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Olá, eu sou José Manuel Fernandes. Este é um podcast da Rádio Observador. Pode ouvir a rádio online e também em FM 98.7, na Grande Lisboa, 98.4, no Grande Porto. Bem-vindos de regresso a mais um "Conversas à Quinta". Hoje vamos discutir o que está em causa nas próximas eleições alemãs. São eleições muito interessantes porque depois de 16 anos de reinado, quase que podemos chamar assim, de Angela Merkel, que fez quatro mandatos seguidos, a chanceler com uma presença mais longa à frente dos destinos da Alemanha Federal, temos uma eleição muito aberta e com novidades. O que é que pode ser novo nesta eleição? Várias coisas. Primeiro, a possibilidade de haver uma alternância no poder. De uma forma relativamente surpreendente, o SPD, que até há poucos meses aparecia em terceiro lugar nas sondagens, está neste momento à frente das sondagens. O seu candidato, o ministro das Finanças, é uma figura muito popular e isso tem catapultado o partido para o primeiro lugar nos estudos de opinião. Depois, além da possibilidade de termos uma mudança de liderança na chancelaria, temos também algo que é novo na política alemã. Como se sabe, na Alemanha não se concebe a possibilidade de haver governos que não de maioria e, portanto, tem havido sempre governos de coligação, desde que existe a Alemanha constitucional, pós-guerra, e por isso formam sempre coligações. Essas coligações têm sido com dois partidos, mas desta vez, ao contrário do que sucedeu sempre, provavelmente não chega formar coligações com dois partidos. O sistema tem vindo a fragmentar-se e será necessário formar coligações com três partidos, o que abre um mundo de possibilidades e fala-se de um conjunto de bandeiras muito vasto em vários países para identificar as possibilidades das várias coligações possíveis. Jaime Gama, talvez possamos começar por falar um pouco da Alemanha que Angela Merkel deixa ao seu sucessor, ou sucessora. É mais provável que seja um sucessor. Como é que vê a Alemanha 16 anos depois da chegada ao poder desta senhora que veio do leste e que surpreendeu talvez tudo e todos?
A Alemanha tem tido uma das melhores performances políticas e económicas, sem dúvida. Embora com isso tenha também ganho alguns adversários de estimação e gerado algumas irritações. Irritações ao leste, irritações a oeste, mas enfim, a Alemanha propriamente dita reagiu sempre bem do ponto de vista da economia, manteve este modelo de exportações com grande dinâmica e tem tido estabilidade política. Pode ser que a senhora Merkel não é a protagonista de uma inventiva política grandiosa, mas é, ou pelo menos tem sido, realizadora de uma política durável e consistente, hoje reconhecida praticamente por todos. Pois também a forma como reagiu ao Covid e também a forma como tem equilibrado e orientado a política europeia. Só que a senhora Merkel depara, no momento em que cessa a sua carreira política, com um enigma, que é o de que uma boa parte dos alemães não considera que o sucessor que é escolhido pela CDU seja verdadeiramente o sucessor dela. E até uma parte acha que o verdadeiro sucessor é este candidato do SPD, que é um homem vindo de Hamburgo, terra com tradição de disciplina, terra originária de um grande chanceler alemão de rigor, Helmut Schmidt, e que é ministro das Finanças da senhora Merkel, vice-chanceler, e que tem somado também algumas vitórias que pode mostrar internamente, enquanto o seu concorrente tem sido presidente do estado da Renânia do Norte-Westfália. Ele tem-se projetado porque realizou o acordo, ele e o ministro das Finanças francês, Bruno Le Maire, foram muito importantes na obtenção do acordo a nível G20 sobre o imposto mínimo para as grandes companhias. Também um acordo sobre a recuperação europeia que não penaliza todos os contributos dos Estados membros, mas sim recai sobre novas receitas da própria União Europeia. O apoio económico para que o Ministério das Finanças contribuiu, gerido por ele, no caso da Covid
Centrado muito no emprego, mas que sempre foi apresentado como sendo possível graças a uma política de rigor orçamental que ele tinha dirigido. E aliás, sempre Scholz dizendo que pretendia em absoluto repor o travão orçamental em 2023. Portanto, uma imagem de rigor que faz com que ele seja, no campo da governabilidade da Alemanha, quase que o legatário da senhora Merkel. E esse ponto da campanha é um ponto central.
Aliás, há uma coisa interessantíssima. Ele fez um cartaz de campanha em que pôs as mãos naquela posição habitual da senhora Merkel. Parece quase que ele quer ocupar o lugar da senhora Merkel, apesar de Merkel ter feito uma intervenção no Parlamento alemão que seria não muito habitual, porque é uma intervenção de campanha, uma intervenção de despedida. Foi quase uma intervenção de campanha ao dizer que se os eleitores fossem-
Compreendo. No fundo, o que está a ser desenhado não é muito agradável e ela tinha que o fazer em nome da CDU e do seu campo político. Mas o que é a possessão pública é algo que já está muito consolidado a esse propósito. Scholz tem um grande diretor de comunicações na campanha, um homem, aliás, que vem de áreas muito distintas de organização de campanhas de comunicação, desde desporto até outras correntes políticas em outros países, portanto, também criativo. Quanto a uma campanha que se caracteriza muito pela não criatividade, mas pela fabricação de um lugar de responsabilidade, rigor, com alguma mudança nas políticas tradicionais do SPD, sobretudo em relação às políticas suscetíveis de galvanizar alguma parte do eleitorado descontentes. Portanto, há aí uma construção também que me parece bem organizada.
Já me garanto. Esta componente alemã, há claramente um mérito do candidato social-democrata, mas ao mesmo tempo há duas surpresas que, por um lado, a queda da candidata dos Verdes, que durante muito tempo os Verdes lideraram as sondagens, estiveram à frente, eram vistos como podendo mesmo serem eles a escolher o chanceler. E depois a prestação do candidato dos cristãos-democratas, que parece ser uma figura cinzenta, uma opção para alguém que não tem o brilho suficiente para poder disputar a chancelaria. Portanto, ele não tem conseguido emergir dos debates, não tem conseguido ganhá-los, ele precisava de os ganhar, e tem cometido algumas gafes complicadas, nomeadamente quando foram as cheias, que não o deixaram muito bem na corrida.
Sim, eu acho que vai haver aqui um problema. Primeiro, há, de facto, um problema que já observamos e até penso que já referimos aqui, que é de facto esta grande fragmentação do eleitorado. E julgo que aquilo que neste momento também está a mobilizar mais a atenção é se vai ou não surgir a possibilidade de fazer uma coligação à esquerda, incluindo o famoso Die Linke. Porque a esquerda, de facto, este partido Die Linke é um partido comunista antiga. Era o partido que governou a República Democrática Alemã, portanto, o partido comunista, e que tem nos seus dirigentes grandes admiradores ainda de Trotsky e de Lenin, como a própria dirigente Janine Wissler. E tem um programa bastante radical em matéria económica e ainda mais em matéria de política externa, que é nomeadamente a saída da NATO. Embora quer os Verdes, quer os sociais-democratas não sejam explícitos sobre se o vão excluir ou não vão incluir, mas de facto é um ponto bastante complicado.
Até porque uma questão que se coloca é: habitualmente na política alemã havia uma espécie de regra que era excluir os extremos. Portanto, os acordos faziam-se entre os partidos centrais e os extremos ficavam de fora. Ficava de fora o Die Linke à esquerda e a AFD à direita. E agora a questão que se pode colocar é se os-
Neste momento eles estão quase a chegar aos 25, 30%, somados. Estão quase a chegar aos 25%.
Não, o Die Linke está com 6%, até se colocar a hipótese Poder nem sequer entrar no Parlamento alemão se não chegar aos 5%, porque está com 6%. E a AFD vai ficar com os votos que se calhar é 11, 12, o mesmo que teve há quatro anos.
Mais perto dos 20. É um ponto importante. E depois também há outra questão que eu acho que é vital e que pode pôr um bocadinho em questão a política da nova administração Biden, que era de certo modo entregar um bocado à Alemanha e à França a gestão das questões da estabilidade da Europa e das questões europeias. E aí há outra questão muito importante, que é uma política relativamente independente da Alemanha em relação a Washington, quer em relação à China, sobretudo, mas também em relação à Rússia. Porque não parece que a política alemã nisso vá seguir. Tem havido alguns ziguezagues e penso que aliás, pela própria importância das relações comerciais, por exemplo, que a Alemanha tem com a China, é capaz de ser complicado que vá seguir política caucionária e restritiva que os Estados Unidos quereriam que os europeus seguissem em relação a Pequim e depois também um pouco em relação à própria Rússia. Eu acho que há aqui uma série de incógnitas que venha desta fragmentação. E depois mesmo ao nível do próprio SPD, o que se observa é que há também uma esquerda do partido que tem uma relativa força, sobretudo na segunda linha da estrutura, e que estaria aberta, sim, também a políticas mais independentes em termos, por exemplo, NATO, independentes em termos de alinhamento com os Estados Unidos.
Jaime Gama. Essa possibilidade de o Die Linke poder entrar para a coligação considera?
Sinceramente, acho que não vai governar a Alemanha, nem direta, nem por interposta figura. Acho que é um cenário um pouco apocalíptico, que eu percebo que os cristãos-democratas em perda exibam, mas não me parece que tenha a menor substância. O Die Linke é, aliás, um partido em decadência, que não conseguiu ilusionar o SPD pela forma como, porventura, isso estaria projetado. Agora, a questão da CDU é também muita casuística do facto de ter escolhido um apparatchik da CDU e não aquele que seria indicado, que é o ministro presidente da Baviera. Porque o ministro presidente da Baviera, que é do CSU, Martin Söder, é um político muito mais popular e muito mais reconhecido pela opinião pública alemã como tendo capacidade para ser primeiro-ministro. Mas por razões de equilíbrio dessa coligação e de hegemonia CDU e de triunfo da máquina sobre a opinião, houve esta imposição deste candidato que não tem corrido bem. Agora, tanto quanto eu vejo, o candidato a chanceler do SPD não vai realizar uma saída de uma grande coligação com a senhora Merkel, figurando até a imagem de ser o bom aluno da senhora Merkel, para vir entregar a Alemanha ao Die Linke, quando o Die Linke entrou na sua fase em que verdadeiramente não vale nada. Eu acho que isso é algo que está a caucionar. E as possibilidades combinatórias para coligações, todas elas apontam para uma dispensabilidade à direita do Alternativa para a Alemanha e à esquerda do Die Linke, porque as possibilidades combinatórias são muitíssimas, quer com os Verdes, quer com o FDP, quer até com o próprio CDU, embora isso não seja muito provável. Mas há alternativas que fazem com que a Alemanha não vá incluir no governo um partido que é preconizador do fim da NATO, da aliança preferencial com a Rússia. Isso não faz sentido.
Portanto, a questão do Die Linke, na sua perspectiva, não se coloca. Aliás, até se coloca a hipótese do Die Linke nem sequer entrar para o Parlamento Federal, para o Bundestag.
Aliás, o Die Linke é um partido também perpassado por uma polvorosa interna, a propósito de questões como a imigração e outras. É também um partido que não consegue gerar uma linha política palatável e sequer coerente.
Pois. Aliás, estes partidos muitas vezes sofrem este tipo de problemas, porque o próprio AFD que chegou a ter intenções de voto muito elevadas, está nas sondagens com um nível de intenção de voto inferior ao que teve nas últimas eleições e as várias eleições regionais em que várias vezes foi dada como podendo ter um bom resultado, isso nunca se concretizou verdadeiramente. Teve já várias cisões, vários problemas, guerras internas. Portanto, são partidos que às vezes surgem como protesto e que depois não conseguem ser coerentes durante muito tempo. Me parece, Jaime Gama.
Sim, foram partidos que tiveram o seu momento num certo período de crise, as crises da imigração, desemprego. Tudo isso favorece muito esses extremos, mas também a necessidade de coordenar políticas para responder, por exemplo, ao Covid, à emergência de uma crise económica e social. As deliberações que foram tomadas, as medidas que estão a ser implementadas, os programas que estão a ser postos em curso para a recuperação económica, a capacidade para demonstrar, no caso da Alemanha, um caminho que permita conjugar uma descarbonização da economia com uma economia exportadora, a reconstituição de um sistema internacional mais estável nas relações com a China, com a própria Rússia e com os Estados Unidos, o investimento numa União Europeia consolidada do ponto de vista económico, mas também financeiro e porventura mais ousada no campo político. Portanto, tudo isso faz com que haja uma propensão a que quem aponta um caminho realista, responsável, seguro, também tenha trunfos a jogar e não apenas quem se move em cenários apocalípticos.
Bem, nós terminamos o tempo da primeira parte do programa. Vamos fazer agora um pequeno intervalo. Regressamos dentro de alguns minutos. Estamos de regresso à Alemanha, na segunda parte deste "Conversas à Quinta". Jaime Gama Pinto, a Alemanha tem sido, de alguma forma, campeã da Europa e Angela Merkel tem sido vista um pouco como a líder informal do continente europeu, é veterana dos conselhos europeus e liderando o país com maior peso económico, acabou por ser determinante nos últimos anos. A mudança de líder vai, obviamente, colocar algumas dúvidas, como sempre coloca sempre que há uma mudança de liderança na Alemanha. Parece que o papel que a Alemanha hoje tem na Europa pode colocar em causa o caminho que a Europa tem vindo a seguir, apesar de termos neste momento uma presidente da Comissão Europeia, mas que ainda hoje fez o seu discurso no dia em que estamos a gravar, fez o seu discurso do Estado da União, um discurso extremamente ambicioso, em que promete, por exemplo, uma política de defesa europeia, que é uma coisa que ciclicamente a Europa promete, mas depois não concretiza.
Nunca aconteceu. Vamos ver. Eu acho que a Europa, neste momento, tem uma tensão grande em termos de valores políticos, porque há, de facto, um bloco, sobretudo à volta dos dois países da Europa Oriental, da Hungria e da Polónia, mas com um certo seguimento depois também na região da Eslováquia, na República Checa, enfim, os antigos países que estiveram sob domínio comunista até o final dos anos 80, princípio da década de 90, portanto, até ao fim da União Soviética e da Guerra Fria. Curiosamente, eu acho que nesses países, do ponto de vista de valores sociais, não se deu aquela linha mais libertária que aconteceu na Europa Ocidental e nos Estados Unidos também, a partir do final dos anos 60 e que de certo modo é um bocado simbolizada pelo Maio de 68 em Paris, pelas reivindicações nos Estados Unidos durante a Guerra do Vietname e na Califórnia, etc. Portanto, essa linha num sentido, de facto, de uma desconstrução e crítica dos chamados valores sociais tradicionais, de famílias, mesmo no campo dos costumes sexuais, etc. Tudo isso que, de certo modo, na Europa conheceu, mesmo que não seja maioritária, conheceu, de facto, uma certa linha de evolução progressista, chamemos-lhe assim, e que hoje se quer transformar até numa espécie de tirania ao contrário, quer forçar a maioria a reconhecer e admirar algumas dessas linhas de quebra com os valores sociais tradicionais. Essa linha não se deu, de facto, nos países De leste. Não se deu porque, de certo modo, a sociedade foi conservada num maior controle e, portanto, permaneceu mais tempo como estava, além de que valores ou entidades como a família acabavam por ser num regime de alta vigilância e controle policial, como era o regime comunista, acabavam por ser muito valorizadas pelas pessoas, porque era talvez onde tinham um certo núcleo de confiança. Essa tensão que está a surgir muito nos últimos tempos, muito à volta das polémicas em relação ao primeiro-ministro da Hungria e onde a própria presidente da Comissão se envolveu também ativamente contra. Isso marca e a tentativa, por exemplo, de impor aos países alguns comportamentos é, pra mim, um dos pontos graves e sérios e que vamos ver como é que corre. O segundo ponto, penso eu, vai ser na relação externa, até onde, por exemplo, vão seguir um bocado a linha da administração Biden, portanto, uma linha americana, que já era em certa medida um pouco de Trump em relação à China, mas que passou agora a ser uma ideia que Biden quis trazer, que a América estava de volta, portanto, voltar a fazer uma unidade ou uma aliança com os europeus num certo regime de contenção, de pôr barreiras à expansão chinesa. E aí também há graves diferenças dos Estados. Há graves diferenças dos Estados e depois ainda há uma terceira que é a questão da Rússia, onde a gente vê que todos os Estados, lá está, por exemplo, a Polônia, os Bálticos, etc., que estão ali próximos da Rússia, querem políticas duras, mas a França, a Itália e a própria Alemanha não têm. Ora bem, é a gestão destes problemas e que a senhora Merkel foi mais ou menos tentando regular, não tomando posições definitivas nem pra um lado nem pra outro, mas que até talvez pelo seu prestígio, pelo seu tempo no cargo, foi conseguindo. Eu não sei se exatamente, e penso que era essa a sua questão, se o tal novo líder que emergir, que parece que em qualquer dos casos nunca será uma grande personalidade, à partida, parece que não. E também não terá um terreno de sustentação forte, porque qualquer destas coligações em relação a alguns destes problemas tem posições diferentes. Por exemplo, os Greens, os Verdes, são bastante mais críticos da China que a CDU, CSU ou que o próprio SPD. Mais críticos no sentido da questão dos direitos humanos, etc. Portanto, essas tensões todas vão estar presentes a curto prazo. E aí talvez uma liderança que não seja uma liderança forte, como apesar de tudo já conseguia ser a da Merkel, pode enfraquecer essa coesão da Europa, que vai estar também ameaçada por estas fortes dissidências em questão em relação às chamadas questões fraturantes.
Jaime Gama, partilha deste pessimismo sobre a evolução próxima da Europa do Jaime Grappina?
Eu acho que é também um pessimismo metodológico da parte do Jaime.
Pessimismo antropológico.
Não é estrutural, é antropológico.
Sim.
E, portanto, eu acho que a situação é diferente. A Alemanha evoluiu, como muitos outros países, para o fim de uma hegemonia de dois grandes partidos. E houve uma fragmentação à esquerda e outra à direita. E, portanto, o que se tem visto é a combinação de várias hipóteses. O SPD, a última vez que governou, governou em coligação com os Verdes.
Sim, o SPD estava a governar há oito anos, não é?
Sim, mas a CDU governou uma primeira etapa do caminho em coligação com os liberais e uma segunda com o SPD. O governo que está em funções é um governo de coligação CDU, SPD. E que ainda entra em linha de conta na coligação com o presidente da República, que é do SPD, embora seja cerimonial, mas tem influência no plano externo e na marcação pelo discurso dos horizontes, de valores da própria sociedade alemã. Dos 16 estados alemães, atualmente 14 são coligações. Portanto, há aí um escolho. Porventura os eleitores entendem que o seu poder negocial se valoriza desta forma para obter medidas ou contrapartidas em consonância com os seus interesses. E é com essa Alemanha que nós também lidamos, o que não significa que essa Alemanha não seja a Alemanha que tem a dinâmica que tem do ponto de vista económico e do ponto de vista da articulação de certas pontes no plano internacional. E agora também com orientações mais claras e até mais fortes, porque implicando maiores compromissos alemães no âmbito da União Europeia. Também é de registar um ponto: o SPD, gostou de falar nos tempos heroicos em que podia formar governos quase sem coligação, mas o SPD tinha batido em 2017 o seu mínimo com 20%, e agora também não está a recuperar muito, não chega aos 38% de Scholz, mas anda, o que é facto, acima dos Verdes e da CDU. E como é que isso tem sido obtido? Parece que este candidato a chanceler tem uma equipe que reconstituiu um programa mais social-democrata no sentido tradicional, incluindo programas fortes na área do trabalho, da saúde e seguindo um pouco os exemplos das social-democracias nórdicas, que agora, por exemplo, a Noruega teve um bom score. Mas tudo isto são campos políticos que não sobem acima dos 30%, andam entre os 20 e os 30.
Sim, as sondagens estão neste momento a dar 25%. A minha sondagem está a dar 25%.
Uma das coisas em que Scholz acentua muito a sua orientação de valores é que é preciso fazer com que a meritocracia não seja só um conceito que tem aplicação nas retribuições e nos prêmios aos formados pelas escolas superiores, aos MBAs, aos CEOs, e que tenha também redistribuição e contemplação nos blue collar. É, aliás, uma noção bebida de Michael Sandel, do filósofo norte-americano. E nesse sentido, podemos dizer que há aqui a resposta a algo que sempre se tem criticado na social-democracia contemporânea, que é a perda desses eleitorados. E, portanto, este conteúdo programático está a ser muito acentuado, porventura com a ideia de produzir alguma recuperação eleitoral em terrenos perdidos para os Verdes, para o Die Linke e até para a Alternativa para a Alemanha. Portanto, há aqui esta reformulação programática, obviamente não põe em causa a dinâmica das médias empresas alemãs privadas, da sua orientação basicamente exportadora, os grandes compromissos da Alemanha no plano em geral, por exemplo, os seus grandes objetivos em relação à África e à ajuda à recuperação econômica africana. A forma como lidar com a Rússia e com a China é muito sensível na Alemanha. E um ponto em que o debate e o diálogo com os norte-americanos também está a ser essencial, porque uma parte da opinião pública alemã privilegia muito o resultado e a eficiência das exportações alemãs e a outra parte é sensível, sem dúvida, também a toda a questão dos direitos que está em causa nesses países e algo que não deve ser insensível também uma política externa europeia. Portanto, há aí também um terreno mais nuancê de debate interno e isso também está presente nesta eleição.
José Morgado Pinto, ainda há pouco falámos um pouco disso. Quando olhamos para a volta, para os países vizinhos, a evolução da relação com a França é muito importante. A França também vai ter eleições daqui a uns meses, eleições presidenciais, o que quer dizer que o tabuleiro europeu está todo ele de alguma forma em jogo. Desde que o Reino Unido saiu da União Europeia, o equilíbrio europeu alterou-se muito substancialmente. E agora as coisas, de facto, passam quase exclusivamente por Paris e por Berlim. Acha que de alguma forma o sul da Europa, Roma, Madrid, podem reequilibrar este jogo ou que a situação de Madrid e de Roma, devido às suas fraquezas econômicas e às suas dívidas, estão sempre numa posição de fraqueza e dificilmente sairão dela nos próximos tempos?
Fraqueza econômica e tensões políticas internas fortes. Vamos ver a Espanha.
Sim, claro. Ambos os países têm um sistema político frágil.
A Espanha tem um problema estrutural, que é exatamente o problema dos fenômenos separatistas ou nacionalitários, quer da Catalunha, que neste momento é aquele que está mais presente e que provocou, por exemplo, o aparecimento do Vox como um partido frutíssimo, que é o terceiro partido de Espanha e que é essencialmente criado com uma rapidez que do ponto de vista da análise dos fenômenos partidários foi extraordinária. Na base exatamente de uma questão nacional. Portanto, a Espanha tem essa tensão, tem, de facto, uma coligação também onde uma esquerda radical tem muita força, onde o Partido Socialista está refém, de certo modo, do
desse partido Podemos, que é mais radical. A Espanha tem esse problema e, neste momento, talvez se houvesse eleições gerais, houvesse uma inversão da maioria, porque o PP e o Vox, eventualmente, eram capazes de ter em coligação uma maioria. Mas, de qualquer maneira, para além disso, tem os tais problemas econômicos e financeiros. A Itália, curiosamente, neste momento, tem os partidos à direita, ou seja, a Liga, os Fratelli d'Italia e o próprio partido de Berlusconi, que somam perto nas expectativas de voto, quase 50% de expectativas. Mas há uma tensão muito forte exatamente em relação ao governo que está. Não sei porque, exatamente por causa destes problemas, o tal eixo Berlim-Paris, que no fundo é um eixo com tradições, com sinal ideológico muito diferente, mas que já vinha exatamente dos tempos de Adenauer, de Gaulle, etc. Essa aliança feita à volta da reconstrução franco-alemã é forte, mas pode, de facto, ser abalada. Vamos ver o que acontece na reeleição francesa ou na eleição francesa. A Alemanha, penso eu, seja qual for o resultado, uma coligação um lado ou outro, uma coligação de três, quatro partidos, é sempre uma coligação com problemas, complicados, até porque não será uma coligação que terá uma maioria parlamentar muito significativa. Vamos ver. Agora, também tem havido um fenômeno curioso que, apesar dos nossos pessimismos, neste caso do meu, pessimismos analíticos, as coisas vão funcionando. As coisas vão funcionando, porque os problemas que a Europa tem hoje em dia, que é um problema demográfico, que a obriga, por exemplo, de facto, à vinda permanente de imigrantes de culturas diferentes e que têm uma enorme dificuldade de serem integrados na cidadania. É, de facto, uma tensão muito forte e que tem sido determinante nos últimos anos na Europa para o aparecimento de partidos mais identitários, com programas mais identitários do ponto de vista nacional, privilegiando a identidade nacional, pondo grandes barreiras à imigração, sobretudo imigração daquilo que pode ser considerado como de culturas diferentes. Mas também um facto é que, apesar de análises, muitas vezes eu próprio as tenho feito, que são de certo modo pessimistas em termos do futuro próximo, melhor ou pior, as instituições europeias têm conseguido até agora ir sobrevivendo e ir acomodando estas diferentes versões, percepções e linhas políticas. Portanto, também nada nos diz que não vão conseguir fazê-lo no futuro próximo.
Bem, nós estamos praticamente terminando o nosso tempo, mas ainda gostava de fazer uma outra pergunta a Jaime Gama. Jaime Gama, consegue fazer uma previsão de quais vão ser as cores da bandeira que vão sair destas eleições? Vamos ter sociais-democratas com liberais e verdes, sociais-democratas com cristãos-democratas e liberais, cristãos-democratas e verdes? O que lhe parece mais provável?
É muito difícil. E também é difícil responder na análise de probabilidade, também uma certa inclinação. E eu acho que talvez fosse o momento de tentar uma coligação SPD, Verdes, FDP, aquilo que é chamado na Alemanha a coligação luzes dos sinais de trânsito ou traffic lights. Acho que podia haver aí o sentido de uma alternativa, podia haver uma inflexão, mas podia haver, quanto ao essencial, uma continuidade de propósitos e de objetivos sem pôr em causa os fundamentais de funcionamento da economia, das instituições, do projeto europeu e do lugar da Alemanha no mundo com o grau de responsabilidade que todos desejamos que seja desempenhado.
Bem, e terminamos mais um "Conversas à Quinta". Regressaremos dentro de uma semana, ainda sem conhecermos o resultado das eleições alemãs, mas com um novo tema.