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Seja bem-vindo. O viajante desta semana está no meio do Oceano Atlântico e é no meio do mar que gosta de estar. Nasceu no sul da ilha do Pico, nos Açores, e quando tinha apenas cinco anos, viu passar ao largo da ilha um veleiro. A mãe disse-lhe que era os aventureiros que seguiam a bordo. A ideia de poder um dia viver aventuras andou ali a matutar durante vários anos, até que o nosso viajante partiu, fez cinco interrails, foi e é pescador, mergulhador, velejador e operador turístico-marítimo. Já atravessou oceanos e conhece o mar como poucos. E hoje, com 66 anos de idade, bela idade, está a dar a volta ao mundo, com algumas pausas pelo meio para matar saudades da família. Norberto Serpa, bem-vindo às Conversas do Fim do Mundo.

Olá, boa tarde.

Norberto, como é que está o mar hoje aí nos Açores? Está rough?

Ainda não está rough. Ainda tenho agora dois barcos que vão sair ver baleias e golfinhos, mas preparem-se, porque não sei se vocês viram a previsão, vem mesmo e vários chats dizem que vai vir e a atmosfera está mesmo pesada e o Pico indica. É só olhar pro Pico pra ver que vai vir mau tempo.

Muito bem, estamos a gravar à segunda-feira. Espero que no sábado, quando o programa for inicialmente para o ar, já tenha passado a tempestade. Rough, como eu dizia há pouco, quando perguntava se o mar está rough. Rough vem do inglês rough, que quer dizer duro. Há muita presença americana aí nos Açores, não é?

Pois, esse nosso rough, a umbrella, o scaf, são tudo americanismos, porque a primeira imigração foram realmente os baleeiros pra costa leste dos Estados Unidos, quando eles andavam à caça a baleias americanas, passavam por cá, porque os trade winds já sempre existiram aqui nos Açores, desde que há pessoas aqui a viver. E então tem que forçosamente passar pelos Açores, era um barco que usava vela, não havia motor. E então, claro, como até nos últimos anos que se caçou a baleia, havia alguns que desapareciam nessa caça, sempre era um pouco perigosa. De vez em quando, depois da harpoada, os castelotes alguns enviavam-se pro barco e partiam com a cauda pra tentar fugir. Não que te viessem comer as pessoas, mas acabavam por morrer alguns e então embarcavam sempre. Li um livro, por acaso, acerca disso, o Sumner, um livro muito bonito, de Açores, Madeira, Canárias e até alguns de Cabo Verde também, eles iam apanhando marinheiros. À medida que iam morrendo, iam apanhando outros.

Foi importante pra ti, Norberto, esse contato com essas histórias de homens aventureiros que partiam rumo à conquista dos oceanos? À conquista, não bem à conquista.

É assim, quando tu moras numa ilha, quando moras assim numa ilha rodeada por mar por todos os lados e vês um horizonte, e depois há aquele velhote que diz: "A América é pra ali e Lisboa fica pro outro lado", a gente fica sempre com ansiedade de conhecer o que é que vai pra além daquele horizonte. Isso foi uma coisa que criei desde muito criança. E a partir daí, sempre aquela saber o que é que se passa. E então fiquei sempre com a curiosidade de ler um livro ou outro que me ajudasse também a compreender as coisas e também a saber a história. Por exemplo, esta viagem que eu estou a fazer agora, depois destes anos todos à volta do mundo, dá-me um grande prazer também chegar a Malaca e ainda se falar o dialeto português, de chegar à Indonésia, que está cheia de pessoas com nomes portugueses, a igreja portuguesa, as coisas portuguesas dá muito isso. Sempre pensei, sempre li. Comecei por ler um livro que me apaixonei muito, foi o Lusíadas de Camões, decorei montes de versos. Achei que é uma relíquia portuguesa que nós temos e que relata uma coisa incrível.

É uma epopeia marítima, não é?

É uma epopeia marítima e eu sempre pensei que os Açores tiveram no auge do planeta, é verdade, sinceramente, foram grandes navegadores, grandes coisas. Somos sempre um povo muito ligado a isso.

Muito bem. E então falavas dessa volta ao mundo que estás a fazer e que te tem dado muitas alegrias. Quando é que começou essa volta ao mundo e por onde, Norberto?

Há quatro anos. Aliás, comprei o barco em Barcelona, fiz o Mediterrâneo, fui pra Cabo Verde passar o inverno, voltei para os Açores e depois comecei a volta ao mundo. Mas antes de dar a volta ao mundo, já andava em barcos dos amigos e já tinha atravessado quatro vezes o Atlântico, já tinha ido pro Brasil, já tinha passado o Equador. Depois, estava sempre com a cabeça no Pacífico, toda gente me falava no Pacífico.

Explica-me só uma coisa. Que simbologia tem pra um marinheiro passar o Equador? Há muitos homens no mar que falam nesse marco. É assim tão importante?

Pra mim é importante. E agora é importante também conhecer os oceanos, mas foi muito importante passar pro outro lado que nunca tinha passado. Foi importante e realmente eu tenho várias coisas.

Mas é diferente, o mar é diferente ali pra lá do Equador, no sul do planeta Terra?

Não é diferente, mas a gente já sabe tudo. A gente não anda a descobrir muitas coisas em relação ao tempo, em relação ao mar. Já tá quase tudo descoberto, já tá tudo embora. Haja coisas pontuais que existem no mar, que com esta alteração do planeta, podes ter grandes tempestades em sítios que devia fazer bom tempo naquela altura. Isso a gente tem que estar prevenidos. E isso também quem tá habituado a olhar a Lua, olhar a atmosfera, olhar pra Lua e pros astros e pras nuvens, começa a ver.

Vamos falar das alterações na segunda parte, mas eu gostava de falar das tuas viagens agora aqui na primeira parte, Norberto. Vamos então fixar-nos nesta da volta ao mundo. Portanto, Barcelona, depois Cabo Verde E tinhas ido aí há instantes?

Voltei. Parei na Madeira, parei nas Canárias, já tinha parado lá dizer olá aos amigos, praticamente. E fui pra Cabo Verde, porque tinha um trabalho em Cabo Verde com os biólogos marinhos, que eu já tinha trabalhado muito tempo com eles. Trabalhei mais 30 anos lá na universidade e eles foram lá ter comigo, fizemos uma embarcação lá de animais e voltei para os Açores e comecei depois no mês de outubro.

No mês de outubro. Saindo dos Açores?

Dos Açores. E fui outra vez pras Canárias, Cabo Verde, que é a rota principal, a rota que geralmente toda mundo faz para atravessar o Atlântico e na altura certa é outubro, novembro, dezembro, até fevereiro. E então atravessei no mês de janeiro. E fui então para as Caraíbas, fiquei um ano lá nas Caraíbas, entre Cuba e Jamaica e pra aquela zona, porque já conhecia a parte das outras Caraíbas mais pro lado de cá. E acabei por ir sempre pras Cayman, pra Saint Andrés, Providência Saint Andrés, estive nas Corn Islands também. Estive naquela ilha, umas ilhas da Nicarágua, já há mais de um ano não aparecia lá um veleiro. E depois então deixei o barco no Panamá e no outro ano atravessei o Panamá e fui pro Pacífico.

Ah, fizeste o Estreito do Panamá?

Fiz o Estreito do Panamá.

Aquilo é uma obra de engenharia incrível, não é?

É, forte maravilha. Eu já tinha atravessado antes uma vez, atravessei mesmo só num outro barco, de um outro amigo, mas desta vez era o meu barco, é diferente quando a gente atravessa com o nosso barco, a nossa própria casa, e outra coisa é atravessar com os outros.

Aquilo é uma coisa para se fazer em quanto tempo? Dias, horas? Atravessar o Estreito do Panamá, Norberto.

Aqui são 50 e tal milhas o canal. As comportas, são três comportas de cada lado, e a comporta fecha, entra um navio bem grande e entram três barcos conforme o tamanho do navio. Pode entrar três barcos atrás, três veleiros e três veleiros à frente. Se o barco tem uma grande dimensão, só entram três atrás, cada vez. Portanto, e sempre assim, está sempre a passar e sempre não para.

Mas demoraste quanto tempo a passar o Estreito do Panamá?

E na altura, dois dias, porque eu passo para o primeiro lago, passo as primeiras comportas, subo, vou pra uma grande lagoa que lá existem muitos navios ancorados e barcos ancorados, onde tem uma pequena marina, e depois no outro dia de manhã, os pequenos barcos só atravessam durante o dia, vamos assim na beira do canal. Mas tem piada que a primeira vez que eu passei, estavam lá com grandes maquinarias, por acaso, um projeto holandês, um projeto holandês, com grandes maquinarias a abrir um segundo canal. E agora da segunda vez quando passei com o meu barco, já passei foi por esse canal. Já passei pelo segundo canal.

Boa. Muito bem. Então essa foi a terceira, não é?

A segunda vez.

A segunda vez. Mas foi a terceira etapa da tua volta ao mundo, certo?

Sim, na segunda etapa da volta ao mundo. Porque eu vou fazendo: verão, venho sempre cá passar três, quatro meses, quatro, cinco meses aqui aos Açores, porque tenho uma empresa, porque tenho família, tenho mulher, tenho filhos, tenho netos. Passo a vida com saudades. Estou agora aqui, passo dois, três meses aqui, fico logo com saudades de continuar a viagem. Depois estou lá, fico com saudades também de estar cá e a família.

Muito bem. Depois fizeste o Pacífico, depois do Panamá, Norberto.

Sim, fiz. Passei aquelas ilhas logo a seguir o canal do Panamá, que é as Las Perlas. Estive lá uns quantos meses para esperar pela altura ideal em fevereiro para passar para as Galápagos. Também em Galápagos tive uma outra equipe de cientistas que estivemos em Darwin, North Darwin, nas ilhas a norte das Galápagos, fazendo um trabalho com os tubarões-martelo, que há uma agregação de tubarões-martelo lá. Estivemos a meter satélites nesses animais com a Darwin Foundation, com a fundação de lá.

Ok.

E estive lá uma temporada. Também foi dos sítios que quem gosta do mar não perca, porque é realmente um paraíso.

Por quê?

Estás no fundo do mar, estás a ver assim 200 tubarões-martelo, passa um tubarão-boleira de vez em quando, passam atuns gigantes, passam golfinhos ao lado. É uma maravilha. É 170 milhas de Santa Cruz do Norte, portanto, são umas ilhas muito pequenas, não há ninguém lá a viver, claro, é só uma reserva. E é uma agregação dos animais que vão lá fazer as suas limpezas. Há um agregamento lá de uma estação de limpeza e de alimentação. E depois partem daí, porque esses satélites depois é que me dão essa informação, saem daí e vão para as Cook Islands, que ficam já para o lado da Costa Rica, descem para umas ilhas que é Maupú para Colômbia, passam o Equador da Colômbia, sim, da Colômbia, vão pra costa do Equador e depois entram outra vez nas Galápagos. É o círculo de um ano. E agora só por curiosidade vossa e de quem esteja a ouvir o programa, o trabalho que nós fizemos e a marcação dos animais que nós fizemos era só fêmeas. Então as fêmeas aproveitam para sair na lua cheia. Porque as fêmeas é que vão, sempre fogem um bocado dos machos. Não é só nesta espécie, noutras espécies vão parir longe dos machos, porque eles são canibais e os machos têm tendência em comer as crias.

Ok, muito bem. Olha, onde é que está o teu barco agora?

Está na Tailândia. Estou a fazer uma grande reparação, porque o barco já tem 20 e tal anos e é um Ferrari, é um lindo barco, que eu nunca imaginei ter um barco tão bonito.

Sim.

Forte, grande.

É um veleiro, não é? De mastro.

É um veleiro. Claro, só pode ser veleiro, senão eu vendia a casa pra comprar um que fosse.

Norberto, e por que na Tailândia?

Porque a madeira é já seca, é madeira boa, madeira melhor, e é madeira mais velha, mais antiga que vem do mar. E a mão de obra é mais barata e eles são grandes especialistas, vem trabalhar madeira em barcos. Eu comecei a saber nos Açores e por todo lado fui passando onde é que era o sítio melhor, uma vez que passava por lá. Uns diziam: "Pode ser em Malásia", mas Malásia não é tão bom carpinteiro, não fazem um bom acabamento e eu acabei por ir pra Phuket, pra Tailândia, e estou a gostar muito das fotografias e daquilo que eles vão relatando do barco.

Boa! Quando é que estará pronto o teu barco?

Daqui uns 15 dias, três semanas.

Boa!

Mas eu só vou em agosto.

Em agosto. Tem nome o teu barco?

Tem, Taka 3.

Taka 3. O que aquilo quer dizer?

Taka 3 quer dizer várias coisinhas. É um deus que eles têm lá no Brasil, mas eu comprei já com esse nome e o primeiro dono aqui pôs o nome e eu não quis mudar o nome, não gosto de mudar o nome dos barcos. Não sou muito supersticioso, mas habituei-me ao nome e agora já é esse nome.

Muito bem. Então depois daí da Tailândia vais seguir pra onde, Norberto?

Depois da Tailândia eu vou descer um bocadinho pras Chagas, Seychelles. Eu pensei em ir pra Índia, mas os ventos daí, as monções não é favorável. E eu também não queria estar muito mais tempo lá, porque estou longe dos amigos e da família e não quero também parar muito tempo na África, mas vou para Zanzibar, vou andar lá na Tanzânia, depois vou descer entre Madagascar e Moçambique. Aí em Moçambique, na Ilha de Moçambique, volto a ter outro trabalho lá, possivelmente em tubarões-baleia ou nalguma espécie com um grupo de cientistas também. E depois venho pro Sul da África. Estou a falar depois, mas ainda vai levar uns meses pra chegar ao Sul da África.

Muito bem.

E Sul da África, então, atravesso o Atlântico pro lado do Brasil.

Ok, e depois vens por aí a subir até aos Açores, é isso?

Não.

Não?

Não, porque eu habituei-me e estou a gostar muito da vida que estou a ter agora nos últimos anos e passar os invernos dos Açores que são um bocadinho rigorosos, já na minha idade, já custa.

Sim.

Custa a qualquer um, mas então poder ter o barco nas Caraíbas, lá há muitas ilhas que eu não conheço, e no norte da Venezuela, no Suriname, no norte da América Latina. Tem lá muitos sítios que eu queria passar lá uns anos a explorar aquilo, a receber a família e os amigos.

Muito bem. E com quem viajas tu, Norberto?

É incrível, eu tenho sempre o barco cheio. Eu ano passado tive uma altura que não tinha ninguém, claro, apareceram-me de montes de sítios, pessoas, e acabei por ter o barco. Eu desde que saí dos Açores, só fui de Bali pra Cingapura, pra Malásia, ao lado de Cingapura. Fui lá, foi a única viagem, foi uma semana que fiz sozinho. E por acaso apanhei um roughzinho bem engraçado, bem atrevido.

O quê?

Apanhei um roughzinho bom.

Um rough.

Apanhei mau tempo, mesmo a sério. Mas o barco é uma maravilha, aí deu pra perceber que é uma maravilha mesmo.

Muito bem.

Quando saí daqui, o dono do Peter fazia uns 100 anos o bar, foi mais eu, levei mais um outro comandante que já tinha traçado muitas vezes, mas que era sempre comandante do barco, queria passar férias, foi mais eu, levei mais um dos rapazes biólogo, foi sempre assim. E depois quando cheguei lá, paro nos sítios, estou sempre a receber os amigos de um lado e do outro que vêm lá só passar férias comigo.

Muito bem, fantástico. Olha, vamos continuar a conversar dessa viagem de volta ao mundo e das tuas 1001 aventuras a bordo dos teus barcos.

Taka 3.

E também do Taka 3. E uma vez que estamos aqui na reta final da primeira parte, vamos abrir o álbum de viagem. Norberto, guardas algum objeto contigo que tenhas trazido das tuas viagens e que seja especial?

Olha, por acaso eu tenho um objeto. Tenho uma plaquinha, um bocadinho de madeira que está escrito. Foi nessa primeira viagem que eu fiz, em que atravessei o Equador. Estava a atravessar o Equador e quis dar a novidade à minha filha, mas ela estava muito grávida. Estava a atravessar o Equador e ela disse: "Ó pai, já sabes o que é que foi? Nasceu o Francisco esta noite." Francisco, grande Francisco, 13 de fevereiro às 6:30 da manhã. Estava a passar a latitude zero quando nasceu o meu primeiro neto, guardo essa placazinha sempre e eternamente agora no meu quarto. Mas tenho geralmente as prendas e as coisas que eu vou guardando, que eu vou tendo, guardo-as no barco pra um dia trazer pra cá, mas esta trouxe comigo para ter aqui na minha casa. Tenho aqui uma casa que restaurei, que é aqui onde eu vivo.

No Faial, não é?

Sim, no Faial.

Dizias, desculpa, interrompi-te.

Eu não sou muito de trazer assim muitas prendas. Para já, não compro prendas e pra mim também compro pouca. Tenho prendas no barco, mas geralmente são prendas que as pessoas, quando vou passando, ou uma família, ou um amigo, alguma coisa vão oferecendo e eu vou trazendo. Não sou de trazer muitos artesanatos e muitas coisas de outro sítio, não sou de trazer. Tenho aqui algumas coisas, mas por acaso é de outras viagens que eu fiz a Marrocos, a Saint-Pierre e Miquelon, outras viagens que eu fui fazendo. Fui trazendo uma ou outra recordação, mas durante a viagem vou colecionando algumas coisas que me vão dando, outras que me dizem muito respeito daquelas zonas, daquelas coisas. Trago isso pra recordação, pra ter aqui na casa, mas comigo aqui em casa Não tenho muitas coisas a não ser aquela plaquinha que eu guardo miraculosamente da viagem que eu atravessei o Equador.

Fantástico. Estamos à conversa com Norberto Serpa. Fazemos aqui uma curta pausa, regressamos já a seguir. Segunda parte das Conversas do Fim do Mundo, esta semana com o pescador, velejador, mergulhador e aventureiro açoriano Norberto Serpa. Norberto, na primeira parte já falaste um pouco do teu objectivo que é dar a volta ao mundo no teu barquinho, o Taca III, que está nesta altura na Tailândia para reparação. Ficará pronto daqui a 15 dias. Norberto, na primeira parte falaste desse desejo quase inato a todos os açorianos que é ver para além do mar. Lembras-te a primeira vez que saíste do arquipélago dos Açores?

Lembro. Mas eu tive duas tentativas com muito pouco sucesso. Eu tive uma tentativa com 18 anos. Naquela altura havia muita gente em Portugal, mas nos Açores, muito açoriano saía para fugir à tropa, para não ir pro serviço militar e então para sair um bocado destas ilhas e era uma maneira também de eu me libertar. E então tentei ir pra França fugido. Havia um passador em Malgaço, que pegava numa série deles, havia um bocadinho de comboio, um bocadinho de autocarro, um bocadinho a pé e chegamos à fronteira de Espanha com Irun, pra França e moral da história: apanharam-nos e tivemos que voltar para trás e então tive que voltar outra vez para os Açores. Pouco sucesso. Portanto, foi a primeira viagem que eu saí. Ainda saí daqui num barco que se chamava O Ige, que era um barco que fazia passageiros, havia o Funchal ou Angra e eu fui ainda de barco por Lisboa, mais um primo meu, fomos, mas não tivemos nenhum sucesso, voltamos outra vez à casa de partida. Tive que trabalhar na fábrica depois para pagar o dinheiro ao meu pai. Portanto, não tivemos sucesso. E depois fiz uma outra tentativa. Agora vou pro Canadá. O Canadá eu tinha um irmão que também estava de clandestino no Canadá, como muitos açorianos. Mudavam de sítio, iam mudando, e ficavam fugidos no Canadá. Eu ia fazer a mesma história, ia dizer que era rico, tinha muitas vacas, que não ia lá pra imigrar, queria só passar férias e voltar pra trás. E ao mesmo tempo que eu estava a fazer uma entrevista lá dentro da porta ao esse meu irmão, que estava à minha espera, que também estava clandestino. Portanto, tive quase a trazer o meu irmão de volta para trás. Tive muita sorte, tinha um primo que já estava lá há muitos anos, que tinha nascido lá, uma certa idade, idôneo, que tinha um amigo advogado, que foi depressa pro coisa, então deram muito e ia espreitar no aeroporto, para depois voltar para trás.

Muito bem, Norberto, quase imigrante em França e quase imigrante no Canadá. E as viagens, como é que aparecem na tua vida, Norberto?

As viagens pela Europa afora, com o Interrail, aparecem porque a gente passa sempre aquela fase de-

Da loucura dos 20, é isso?

É a boa vida e fumar charros e tomar copos e namoradas, como todos os outros. E depois por aí afora, era trabalhar para ir passar um mês aí fora. Mas eu também era muito poupadinho e então durante a viagem, dois anos trabalhei a fazer vindimas em França, outro ano fui ao cantão suíço, em Lausanne, uma feira que havia lá enorme, que trabalhava no restaurante também, para fazer assim uns biscatezinhos durante a viagem. E depois isso é quase como um vício, pois vais conhecendo pessoas e depois ano após ano vais-te sempre contatando de onde é que vamos, onde é que não vamos. E depois eu ia um pouco à deriva, como não tenho assim um trajeto, como agora também não tenho assim um trajeto exato que tenho que fazer. Eu uma vez disse à minha mãe que não conhecia a Escandinávia, não conhecia o norte da Europa e acabei por ir pras ilhas da Grécia, quando mandei um postal das ilhas da Grécia. Dependia da companhia que ia apanhar naquela altura e ia moldando um bocado a viagem.

Fizeste cinco Interrails, não foi?

Sim. Experimentei outras coisas também. Fui um ano também à pesca do atum, aqui à volta dos Açores, num barco espanhol, num barco que veio cá fazer um trabalho.

Muito bem. Tu estás a fazer então essa tal viagem de volta ao mundo em várias etapas. Romantiza-se muito a vida no mar, não é? Mas é uma vida muito dura, ou não?

Não é. Não é nada dura. Eu não paro um minuto, tenho sempre coisas a fazer, estou sempre ou a mergulhar ou ver baleias, ando sempre em movimento. Estou aqui ou a arranjar barcos ou pôr barcos, estou sempre em movimento. E então, com essa energia toda, tinha uma amiga minha que disse: "Vou te dar isto aqui, porque eu acho que tu vais estar muito tempo no mar e vai te dar ansiedade e tu podes entrar em desespero, vou te dar estas coisas, toma mas isto, que ficas calminha". Uns ansiolíticos quaisquer. Claro que não tomei nada. Fui logo fazer a primeira vez. Porque é assim, tu tens histórias no mar, tu cada dia que passa, tu tens um pôr do sol diferente, tens um nascer do sol diferente, tu tens uns astros diferentes. Apanhas um peixe, estás a pescar, apanhas um peixe, arranjas o peixe, depois tens a vela, tiras vela, pões vela, o vento muda, tens que fazer coisas, estás sempre em atividade, estás sempre a fazer coisas. Depois tens que fazer comer e muitas vezes estás a fazer comer, estás a comer, tens que mudar a vela, tens que parar de comer. Não é assim uma coisa que sejas menor, tu não estás acolá, pões o motor a trabalhar e vás. Tu tens é que aproveitar a força da natureza pra te levar, no caso do barco à vela. E estás sempre a fazer. E depois tens uma outra coisa que é extremamente, tu quando chegas a um sítio, ficas sempre com um sorriso até atrás das orelhas. Tu ficas logo com um sorriso espetacular, porque conquistaste aquele espaço de tempo e até se foste capaz de estar acolá nisso que vocês dizem que pode ser estresse, aqueles 15 dias pra chegar ao outro lado Foi o máximo que eu tive, foram 17 dias sempre sem ver terra, fui das Galápagos até às Marquesas. Mas depois quando tu chegas do outro lado, tu começas a dizer: "É pá, faltam três dias para chegar". Aprecias aquele momento, à medida que vais andando pra terra, tu com aquela energia toda, qualquer pessoa para pra te dar boleia, pra conversar contigo, pra estar contigo e toda a gente, se tu estás com essa energia e com essa felicidade na tua cara, tu encontras gente sempre dessa maneira. Se eu começasse a contar histórias agora mesmo dessa viagem, mesmo quando estive sozinho, que parei em vários sítios.

Conta.

Já viste o que é estares assim, chegares na Indonésia quando esse campanhão roça e tu cras, e tive que parar em duas ilhas, no sul das ilhas, numa abrigada. Entro por terra adentro, ponho o meu dingue ao mar, entro por terra adentro e ao fim de duas horas estás com as crianças dessa família ao colo, eles a te convidar pra comer e depois vais-te embora, trazes logo três ou quatro quilos de bananas e fruta e legumes, etc. E depois no outro dia quando chegas lá, estás outra vez a mandar eles, diz que tu vais embora, mandas adeus, muito obrigado. E depois tu começas a sair com o dingue e o pontão dos pescadores sai de gente só pra te dizer adeus, apenas estiveste dois dias com essa gente. Isso também este é o coração.

Claro.

E estive em sítios que não falavam uma palavra, que foi aí que o Google Tradutor, que o telemóvel chega a todo lado. E tu não imaginas as coisas que eu resolvia. Andei 100 milhas por causa de uma avaria no motor e tive que vir 100 milhas. Primeiro apanhei calmaria, depois é que apanhei o mau tempo e andei 100 milhas pra chegar à terra. Cheguei à terra a uma aldeia de pescadores e eu, através do Google Tradutor, consegui chegar a uma família e essa família acolheu-me durante uma semana e resolveu o meu problema, as minhas coisas. Mandei a peça pra Jakarta, recebi a peça, não sabiam, estavam sempre de manhã a telefonar pra saber se estava tudo bem. Portanto, apesar de tudo isso, apesar de estar sozinho, sempre tive uma facilidade em fazer amigos, em criar famílias, que ainda hoje telefono, lhe digo olá e eles já estão a planear ir ter comigo pra Tailândia e passar uns dias lá com os irmãos. Portanto, tenho sempre uma grande facilidade, porque quando tu estás a fazer uma coisa e que estás te a sentir feliz e tu estás feliz naquele momento, a viver aquele momento, tens sempre gente à tua volta que gosta de estar contigo e gosta de partilhar também essa felicidade contigo.

Claro.

Isso também, sinceramente, vou te dizer, João, que é das coisas mais brilhantes, melhores que me está a acontecer na vida. E ter energia com esta idade, ter energia pra poder fazer isso e partilhar isso com os amigos, com a família é o orgasmo da vida de uma pessoa, minha, pelo menos.

Que não te falta energia nunca, Norberto. É uma inspiração incrível. Olha, diz uma coisa, já estiveste perante alguma situação de vida ou de morte no mar?

Já pensei assim: "Vai ser hoje que vou morrer". Já pensei: "Olha, que estupidez, olha a maneira estúpida que vou morrer. Vão me chamar burro a vida toda". Um dia estava mais o Luís Quinta, que é um fotógrafo português muito famoso. Estávamos no sul do Pico, mas estávamos longe e ele estava realmente com um grupo de castelões a fotografar. Pediu uma máquina, que naquela altura eram as máquininhas com rolo. Pediu uma máquina, tirou a máquina e eu me mandei no mar, sozinho, mas ele no mar, não tinha marinheiro, naquela altura era um barco pequeno. E me mandei no mar, também com o meu óculozinho, pra ir estar com a Márcia a ver ele fotografar e ver aqueles animais todos. Só que isso tinha sempre que o barco estava sozinho. O ventinho começa a levar o barco, na altura que eu pensei que o barco estava longe, estava mais longe do que eu pensava. Foi assim um bocadinho nervoso.

Viste e desejaste para chegar ao barco.

Consegui, mas quando apanhei aquela parte debaixo do motor que estava na água, não havia força para subir o barco. Mas já estava preso, aí já não me ia morrer. Aí havia respirar fundo até chegar. Já me aconteceu várias coisas na vida, mas eu tenho uma estrelinha. Eu era miúdo, quando eu estava na escola, já éramos muitos irmãos e a minha mãe era muito católica, e então ela gostava muito que eu fosse padre. Coitada, não teve essa sorte, mas então convidou pra me forçar um bocado essa vontade. E então chamou pra minha madrinha Nossa Senhora. E eu tenho muita fé nessa minha madrinha. Eu digo que é a minha estrelinha que me conduz na vida, porque eu já fiz tantas asneiras que era mesmo pra ficar morto ou paraplégico, e consegui resistir. E acho que é a minha madrinha que me apara sempre.

Boa.

Portanto, eu acho que tenho sempre uma estrelinha e há vezes quando estou aflito chamo por ela. E acho que ela me ouve, por isso também vou sempre de encontro. Há vezes quando essas coisas me acontecem, é mesmo a estrelinha.

É mesmo a estrelinha. Olha, Norberto, os mares estão a mudar?

Estão, os mares estão a mudar, o oceano está a mudar. Ao fazer essa pergunta, eu sinto uma certa tristeza, porque eu tenho a certeza que nenhum neto meu, nem nenhum descendente vai conhecer o cheiro que eu conheci do mar, vai conhecer o cheiro da costa, o cheiro do mar. E também em terra, também a fruta, também é a mesma coisa, por onde a gente passa e tudo.

Mas quando dizes que o mar está a mudar...

Está, e essa grande tristeza vai nesse sentido de que nesses 50 anos que eu fui acompanhando, se continuar com a mesma velocidade a sua degradação, daqui a 50 anos, eu não sei como é que o mar vai estar, mas vai estar muito mal. Eu estou a acreditar um bocado Na grande transformação e nesta juventude toda que está, uns a deixar de comer peixe, outros a deixar de utilizar o mar só para capturar, só para destruir. Mas há uma grande força também da proteção. Há algumas coisas que já não é bom tempo. À medida que a temperatura da água vai aumentando, há outro grande problema neste momento, que ainda pior do que a sua exploração, são as invasoras que vão para determinados sítios, tanto de animais como de plantas. Isso também é um grande problema que vai existir, acompanhado da sobre exploração e da poluição, que é um outro grande problema, porque muitos dessas algas e desses animais adaptam-se muito bem a essa degradação que o oceano tem.

Fica o aviso, sempre importante ouvir, e o teu alerta. Norberto, qual foi a experiência que tu viveste em mar e que gostarias que os teus netos vivessem e que tens medo que eles não possam viver?

Eu acho que é como a vida. Se me disseres assim, pontualmente, o momento mais espetacular, eu tenho tido momentos muito espetaculares que guardo no coração, não é só um.

És um homem de sorte.

É, sou um homem de sorte, sinceramente. Mas vou te dizer, João, que onde eu gosto mesmo, sinceramente, vou te dar exemplo. Adoro baleias, adoro andar no mar a ver baleias, mas eu adoro ver baleias quando principalmente estou sozinho no mar a ver baleias, porque é muito mais fácil tu interagires com os animais e eles estarem acolá. Eu tenho fotografias sentado no flutuador, com a mão na face, e a me tirarem fotografias com a boca da baleia ao lado, com a cabeça da baleia ao lado da minha cara, por exemplo. Não acontece todos os dias, aconteceu aquilo porque havia-

É preciso estar muito tempo no mar e interagir muitas vezes com o ecossistema para perceber que às vezes até pode nascer ali uma certa cumplicidade. Pelo menos na nossa cabeça, nós acreditamos que há ali uma cumplicidade, não é?

É, por exemplo, esta cena que eu estou a dizer em relação a esses animais, era um dia que havia um funeral e elas estavam a fazer o funeral. Os cachalotes são animais que vivem a vida toda em família e se há uma que morre, são várias famílias a vir fazer o funeral. Então nesse dia, só baleias à volta da baleia morta. Ficam acolá dias sem mergulhar, ficam sempre acolá a protegê-la durante algum tempo, até ir pro alto-mar e depois ela se degradar. E na situação do Luiz Quinta, que eram muitos animais juntos, era uma que tinha acabado de parir. E quando há uma cria pequenina, há um bebê, começam as outras a protegê-la e ficam acolá ao lado dessa família. E mais um dia, tanto numa vez como noutra, estava eu sozinho no mar.

Boa! Olha, Norberto, estamos a chegar ao fim. Vamos fazer checkout. Vou pedir-te para completares as habituais frases: na minha mala vai sempre, o que é que não falha, Norberto?

Eu acho que vai sempre é o meu coração e a minha energia, que não a deixo de lado nenhum, levo sempre comigo.

A viagem com mais peripécias que realizei até hoje, qual é que foi, Norberto?

Eu fiz o meu primeiro barquito. Fui criado numa baía muito pequena, mas muito abrigada, só que também fazia mau tempo. E eu achava que era o deus do mar, que era o Neptuno do mar e que vencia tudo. E fui pro mar um dia e parti um remo, não tinha motor, tinha remos, e parti um remo e andei. O outro meu colega nadava para puxar o barco e eu com os paneiros, que é as tábuas com os pés, a tentar remar para chegar à terra. Essa foi uma, mas a outra, já estava aqui no Faial. Fui criado no sul do Pico, era uma situação do Pico, o mar lá era outro. Entre o Pico e o Faial, há sempre aqui muito fresco. E eu estava a fazer um trabalho pra Universidade de Lulas. Fui às lulas, andava com um barquinho de um prumil, de madeira, taca taca, ia aqui pro lado de São Jorge apanhar lulas e trazia, mas eu gostava de ser o primeiro a chegar. E nesse dia, realmente, o Pico mostrou mau tempo. Eu fui sempre a surfar nas ondas e quando cheguei lá, pus a minha pedra, o meu ferro no fundo pra apanhar as lulas, 200 e tal metros, era fundo. E quando começo a aproar o barco, aquilo começa a vir, começa a vir fortinho e não vejo nenhum pescador a chegar. Cortei a linha e vim-me embora navegando, a pedir à Nossa Senhora que conseguisse encalhar o barco no norte do Faial. Havia pagar o barco a meu pai, mas não morria. E vim sempre devagarinho, devagarinho junto à costa. Passei as Passas do Lugar, pensava assim que ia encalhar o barco e subir por uma praia acima pra escapar. Quando cheguei cá dentro, estavam os outros a rirem e dizendo: "Como é que é? Pescaste bem?" Mas eles sabiam. "Ó tolo, tu julgavas que isto era o Pico, não olhaste pro Pico, não viste a tempestade que vinha por aí abaixo." Mas aprendi. Mas foi das piores recordações que tenho da vida do mar.

Olha, o carimbo de passaporte ou visto mais difícil de obter.

Olha, fui agora na Indonésia, gigante espetacular. Parei numa ilha da Austrália e tem que sempre fazer, tem que sempre dirigir às autoridades quando chega num país, mas a Indonésia tu tinhas que prevenir dois dias antes e tudo. Como eu ia navegar, não preveni, entrei em Tual, numa ilha logo bastante a norte de Timor. Parei lá, podia-se fazer, pra quem ia mais pro norte da Indonésia, fazer lá e fui fazer a entrada. E a coisa foi forte maravilha, ao ponto de eu, no mesmo dia, à tarde, nesse mesmo dia, já estava com o carro da aduana a fazer compras, a ir comprar internet, a me dizendo onde é que era o banco, dentro do carro da polícia. Correu espetacularmente bem Entrei no país da Indonésia e saí da Indonésia, maravilha. Entrei em Timor. Para entrar a segunda vez, nem vale a pena dizer nada, só candado. E só uns dias depois é que disse assim: "Olha, já cheguei." Já chegaste, tens que sair do país, porque já estás há bastante tempo cá, devias ter vindo. Pegaram em mim, estive dois dias no barco sem poder sair e tive que meter o cônsul e a embaixada da Indonésia em Jacarta para conseguir sair. Por acaso, a nossa embaixada do Timor conseguiu andar até me tirar de lá do barco e conseguir ter os documentos, mas não foi nada fácil.

Nada fácil. A recordação de viagem mais cara?

Quando começou a haver o Covid, um dos meus marinheiros estava nas Galápagos e disse: "Há um vírus que chegou à Itália, vindo da China, toda a gente fala no coronavírus." E eu: "Está bem." E eu arranquei para as Marquesas. Quando saí das Marquesas, já toda a gente falava no coronavírus. Saio para as Ilhas Tuamotu, onde fiquei dois meses. Quando cheguei lá, só podia ir para Fakarava ou para Tahiti se fosse para sair do país. E eu: "Olha, é melhor passar aqui o verão, vou estar por aqui." Não havia Covid nessas ilhas, estive perfeitamente bem e arranquei das Ilhas Tuamotu, não parei no Tahiti e fui para Bora Bora, Huahine, Raiatea, que também não havia. Comecei a tentar comprar a viagem, comprei na Friends Vie, e estava tudo combinado para só poder vir no dia 7 de julho. Quando chegou a altura, ainda estava fechado, ainda não podia sair e depois tive que comprar a segunda vez a viagem e tive que comprar dois bilhetes para chegar aos Açores. Claro que perdi o primeiro e tive que comprar outro e parar em uma série de países para conseguir chegar aos Açores. Foi a viagem mais cara que eu tive na minha vida.

Muito bem. A refeição mais estranha? Qual foi?

A refeição mais estranha foi quando andava a viajar e na Grécia fui comprar umas latas para comer e era uma espécie de lesmas e aquilo fazia uns sons da boca à lata. E eu comi porque tinha muita fome, mas sinceramente foi a coisa mais estranha que eu comi na minha vida. Que eu conseguisse comer, como dizem, entre o couro e a carne, como dizia a minha mãe, foi a coisa mais estranha que eu consegui comer, porque eu gosto muito de experimentar comidas, mas aquela comi, mas nunca mais.

Não convenceu. Olha, gostava de viajar com?

Eu já viajei com tanta gente, não tenho uma pessoa específica para viajar.

Ou um ideal de pessoa, sei lá, um personagem mítico, alguém que tu à meia-noite penses.

Já na minha idade, com os meus anos todos, fosse um modelo. Não quero dizer que fosse branca nem loira, mas uma coisa diferente.

Muito bem. Norberto, chegamos ao fim. Que música escolheste para fechar a conversa do fim do mundo desta semana?

Acho que tenho aqui uma do Bob que tens que pôr aí.

Bob Marley.

É o meu ídolo. Eu tenho muita música da minha juventude.

Muito bem.

Pink Floyd, The Doors, Dire Straits.

Bom gosto. Norberto, muito obrigado, foi um gosto.

Olha, um prazer e vamos lutar para que o oceano e o planeta sejam melhores.

Muito bem. Mantém-te assim, com esse coração gigante, com essa energia contagiante. Bob Marley a fechar a conversa do fim do mundo desta semana. Estamos de regresso todos os oito dias. Já sabem, sejam bons e boas viagens.