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Bem-vindos de regresso ao "Conversas à Quinta". Hoje, um programa clássico: livros de verão, livros para ler nas férias. Temos a mesa cheia de livros, vamos ver se conseguimos falar deles todos. E vamos começar por um livro que trouxe o Jaime Gama, um livro sobre um tema do qual se tem falado bastante nos últimos tempos, de um autor que desapareceu recentemente, António Manuel Espanha, e que tem uma visão que me parece ser bastante interessante, não é, Jaime?

Sim, é o "Filhos da Terra", de António Manuel Espanha, "Identidades Mestiças nos Confins da Expansão Portuguesa". António Manuel Espanha estudou muito o Estado absoluto e fez muita história institucional e política, mas porventura a sua passagem pela Comissão de Descobrimentos deu-lhe uma perspectiva sobre o Império Português, que depois veio a consolidar em alguns trabalhos. E este é, de facto, um trabalho de grande valor, porque é, porventura, a primeira vez que de uma forma sistemática se aborda o problema da mestiçagem nos vários pontos do Império Português onde esse fenómeno existiu. E isso é feito com rigor, porque se por um lado se assentam pontos de convergência, por outro lado, também se analisa em profundidade o que podiam ser também os segmentos de antagonismo e a especificidade deste problema. É uma historiografia que vem muito na linha do que já tinha sido explorado teoricamente por Luiz Felipe Thomaz, por Teodoro de Matos, mas é um livro com o qual se ganha bastante na leitura, porque se passa a conhecer com mais detalhe um fenómeno que até aqui tinha sido agarrado como um fenómeno da periferia da investigação e que agora passa para o centro da investigação. Um livro deveras importante e que culmina uma carreira científica na morte trágica do seu próprio autor, mas culmina com grande dignidade de obra fundamental para o conhecimento do Império Português.

Continuando com história, temos "Revolução", de José Elisandrado, não é, Jaime Prieto?

É verdade, "Revolução", de José Elisandrado. José Elisandrado é um engenheiro que se dedicou nos últimos anos a estudos históricos, estudos, sobretudo, da história política de Portugal e de Espanha. Este livro é o segundo de uma obra bastante completa sobre a evolução política e social de Portugal e de Espanha desde os meados do século XIX até aos meados do século XX, até aos finais da Guerra Civil Espanhola. E faz, sobretudo, uma investigação bastante aturada sobre a genealogia ideológica de todos estes movimentos que animam todo este período. O primeiro vai até 26, portanto, ele faz ali uma dissecação ideológica e histórica destes vários movimentos: dos monárquicos, dos republicanos, dos católicos, dos liberais. Já faz a aparição dos primeiros movimentos mais radicais, portanto, já os primeiros movimentos anarquistas e comunistas. E também refere uma originalidade portuguesa, que é aquela espécie de protofascismo, que é o sidonismo, que é de Sidónio Pais. Portanto, é um livro que eu acho que é bastante interessante e bastante completo para o estudo deste período.

Bem, eu completo este primeiro bloco de história com um pequeno livrinho, aqui da Fundação Francisco Manuel dos Santos. Um livro editado aqui pela fundação onde está o Jaime Gama, "Quinas e Castelos: Sinais de Portugal", Miguel Metelo de Seixas. É um livro, aparentemente nós passamos a vida a conviver com a nossa bandeira e não sabemos bem o que significa cada uma das coisas que lá está. E este livro ensina-nos um pouco. Percebemos que algumas das coisas que lá estão, estão lá desde Dom Afonso Henriques, que é uma coisa que nós muitas vezes não temos noção e que eu diria que talvez seja raro na maior parte dos países. Temos inclusivamente a noção de com a República houve uma espécie de corte e que se perdeu tudo o que estava para trás, mas não é assim, não houve esse corte, não foi assim tão radical como isso. Há, de facto, elementos que vêm de trás e é muito curioso verificar como estas quinas e estes castelos foram mudando de forma. Ainda não tivemos a inovação dos pagodes, exceto nas bandeiras feitas na China para os Mundiais, mas fora isso, é um livro que permite perceber, de uma forma muito interessante, como é que estes símbolos foram evoluindo e o que cada um deles significou, conforme as diferentes casas reais se foram sucedendo e inclusivamente o significado das diferentes cores. É pequenino, lê-se muito bem, acompanha bem uma tarde de verão, estendido num sofá ou numa rede, que talvez seja o sítio melhor para ler isto. Talvez pudéssemos passar agora a um bloco de biografias. Tem aí duas biografias, Jaime Gama.

Isto consoante o gosto de cada um. Uma biografia de Nietzsche, por Suvridu, que é uma grande biografia e que merece ser lida com toda a atenção. As biografias são um grande gênero literário, desde que escritas com vivacidade.

Bem escrita.

Com ingrediente e também com base de pesquisa sólida, e que não vão também ao domínio do romance histórico ou da biografia ficcionada. E, portanto, tem aqui um bom trabalho quem quiser rever o pensamento de Nietzsche. E outra é uma biografia de São Paulo, por N. T. Wright, um bispo anglicano, que é considerado um grande especialista de São Paulo e um grande ensaísta, historiador e teólogo. É uma biografia muito centrada na vida de São Paulo e, portanto, quem quiser seguir o itinerário daquele que fundou teologicamente o cristianismo e que foi o primeiro grande estruturador do corpo doutrinário do cristianismo, tem neste livro um instrumento precioso para poder refletir e para poder meditar nas férias.

Tem aí um outro tipo de biografia.

Não é bem exatamente uma biografia, é mais o que eu chamaria um in memoriam sobre o General João Batista de Matos, que foi chefe de Estado-Maior de Angola, foi de certo modo o homem decisivo para a decisão da guerra civil angolana. E eu tive o privilégio de andar com ele bastante tempo, durante bastantes anos, e de o conhecer. Colaborei, fiz também um testemunho. Este é um livro de testemunhos de amigos, de camaradas, de armas, de pessoas, quer portugueses, quer angolanos. É um livro bastante interessante também para o conhecimento da história recente de Angola e, de facto, foi uma pessoa que morreu prematuramente com uma doença daquelas que não perdoa. Não sendo uma biografia, portanto, sistemática, dá um bom perfil de uma figura muito importante da história de Angola e da história de África também.

Talvez continuássemos consigo introduzindo um tema interessante, polêmico, controverso, que é o tema das identidades.

Ora bem, aqui, "The Identitarians", que é de um português. É publicado nos Estados Unidos e pela Universidade de Notre Dame. É de José Pedro Zucchi e é um livro muito interessante. Aliás, José Pedro Zucchi tem feito, de facto, estudos muito importantes nesta área.

O livro chama-se, não chegou a dizer.

O livro chama-se "The Identitarians, the Movement Against Globalism and Islam in Europe". Portanto, estes identitários, não confundir com os identitários que chamaríamos mais de esquerda, ou de toda esta multiplicidade de identidades que se vão descobrindo e inventando.

Esses são os identitários de direita.

Esses são os identitários, não sei se lhes chamaria bem direita. São os identitários que têm a ver também com estes movimentos chamados populistas que têm aparecido, embora não se confundam com eles. Isto tem muito a ver com o pensamento, e aliás, é o interessante do livro do Pedro Zucchi, que também é muito interessante que seja um português, que aliás, o livro aqui é altamente elogiado nos Estados Unidos por vários acadêmicos e vários estudiosos, porque faz, de facto, um estudo profundo deste pensamento, que tem muito a ver com aqueles movimentos como a Nouvelle Droite, que apareceram à volta de Alain de Benoist, na França, nos anos 70. Também com alguns movimentos ligados, por exemplo, ao russo Dugin. E é um estudo bastante interessante, é um catálogo bastante interessante destes movimentos que, enfim, hoje em dia têm também uma voz política bastante significativa na Europa e que, sobretudo, se identificam como movimentos de resistência a duas coisas. Por um lado, à globalização liberal. À globalização radical, chamemos assim, e portanto, que acaba por fazer do mundo um grande mercado que, segundo os identitários, abafa e liquida os elementos nacionais, familiares, toda a tradição da cultura do Ocidente. E, por outro lado, também resistência àquilo que eles qualificam como uma invasão, chamemos assim, uma invasão de outras culturas, sobretudo do islamismo radical e do islamismo que eles consideram que pode vir a pôr em risco a médio prazo a própria ideia e a própria identidade dos europeus. Portanto, vêm muito naquela ideia do risco do replacement. De algo que também nos Estados Unidos aparece, que é haver, de facto, um multiculturalismo que acabe com essa identidade e com essas raízes da cultura e dos povos europeus.

José Meggema, tem aí um conjunto de outros três livros que de alguma forma falam também do tema das identidades, mas dos movimentos identitários à esquerda.

Este de Laurent Debroy, "La Dictature des Identités", e dois de Mathieu Bock-Côté O multiculturalismo como religião política e o império "l'empire du politique mal correct", o império do politicamente correto. O que é que basicamente estes livros, um surgiu em 2016 e os outros são livros de 2019. O primeiro autor é francês, ensina numa universidade americana e tem acompanhado o desenvolvimento deste fraccionismo microscópico identitário que caracteriza hoje a sociedade americana e que tem uma expressão vivíssima dentro das universidades. E o outro é um autor québécois, portanto, um canadiano francófono, que também acompanha estes problemas com base na experiência canadiana e na teorização de toda esta diversidade identitária micro, que tem substituído muito à esquerda o que era o englobante social geral, e onde agora microidentidades se constituem como que nos sujeitos ativos determinantes. Ou seja, uma ilusão da noção de soberania popular em detrimento da multiplicidade de sujeitos identitários que habita uma utopia identitária composta de diversidades. Ou seja, vai muito para além do que era a noção tradicional de democracia representativa e procura impor, por via da multiplicidade da minoria, o ponto de vista de cada minoria como a regra do convívio para todos. Criamos aqui um beco sem saída para uma solução geral em relação ao sistema político, à organização econômica, à perspectiva cultural e à própria estabilidade social. Depois, esta hiperidentidade tem caprichos diversos e assume modalidades diversas, uma das quais é, por exemplo, a comemoração penitencial das efemérides. Ou seja, ir olhar o passado e ir procurar no passado atos ou momentos simbólicos, não para os exaltar, mas para os punir, para os castigar e para, através dessa penitência, redimir as gerações atuais. Uma outra das características interessantes é também o regresso da iconoclastia, o derrubamento de estátuas.

Exatamente.

Ainda não chegamos ao derrubamento de monumentos, mas o derrubamento de estátuas que tem proliferado como emanação deste hiperidentitarismo que se constitui na nova versão da democratização radical, e cuja tomada de posição na cultura universitária, na alocação de orçamentos para a pesquisa científica na área social, é hoje algo que perpassa a vida cultural moderna e, consequentemente, também a vida política. Portanto, quem quiser olhar a fundo estas novas tendências, tem nestes livros e nestes autores, um escrutínio completo e muito interessante do que é essa nova realidade.

Eu agora ia introduzir um livro que podia ter vindo com o bloco das biografias, mas não é rigorosamente uma biografia. É um livro que sendo quase biográfico, podia ser também quase um romance. É o livro de Ben Macintyre, acho que é assim que se diz, "O Espião e o Traidor", e que nos conta uma das maiores histórias de espionagem da Guerra Fria. É uma história absolutamente extraordinária, muitíssimo bem contada. E que história é esta? É a história de um coronel do KGB, Oleg Gordievsky, que depois de ter assistido à construção do Muro de Berlim, à invasão da Checoslováquia. Ele era filho de uma figura importante do KGB, tinha crescido dentro do KGB e está colocado em Berlim quando é a construção do Muro de Berlim. Depois, assiste à invasão da Checoslováquia, começa a colocar em questão o regime soviético e esse autor resolve passar-se para o Ocidente, trair. Não é trair, passar-se para o Ocidente, espiar a favor do Ocidente, ir oferecer-se aos serviços do Ocidente e acaba por tornar-se um espião do MI6 britânico. E é uma história fantástica, não apenas a história da passagem para este lado, como do papel que ele desempenha em alguns momentos cruciais, dos segredos que ele passa, da importância que esses segredos têm em alguns momentos muito delicados da Guerra Fria, designadamente Na fase final, na fase em que Reagan e Thatcher já começam a falar com Gorbatchev e moderam algumas do seu diálogo em função das interpretações possíveis pela passagem desta informação, da forma como ele acaba por ser denunciado por um traidor, e o traidor é um americano da CIA que se passa para o lado do KGB, aqui não por razões ideológicas, mas por dinheiro. Ele quer viver melhor, quer pagar os gostos caros da sua mulher e comprar um carro melhor e um apartamento mais luxuoso. A espionagem é feita disso. E depois sobretudo há uma história de ficção científica, que é como o MI6 o consegue tirar de dentro da ainda União Soviética através da Finlândia. Podia ser um romance de espionagem clássico, é uma história verídica, que nos releva também aos tempos da Guerra Fria e o ambiente que se viveu num período crucial, porque isto é mesmo antes do fim da Guerra Fria, do fim da queda do Muro de Berlim e do fim da União Soviética.

Pétain, Salazar, de Gaulle, affinité, ambiguïté et légendes. Este é um livro bastante recente, foi publicado ano passado por Patrick Autréa, que foi e é um grande conhecedor de Portugal, é um diplomata que esteve em posto em Lisboa e que faz uma digressão muito interessante por um fenómeno político. Salazar teve muita popularidade, digamos assim, se nestas áreas políticas se pode usar o termo popularidade. Enfim, nestas áreas políticas tradicionalistas e até certo modo reacionárias ou conservadoras, mas teve, de facto, uma grande audiência e despertou uma grande curiosidade, interesse e até admiração nos partidos e nos movimentos de direita francesa nos anos 30. Quer gente da Action Française, o próprio Maurras, quer mesmo alguns elementos, com certeza católicos, tradicionais, mas também até elementos já de uma linha quase fascizante, mais radical, tinham uma grande admiração pelo modelo português. Consideravam uma ditadura do professor, uma ditadura da inteligência, uma espécie de despotismo iluminado, digamos, direitista. E é curioso que quando o Marechal Pétain, depois da derrota da França, é aclamado pela Assembleia Nacional Francesa como chefe de Estado francês e cria o État Français em Vichy, há uma certa curiosidade e há bastante interesse em Vichy pelas instituições do Estado Novo, que eles acham que no fundo é um compromisso entre um modelo tradicional, constitucional e os movimentos ou as linhas já fascistas e nacionais socialistas. E chega a haver, em Vichy, o representante era o professor Caeiro da Mata, a que em dada altura até lhe pedem informações para redigir uma Constituição, que acaba por nunca ser redigida nem aprovada, mas uma Constituição para Vichy, uma Constituição especial, etc. São estas relações e estas opiniões cruzadas de Salazar, de Pétain, de Gaulle. Curiosamente, Salazar é bastante mais cauteloso nas suas admirações por Vichy, já percebeu o sentido que a guerra está a evoluir, portanto também não deixa de abrir os seus contactos com a França livre, com a França do General de Gaulle. General de Gaulle tinha uma má opinião sobre Salazar, exatamente por causa também da admiração que Pétain teria por ele. Mas não há dúvida que quem vem a ser o representante de Gaulle em Lisboa, que eu, aliás, até conheci pessoalmente mais tarde, que era o Armand Dyella. Há aqui um jogo, que aliás foi muito o jogo de Portugal e da diplomacia portuguesa e do Estado português e do governo português durante a Segunda Guerra, que foi essencialmente procurar jogar entre as partes e defender os interesses portugueses naquela circunstância altamente perigosa.

Tem ainda um outro livro de política, não é?

Isto é um livro de Do Medo ao Sucesso, é um livro de Bruno Baúbona, aliás, com um prefácio interessante de Paulo Portas. Bruno Baúbona é um empresário, é um homem muito ligado, mesmo por tradição familiar, ao comércio e à indústria e que, portanto, tem uma boa experiência nessa área. Tem tido um papel bastante importante à frente da Associação Comercial de Lisboa, hoje Associação das Câmaras de Comércio e Indústria Portuguesas e Mundiais. Tem tido, portanto, um papel nesse associativismo empresarial. E neste livro, é um tema bastante interessante, é um tema de reflexão à volta do que ele considera A sociedade portuguesa ser uma sociedade que tem medo ao risco. Ele começa por desenvolver o tema com a questão das descobertas e toda a linha dos descobrimentos e da expansão, como exatamente um padrão original e diferente desse medo ao risco. Esse medo ao risco seria introduzido depois com a perda da independência política, embora no curso da união pessoal com Castela, com Espanha. E depois, durante a história portuguesa, há tensões várias desse tipo, quer dizer, há tensões entre uma tentativa de mais risco, de mais empreendimento, de mais capacidade empreendedora livre e um certo abrigar, geralmente na tutela estatal, isto através de diferentes regimes. O livro é bastante interessante, embora eu haja aqui um ponto, mas é uma velha polêmica, que ele fala aqui do sebastianismo, sendo uma coisa quietista e que condena, portanto, substitui a energia por um mito. É curioso, porque o professor Borges Macedo acentuava muito isso, os falsos Dão Sebastião foram todos mortos. Eram conspiradores, ativistas e foram todos mortos. Portanto, o sebastianismo talvez não seja um mito tão sufocador do risco, mas de qualquer maneira, é um livro interessante.

Entrando talvez num bloco mais de livros que diríamos adaptados a uma leitura de verão, eu ia começar aqui com Stefan Zweig. Stefan Zweig é um escritor que era muito comum.

Havia nas casas todas.

Havia nas casas todas.

Todas as biografias do Stefan Zweig.

Portanto, eu lembro-me do Stefan Zweig é uma daquelas leituras da minha juventude.

Exatamente.

Foi seguramente também da vossa, e que agora começa a ser redescoberto. Este livro acabou de sair, é uma reedição, penso que até é uma tradução nova.

Esse é "Os Grandes Momentos da História", não é? Que acaba com uma descrição, se não estou em erro, de Waterloo.

Não, evidentemente não acaba, Waterloo é para os pontos de capitulo.

Eu sofria imenso por causa de Napoleão perder, tinha imensa pena.

Chama-se "Momentos Estelares da Humanidade", julgo que na outra edição.

Era "Momentos Decisivos".

"Momentos Decisivos", tinha um título diferente a outra edição.

Napoleão é o caso mais evidente do derrotado que figura no imaginário de todos como vencedor.

Como vencedor.

Aliás, ele construiu isso com Santa Helena.

Aliás, quando foi o centenário da Batalha de Waterloo, os gadgets que estavam à venda no local da batalha, que foram mais vendidos e que mais foram adquiridos pelos visitantes ingleses, foram gadgets do Napoleão.

Napoleão. Bem, e aqui, por acaso, curiosamente, é precisamente o episódio contado sobre a Batalha de Waterloo, é de alguma forma uma desculpa pelo ter perdido a batalha.

Sim, que é o Grouchy.

Que é o Grouchy.

É o Grouchy que se atrasa.

É o Grouchy que se atrasa.

Há umas teorias da conspiração fantásticas.

É o Grouchy que se atrasa.

E o Blücher chega primeiro.

É um dos marechais de Napoleão, que ele tinha encarregue de perseguir.

Acabar lá com uma batalha que os impedou.

De perseguir o corpo dos prussianos.

Dos prussianos, Blücher.

Dos prussianos, o Blücher, e que não regressa ao campo de Waterloo.

Quem regressa é o Blücher.

Quem regressa é o Blücher, e o Blücher é decisivo para desempatar a batalha, que estava um bocadinho empatada entre os ingleses e os franceses, e portanto, acaba por se decidir a favor das tropas aliadas com a chegada do Blücher. É apenas um dos momentos, há outros muito interessantes. Logo o primeiro texto é sobre a descoberta do Pacífico pelo Balboa. São textos relativamente pequenos, portanto, são aqueles textos que uma pessoa senta-se um bocadinho em 10, 20 minutos, lê, passa para o próximo, vai lendo. Ele escreve de uma forma muitíssimo elegante. E qual é a ideia central deste texto? Outro dos textos é sobre a viagem de Lenin através da Alemanha.

Comboio da Finlândia.

A ideia de que às vezes a história se concentra num, em dois minutos, numa hora, em que ali, em poucos momentos, a história muda.

Podia ser diferente.

Podia ser diferente. Há momentos em que podia ser diferente se as coisas tivessem corrido de outra maneira.

É o que os americanos fizeram com aquelas séries, "What If".

Portanto, e é um bocadinho em torno de alguns desses momentos que este livro é construído e é muito interessante, é muito Stefan Zweig. Já amigo, trouxe aí uns livros também mais leves, não é?

Eu acho que em férias é uma boa ocasião para fazer revisões que sejam capazes de pôr em suspenso a grande velocidade dos factos e dos eventos, e da comunicação e da agitação. E há aqui dois livros pequenos, que entendo que podem ajudar a contribuir para esse desidrato de estabelecer uma pausa e uma reflexão. Um Recentemente saído da filósofa norte-americana Martha Nussbaum: por que a democracia precisa do seu sistema de ensino das humanidades? Não pode nem deve ser um sistema educativo exclusivamente orientado para o sucesso ou performance dos indicadores, mas que é um sistema que ganha bastante em que se introduzam critérios sobre os sentimentos morais, a importância do argumento, a responsabilidade dos cidadãos no mundo, o cultivo da imaginação com a literatura e as artes. Ou seja, como é que um sistema educativo contemporâneo deve saber incorporar elementos que suscitem uma reflexão mais profunda sobre as coisas, sobre a vida, sobre o destino do universo. Portanto, uma pausa no sistema educativo.

Ela tem um livro, que penso que o Jaime leu também, que é um livro admirável, que é "A Fragilidade do Bem", que é aquele estudo dela sobre a tragédia antiga. É fabuloso.

Uma pessoa que na sua investigação não tem recusado nenhum campo de pesquisa filosófica. Outra pausa, esta mais prática e que pode ser de grande utilidade nas famílias, é a que nos é possibilitada por este livro, "Os Jogos da Minha Infância". "Os Jogos da Minha Infância" permitem-nos, com uma recuperação das regras que nós próprios já nos esquecemos.

E saímos apenas dos smartphones. Fugimos dos smartphones.

Transmite uma cultura ao ar livre de mais convivialidade familiar aos jovens que fazem parte das nossas famílias, ou como filhos ou como netos, e portanto, libertar-nos das apps, dos jogos eletrónicos e dessa vertigem constante da subordinação ao virtual e ao digital. Portanto, este livro é um manual prático que nos dá conhecimento sobre o berlinde, o jogo do pião, a macaca e outros jogos tradicionais, e que nos pode ajudar a contribuir pelo conhecimento das regras de que nós próprios já nos esquecemos, a trazer as crianças para uma prática saudável do lúdico e do jogo humanamente interativo, desconectando-as dessas horas de sobrecarga coladas aos ecrãs.

O único romance que trouxeste para a nossa escolha, não é?

É verdade. Eu passei uns dias de férias na Turquia. Eu sempre tive o costume, sobretudo quando vou para um sítio pela primeira vez, não foi o caso, já fui várias vezes à Turquia, mas gosto de ler livros, sobretudo em férias, gosto de ler livros passados nos locais onde estou em férias. Aliás, lembro-me que a primeira vez que fui a Cuba levei a trilogia "Suja de Havana", do Pedro Juan Gutiérrez, para ler. E este Orhan Pamuk, como sabem, foi um Prêmio Nobel relativamente recentemente, há uns anos. É, de facto, um grande escritor.

E este livro é?

Turco. Este livro penso que é o último dele, pelo menos é o último publicado aqui, é um livro de 2016. Chama-se "Uma Estranheza em Mim". Eu não sei dizer isto em turco, mas é uma coisa que deve ser com muitas cedilhas, com çs e cedilhas, mas é um romance notável. Eu tinha lido há uns anos "O Museu da Inocência", que é também um romance notável. E li também o "Istambul", que são umas memórias, uma espécie de crônica pessoal e familiar sobre a cidade, que é, de facto, uma cidade extraordinária e fascinante, o cruzamento de Leste e Oeste, de mundos do Oriente e do Ocidente. E este romance é um romance também muito interessante, porque através da história de duas famílias modestas, que a gente poderia classificar de baixa classe média, consegue transmitir, no fundo, a história, a evolução política e até social da Turquia praticamente desde os anos 60, 70, até agora. Quer dizer, vai acompanhando. Portanto, através das vidas, dos itinerários desta família, sobretudo de um personagem principal, dos seus amores, das suas famílias, dos seus problemas. Que é um vendedor, curiosamente, é um vendedor desta coisa que está aqui, de boza, que é uma bebida bastante popular na Turquia. E, portanto, através disso consegue, de facto, e isso é que é a mestria de um grande escritor, transmitir-nos não só os episódios e a própria história política recente do país, mas como também as mentalidades e, para além disso, tratar daquilo que no fundo é sempre as grandes coisas da natureza humana, portanto, as grandes paixões, o ciúme, a violência, o ódio, todos esses fenômenos que acompanham a natureza humana, seja ela qual for e onde for.

Bem, eu trouxe, enfim, a última sugestão. Trouxe um livro que é um clássico. Trouxe-o numa edição que talvez não seja a mais prática para levar de férias. Que é "Portugal Mediterrâneo e Atlântico". De todos os que estão aqui, é o único que não é propriamente uma novidade. Esta edição, de resto, é de 1993, portanto já tem muitos anos. É uma edição em grande formato, com fotografias de Jorge Barros. Este é o livro clássico de Orlando Ribeiro, de 1945, portanto é um livro já bastante antigo, e eu diria que é talvez um dos livros mais importantes escritos no século XX em Portugal. Eu colocaria seguramente entre os cinco ou 10 livros mais importantes escritos no século passado sobre o nosso país. Sobretudo para quem for de férias cá dentro, poderia levar este livro, se o conseguir encontrar, porque eu ontem tive dificuldade em encontrar em minha casa uma versão que não esta. Eu tenho o livro em impressão. Esta versão não é muito prática pra ler. Há, naturalmente, edições da Sá da Costa mais pequenas, mas fui ver online e várias livrarias online davam a indicação que o livro está esgotado. Portanto, se estiver esgotado, ele devia ser reeditado rapidamente. O que este livro retrata? Este livro retrata um Portugal que de alguma forma existe, mas também já desapareceu. Não é o Portugal urbano, é o Portugal, por um lado, físico, rural, o Portugal que existia em 1945, é um Portugal que em boa parte desapareceu na parte rural. Um Portugal em que se misturam as influências tipicamente do clima mediterrânico e do ambiente mediterrânico, da cultura mediterrânica, com aquilo que é toda a parte mais da faixa do Atlântica, com o clima atlântico, mas também com culturas diferentes. E a forma como isso se mistura no país, algo que nós hoje sentimos de uma forma muitíssimo clara quando enfrentamos todos os verões o problema dos incêndios, porque é um resultado de termos muita chuva durante os invernos e bastante calor durante os verões, num país que durante muito tempo estava habitado no seu mundo rural e não estava desertificado e, portanto, não estava abandonado, não estava arborizado como está hoje. O país que aqui é descrito não tinha a floresta de pinheiros e eucaliptos que hoje tem, mas este livro permite-nos perceber muito bem esse país. Nesta edição, com fotografias de Jorge Barros, permite-nos vê-lo. E é um magnífico companheiro não só para nós visitarmos Portugal, mas sobretudo para o entendermos melhor. Portanto, terminamos por aqui mais esta edição sobre sugestões de verão e despedimo-nos até para a semana, para mais um "Conversas à Quinta".

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