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Como é que um cartunista interpreta e descodifica os dias da pandemia? É o que vamos saber na conversa de fim de tarde com o Pedro Ribeiro Ferreira, designer gráfico, cartunista e caricaturista, a quem dou as boas-vindas à Rádio Observador. Olá, Pedro. Bem-vindo à Rádio Observador. O Pedro aproveitou o período de quarentena para publicar cartoons na sua página pessoal de Facebook, os chamados "CoVids". O período de confinamento, e o que lhe pergunto é: o período de confinamento que está a terminar foi particularmente fértil em inspiração?

Muito obrigado por este convite. Boa tarde a todos os ouvintes. Eu acho que falo por todos os cartunistas, mas esta questão de ficarmos confinados em casa não nos é estranha, porque nós passamos muito tempo em casa fechados nos nossos tiradores. Portanto, não é uma coisa que tenha transformado a nossa vida de pernas para o ar. Para mim foi tranquilíssimo.

Mas o mundo lá fora mudou, e mudou bastante.

Sim, o mundo lá fora mudou, mas nós estamos sempre um bocadinho no nosso cantinho, a olhar para o mundo, a ver o que se está a passar. Sejam as pandemias que forem, as calamidades que forem, nós estamos cá sempre. Acho que o nosso papel também é um bocadinho animar todo este drama que estamos todos a viver.

Foi por isso que criou ou que animou a sua página pessoal de Facebook?

Foi uma coisa um bocado espontânea, porque aqui no meu bairro, vivo aqui no centro de Lisboa, o bairro de Santo António, há aqui uma grande dinâmica. Os meus vizinhos todos, um ia cantar às 19h num fado, depois no dia seguinte estava uma a tocar piano. Eu disse: "O que é que eu posso fazer? Que contributo é que eu posso dar aqui para a sociedade?" E como eu faço bonecos, lancei um vídeo a dizer: "Vou começar a fazer 14 cartoons", que era os dias da quarentena, foi o meu propósito, a minha coleção. Ainda só vou nos 12. Faltam dois. E comecei com isto, e nos Facebooks, Instagrams, isto começou a criar aqui uma certa dinâmica. Espero acabar esta empreitada, que já falta pouco.

Quando diz dinâmica, é o quê? As pessoas pediam mais?

Sim, um cantor ou um músico, quando está a fazer um concerto, tem logo ali a resposta direta do público. Os cartunistas vivem um bocado com o silêncio, largam os bonecos para o mundo e depois não sabem muito bem as reações das pessoas. Hoje em dia, com os Facebooks e Instagrams, já vamos vendo lá os comentários. Normalmente, a dizer: "Muito bem". Também gosto daqueles que dizem: "Mal". Acho que quando expomos temos que ter fair play para todos os comentários.

O Pedro convive bem com a crítica negativa?

É assim, acho que temos que viver com isso. Até hoje em dia, com os Facebooks e Instagrams. Não podemos é dar muita importância. Claro que eu faço os meus filtros, se eu passar a vida a ver.

Mas o Pedro admite que também o cartoon serve muitas vezes para fazer essa crítica, não é verdade?

Claro. Portanto, para um cartunista que não aceite críticas, acho que tem que mudar de profissão. Porque nós basicamente o que fazemos é isso. Não é criticar, é observar e apontar o dedo a coisas que não concordemos.

Criticar no sentido de ter um olhar crítico também sempre sobre tudo, não é?

Sim, eu acho que o papel também fundamental é o humor no cartoon. Eu acho que tem que ser um olhar crítico, mas que tenha lá uma pitadinha de humor. Se bem que há cartoons que não têm graça nenhuma. Não é obrigatório que tenham.

E é possível fazer o humor quando lá fora está em curso uma tragédia quase humanitária?

É assim, eu não quero desvalorizar esta tragédia, mas acho que houve tragédias na humanidade muito piores que esta. E acho que toda a vida, normalmente nestas alturas piores, é que aparecem os humoristas, é que vêm ao de cima. Porque precisam, eles precisam até uma questão de sobrevivência da sua própria mente, têm que chegar à frente e começar a mandar piadas. Aliás, quando há catástrofes, no dia seguinte aparecem logo não sei quantas anedotas nos telemóveis, em todo lado. É um bocado o papel do cartunista, penso eu. Mas não é para destruir, eu acho que tem que ser construtivo, muitas vezes.

Então vamos aos cartoons. Ficou algum na gaveta por ser demasiado ácido ou crítico?

Pois, isso é aquela eterna questão. Quais são os limites? Eu faço a minha própria censura. O que eu tento é que sejam cartoons que deem para pensar um bocadinho, não ser muito óbvios, mas que sejam compreensíveis, porque às vezes há pessoas que têm ideias, ninguém percebe. Eu tento comunicar e passar uma ideia que a maioria das pessoas consiga compreender. Mas qual era a pergunta? Peço desculpa.

A pergunta era se tinha ficado algum cartoon na gaveta, mas o Pedro já quase deu a resposta.

Ainda faltam três.

E exerce autocensura.

Sim, mas eu acho que o humor tem que ser inteligente. Eu lembro-me sempre do Goya, aquele pintor espanhol, que era um precursor dos caricaturistas. Eu acho que ele gozava com toda a gente, mas ninguém se apercebia muito bem. Eu acho que ele conseguiu se esquivar. Eu gosto desse tipo de humor, não ser completamente descarado: "Eu estou aqui a desfazer este tipo", desfazer com categoria.

Pedro, qual é que, na sua opinião, é sempre difícil os autores falarem das suas próprias obras, mas pedia-lhe este exercício: na sua opinião, qual foi o cartoon mais bem concebido que criou durante este período da pandemia?

Eu ainda tenho três para acabar a coleção dos 14, e eu espero que o último seja o melhor de todos. As ideias já tenho-as todas. Eu até acho que sou rápido a ter as ideias, o problema depois é transformá-las, desenhá-las, que isso dá algum trabalho. Mas eu acho que destes que eu fiz, eu sou também muito crítico do meu trabalho.

Mas diga.

É um dos chineses, que eu pus os camiões tiras a saírem da China, em que o que vai à frente É o que diz COVID-19, depois logo a seguir vem outro caminhão de tira com os ventiladores e outro com as máscaras. É tipo a sessão de exportação dos chineses. Exportaram o COVID e agora lucram com isso.

E esse já lhe deu problemas ou nem por isso?

Não sei, mas se calhar qualquer dia sou atropelado por uns chineses.

Esperemos que não.

Eles topam bem. Ainda por cima fiz um filme a fingir que falava chinês. Por exemplo, esse aí já recebi umas críticas de alguns tipos a dizer: "Mas quem é que tu julgas que és?"

Pois era isso que eu lhe ia perguntar, Se o entendimento que tem sobre esse cartoon está em linha com a opinião das pessoas.

Pois, eu acho que os chineses, pelo menos cá em Portugal, passam muito a mãozinha pelo P, coitadinhos. Eu não tenho nada contra, eu acho que a cultura chinesa é fantástica.

Não, mas eu quando pergunto às pessoas, é: as pessoas que o seguem e que viram o cartoon e deram feedback.

Sim, há tudo. Eu tenho amigos para todos os gostos. Tenho uns muito extremistas da direita e depois outros da esquerda, portanto, há opiniões para tudo. Claro que eu quando comecei a cascar no Trump, esses meus amigos começaram logo: "O Trump é fácil", e bater no Trump, toda a gente bate. Agora nos chineses. E eu: "Pronto, tenho que ser imparcial". Tudo o que eu vejo e que seja motivo para se fazer um cartoon, acho que é de se aproveitar.

E durante este período da pandemia, houve alguma figura, alguma personalidade pública que, na sua opinião, tinha algum alvo preferencial durante esta época da pandemia ou não?

Eu acho que, por exemplo, eu falei no Trump, é um personagem que ultrapassa a realidade. Ele próprio é uma caricatura viva. Tudo o que ele diga e faça é mais fora do que qualquer cartunista possa imaginar. Portanto, facilita-nos por um lado o trabalho, mas por outro lado esgota-nos um bocadinho. Não dá muito para gozar com o homem, que ele próprio é aquela figura. Mas sim, eu acho que nesta altura o mundo tem muitos personagens ótimos para se fazer cartoons e humor.

Por exemplo?

Pedro. Sim. Como por exemplo...

Queria também perguntar-lhe, não se esquecendo aí dessa questão, mas só para meter aqui a colher também. Queria só perguntar se este é também uma altura, e falava de Donald Trump e de outras figuras, queria perguntar também se nesta altura em que lidamos aqui também com notícias mais ou menos chocantes, com uma realidade que afeta muitas pessoas e sobre a qual nem sempre é fácil falar, se neste caso está mais ciente da necessidade de não pisar algumas linhas vermelhas em relação a algum tipo de críticas, quer a personalidades concretas, quer de âmbito mais geral, ou pergunto se para si não há essas linhas vermelhas quando está a trabalhar. Não se esquecendo também da outra questão aqui do João.

Sim. Lá está, eu tenho as minhas próprias linhas vermelhas. O que é um dos cartoons que eu fiz foi uma ode aos médicos. Pus eles aqui em modo tipo Brave Heart, à guerra, depois do outro lado fiz outro cartoon que contracena com este, que são os COVIDs também, ou seja, em forma humana, como se fosse uma batalha. E eu acho que primeiro que tudo há que dar palmas a esta gente que está na linha da frente. Portanto, eu acho que o cartunista também, em vez de estar ali a bater em toda a gente, também pode aplaudir os médicos, os enfermeiros e todos os que estão realmente a lutar contra a pandemia. É muito confortável estar aqui em minha casa fechado no estirador, a fazer piadolas sobre tudo. Mas eu tento, pelo menos eu, pessoalmente, prefiro que o humor não seja muito pessoal. Porque depois esses cartoons ficam mais datados. Daqui a uns anos ninguém sabe quem é. Se calhar o Trump, durante muitos anos vão saber quem é, mas outros políticos e tal.

Ele vai gostar de ouvir esta frase, mas Trump é eterno.

Eu acho que vai ficar, acho que é um personagem que se calhar está a fazer por isso, para não ser esquecido. Mas sim, acho que vou um bocadinho atrás do meu sentido de humor, da minha intuição. Não tenho aqui nenhuma cruzada, mas sim, tento pôr os meus valores também nos bonecos que faço.

Pedro, vão sair em livro estes cartoons produzidos ao longo?

Não faço ideia. Aliás, eu aproveito para elogiar o vosso jornal, que é o meu, é o que eu escolhi. No meio de 300 mil, é o Observador que eu acompanho os números, dos mortos, dos infectados. Mas digo também que há uma lacuna no vosso jornal.

Vamos lá.

Falta-vos um cartunista. Falta-vos um bom cartunista. Acho que um jornal tem que ter um cartunista. Eu estou disponível.

Pelo menos já temos esse cartunista nas entrevistas de final de tarde.

Eu acho que os jornais convém não se perder isso, porque eu acho que também temo que o cartoon, eu não vejo nas novas gerações aparecerem muitos cartunistas e muito interesse por isso, também porque não tem muitos sítios para os publicar, penso eu.

Muito bem, Pedro Ribeiro Ferreira, muito obrigado por esta conversa de fim de tarde.

Obrigado eu.

Para sua sorte, eu espero que o José Manuel Fernandes tenha estado a ouvir esta conversa.

Tranquilo. Eu estou muito bem.

É uma conversa que vai poder ouvir de novo daqui a instantes no site do Observador e também nas plataformas podcast.

Rádio Observador. Grande Lisboa em 98.7 e no Grande Porto em 98.4. Olá, eu sou a Ana Filipa Rosa. Obrigada por ouvir este podcast. Se gostou, pode sempre partilhá-lo com alguém e ouvir a Rádio Observador. Estamos online, mas também no FM, na Grande Lisboa em 98.7 e no Grande Porto em 98.4. Obrigada