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Bem-vindos de regresso ao "Conversas à Quinta". Hoje temos um programa que, como é habitual nesta época do ano, é um clássico. Vamos falar de livros, não só os livros do ano, são livros do ano e livros de Natal. Nós temos também sempre um programa de livros para ler no verão, para ler nas férias. Hoje vamos falar sobre alguns dos bons livros que saíram recentemente em Portugal e não só, há sempre também uma escolha um pouco mais alargada. Como também é muito habitual neste programa, há muitos livros de história aqui em cima da mesa. E vamos começar talvez pelo princípio: "Idade do Gelo", Jaime Gama.

Sim, é um livro que acaba de sair de João Zilhão. É muito baseado no que é o seu trabalho como investigador, como professor muito reputado e no seu trabalho de campo, até na organização do Parque do Vale do Côa. E que no fundo, procura agarrar o que foi Portugal na Idade do Gelo. Portanto, quando ainda os nossos antepassados, que seriam cerca de 10 mil.

Portanto, Portugal pré-lusitano.

Exato.

Bem pré-lusitano. Pré-Viriato.

Seriam cerca de 10 mil. Uma parte do país estaria coberta de gelo, a costa teria contorno diferente, porque o nível do mar seria 140 metros, quase no seu limite mais baixo. Haveria glaciares a circular em frente da costa e haveria animais.

E haveria glaciares nas montanhas, na Serra da Estrela, também alguns na Serra Gerês.

Mas isto no sentido de glaciares flutuantes.

Sim.

Haveria também ainda animais de grande porte e, portanto, é como esses nossos antepassados de há 300 gerações sobreviveram nesse contexto. E isto tudo baseado no que tem sido a recente descoberta científica, a arqueologia do Paleolítico, na comparação com outras descobertas que têm sido feitas em Espanha, em outras partes da Europa e, portanto, é um livro muito interessante.

E com o Neandertal, não é?

Sim, é um livro muito interessante para compreender o nosso próprio país e é um livro fundamental na medida em que também nos ancora no território português, na identidade nacional e, portanto, é um livro contra a corrente, no sentido que vai contra a desestruturação do conhecimento histórico pela ideologia radical.

Jaime Gama Pinto, traz aí outro, também de história, sobre Portugal. Vamos continuar em Portugal. Mas vamos primeiro ao Nuno Palma. O Nuno Palma é um historiador econômico. Temos aqui as causas do atraso português.

Eu tenho estado a ler este livro e acho que é um livro, de fato, fundamental porque é um livro escrito por um historiador econômico.

Ele é professor, é socratráfico em Manchester, é um historiador econômico. Nós não temos muitos historiadores econômicos.

Historiador econômico, mas que para já, atenção, que tem uma qualidade como historiador econômico. Normalmente os economistas têm uma dificuldade, usam uma linguagem de economês e têm uma dificuldade de comunicar para pessoas normais tremenda. Ou às vezes até pretendem fazer da economia uma ciência oculta. E Nuno Palma tem a qualidade que, por exemplo, via em Schumpeter também, escrevem sobre economia, põem os quadros que é necessário acrescentar, mas são claros, percebe-se perfeitamente o que estão a dizer. E depois, de fato, este livro arruma com imensos mitos e, portanto, também despertou em alguns setores ideológicos uma grande fúria, que parece que até foi ao ponto de coisas ridículas como escreverem para a Universidade de Manchester a denunciar.

Ainda foi antes do livro.

Ainda foi antes do livro. Por causa de uma intervenção que ele fez.

Calma, a intervenção que ele fez numa conferência em Lisboa.

Numa conferência aqui em Lisboa, exatamente. Agora, o livro é de fato um livro muito interessante.

Basicamente, o que ele nos diz é que o ouro do Brasil nos fez mal e os fundos europeus nos fazem muito mal também.

E que o momento em que estivemos, de fato, mais próximos da Europa, que foi os últimos anos do Estado Novo, os anos a partir em que houve, de fato, uma maior convergência.

Em que houve mais convergência, não tem a ver com, e mais próximo tivemos mais cedo.

Sim, mais convergência, que houve mais convergência digamos em termos numéricos, estatísticos, de crescimento, etc. Bem, era a noção que eu tinha, mas gosto de ver alguém especialista a sublinhar essas coisas.

Bem, vamos mudar um bocadinho, que isso são dois livros. Ainda podemos continuar na história de Portugal. Tem aí mais um que é do Marechal Soult.

Ora bem.

Este agora não é em português, é em francês.

É em francês. O Marechal Soult é um personagem muito interessante da história francesa.

Portanto, segunda invasão francesa.

Segunda invasão francesa. Mas ele nasce 30 anos antes da Revolução Francesa e depois tem uma longuíssima carreira, porque ele é feito marechal por Napoleão em 1804. Depois é o homem que está à frente das operações na península Durante vários anos. E depois do fim do bonapartismo, ele tem uma carreira política em França, na monarquia de Julho, bastante importante. Ele é três vezes primeiro-ministro nos anos 30 e 40 em França, do século 19. Mas este livro é muito interessante. Eu devo dizer que já sabia isso, mas gostei de ver reconhecido por um francês. Ele diz o mal que Napoleão imaginou a resistência dos portugueses. Napoleão estava à espera de um povo mais ou menos acomodatício, que iria facilmente receber os franceses, e o que se viu, de facto, foi que enquanto uma parte das classes dirigentes pactuou com Jonh Moores, o povo, e ele aqui fala permanentemente da resistência das milícias e do povo português, uma resistência permanente, em guerrilhas, em ataques, e com grandes perdas pros franceses, que depois também são obrigados a ripostar e a retaliar com grande violência. Claro, eu conhecia, e nós todos conhecemos isso, o romance português do século 19 está cheio de narrativas dessas, no Camilo Castelo Branco, no Arnaldo Gama, em muitos escritores da época. E também sabemos isso pela própria história de Portugal, história das invasões francesas. Mas é muito interessante ver aqui, de facto, a bravura desse povo e às vezes dá vontade de perguntar onde é que eles se meteram.

Por falar de bravura, eu trago dois livros. Não são exatamente os dois sobre a Ucrânia, um é sobre a Ucrânia, o outro é sobre aquela parte da Europa. E são de dois autores que eu, por razões diferentes, aprecio bastante. Um é a "A Mais Breve História da Ucrânia". Isto é numa coleção que agora está a ser editada em Portugal, pela Dom Quixote, que são "A Mais Breve História", que tem alguns livros muito interessantes. Eu julgo que já recomendei aqui, salvo erro, "A Mais Breve História do Reino Unido" ou da Inglaterra, mas tem outros também interessantes sobre a Alemanha, designadamente.

A Índia, a Rússia.

A Índia, a Rússia, exatamente. É um livro do José Mihas, que desde que começou a guerra, se tornou uma das personagens mais conhecidas do país.

Que fez um sobre a Rússia.

E que fez o primeiro sobre a Rússia, que foi o livro mais vendido em Portugal no ano passado. Esse livro sobre a Rússia foi um absoluto sucesso de vendas, com dezenas de milhares de exemplares, coisa que em Portugal é raríssimo.

Sim, é raríssimo.

E ele agora atirou-se pra um terreno que ele não estaria tão à vontade. Aliás, é um livro coautorado por um historiador ucraniano, Vladimir Dolin, "A Mais Breve História da Ucrânia". Não é só uma questão de nós contrariarmos as teses históricas de Putin, é ter uma noção de como a história por esta região do mundo é de facto uma história complexa. Há momentos na história da Ucrânia em que o país aparece e desaparece rapidamente, num período de tempo muito curto. Há períodos em que, por exemplo, Kiev, naquele período final da Primeira Guerra Mundial, foi ocupada num mesmo ano por exércitos sucessivos, penso que 11 vezes. É uma terra particularmente traumatizada. E precisamente por isso, vale a pena também este outro livro de Timothy Snyder. Timothy Snyder é um grande historiador e aliás, um intelectual público norte-americano, professor em Yale, chama-se "Terra Sangrenta". Este livro já tinha uma edição portuguesa, é uma reedição, e vem muito oportuna. Este livro trata basicamente a Europa entre Hitler e Stalin, e conta como é que entre o Holodomor e o Holocausto, houve ali umas regiões da Europa que foram literalmente terra sangrenta. No fundo, foram passadas a sangue durante umas décadas no século passado, zonas de um imenso sofrimento, e que nós, aqui neste cantinho da Europa, não temos bem memória disso. Talvez aquele período mais próximo que temos disso são as invasões francesas, que é já há dois séculos.

Há dois séculos.

E isto foi há 70 anos. E este livro, Timothy Snyder tem um outro, "Terra Negra", sobre o Holocausto, depois tem um sobre os populismos e tem também uma história de um chamado Príncipe Vermelho, que era um dos últimos Habsburgos. Muito interessante. Continuando na história, mas indo pra uma visão mais global, Jaime Gama, tem aí um grande jogo, como costuma dizer. Mas que não deve assustar as pessoas, pelo que eu também já vi desse livro. Tem mais de 1000 páginas.

Sim. É "O Mundo: Uma Breve História da Humanidade", de Simon Sebag Montefiore. É uma história subjetiva, individualizada, porque procura realçar o papel que desempenharam casas reinantes, grandes figuras, no desenrolar dos acontecimentos históricos em variadíssimos países, em variadíssimos continentes. Sebag Montefiore é um grande historiador.

Obras sobre os Romanov, tem obras sobre Stalin, uma sobre a sua infância e outra sobre a sua corte lisonjeira. Tem um livro extraordinário que é uma biografia da cidade de Jerusalém.

Esse livro é maravilhoso.

Um livro imprescindível para compreender a situação do Oriente Médio.

Recentemente reeditado também em Portugal.

Sim, tem uma tradução portuguesa. E é também alguém que intervém publicamente, designadamente sobre a situação atual no Oriente Médio, de forma pública, em podcasts.

Ele é descendente de judeus portugueses.

Sim.

Tem vagas raízes em Portugal ou na Península Ibérica.

Ele próprio me disse que tem duas ascendências judaicas. Tem uma ascendência asquenaze, russa, lituana e tem uma outra marroquina sefardi, embora seja uma família distinta dos judeus britânicos que, de certa forma, ajudaram a criar o sionismo em Londres, de que ele é o ramo intelectual, acadêmico, universitário e, portanto, é uma pessoa que reúne grandes recursos para colocar as questões que coloca com elevadíssima erudição.

Eu sei que o Jaime Moita teve com ele. Por acaso aquele moinho Montefiore, cá em Jerusalém, tem a ver com a família dele?

Tem sim, porque os Montefiore fazem parte daquele grupo de judeus muito ricos, os Rothschild britânicos, que adquiriram propriedades ainda durante a dominação otomana da Terra Santa e que o renovaram ou fizeram lá distintíssimas moradas e distintíssimos palácios, creio que ainda hoje pertencentes a essas famílias.

Continuando a falar de história, vamos para a Bíblia e para as religiões, até porque temos cá hoje três livros sobre essa área. Eu trouxe dois livros sobre a Bíblia. Estamos no Natal, as pessoas gostam de olhar para essas coisas. E são dois livros diferentes, mas ambos de autores portugueses e ambos muito interessantes, muito curiosos. O primeiro é este livro, Francisco Martins, "A Bíblia Tinha Mesma Razão". Isto é uma visita àquele que na Bíblia tem raízes históricas, mas com muito detalhe e muita precisão.

Havia um livro há muitos anos, nos anos 50, que era "A Bíblia Tinha Razão", não é?

Sim.

Isto foi um ponto de interrogação.

Isto é um ponto de interrogação, porque há aspetos.

E é de um jesuíta.

É um jesuíta, é um estudioso jesuíta.

Quatro doutoramentos.

Quatro doutoramentos, imenso tempo em Roma. É um erudito.

E há um livro ligeiro que marcou imenso Portugal, que é "Jesus Passou por Aqui", de Guedes de Amorim.

Exatamente.

Repórter na Terra Santa.

Guedes de Amorim.

Mas isto não se centra sobretudo em Jesus, na história de Jesus, centra-se mesmo na Bíblia, em Moisés, Abraão, o exílio no Egito, o exílio na Babilônia. E, no fundo, há muita informação recente, arqueológica, designadamente, que permite perceber aquilo que é verdade no sentido aproximado do termo, aquilo que é mito e aquilo que a Bíblia é. A Bíblia não é propriamente um livro de história e também não é só um missal, no sentido mais religioso do termo. A Bíblia é, e é uma comparação muito interessante, um livro mitológico, que tem muito fundamento histórico, mas não tem que seguir a história à letra. E é uma comparação que ele faz até em entrevistas com Os Lusíadas. Os Lusíadas é um livro que nós sabemos que está lá a história de Portugal, mas não é a história de Portugal. E portanto, aqui está muito a história daquelas terras e de algumas coisas que ali aconteceram, mas não é aquela história. Houve uma migração de Moisés, ou alguém, do Egito para a Terra Santa, mas não eram 10 mil pessoas ou víamos aquela imigração gigante que vem contada. Desse ponto de vista é muito interessante. O outro é bom para quem gosta de pensar na mesa e no Natal. Chama-se "À Mesa de Deus: os alimentos da Bíblia". É de Maria Letícia Monteiro Cavalcanti, também uma autora portuguesa. É um livro que lhe foi sugerido pelo nosso cardeal Tolentino, cardeal José Tolentino Mendonça, já há mais de 10 anos. Julgo que na altura o cardeal Tolentino estava ainda naquela paróquia que era dele em Lisboa, ali em Santa Isabel. E é aqui contado, foi um encontro numa casa de secondes famosa que fica precisamente perto do Largo do Rato, em que eles falaram disto. E vai percorrendo tudo. O vinho, o vinagre, como isso aparece na Bíblia, os animais de caça, os gafanhotos. Ela vai dizendo as vezes que são citadas, as circunstâncias e o que isso também significa um pouco para a tradição, não diria gastronómica, que alguns aspetos não é gastronomia, mas para a tradição alimentar E religiosa. É um livro muito interessante. E agora, como é habitual, temos que interromper. Voltamos dentro de alguns minutos pra segunda parte do "Conversas à Quinta". Estamos de regresso ao "Conversas à Quinta". Jaime Gama, o enquadramento geral talvez disso tudo, uma coisa mais genérica.

Bom, é o segundo volume da história das religiões, coordenado cientificamente pelo professor Gouveia Monteiro, da Universidade de Coimbra, onde há um núcleo de história das religiões. No primeiro volume, foi abordado o cristianismo, o judaísmo, grandes religiões orientais, com exceção do taoismo, que é agora abordado neste volume. Este volume tem a religião de Roma, da Grécia, mitos germânicos, religião céltica, etc. Portanto, é um complemento do que já tinha sido iniciado no primeiro volume, mas a demonstrar como as nossas universidades têm agarrado esta temática. É, porventura, de autoria portuguesa a primeira grande história das religiões, feita por diversos autores e que muito dignifica o papel de um centro de estudos numa universidade, neste caso, a Universidade de Coimbra.

Já que estamos a falar de universidades, o que é filosofia?

O que é filosofia é um livro bastante importante de António de Castro Caeiro, que é professor de Filosofia Antiga na Universidade Nova de Lisboa. Este livro tem um grande mérito: creio que ele foi originado em blogs no tempo do Covid, mas agora aqui está reduzido a escrito. É um livro onde se procura abordar autores de filosofia com alguma profundidade, mas tendo um impacto didático nos estudantes, nas novas gerações. Autores como Platão, Aristóteles, Santo Agostinho, Kant, Heidegger, o próprio Wittgenstein. Por que isto tem importância? Isto tem importância porque o estudo da filosofia em Portugal tem sido, desde há uns anos a esta parte, muito dominado pela lógica proposicional e pelo positivismo lógico. E essa orientação exclusiva tornou-se muito hegemônica na fabricação dos programas do secundário e depois também no livro escolar. E assim como uma overdose de linguística fez decair muito o interesse dos estudantes pela língua e pela literatura, e transformou tudo aquilo numa descodificação sinalética muito complexa e sem vida, a filosofia hegemonizada pela lógica proposicional também veio a desvitalizar o ensino da filosofia e o ensino da filosofia junto dos estudantes, da filosofia como instrumento de interrogação, de conhecimento, de abertura de perspectivas.

E até do ponto de vista da própria perspectiva do como ela foi evoluindo ao longo da história.

Exato. É uma rutura que seca. Como é que isto nasce? Nasce um pouco em rutura com a escolástica e com o marxismo, mas acabou por criar uma nova dominância que não é menos formalística e que reduz tudo à resolução de testes um pouco já pré-construídos e muito orientados mais pra matemática. Não digo que não seja importante, a lógica proposicional é muito importante, mas tem o seu lugar. E na gradação didática da transmissão de uma área tão importante de saber, estrangula. E, portanto, António Castro Caeiro vem representar um caminho de rutura e de reposição da filosofia com interesse cultural, com interesse nos autores, com interesse nas problematizações que fazem mais sentido e têm mais profundidade. Portanto, é uma luz de esperança no fundo do túnel do positivismo lógico.

Jaime Nogueira Pinto, tem aí um livro de um autor português, que aliás, de vez em quando escreve artigos aqui pro observador.

Exatamente. É o José Luís Andrade. Este livro é o segundo e há de haver um terceiro. Isto é uma tese de doutoramento. Ele doutorou-se na Universidade de Pamplona em dezembro do ano passado, exatamente com uma tese feita em inglês, sobre a intervenção portuguesa na Guerra Civil Espanhola.

Portanto, o livro chama-se "Portugal and the Spanish War".

"Portugal and the Spanish War". É o segundo. Isto é aquelas edições que eu não sei tecnicamente como é que se chama isso. São aquelas edições em que o livro está e as pessoas vão encomendando.

Sim. São estas coisas novas que são encomendadas.

Ele aparece como uma edição da nossa revista, da Crítica 21, mas essencialmente é esse modelo. As pessoas vêm O livro encomenda. Há muitos mitos à volta da intervenção portuguesa na Guerra Civil de Espanha, sobretudo foi pintada como muito maior do que o foi. E há aqui algumas coisas interessantes que o José Luís Andrade estuda. Eu confesso que conhecia relativamente bem esta história, estes episódios, mas não sabia isso. Uma certa tensão que há à partida entre o presidente da República Carmona e os militares que querem preparar uma intervenção militar forte, e Salazar que tem uma linha bastante mais prudente, mais diplomática. E, por exemplo, todos aqueles números que foram depois dados dos Viriatos, etc. Tudo isso foi bastante exagerado na tradição. Independentemente de ideologias, foi sempre muito exagerado e este livro tem, de facto, o interesse de ser bastante rigoroso naquilo que foi essa intervenção.

Já que está com a mão na massa, fazendo uma transição para guerras civis e para livros mais romanescos, digamos assim.

Temos aqui um. Aliás, o título é muito giro: "Vidas e mortes de Abel Chivukuvuku: uma biografia de Angola". É um livro de José Eduardo Agualusa, que foi feito em diálogo com Abel Chivukuvuku, Abel Palanga Chivukuvuku, que além de mais também é um bom amigo meu, é um velho amigo meu.

Que era um dirigente importante da UNITA.

Foi um dirigente importante da UNITA. Ele aqui conta que esteve várias vezes às portas da morte, em aviões que caíram. Ele estava em Luanda naquele famoso episódio pós-eleitoral, em que há uma liquidação de facto de algumas lideranças da UNITA. José Eduardo Agualusa, evidente, eu conheço como muita gente. Conheço também pessoalmente, mas conheço sobretudo a partir de um belíssimo romance, que foi quase um romance de estreia dele, "Estação das Chuvas". E aqui é um diálogo entre os dois.

Agualusa, que é muito conhecido em Portugal e vive há muito tempo em Portugal, é um angolano, não é?

É um angolano, exatamente. É um angolano e ele hoje em dia tem uma casa também na Ilha de Moçambique. Ele está permanente, intervém e publica muito em Portugal, livros e também artigos. E este livro é muito interessante porque acaba por ser também, como aqui vem, uma biografia de Angola, acaba por ser, de facto, uma biografia, uma história rápida e breve de Angola, com esta coincidência muito interessante, que Abel Chivukuvuku é de facto uma figura extraordinária, dotado de grandes qualidades de chefia, carisma, inteligência, tudo isso. Tem também uma coisa curiosa: ele fez 18 anos no dia da independência de Angola. Também é um fenómeno interessante. Faz exatamente anos no dia 11 de novembro.

11 de novembro. Jaime Gama, Horácio.

Horácio.

Horácio.

Obras completas editadas por Frederico Lourenço.

Portanto, o nosso Frederico Lourenço quase todos os anos tem feito um trabalho de tradução absolutamente-

Aqui não bíblico, mas da poesia latina. É sempre bom ler os clássicos, é sempre bom ler Horácio e traduzido por Frederico Lourenço. Há outras traduções portuguesas, mas eu gostava, sobretudo, de chamar a atenção a propósito deste livro, do tempo que tem vindo a ser recuperado num tempo perdido quanto à nossa relação com os clássicos. E que acho que prejudica muito esse desinvestimento, prejudica muito a língua portuguesa, a cultura portuguesa e o papel de Portugal na cultura portuguesa. Porque nós não fizemos em relação aos clássicos gregos, latinos, nas universidades. Depois vou também dizer na Igreja Católica, o que fizeram, por exemplo, as universidades de Harvard, Cambridge, Oxford. A coleção Les Belles Lettres da editora Guillaume Budé, em França, ou a Conferência Episcopal de Espanha com a edição da Biblioteca de Autores Cristãos.

Cristianos, eu tenho vários livros desses.

Que traduziu para castelhano tudo o que são os textos teológicos fundamentais da filosofia cristã.

É um trabalho que o Blanken começou a fazer há muitos anos, mas nunca terminou.

Sim, e nunca com sistematicidade. Porque isso é fundamental para manter uma relação da parte de quem se insere numa língua universal e onde o seu acesso a esses dados foi primordial. E, portanto, capturar boas traduções dos clássicos para o português, teria sido um investimento cultural no espaço da lusofonia fabuloso e de grande importância na atualidade.

É curioso que uma tradução nova e importante de um clássico continue a fazer notícias. Agora, por exemplo, na imprensa anglo-saxônica, há uma tradução nova da Ilíada que toda mundo fala.

Sobretudo se essas traduções, através do trabalho de pesquisa, de comparação e de assimilação do que é entretanto descoberto quanto às línguas antigas, se essa tradução atualiza e reverte tudo isso numa edição crítica, isso é um instrumento de alargamento não só da literatura, como do próprio conhecimento histórico. E também é algo que testa o que é o valor e o significado destas unidades de estudos clássicos. Também é preciso notar que nesta matéria, todo esse desinvestimento é fruto de uma programação deficitária das fontes de investimento público à investigação científica, que tendem a privilegiar mais a ciência das tecnologias na sua alocação de subsídios do que as humanidades, porventura ignorando que elas têm uma importância porventura tão grande como a dimensão técnico-científica para a criação de uma esfera de influência e para a irradiação de uma cultura.

Já agora que estamos a falar de Federico Lourenço, deixem-me recomendar, não é um livro, é um podcast. É uma entrevista com Federico Lourenço muito interessante, feita num podcast chamado "45 Graus", do José Maria Pimentel. Ele faz entrevistas longas, uma hora, uma hora e meia, e uma dessas entrevistas, talvez há dois anos, foi precisamente com Federico Lourenço e é uma entrevista particularmente interessante desse podcast "45 Graus". Continuando na área da literatura, um livro que tem alguns aspectos surpreendentes, "As Três Mortes de Lucas Andrade", do Henrique Raposo. O Henrique Raposo não é propriamente um romancista conhecido, é um colunista do Expresso e há uns anos que se aventurou a escrever um romance. Não creio que vá ficar na história da literatura portuguesa como romance, mas tem algumas passagens que ao meu ver revelam um país que o próprio Henrique Raposo conheceu. O Henrique Raposo, já uma vez fizemos aqui um programa sobre ele por causa do livro sobre o Alentejo, em que ele ia às suas origens familiares alentejanas e escreveu um livro sobre o Alentejo controverso. Neste livro, que eu julgo que tem também uma componente autobiográfica muito grande, toda a primeira parte é um mergulho nos subúrbios de Lisboa de cortar a respiração. É um mundo dos subúrbios.

De que época? De que tempo?

20 anos atrás, 30 anos atrás. Anos 80. Aqueles subúrbios já no período democrático. Alguém que vem da Beira para viver ali, depois vai à escola e é apanhado pela violência dos pequenos gangues e vai descobrindo o mundo de uma forma um pouco brutal, que é um pouco o mundo do próprio Henrique Raposo, que cresceu no subúrbio de Lisboa. Eu sei, porque ele uma vez me contou que todos os dias quando ia pra escola, tinha medo de um cão que algumas pelo caminho lhe mordia às vezes, lhe mordeu muitas vezes. E isso são coisas que parecem um bocadinho fora do nosso mundo. Quem é que tem medo? O quê?

Dickianianas.

Exatamente, dickianianas. Desse ponto de vista, este livro tem esse lado revelador. Eu depois trago um outro, que nós habitualmente não falamos de livros infantojuvenis. Este livro confesso que é um pouco pessoal. É um livro que foi escrito pelo meu irmão, João Paulo Fernandes, "Uma História da Vida e do Tempo". O meu irmão morreu em setembro e deixou este livro escrito, que foi agora publicado. Se o livro não tivesse interesse, não estaria aqui a falar dele, mas acho o livro muito curioso. É um livro que é uma história da vida, desde o surgimento da vida até à atualidade, até olhando um pouco pro futuro. Ele era engenheiro do ambiente, professor na Universidade de Évora. É um livro juvenil, mas que obriga talvez aos pais acompanharem os filhos na sua leitura, sobretudo se pegarem nele mais cedo. Tem umas ilustrações muito bonitas da Catarina Peixoto e é um livro que eu julgo que neste momento só está disponível se for encomendado à editora, que é a Leteia. Para terminar. Temos que terminar em grande, com o Prêmio Nobel, não é?

Para terminar, o Prêmio Nobel. Eu ainda não li, estou a ler este livro, mas eu gosto muito do Pamuk.

Do Pamuk. Orhan Pamuk.

Comecei.

Portanto, está falado de "Noites de Peste".

"Noites de Peste". Penso que é a última obra dele publicada. Eu gosto muito do Pamuk. Eu descobri o Pamuk, aliás, através daquele clássico do "Museu da Inocência". E li bastante coisas dele, quer romances, quer evocações. Também é uma cidade que eu gosto muito, que é Istambul. É uma cidade onde passei mais do que estive. Passei várias vezes, passo por lá quando se ia navegar ali para os Mediterrâneos e fazia-se muito passagem por ali. E ele aqui nestas noites da peste Também acho que fomos todos um bocado apanhados por isso. Eu próprio escrevi um livro chamado "Contágios" sobre as pestes, por causa do que nos aconteceu aqui há uns anos com a Covid. E ele, de facto, evoca um tempo de peste nos princípios do século XX, no Império Turco. Ele imagina uma ilha de mingaria, que é uma ilha que ficaria no Mediterrâneo, onde há exatamente um surto de peste. O sultão envia para lá um dos seus grandes médicos. E depois passa-se toda uma intriga à volta disso. Mas a força, de facto, do Pamuk é criar esses mundos imaginados e imaginários, onde ele projeta muito estas cidades. A cidade dele de referência é sempre Istambul. Ele projeta isso e depois sempre uma intriga completa, apaixonante. É, de facto, um grande escritor. E tem no prefácio uma coisa que eu gostei particularmente, que é dizer que a grande qualidade da ficção é que podemos pôr nos outros as histórias passadas connosco e em nós as histórias passadas com os outros. Eu acho que é uma grande observação sobre as vantagens.

E não se conhece a realidade de cada país sem ler a sua ficção. A ficção é que nos mostra aquilo que não vem nos livros oficiais.

George Orwell dizia isso numa recensão. Dizia que para conhecermos bem um país, temos que saber três coisas: temos que conhecer bem o funcionamento atual da sua economia, temos que conhecer bem a sua história, sobretudo nos aspetos políticos e militares, e temos que conhecer bem a literatura, a música e a cultura.

E depois, como diria Lawrence Durrell: "Sentar-se, abrir os olhos e deixar-se absorver pelo espírito do lugar."

Pois, exatamente.

Andar a pé e parar nos cafés.

Boa.

Bem, boa forma de acabarmos hoje mais este programa sobre livros para esta época natal. Reencontramo-nos dentro de uma semana.