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Amanhã chega aos cinemas o documentário biográfico de Zé Pedro, dos Xutos. Chama-se "Zé Pedro Rock'n'Roll".

Nós somos tantos. Eu sou o Zé Pedro, guitarra ritmo aqui no conjunto.

Por cento de cota. Havia um festival punk em que realmente ao ver um festival daqueles, tu ficas com aquela ideia: "Eu também quero fazer".

Saímos dali convencidíssimos que era a maior banda do mundo. "Nós somos os maiores, isto aqui vai estourar."

Não era nada aquilo, era uma banda de amigos, nem material tinha.

Os primeiros concertos dos Xutos era só pelo jantar, que era frango, febras ou filetes.

Uma das frases dele era: "Ninguém pode ficar indiferente. Ou atiram-me com coisas ou batem palmas, alguma coisa tem de acontecer."

O Zé era o gajo que depois mandava uma mensagem assim: "Adorei estar com vocês, é muito bom."

Num dos primeiros concertos que tivemos, eu a dizer ao Calos: "Nós havemos de fazer a primeira parte dos Rolling Stones, vais ver."

Quando a gente chega ao Circo de Feras, parece que tínhamos a certeza que aquilo ia resultar.

Divertimo-nos à grande.

Aquilo andava sempre a uma velocidade.

Sísmica, não havia. Sabes também aperceber que aquilo realmente um dia teria que acabar. E foi o que aconteceu.

Os Xutos tinham de embaraçar todo o sucesso. Todas as coisas têm princípio e fim.

A saudade parece muito longínqua em relação ao sentimento que eu ainda tenho.

Estávamos a ensaiar ali, um bocado ali a meio, o Zé parou: "Vim vos dizer uma coisa."

É uma realidade que se tem que viver, custa quando se chega lá. Mas agora todos nós sabemos que há um dia em que inevitavelmente nós próprios vamos desaparecer.

O documentário "Zé Pedro Rock'n'Roll" chega amanhã aos cinemas, tem assinatura do realizador Diogo Varela Silva, que se junta a nós. Diogo, bem-vindo, boa tarde.

Olá, boa tarde. Obrigado por me terem no vosso programa.

Bem-vindo, Diogo.

E obrigada pela disponibilidade. Diogo, havia com o Zé Pedro uma relação de enorme amizade, era uma coisa quase familiar. Eu gostava de começar por aí. Gostava que me explicasse essa relação tão especial e perguntar-lhe também se isto, de certa forma, também é uma homenagem, uma forma de fazer também o seu luto.

Sim. A minha amizade com o Zé Pedro vem desde que eu era muito miúdo. Eu conheci o Zé Pedro quando ele veio viver pra nossa casa, eu tinha uns sete, oito anos. Ele vivia com uma tia minha, a Mizé, e vivia lá em casa conosco. Portanto, conheço-o desde aí e desde aí tivemos uma relação muito forte e de uma amizade muito grande até o fim. Portanto, este filme, em parte, também é a minha maneira de tentar aprender a gerir a saudade que ficou.

E essa ligação tão especial facilitou o trabalho ou muito pelo contrário, colocou aqui uma carga extra que às vezes foi difícil de gerir?

Teve os dois lados. Dificultou no sentido em que tive que estar constantemente fazendo um esforço extra pra não deixar que isto ficasse uma coisa lamechas. Por outro lado, facilitou porque eu sabia exatamente o que é que queria, que arquivos eu queria ir buscar, o que é que queria mostrar, onde é que eles estavam. Essa parte e o acesso às coisas que me foi dado pelas várias famílias do Zé, dos Xutos à Cristina, que era a mulher, às irmãs e ao irmão, aos primos. Quer dizer, toda a gente me facultou e abriu as portas de casa pra eu poder ver os arquivos e procurar as coisas que queria inserir no documentário. Nesse sentido, ajudou.

Claro que sim. E esta ideia do documentário já existia, chegou a discuti-la com o Zé Pedro?

Sim, cheguei, mas nunca numa coisa séria, sempre aquela coisa do "havemos de fazer um dia".

E foram sempre adiando.

É que fomos sempre adiando e nunca pensamos que houvesse uma urgência em fazer o filme.

Há uma ideia que fica e o Diogo é uma das melhores pessoas pra me responder a isto. Há sempre uma ideia que fica quando se fala do Zé Pedro, que era mesmo uma pessoa que reunia consenso, ou seja, de que toda mundo gostava. Era muito consensual na simpatia, era uma pessoa verdadeiramente consensual. Se calhar é essa a palavra. Era mesmo assim, Diogo?

Sim, aliás, eu acho que isso é o que define realmente o Zé Pedro, a boa onda. O Jorge Palma diz no documentário que ele é um homem bom. E era realmente um homem bom, era a boa onda em pessoa e isso é o que faz com que ele tenha sido tão querido por toda a gente e ainda hoje seja tão querido por toda a gente.

E a verdade, Diogo, é que o Zé Pedro, além desse consenso que reunia, era um consenso que reunia também transversal no que diz respeito a idades. Era alguém que fazia parte de uma geração muito específica da música portuguesa, que abriu muitos caminhos e que depois tinha muitos amigos também e muitos interesses em comum com as gerações muito mais jovens. E era também alguém, e não sei se o documentário aborda também esse fato, era alguém que se interessava muito por tudo o que era novo, que tinha muito interesse também por tudo aquilo que os jovens músicos estavam a fazer.

Completamente. Ele estava sempre à procura de novas sonoridades, das novas coisas que eram feitas na música, os novos discos Os novos produtores, as novas bandas. Estava sempre a par do que se passava e era bastante informado. Ele era um homem mesmo. Acima de tudo, ele amava a música.

Não deixou nunca de ser um fã, não é? Também já li algures esta ideia.

Não, claro que não. Aliás, basta ver a alegria dele quando foi fazer a entrevista ao Jimmy Page ou quando fez a primeira parte dos Stones. Quando conheceu o Mick Jagger e o Keith Richards na Casa do Linhares, acho eu. Ele parecia uma criança numa loja de brinquedos.

E ele já revelava esse entusiasmo também quando era mais novo? Tinha o mesmo entusiasmo? Foi um entusiasmo que foi perdurando ao longo da vida?

Ele sempre teve um entusiasmo enorme ao falar das bandas, a falar dos filmes, a contar histórias. Ele era um contador de histórias nato. E era contagiante o entusiasmo dele. Aliás, eu acho que a primeira vez que eu fui ao cinema foi pelas mãos dele. Ele era um cinéfilo enorme. Portanto, também devo parte da minha paixão por cinema, que também começou com ele.

E foi ele que lhe mostrou os Nirvana?

Os Nirvana. A história que eu tenho com ele mais gira dessas coisas foi uma viagem que eu fiz à América e que ia incumbido de trazer um disco de uma nova banda, que eram os Smashing Pumpkins. E eu: "Smashing qué, pá? O que é isso?" E depois foi o que foi. Portanto, ele estava sempre à frente. Estava sempre a descobrir o que estava de novo aí e o que havia de novo para fazer.

E o Zé Pedro tinha quase essa função de, quando saía do país, ser o transportador mor de novos discos para Portugal, até porque apanhou também uma fase em que não era muito fácil encontrar aqui edições recentes, que às vezes demoravam algum tempo até chegar a território português. E o Zé Pedro, muitas vezes, quando ia ao estrangeiro, tinha também esse papel, essa função de trazer coisas novas. As encomendas iam quase numa lista no bolso para que ele pudesse depois trazer para cá.

Sim, e mesmo muito antes ainda de ser músico ou sonhar em ser músico, o Zé Pedro também escreveu sobre música e foi crítico de música no suplemento da Mosca, acho que era o Diário Popular. Ele escrevia sobre música e tinha acesso a discos que na altura os comuns dos mortais não teriam. E ele tinha acesso a esses discos para falar, para escrever sobre eles, as editorias enviavam coisas. Desde muito novo que ele é um colecionador ávido de tudo o que é música e tudo o que está ligado ao rock, em especial.

Para quem nos está a ouvir e está muito curioso por ver este documentário, Diogo, o que nos pode contar? Isto cruza aqui arquivo, cruza também entrevistas e percorre toda a vida do Zé Pedro. Até a vivência em Timor.

Sim. A minha intenção foi, de alguma maneira, quem for ver o documentário, poderá ser fã ou não do Zé, mas quem for ver o documentário consegue perceber o porquê do Zé Pedro ter sido o que foi. Onde é que estava a raiz, onde é que nasceu a paixão pela música, como é que ele se formou neste ser humano excepcional que era, eu acho que é um bocado o que se pode perceber no documentário.

Diogo, obviamente que esta coisa de andar a pesquisar os arquivos implica sempre alguma novidade, mas neste caso, o Diogo Varela Silva é alguém que conhecia muito bem o Zé Pedro. Ainda assim, houve muita coisa que o surpreendesse nesse trabalho de pesquisa para fazer este filme documentário?

Não houve muita coisa que me surpreendesse. Eu sabia muito bem o que estava à procura e o que ia ver. Houve realmente as bobines super-8 da família que foram recuperadas para o filme e que foram digitalizadas para o filme. Essas foram realmente o bombom para nós, porque são imagens do Zé em criança, em Timor, e essas eu acho que as pessoas vão gostar de ver, porque é uma coisa inédita, não foi vista ainda. Os próprios membros da família, os mais novos, nem conheciam, porque não é uma coisa que se passa hoje em dia, ver bobines super-8. Já ninguém tem super-8 em casa.

Já saber o que são bobines, não é? Já não está mau.

Já não está mau. Mas eu acho que as pessoas vão gostar de ver.

E este é um documentário que mostra essa caminhada toda do Zé Pedro. Também da família houve, como já sublinhamos, toda essa disponibilidade para mostrar o Zé Pedro a toda a gente. Ele era uma figura pública, é uma pessoa que ainda hoje é acarinhada por todos, mas houve essa disponibilidade por parte da família para que, no fundo, tudo fosse desvendado, tudo aquilo que era pretendido pelo Diogo Varela Silva?

Houve. De todas as famílias, dos Chutos à Cristina, às irmãs e ao irmão, aos sobrinhos, aos Ladrões do Tempo, aos amigos, todos eles abriram a porta e o coração para me deixar entrar e vasculhar tudo o que era arquivo, memórias e histórias. Nesse sentido, eu estou lhes profundamente agradecido. Sem eles era impossível fazer o filme que fiz.

O Diogo tocava há pouco num ponto interessante. Eu estava aqui a pensar nisso de, enfim, se calhar, não conseguimos encontrar muita gente que não saiba quem é o Zé Pedro, mas de uma nova geração, isso pode até acontecer através do documentário. Ganhariam aqui outro interesse pelo percurso do Zé Pedro, que é essa figura incontornável da música nacional. Isso também o motivou na criação deste documentário, imagino. Colocar o que era o Zé Pedro neste documentário para também quem não o conhece passar a conhecê-lo melhor. Isto acontece muito.

Se isso ajudar, de alguma maneira, vou ficar muito feliz por ajudar neste processo de preservar a memória do Zé.

O que já aconteceu também com a sua avó, Diogo.

Já aconteceu com algumas figuras sempre ligadas à música, de alguma maneira, mas do rock esta é a primeira.

Exatamente.

Mas se eu conseguir ajudar, que novas gerações consigam perceber, ou seja, se houver um documento, que é para isso que servem os documentários. Um documento que mostre o que isto foi, ou quem foi o Zé Pedro e o porquê de ter sido o que foi, eu já fico muito contente.

Claro, falamos há pouco da avó do Diogo, que é a Celeste Rodrigues. Diogo Varela Silva, como é que foi, agora muito à parte deste documentário, porque temos falado com várias pessoas ligadas à área ao longo destes meses, como é que foi esta vivência em pandemia? Em relação a projetos futuros, tudo isto adiou um bocadinho essa situação ou não?

Teve o lado mau de ficarmos fechados em casa, teve o lado bom de termos mais tempo para criar e para pôr no papel ideias que estavam dispersas. Nesse sentido, foi bom, porque deu para trabalhar argumentos e preparar e fazer pré-produção para outros projetos. Portanto, nesse sentido, foi bom. Mas quero dizer, estou mortinho para sair de casa, estou mortinho para voltar a ir aos cinemas, como já comecei a ir. Espero que as pessoas também. Espero que vão ao cinema. Se podem ir à praia, de certeza que também podem ir ao cinema, que está perfeitamente seguro e com medidas de higiene ótimas e com cuidados.

Mas quando o Diogo diz mortinho para ir ao cinema, quer dizer que entretanto já foi ou ainda não foi?

Eu já fui. Não fui tantas vezes como queria, mas já fui.

Que tal essa experiência?

Foi bom. O último que fui ver foi o "Sordina" do meu colega Rodrigo Areias.

Já falámos também com ele aqui nas tardes em direto.

E recomendo, e quero ir ver o "Patrick" também. Há tanto filme bom português, é aproveitar agora que os grandes hits de Hollywood não estão a sair. Pode ser que as pessoas tenham vontade de descobrir novamente filmes portugueses em sala. E estão bons filmes em sala. Eu acho que é de aproveitar.

Aliás, esta é uma altura em que há muitos filmes de Hollywood, como dizia o Diogo, que estão assim um bocadinho de molho, à espera de serem lançados. Este é o momento ideal para ver filmes portugueses. Não é que os filmes portugueses só apareçam agora, já andavam por aí há muitos anos, mas por vezes passavam um bocadinho despercebidos pelo meio de tanto cinema de Hollywood. Este pode ser um momento-chave também para o cinema português, para os amantes de cinema e as pessoas menos atentas ao cinema português, para prestarem um bocadinho mais de atenção ao cinema português, porque estamos nesta fase em que há aí muito trabalho nacional que está agora nos cinemas portugueses, nesta fase em que Hollywood está a regressar de forma um bocadinho mais lenta a esse cinema em sala.

Eu espero que sim, porque há ótimos filmes portugueses. O cinema português está muito bom e recomenda-se. Tenho ótimos colegas com trabalhos fantásticos todos os anos. Basta ver os prêmios que eles ganham nos festivais lá fora, basta ver as críticas internacionais aos trabalhos. Eu acho que às vezes parece que há um preconceito.

E por quê, Diogo? Por que há essa resistência?

Não sei. Também se será culpa nossa na maneira como comunicamos as coisas, se é culpa dos críticos, se é culpa dos exibidores. Não sei.

Quando se fala em cinema português, normalmente a primeira reação de muitas pessoas é dizer que é um cinema de autor, quase sempre, com aquilo que a expressão pode ter de pior, que é sempre um cinema muito lento, que é sempre um cinema muito parado. É tempo também de dar outra cara a este cinema português.

Os filmes portugueses que eu vi eram todos a 24 imagens por segundo, portanto, têm exatamente o mesmo tempo que os outros. Não percebo essa analogia, nem essa crítica. Tem exatamente a mesma velocidade que os outros.

E Diogo Varela Silva quer continuar também a fazer trabalhos ligados à área da música e ao cinema, obviamente. Quer continuar também a revelar os pormenores da vida de outros astros da música portuguesa, que não são poucos.

Não sei, acho que poderá haver mais um ou dois que me interessem fazer. Não sei, mas tenho outras coisas para fazer. Estou muito interessado também em produzir agora, tentar trabalhar com gente nova também, que eu acho que também tem uma voz ativa e coisas a dizer, e também os quero produzir e pôr cá para fora o trabalho deles. Portanto, não estou só centrado na minha parte de realização, também estou focado nesta hipótese de produzir coisas novas, coisas de gente nova também.

Ainda bem. Diogo, foi um gosto. Diogo Varela Silva assina o documentário do Zé Pedro, que chega amanhã aos cinemas. "Zé Pedro Rock'n'Roll" foi o nosso convidado de hoje. Diogo, obrigada, até à próxima.

Muito obrigado eu e um abraço para vocês.

Obrigada, uma boa tarde. Zé Pedro Rock'n'Roll, para veres a partir de amanhã nos cinemas, este documentário biográfico de Zé Pedro dos Chutos e Pontapés. Esta conversa com o realizador Diogo Varela e Silva vai ficar disponível já a seguir, daqui a instantes, em podcast. Se quiser voltar a ouvir, partilhá-la com alguém, também. Olá, eu sou a Ana Filipa Rosa. Obrigada por ouvir este podcast. Se gostou, pode sempre partilhá-lo com alguém e ouvir a Rádio Observador. Estamos online, mas também no FM, na Grande Lisboa em 98.7 e no Grande Porto em 98.4. Obrigada!