca no mundo, como é, por exemplo, o inglês ou, num patamar um pouco inferior, o espanhol. Por que isso sucede, Jaime Gama? Somos falados por muita gente, mas não somos considerados uma língua que possa ser uma língua tão reconhecida pelas entidades, pelos organismos internacionais, como sendo uma língua oficial que possa ser usada como língua franca.

Eu acho que se tivermos em conta o ponto de partida, é até uma coisa admirável, porque tendo em atenção o escasso número de população que numa área da Península Ibérica consolidou essa língua, a recortou e depois a transpôs a várias partes do mundo, sendo que esse universo era inferior a um milhão, no princípio, é algo de admirável. E ter passado a uma língua global, essa língua originária num país que hoje tem 10 milhões de habitantes, pondo-a à frente no mundo há 6 mil, 7 mil línguas. A nossa é, segundo uns cálculos, a quinta, a sexta ou a sétima do mundo e é uma língua global. Isso já em si mesmo é qualquer coisa de verdadeiramente fantástico. Agora, há outras línguas que têm um número de falantes maior. Temos e sempre tivemos que aprender a conviver com isso, mas o facto de não sermos a primeira língua do mundo não nos deve deixar de causar algum deslumbramento esta situação.

Obviamente que não somos, não é não?

E o português é uma língua global, porque é uma língua que permite, como uma das línguas românicas, a gestão adequada de sentimentos, ideias, é uma língua de comunicação, é uma língua de ciência como é de literatura, é uma língua de musicalidade através da canção, é uma língua criativa e é uma língua que também incorporou, em vários continentes, um diálogo linguístico extremamente interessante com línguas de outros povos e que exerceu funções geopolíticas muito fortes, não só na Península Ibérica, que é o recorte de uma nação que depois se transforma num Estado, como no mundo, porque o fator linguístico é essencial na unidade do Brasil e no recorte da sua fronteira na América do Sul, assim como também o fator língua portuguesa é fundamental na consolidação de Estados como Angola, Moçambique, Guiné-Bissau. Portanto, temos que ter em consideração que essa língua é uma língua que foi capaz de unir e integrar, foi capaz de recortar fronteiras e foi capaz de estabelecer um espaço de comunicação que desde a música até à internet, na atualidade, tem uma capacidade pra emoção, pro raciocínio, pra lógica, pra ciência, pra tecnologia, pra economia, pros negócios, pra cultura, ou seja, é uma das grandes línguas globais no mundo. É uma língua românica, portanto uma língua que tem a sua origem na mistura entre o latim do final do império e dos falares locais em várias áreas e dos três grandes grupos das línguas do romance: o grupo italo-romance, o grupo galo-romance e o grupo ibero-romance. No caso do grupo ibero-romance, é uma língua que se destacou, tem como línguas irmãs o castelhano e os seus dialetos, o catalão e tem também o galego. Aí pondo-se a questão de saber se o galego e o português no início não são uma língua com dois dialetos, mas depois a dominação do galego pelo castelhano na Galiza e a não exportabilidade Do galego para além-mar faz com que o português, ao consolidar-se em outros territórios, junto de outros povos e de outras nações, adquira uma universalidade que o faz destacar poderosamente do galego desse ponto de vista. Portanto, o português é hoje uma grande língua universal e a cerimônia da UNESCO veio num mau momento, uma conjuntura adversa, quando a edição, quando a comunicação, quando a imprensa atravessam toda a crise que conhecemos, não deixa de ser uma data simbólica que foi celebrada a nível oficial e que tem o valor de uma data simbólica no calendário de datas simbólicas da UNESCO e também no quadro daquilo que é a substância da UNESCO na atualidade.

João Miguel Pinto, acha que hoje faz muito sentido de nós repetirmos, como Fernando Pessoa, que: "A minha pátria é a língua portuguesa", ou isso é mais uma frase bonita?

Essa questão da famosíssima frase do Pessoa tem, de fato, também uma certa aplicação política e até geopolítica, porque não há dúvida que as identidades, que durante muito tempo, em termos de política internacional, praticamente na grande parte das nossas vidas, foram ideológicas. Os dois mundos, o mundo ocidental e o mundo dominado pela União Soviética e pelos modelos comunistas. Depois com o fim da Guerra Fria, houve uma grande quebra de tudo isso, mas as solidariedades à volta da questão linguística são bastante fortes. Eu lembro, por exemplo, quando foi da Guerra do Vietnã e depois mais tarde, também numa outra altura no Iraque, os países que contribuíram com tropas para as operações americanas eram, no fundo, os países brancos de língua inglesa, quer dizer, eram a Austrália, foram os australianos, foram os neozelandeses, etc. Portanto, há um certo denominador comum. E hoje, com todas estas crises a que estamos a assistir, não sei até que ponto, exatamente, porque a língua cria, de fato, uma grande cumplicidade. Por exemplo, uma das coisas que são mais difíceis de traduzir é o humor. E o humor é, de fato, das coisas que mais identifica, que mais une, que mais quebra barreiras entre pessoas que às vezes não se conhecem ou que não se conheciam. E, portanto, pela mesma razão que é muito fácil nós comunicarmos em termos de humor, em termos de histórias divertidas, com os brasileiros, com os angolanos, etc. Isso muitas vezes cria essa comunidade, essa cumplicidade. Eu acho que nesse aspecto, a língua portuguesa com as suas variantes, com as próprias adaptações, nós temos que ver que hoje, por exemplo, no mundo da literatura, a grande literatura de língua portuguesa está no Brasil, algumas está em Angola, algumas está em Moçambique, alguma já esteve em Cabo Verde ou está. Quer dizer, portanto, essa comunidade da língua cria, de fato, uma cumplicidade forte entre os países, entre as nações, entre as pessoas desses países e dessas nações. E não há dúvida que as coisas mais importantes, no fundo, são aquelas coisas que unem as pessoas no meio das outras pessoas, que unem os homens no meio dos outros homens. Portanto, nesse aspecto, a língua portuguesa é, ainda hoje, um fator muito importante de unidade, de cumplicidade, de entendimento. E, portanto, eu creio que sim, creio que essa linha de que falava o Pessoa. É claro que depois a isso tem que se dar outros conteúdos, outras forças e outros interesses, porque senão não dura só ou fica só relativamente. Essas coisas, esses fatores, se não forem depois tratados, organizados, aproveitados na sua potencialidade, os fatores culturais têm que ser depois usados politicamente e economicamente. Isso é outra questão. Mas nesse aspecto, acho que é uma reflexão que é válida e que temos que ter.

No entanto, há uma questão que às vezes nos deixa um bocadinho tristes: é que nós temos esta língua com esta projeção toda e interrogamo-nos muitas vezes até que ponto é que é uma língua que tem o reconhecimento internacional correspondente. Notamos isso, por exemplo, na forma até que ponto a nossa literatura é reconhecida. O João Miguel Pinto disse agora que nós tínhamos, sobretudo, uma literatura no Brasil, depois também alguma literatura em países africanos de língua portuguesa. Também há literatura em Portugal, naturalmente, mas quando nós olhamos, por exemplo, para os Prêmios Nobel, o que é fato é que a literatura em língua portuguesa praticamente nunca foi reconhecida.

Sim, teve o Saramago e pronto. Mas isso também não sei até que ponto. Bem sei que com a questão do Brasil não se poderia dizer isso. Mas entra, de fato, em jogo Aquela questão que o Jaime Gama há bocadinho estava a dizer: nós partimos de uma massa crítica relativamente pequena. É claro que não é isso hoje em dia com o Brasil. Agora, eu não sei até que ponto também existe isso.

Há muita discussão sobre a justeza do Prêmio Nobel, mas não ter nenhum Prêmio Nobel brasileiro.

Pois é. Isso acho que a falha é da Academia Nobel, não é do Brasil, porque, de facto, o Brasil, até pela sua própria história, na Europa, sobretudo a partir do fim da Segunda Guerra Mundial, as matérias interessantes para se fazer romances, para se fazer histórias, portanto, todo o imprevisto, o risco, a aventura, desapareceram muito. E perduraram muito, e vocês se lembram perfeitamente, somos todos do mesmo tempo. Por exemplo, nos anos 60, 70, apareceram, nos anos 60, sobretudo, aquelas literaturas todas centro-americanas e latino-americanas, onde vinha exatamente um imaginário. E o Brasil tem, e vê-se desde romance de cidade, com o nosso Rubem Fonseca, ainda recentemente falecido, mas tinha também, de facto, o Jorge Amado, o Lins do Rego, quer dizer, grandes escritores. Não sei até que ponto, por vezes, isso depende muito também das políticas editoriais, depende muito, muitas vezes hoje, como em tudo no mundo moderno, depende de uma certa mercantilização dos produtos. Eu não sei até que ponto os portugueses ou os povos da área de língua portuguesa são bons nessa mercantilização. Porque, por exemplo, os ingleses, nisso, foram sempre uns mestres extraordinários em convencer-nos de que a história deles é diferente, de que eles são mais hábeis, que as suas classes sociais foram sempre mais dedicadas e mais devotadas ao bem público do que o resto, criaram muito bem aquelas lendas negras anti-espanholas e anti-católicas, e nós também apanhamos um bocadinho por tabela com isso. Não sei até que ponto também o problema não está num valor em si e por si dessa literatura e depois de uma dificuldade ou de uma falta de capacidade de a difundir, de a vender, de a impor, etc.

Jaime Gama, acha que há alguma dificuldade da nossa, de Portugal, do Brasil, de dar uma outra dimensão, que não seja apenas a de 260 milhões de falantes, que de facto já é uma coisa absolutamente extraordinária, de sermos a língua mais falada no hemisfério sul, de dar uma outra dimensão à nossa língua?

A língua, quanto a mim, tem tido uma irradiação por si só. Isso é também a sua força, tem tido uma irradiação natural e é uma língua que acabou por se implantar em territórios muito diversos, de uma forma quase natural, porque se virmos bem, em raras circunstâncias, se pode falar da parte de Portugal de uma política de língua muito estruturada, perseverante, agressiva. Há países que têm políticas de língua agressivas, muito fortemente organizadas, por exemplo, a França.

A França teve muito tempo.

Por exemplo, a Espanha.

Sim.

Há países grandes na sua cultura que nunca conseguiram definir uma política de língua para um mundo maior. É o caso da Alemanha, por exemplo.

Sim, mas isso também tem muito a ver com o fato da Alemanha nunca ter tido um império colonial. Isso tem algum reflexo nisso.

Sim, mas a Itália que tentou ter também não consegue ter uma política de língua, se reparar.

E a Itália, podemos dizer que é o país mais próximo da raiz das línguas latinas.

Exatamente. E com aqueles trios grandes: o Dante, o Petrarca, o Boccaccio, quer dizer, com grandes escritores.

A verdade é que, pese embora o que foi um esforço da União Latina, que na sua origem é um instrumento italiano para contornar a francofonia e, sobretudo, jogar e fazer ressuscitar, projetar as componentes italo falantes na América do Norte e na América do Sul, mas tudo isso acabou também por não ter um resultado muito forte. Agora, no caso português, é interessante verificar como a língua quase que cresce de noite e de dia tem muitos adversários para a sua correta.

Essa sua expressão é muito engraçada.

Para o seu correto desenvolvimento, porque se gire até na atualidade, os maiores adversários da língua portuguesa não estão na comunidade internacional, estão muitas vezes em alguns mitos que há em torno deste facto. Vou dar um exemplo: a França tem muito bem organizada a francofonia e a difusão da língua francesa. A França centraliza o uso do francês na França de uma forma verdadeiramente hegemônica e muito rude. E depois levou o francês para todas as áreas onde se implantou o seu império A Inglaterra, mas a alguém passa hoje pela cabeça classificar o inglês como uma língua de colonização? Não, mas sempre que os anglófonos falam, por exemplo, do português nos rankings que falam das línguas, etiquetam logo o português como a língua de colonização, o que é também uma extraordinária forma de classificar. A Espanha tem uma história de imposição no território espanhol do castelhano, através de um denso enquadramento jurídico, de uma centralização fortíssima e até de luz a criminalização aos não falantes e da repressão linguística do não castelhano brutal.

Isso tem muito mais a ver com questões peninsulares do que propriamente coloniais.

Sim, aliás, verifica-se que hoje a questão linguística espanhola é muito menos uma questão na América Latina do que uma questão dentro da própria Espanha. Isso também é muito interessante. Agora, a Espanha tem uma política pra língua, porque tem a Academia Espanhola, tem as academias da língua em 20 e tal países, tem o dicionário da língua espanhola, tem as gramáticas da língua espanhola, tem os léxicos e vocabulários técnicos, tem o prêmio literário da academia e até tem, constitucionalmente, para defesa da monarquia, atribuição ao soberano espanhol de uma missão em relação à hispanidade, que faz com que a cúpula de toda essa política. Portanto, há aí um quadro bem articulado. Ora, no caso português, tem havido sempre o uso de meios espontâneos, mais do que meios urdidos ou pré-concebidos, até se verificar esta atribuição de mais um dia internacional da Unesco, ao 5 de maio como Dia da Língua Portuguesa, veio pôr na sua celebração em evidência a ausência de uma política de língua e também a ausência de uma reflexão e de uma prática muito conseguida em relação ao estado do ensino da língua portuguesa no básico e no secundário.

Ó Jaime, vamos deixar isso pra segunda parte do programa, porque precisamos agora interromper para o nosso habitual noticiário. Olá, sou o Bruno Roseira, sou editor de esporte do Observador. Estou a trabalhar em casa como o resto da redação, mas continuamos empenhados em dar os melhores conteúdos, decodificar o que se passa por cá e lá fora, no futebol, no esporte, na economia, na saúde ou na ciência. As luvas que falamos hoje são diferentes, as estatísticas são outras e muitas informações ainda merecem var, mas informar com rigor e isenção é sempre a melhor tática. Fazer jornalismo de qualidade tem um custo e é por isso que o seu apoio é tão importante pra nós, pra que possamos continuar a fazer da pergunta e da análise o melhor caminho pro gol. Se quer juntar-se à nossa missão de serviço público, torne-se assinante do Observador. Retomamos aqui a nossa "Conversas à Quinta", estávamos a falar da língua portuguesa, estávamos precisamente a falar do ensino da língua portuguesa. Jaime Gama, ia comentar que me parecia que em alguns aspectos, esse ensino não segue pelos melhores caminhos.

Aí há muita agenda dominante que se antepõe à agenda real. Por exemplo, quando se fala em ensino de português no estrangeiro, fala-se sempre com preferência do ensino do português às comunidades imigrantes, muito na ótica de um lobby corporativo dos respectivos agentes de ensino, e não tanto do que é a inserção do português no sistema das universidades avançadas da comunidade internacional, que é algo muito importante pra nossa fixação nesse território exigente. Depois, se reparar, mesmo no quadro interno, eu já não refiro o que é a hegemonia de uma perspectiva estruturalista sobre a linguística que transforma o ensino do português, por vezes, num tenebroso labirinto codificado e não fomenta o gosto pela escrita, o gosto pela leitura, o contato com a literatura, o uso da palavra como expressão dos sentimentos e numa vida própria. Mas, por exemplo, uma certa subordinação ao deslumbramento com os crioulos. Depois, se quiser, também, uma desvalorização constante das humanidades em função das disciplinas técnico-científicas, com a consequente redução dos espaços e da importância atribuída à língua, à literatura, à cultura em geral.

Ó Jaime, mas, por exemplo, eu vou dizer uma coisa. Hoje em dia-

E também uma submissão aos impactos digitais, agora, à barbárie digital, com a prevalência dos YouTubers, dos rappers, enfim, de toda essa panóplia de comunicadores, não pensadores, mas que se sobrepõe ao que deveria ser algo mais centrado na valorização da língua portuguesa, da literatura portuguesa, da plasticidade da língua e da capacidade de ler e de pensar através da leitura e de transmitir o pensamento através da escrita.

Exatamente. Ó Jaime, Jaime Nugra Pinto Muitas vezes diz-se que não se consegue escrever se não se ler. Para saber escrever é preciso, no fundo, lermos muito e não apenas os livros de estudo, que somos obrigados a ler, mas lemos tudo, lemos poesia.

E os best-sellers.

Mesmo lendo os best-sellers, lemos um bocado de tudo. Uma das coisas que muitas vezes faz um pouco confusão é aquela ideia de que nós, no ensino, lemos as fichas que fazem o romance, o resumo dos Maias e não se lê Os Maias, já não se lê Camilo Castelo Branco.

Isso é um horror.

Para já não falar de alguns autores contemporâneos.

Sim, isso é um horror. Eu acho que exatamente esse costume de fazer uma espécie de passepartout dos livros e fazer resumos, que às vezes são completamente idióticos, ainda por cima, podiam ser resumos bem feitos, mas às vezes são completamente idióticos. O Eça continua, apesar de tudo, a ser lido. Mas o facto de autores como Camilo, por exemplo, e não estou só a falar de Camilo, Aquilino Ribeiro, Ferreira de Castro, etc. Há uma grande quantidade de romancistas, Camilo século XIX e outros, como estes que eu citei, do século XX, que hoje praticamente não se lêem, não se editam, não se reeditam. E isso, de facto, empobrece profundamente a cultura média das pessoas. Porque eu acho que, por exemplo, Camilo não é só a questão de ser uma linguagem fabulosa, com um ir buscar de palavras, porque isto também é muito importante. Os grandes escritores têm, de certo modo, em relação à língua, sobretudo, têm um bocadinho o papel que os grandes sábios e os grandes cientistas têm em relação às ciências naturais. Os grandes escritores vão ou buscar ou reinventar ou trazer novidades à linguagem. Mas para além desse aspecto propriamente literário, há um aspecto de história, há um aspecto de sociologia do país que os grandes escritores revelam. O Eça, infelizmente, aliás, em muitos casos, personagens queirosianos continuam a ser atualíssimos na cena social, política, econômica e cultural portuguesa. Em Lisboa, sobretudo. Mas o Camilo é um grande conhecedor do resto do país. Aliás, a própria geografia do romance camiliano é uma geografia essencialmente norte do Mondego. E aí vê-se, muitas vezes, a própria continuidade do país, dos seus personagens, dos seus hábitos. Uma sátira política, por exemplo, como "A Brasileira de Brazins" é uma sátira política extraordinária. "A Queda de um Anjo", outra sátira política também interessantíssima. E "O Desaparecimento". Já não falando, porque, por exemplo, o Pessoa, apesar de tudo, entrou também na moda, para além das coisas. As pessoas ficaram com tudo. É evidente que é, de facto, um gênio poético e que esse não se perdeu. Pelo contrário, até nos nossos tempos acabou por ser muito estudado. Mas mesmo a nível de uma certa cultura mais popular, acaba por ser conhecido. Agora, os grandes escritores, a grande tradição historicista portuguesa, tudo isso está praticamente esquecido. Praticamente, não direi banido, mas talvez por razões, muitas vezes, ideológicas. Ideológicas é curioso, porque, por exemplo, Ferreira de Castro ou uma série até de romancistas neorrealistas, etc., também deixaram de se ler. Eu acho que há um empobrecimento geral, que começou a ser dado por essas fichas, esses resumos, tudo isso empobreceu extraordinariamente. São caricaturas das obras e, portanto, os jovens deixam de querer ler.

O Jaime tem um contacto mais próximo com netos.

Eu também tenho. Não sou tão devotado aos meus, mas também tenho.

Não é tão devotado, mas eu sei que o Jaime é muito devotado e acompanha-os muito. Há, às vezes, uma coisa que se nota nas crianças mais novas, que devem estar a estudar, que é o problema de eles concentrarem a atenção, de terem tempo suficiente de atenção. E a leitura, para todos os efeitos, exige algum tempo de atenção, porque o tempo de atenção de um ecrã é completamente diferente do tempo de atenção de ler uma página até ao fim, virar a página para outra, virar a página para outra, por aí adiante. Sente que isso pode ser um obstáculo à leitura dos mais novos?

Bom, isso obviamente que ocupa o espaço público individual e, consequentemente, havendo aplicação de recursos para essa área, não restam

Recursos para poder empregar de outra maneira. É preciso saber dosear, comprimir um pouco a extensão do consumo de ecrãs e favorecer o ingresso naquelas práticas que, quanto a mim, são aquelas que verdadeiramente trazem instrução, ciência, cultura, conhecimento, saber, arte. Isso é absolutamente essencial. E se reparar, à medida que o tempo passa, essa barbarização da perda da língua na sua vitalidade, é algo que depois se reproduz e transpõe na performance dos novos agentes. É por isso que vemos altas figuras da administração pública ou das empresas, da política, da comunicação, até do professorado, a ter prestações muito deficientes do ponto de vista do emprego, do manejo da língua portuguesa. E isso é incalculavelmente negativo para a vitalidade do país e da sociedade.

Uma coisa que muitas vezes levanta grande debate é se devemos ou não esforçar-nos por ter uma certa homogeneidade na língua. Isto é, se devemos escrevê-la toda da mesma forma, e portanto, é o debate do acordo ortográfico, se devemos pronunciá-la toda da mesma forma, porque eu acho que isso é difícil. Nem nós, aqui no continente português, neste pequeno retângulo, a pronunciamos toda da mesma maneira. Entre um alentejano e um habitante do Grande Porto. Mas a língua é claramente a mesma, sem dúvida nenhuma. Mas há muitas vezes um debate sobre qual é o grau de esforço que se deve fazer para manter esta uniformidade, chamemos assim, na língua. Se é, de facto, importante batermo-nos por isso ou se se deve permitir alguma possibilidade de haver maneiras diferentes de se escrever uma palavra, por exemplo, tal como há maneiras diferentes de a pronunciar. Qual é a sua perspetiva?

O inglês não tem essa rigidez e, portanto, admite e incorpora variantes britânica e norte-americana com grande à vontade e, ao que parece, com grande sucesso. Embora uma língua precise também de bases mínimas. A ortografia não é a totalidade da língua, mas é uma componente importante. E uma língua também quando quer ser algo que exerce atuação sobre certo espaço e quando esse espaço tem a pretensão de ser grande, precisa de regras mínimas para poder ser interoperável. Mas essas regras são e devem ser regras mínimas. Não devemos reduzir a isso a totalidade do problema da língua, porque a criatividade na língua é também aquela que deriva da sua utilização criativa pelos escritores e pelo povo. Aliás, é assim que os dicionários crescem. Os dicionários crescem quando vão buscar as novas palavras à imprensa, a registros. Daí a importância daquelas famosas teses monográficas de licenciatura das faculdades de Letras, que eram recolhas feitas do léxico, do vocabulário em áreas regionais. Certos escritores que incorporam muito na literatura mais regionalista a palavra ouvida, o caso da Aquilino Ribeiro, que deu uma contribuição ao crescimento dos dicionários portugueses.

Aquilino Ribeiro é preciso quase ler o dicionário ao lado.

Brutal. Portanto, temos que ter em consideração todo esse envolvimento. Agora, não quero chocar, mas Roland Barthes, em "Suspeito", dizia que toda a língua é fascista. Ou seja, toda a língua impõe regras, impõe uma ordenação, é hierarquizadora, porque a língua é também um correlato da lógica, da ordenação do pensamento, e isso tem modos específicos de funcionar que não se compadecem com a espontaneidade permanente da sua recriação.

É curioso que, por exemplo, nós estávamos agora aqui a falar sobre este aspecto de nós não termos a mesma forma de escrever uma língua que é comum, mas de entendermo-nos todos. E, neste momento, aquela que é a língua, não sei se é a mais falada no mundo, se não é, mas é seguramente uma das mais faladas, que nós chamamos de chinês, mas há vários chineses. O chinês escrito é o mesmo, mas os chineses depois não se entendem se falarem um chinês de Xangai, de Xangai não digo, mas um chinês de Cantão, daquilo que a gente chamava Cantão, que agora se chama Guangzhou, não consegue perceber um chinês de Pequim. Mas escrito entendem-se. E isto é uma língua com mais anos do que as nossas. Com muito mais anos, mais antiga. Não deixa de ser curiosa esta evolução.

É uma escrita ideográfica, não é uma escrita alfabética. Tem isso as suas vantagens para certas etapas, mas também, se reparar, isso é algo que, por exemplo, põe relativamente em causa a vantagem competitiva entre a Índia e a China. A Índia por ter um acesso à língua inglesa brutal, fazendo da Índia o maior país do mundo de língua inglesa. E a China não tem essa capacidade, embora o reconhecimento de que o inglês era um produto importante de aprendizagem é algo que mesmo nos períodos mais radicais de Mao Tsé-Tung, não foi nunca posto em causa, por entenderem essa sua importância no acesso à tecnologia, à ciência, ao conhecimento internacional. Mas se verificar, a China investe hoje muito no conhecimento de línguas estrangeiras, porque sabe que pouco pode investir na expansão do mandarim, mas tem dificuldade em lidar com esse assunto, porque o seu conhecimento de línguas estrangeiras tem graus notórios de deficiência. Por exemplo, lembro o ano passado, uma exposição sobre Confúcio na Reitoria da Universidade de Lisboa, tinha legendagem em português cheia de erros, o que é uma coisa grave para um império que pretende ter esses departamentos do Instituto Confúcio em todo o mundo e que não é capaz de apresentar decentemente uma exposição sobre Confúcio na língua de acolhimento dessas instituições, neste caso, do português.

Nós estamos quase a chegar ao fim. Brevemente, Jaime Nogueira Pinto. A CPLP tem sido um bom instrumento para promover a língua portuguesa?

Tenho algumas dúvidas. Quer dizer, há, de facto, uma série de magníficos escritores neste espaço. Só que o problema também da CPLP é sempre a questão do Brasil, por um lado. O Brasil, por um lado, sempre se achou, e com razão também, maior. O Brasil sempre olhou um bocadinho, quer para nós, quer para os nossos irmãos africanos, um bocadinho de cima, porque o Brasil, de facto, considera-se, e com alguma razão, pelo seu potencial económico, territorial, população, considera-se numa linha de potências imediatamente a seguir às superpotências, sempre se considerou assim. E, portanto, ou olhava para a CPLP um bocadinho como um instrumento da sua política, ou então interessa-lhe relativamente pouco. Ou tem interessado relativamente pouco. Não sei, também depende sempre um bocadinho da própria política brasileira. Mas a lógica histórica tem sido essa. E não vejo que, de facto, tenham acontecido dentro do espaço institucional da CPLP, grandes iniciativas ligadas exatamente a essa promoção da língua, do conhecimento dos escritores. Quer dizer, tudo isso que poderia ser, no fundo, o papel de uma instituição desse tipo, é tornar os escritores angolanos conhecidos em Portugal, tornar os portugueses conhecidos em Moçambique, essas coisas todas. Não sei até que ponto isso é feito. Isso também depende um bocadinho de que escritores, o que se vai buscar aqui. E isso não vejo que tenha havido grande esforço ou grande preocupação sequer com isso até hoje.

Bem, e terminamos mais um "Conversas à Quinta", desta vez sobre a língua portuguesa. Reencontramo-nos dentro de uma semana.