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Sejam bem-vindos. A vida do viajante desta semana está ligada ao ar livre e às cordas. Há muitos anos que sobe montanhas, desce rios e cascatas aqui neste cantinho da península e noutras geografias. Pedro Pacheco, bem-vindo às "Conversas do Fim do Mundo".
Bom dia. Obrigado.
Pedro, o outdoor, o ar livre, é uma paixão, é uma devoção? Explica-nos lá o que é.
É isso, de facto.
É tudo.
É a minha vida. Eu, com três meses, já fiz logo uma viagem de barco desde Lisboa até à ilha do Faial, quase uma semana. E com seis meses já estava a acampar na Suíça numa tenda com os meus pais. De modo que sempre estive ligado ao ar livre e às viagens, sem dúvida.
Muito bem. Foram os teus pais que te iniciaram nesta vida recheada de montanhas, de lagos e de espaços abertos?
Sem dúvida. Eu sou descendente de açorianos, mas especificamente o meu pai teve essa vivência na sua juventude do ar livre, mas foi das primeiras pessoas a trabalhar em Portugal com computadores, ou seja, a ter aqueles stress daqueles computadores de fitas perfuradas, que não tinham ecrã, não tinham nada. Mas foi das primeiras pessoas a necessitar arejar numa altura que ninguém ia para o monte. Só iam para o monte os pastores, os agricultores, quem era obrigado. Não existia parque nacional nenhum em Portugal, nem nada que se pareça. E comecei com o meu pai pra montanha, com os meus irmãos, com muito pouco tempo. Como eu falei, com três meses já estava a fazer uma viagem de barco e com cinco meses a acampar. Por isso, foram os meus pais, sem dúvida.
Muito bem. Depois, quando é que se dá a tua entrada mais a sério no mundo da montanha, digamos assim?
É o seguinte, eu à volta dos 18, 19 anos, passamos as férias nos Pirineus e subi uma montanha a 3000 metros pela primeira vez, uma coisa fácil, mas depois fomos com um objetivo muito acima das nossas possibilidades, que era um monte perdido, e aí nitidamente arriscamos o pelo, sem dúvida, não tínhamos técnica para tal. Por isso, eu nessa altura fiquei com a noção que aquilo não era para nós. Mas o acaso existiu, fez com que passado dois anos ou três dessa peripécia, que eu já não pensava mais nas montanhas, surgiu a hipótese de fazer um estágio aqui na Serra da Estrela, no Natal, eu e o meu irmão. Então, de repente, nessa semana, pouca coisa que foi, ficamos com o know-how técnico de andar na neve com segurança. Então, de repente, as peças do puzzle começaram a se juntar e as paredes que uma pessoa olhava assim ao longe, com neve ou com rocha, começaram a ser objetivos possíveis. De modo que nessa altura, dos 19, 20 anos, comecei a ter essa possibilidade graças a esse know-how que ganhei nessa semana. Depois, no verão, fui fazer um outro estágio na Suíça com uns indivíduos da Federação Galega. Aí ficamos com o know-how mais a sério da alta montanha e fizemos logo uma loucura, subimos logo uma das montanhas mais bonitas do mundo, que é o Matterhorn, também sem cumprir as regras de segurança.
Na Suíça, não é?
Exatamente, que é uma montanha muito perigosa e nós ainda éramos muito novatos.
Tem quase 4500 metros de altitude.
É, 4400 e tal.
Isso foi em que ano?
Isso foi exatamente em 96, 97. 96, exatamente. Faz agora 40 anos. Exatamente, fez agora 40 anos em agosto, que eu subi essa montanha, o Matterhorn, pela primeira vez. Depois tive a felicidade de subir essa montanha duas vezes mais, mas aí com toda a segurança e com muito prazer.
Pedro, faz muita diferença a segurança na alta montanha?
Sem dúvida. A alta montanha é daquelas atividades outdoor mais complexas a nível de planeamento e a nível de preparação técnica, psíquica, física. E é preciso um rol de características difíceis de conciliar em pouco tempo.
Combina muitas técnicas, não é?
Muitas técnicas. É preciso saber orientar bem, é preciso ter muita endurance, é preciso saber andar bem na rocha, no gelo, na neve, é preciso saber andar bem com a tua cordada, com a pessoa com quem tens a corda, que nós chamamos em ensemble, em conjunto. Ou seja, nenhum de nós pode ir mais rápido que o outro, não podemos escorregar, obrigar a fazer um rol de exercícios em simultâneo, totalmente dependentes um do outro.
Uau!
Que só é possível com uma pessoa com a qual tenhas muita confiança, que tenha o teu nível, e isso não é fácil de reunir.
E não pode haver lugar a zangas, presumo.
Claro que não. As pessoas têm que se darem muito bem, características muito idênticas a nível de não estressar, sem dúvida.
Já te aconteceu?
Sim, já.
Uma zanga em alta montanha.
Não. Em alta montanha, todas as coisas que eu fiz em alta montanha foram tudo coisas já complexas, com pessoas que eu já conhecia há muitos anos.
Sim.
Apesar que também já fiz montanhas com dificuldades já média, alta, com clientes, que tinham poucos conhecimentos. Mas mesmo esses clientes que eu fiz, eu nunca aceitei uma atividade de alta montanha com uma pessoa que eu nunca tivesse feito uma atividade outdoor com ela.
Tu estás a falar de clientes, porque tu tens uma empresa, entre outras coisas, também faz animação turística, não é?
Eu fui a primeira empresa em Portugal a fazer expedições ao Monte Branco, ao Quilimanjaros, ao Toubkal, em Marrocos, a uma série aos Pirineus. Ou seja, fui a primeira pessoa a levar clientes a fazer essas montanhas, montanhas com 3000, 4000, 5000. Agora já há muita gente a fazer isso, mas na altura havia pouca gente em Portugal a fazer montanha. Quanto mais depois conseguimos fazer essas montanhas já com a envolvência da altitude, o isolamento. Na altura não havia GPS, não havia previsões meteorológicas, não havia redes de telemóvel. Ou seja, quando íamos para as atividades era muito mais complexo do que agora.
Mapa na mão, não é?
Mapa na mão.
Mapa na mão ou um guia em quem depositavas muita confiança, certo?
Certo. Quando vamos, por exemplo, a Marrocos ou a qualquer lugar mais distante, és obrigado a levar um guia local, mas quando eu guia e vou agora para os Pirineus ou para os Alpes, não é obrigatório, de modo que eu próprio é que vou a guiar-me a mim próprio e às pessoas que vão comigo.
Foste dos primeiros portugueses a tentar o Everest, certo?
Certíssimo.
Correu mal, não foi?
Não.
Quer dizer, correu mal. Correu mal porque não foste lá espetar a bandeira lá no cume.
Exato.
Desse ponto de vista, podemos dizer que correu mal, mas aprendeste coisas, obviamente. Conta lá, foi em 92 e 94, não é?
Certo. O que acontece? Nessa altura, estava no meu topo da parte física, naturalmente. Mas tinha pouca disponibilidade, não poderia ir na altura que se vai normalmente, que é a altura de maio, não poderia ir. Então nessa altura começou-se a falar que a altura do outono, ou seja, a primavera é a altura que se vai mais gente, sem dúvida, e depois no outono começou-se a falar que poderia ser uma boa altura e o outono pra mim era uma altura parada, e eu: "Por que não?" Consegui com muita dificuldade arranjar patrocínios, essencialmente uma vez foi da RTP, outra vez foi da SIC, que pagaram quase 90% das despesas e o resto ainda consegui alguns patrocínios.
Caramba, gloriosos anos 90.
Exatamente, mas essa parte foi interessante.
Hoje não há dinheiro nenhum pra isso.
Se calhar, não. Se calhar é mais difícil.
Não, se calhar é não há mesmo.
É não há mesmo. Ora, o que acontece é que eu não sabia a estatística que há agora, ou seja, eu agora vejo a estatística das pessoas que subiram o Everest no outono e foram nada mais, nada menos do que menos de 2% das pessoas. Ou seja, já subiram o Everest neste momento 13 mil e tal pessoas e no outono, nestes anos todos que se sobe o Everest, ou seja, há mais de 50 anos que se sobe o Everest, subiram 80 pessoas. Ou seja, as hipóteses que eu teria eram muito pequenas. Ainda pra piorar, naquela altura que eu fui, não havia a previsão meteorológica que permitiria concentrar o esforço pra tentar ir ao cume numa altura que o tempo dos poucos dias que teria bom. Ou seja, eu fui um ingénuo, eu dormi várias noites a 8 mil metros, que é uma coisa já muito difícil lá chegar, só com ventos terríveis.
Como é que é dormir a 8 mil metros de altitude, Pedro?
É terrível, sobretudo no outono. No outono, ao contrário da primavera, há muita neve, uma pessoa enterra-se muito, custa muito mais a progressão e os ventos são furacões autênticos.
Ok. E desce mais na neve, porque a neve é mais fresca.
Porque neva. Enquanto que na primavera neva menos, no outono neva mais. E depois, além de nevar mais, o problema que ainda é completamente intransponível, que é o vento. Estamos a falar a partir dos 8 mil metros, o vento está completamente desprotegido, ou seja, não há proteção nenhuma.
Sim.
E o vento rebentou com as nossas tendas. Tendas que estavam testadas pra aguentar com 100 e tal, 200 km/h, rebentaram. De modo que era completamente impossível fazer o cume nessas alturas. E de facto, a estatística tem provado até agora que há muitos anos, passados quatro, cinco, 10 anos e que nem uma única pessoa consegue subir no outono. De modo que agora as pessoas concentram-se todas na primavera. Na altura eu não sabia essa estatística.
Não sabiam essa estatística.
Eu não sabia essa estatística, naturalmente.
Sobem mais agora na primavera, daí depois de vez em quando vermos aquelas imagens de filas.
De muitos absurdos.
Tu consideras isso um absurdo? Estamos a falar de filas de pessoas a tentar atingir o cume do Everest.
Sim, mas isso não é só no Everest. Vamos ao Everest, vamos ao Monte Branco, vamos muitas montanhas pelo mundo todo, esse fenômeno existe. É um bocado a massificação do turismo que nós começamos a ver nas cidades, passou para os sítios turísticos naturais e pras montanhas também. É o que é.
Tem que se acabar com a expressão evasão.
Não, é impossível.
Não era evasivo.
Não, é evasivo. Evasão é tentarmos ir não pra montanha maior, nem ver a cascata maior, nem fazer o cume mais. Tentar ir para os sítios menos conhecidos ou tão bonitos como esse, mas assim um bocadinho mais pequenos ou um bocadinho mais fora da rota, ou tentar ir fora do sítio das alturas mais favoráveis. E pra tentar encontrar esses sítios ainda com a calma, com a evasão que estavas a falar e muito bem, que nós procuramos nas montanhas.
É verdade, é isso que tu procuras ou que tens procurado ao longo da tua vida, Pedro?
Sem dúvida.
Dedicado a subir montanhas e ir a locais inóspitos.
Sem dúvida, eu procuro cada vez mais encontrar sítios bonitos, não demasiado complicados a nível de desníveis, dificuldade técnica, perigosidade. Nós neste momento começamos a ter algumas opções que existiriam há 30, 40 anos, quando eu comecei, de glaciares, sobretudo, que estão neste momento completamente impossíveis de fazer, perigosíssimos de fazer.
Por causa dos degelos.
Por causa dos degelos, ou seja, alguns sítios por onde eu passei há 30 anos, agora já não existem. O glaciar recuou, nalguns casos, 1 km, de modo que já não existe. E o que deixou é uma rocha toda podre que torna-se bastante complicado progredir. Excetuando essa questão das altitudes Depois temos outras questões de média montanha, que nós temos aqui em Portugal e aqui num raio de 500, 1000 km temos alguns maciços aqui em Espanha engraçados, com montanhas 2000, 3000 m, onde ainda se consegue estar com pouca ou nenhuma pessoas, o que é atrativo.
Boa. Diz-me quais, Pedro.
Eu não gosto muito de falar nos nomes.
Queres guardar tudo pra ti, é isso?
Não é tudo pra mim.
Sim, lógico. Serra da Estrela, Gerês, Picos da Europa.
Picos da Europa já está um pouco com muita gente, massificado. Temos outras montanhas na zona Cantábrica, temos outras montanhas menos conhecidas que ainda têm muita quietude. E depois temos aquelas atividades que eu faço das cascatas, que é uma das atividades que eu faço mais, que é descer rios com cascatas, que muitas vezes obriga a utilizar cordas. Isso é uma atividade que ainda tem muito por descobrir. As cascatas maiores, algumas delas fui eu o primeiro a fazê-las aqui em Portugal.
Já vamos falar delas, Pedro. Vamos ficar ainda pela montanha aqui na primeira parte. Portanto, tu começaste novo. Serra da Estrela, formação na Suíça, subiste ao Matterhorn, experimentaste o Everest ou tentaste subir ao Everest em 92, 94. Chegaste a fazer picos na América do Sul ou nem por isso?
Sim, fui o primeiro português a subir ao Aconcágua, ainda por cima por uma via, sem ser a via normal, que penso que até agora nenhum português repetiu, que é a via do laço dos polacos, de modo que foi uma expedição giríssima. Depois também no Quênia, fui o primeiro português a subir à meia montanha do Quênia, que já é uma montanha com umas centenas de metros de escalada de rocha. Também fui o primeiro português a subir ao Toubkal, pela via normal e por algumas vias técnicas. De modo que fui o primeiro português a subir uma montanha bastante complicada nos Alpes, que é o Zinalrothorn, que é uma montanha muito complicada, a face oeste do Zinalrothorn, foi feita pela primeira vez pelo senhor Bonatti, um dos melhores alpinistas de todos os tempos. De modo que fiz bastantes coisas engraçadas e a nível de Portugal, também consegui, dado que em Portugal havia pouca gente a escalar, subir bastantes penedos que nunca ninguém tinha subido. E foi também uma atividade muito aliciante.
Já vamos falar disso tudo na segunda parte das Conversas do Fim do Mundo. Para já, abrimos o álbum de viagem. Pedro, guardas contigo algum objeto que tenhas trazido das tuas viagens ou das tuas expedições e que seja um objeto especial?
Talvez. Da outra vez que falámos, eu falei de uma pedra de um pedregulho enorme que eu trouxe para oferecer à minha mulher, que é geóloga. E eu agora posso falar de outra coisa, que foi num desses encontros de escalada que houve aqui em Portugal, que foi em 86. Na altura, conheci pela primeira vez um dos melhores alpinistas espanhóis, que se chamava Santi Soalonso, e ele falou-me numa rocha que ele tinha aberto em Portugal, ali no Anamão, perto de Castro Laboreiro, que ele tinha aberto já há 20 e tal anos, nos anos 70, que nunca ninguém tinha repetido, se eu não ia lá repetir aquilo. E eu, perante esse desafio, fui lá repetir aquilo, foi bastante difícil, que havia alguns portugueses já tinham tentado sem sucesso, e eu consegui subir e por acaso ele tinha deixado lá uma cunha de madeira entalada pra progressão de segurança, que ele próprio tinha feito de uma madeira de buxo, que ele tinha dito que ele fazia as próprias ancoragens em madeira, que depois colocavam lá presas. Nós agora utilizamos um tipo de seguranças, umas coisas que nós chamamos entaladores, mas na altura não existiam. De modo que eu trouxe uma dessas cunhas de madeira para lhe oferecer, só que infelizmente, ele no Nepal faleceu. De modo que essa cunha de madeira é uma coisa que eu tenho guardada com muito simbolismo, porque foi ele que me fez fazer essa parede de escalada e foi uma coisa muito simbólica.
Muito simbólica. Em Espanha há uma grande comunidade de escaladores e montanhistas, não é?
Sem dúvida, eles têm a pirâmide muito maior. Ou seja, nós em Portugal começamos a ter algumas pessoas a fazer caminhadas, mas a fazer coisas mais técnicas, pouquíssima gente. Pouquíssima gente a fazer montanhas de alpinismo, pouquíssima gente mesmo. Poucas. Em Espanha, não, eles também têm mais montanhas do que nós.
Têm mais oferta.
Têm mais oferta.
E tem a grande escola. À escola, mas há massa crítica, há editoras, há livros, há revistas, há encontros, há palestras, enfim, há uma cultura em torno.
Claro. Para te fazeres uma ideia, eu a primeira vez que descobri uns nozinhos de uma montanha, foi o meu pai que trouxe de França um livro francês com os nozinhos, porque nós aqui em Portugal ninguém não havia posse de comprar nenhum livro em português, nada que se pareça. Isso foi nos anos 70.
E até nisso somos a cauda da Europa.
Agora já está melhor, mas na altura, há 40 anos, não havia nada em português.
Muito bem, estamos à conversa com Pedro Pacheco. Vamos fazer aqui uma pausa nas Conversas do Fim do Mundo. Regressamos já a seguir. Até já. Estamos de regresso pra segunda parte das Conversas do Fim do Mundo, esta semana com Pedro Pacheco. O Pedro tem um longo historial como montanhista e também como escalador de montanhas. Ultimamente tem-se dedicado ao hidrospeed, ao canyoning e outras atividades outdoor. Pedro, já vamos falar disso tudo. Explica-me uma coisa: a paixão pela montanha é pela montanha em si Ou é pela adrenalina que a montanha injeta no nosso corpo cada vez que subimos uma montanha ou a descemos em rapel ou utilizando outras técnicas?
É pela montanha em si, sem dúvida, muito mais do que tudo mais.
É pela paisagem? Gostas dos horizontes altos, das formações rochosas, é isso?
São vários sentimentos. Um é a beleza intrínseca da natureza, o silêncio da natureza, a alteração que a natureza proporciona ao longo do mesmo ano, as estações, o frio, o vento, a neve, o calor, os animais, a fauna, a flora. E é também um bocadinho o desafio, não o desafio da adrenalina pura e dura, mas o desafio de planear. E eu, como já referi, sou descendente de açorianos, de modo que gosto muito dos líquidos, do mar. Gosto muito do mar, gosto muito de nadar, gosto muito de mergulhar. E também gosto muito das montanhas. Então, essas atividades que referiste, dos canyons, do hydrospeed, acaba por estar interligado. E mesmo o gelo é água, a neve é água, tudo interligado. E depois a liberdade de tu poderes escolher o trajecto. Quando estás na montanha, há uma liberdade que estão te a castrar um bocadinho. Devido à massificação que existe nalguns sítios, tu já não podes ir quando queres, está o número limitado, tens que pagar taxas, tens que ir com guias, não podes sair do trilho. O que eu não acho mal, porque de facto nalguns sítios tem que ser assim.
Tem que se proteger o meio ambiente.
Tem que se proteger a natureza, que é um ecossistema, que é outra das questões que me faz cada vez mais gostar, é que está a acabar. A natureza, nitidamente, já teve melhores dias. Está a ficar, o que já referi, os glaciares, mas a massificação turística, há muitas agressões à natureza. Então cada vez é mais difícil nós encontrarmos um sítio onde se consiga andar sem amarras. Ou seja, o caminho, vou pra direita, vou pela esquerda, subo esta montanha pela neve, pelo gelo, pela rocha, ou desço as cascatas com barco, sem barco, com barco mais pequeno, maior. É isso que me atrai, uma perspectiva de descobrir sítios, não necessariamente, como eu disse, os mais altos, mais conhecidos, mas sítios que ainda tu consegues estar lá com a essência da natureza.
E nesse sentido, já disseste aqui que foste o primeiro português a subir algumas montanhas no mundo, mas foste o primeiro ser humano a subir alguns picos aqui em Portugal, certo?
Certíssimo.
Deixa-me lá ver se percebo a minha própria letra da nossa conversa anterior. Laje da Figueira, é isso? No Gerês.
É Laje da Figueira, no Gerês.
Onde é que é isto? E o que é que se vê aí?
Isso fica no Gerês, perto de Aleça, Fião, é um sítio que está muito conhecido agora. Isso é uma agulha de rocha que está completamente isolada de todos os sítios acessíveis.
E como é que descobriste este sítio, Pedro?
Descobri pelas caminhadas, como te disse. Eu até aos meus 18 anos fiz muitas caminhadas, não fazia nada técnico, porque não tinha know-how pra isso. Mas fazia muitas caminhadas no Gerês e nos Pirineus e por vários sítios, e via as paredes inacessíveis, olhava pra elas, uma coisa assim muito "não é pra mim". E depois quando eu tenho esse know-how, volto a esses sítios e alguns deles nunca ninguém tinha subido. É muito interessante. Estás a falar da Laje da Figueira.
Esta Laje da Figueira no Gerês.
Sim, agora um outro caso aqui que eu estou em Ás Fafe, capaz que já falei nisso, que é no Lindoso. Está lá um outro penedo que se chama Torre Grande, que eu fiz pela primeira vez com a minha irmã nos anos 90. Curiosamente, neste sábado passado, houve uns indivíduos que eu reconheço que subiram aquilo. Então eles fizeram um link no Facebook a dizer maravilhas e meteram uma foto minha de eu a fazer aquilo a primeira vez, de modo que foi muito gratificante ver que passado quase 30 anos, ainda é um grande objetivo subir esse pináculo. Depois tem que descê-lo em rapel. Estava lá ainda uma garrafa de Sumol que eu tinha deixado lá em cima, curiosamente, com um papel lá dentro para o pessoal escolher.
Ok, de propósito.
De propósito.
O que é que dizia o papel?
Eu já não me lembro o que é que dizia o papel, porque entretanto a garrafa eles encontraram-na partida e o papel estava já desfeito. Mas eu já não me lembro. Era alguma coisa do gênero: "Bem-vindo, ponha aqui o seu nome, parabéns". Era uma coisa desse género.
Fantástico.
Isto aqui no Lindoso, estamos a falar a duas horas do Porto. Foram dois grandes objetivos que eu fiz em Portugal. Depois fiz mais alguns pequenininhos, na escalada em rocha.
Ok. Ainda há muitos sítios por descobrir em Portugal ou não, Pedro?
Não há muitos sítios. Agora, o que ainda há por descobrir, algumas pequenas coisas, são as tais cascatas, os tais canyons. E esses tais canyons, ainda haverá os canyons mais conhecidos, alguns deles fui o primeiro a fazê-los. A Mizarela, Figas do Idmelo e alguns no Gerês e depois também nos Açores e na Madeira. As cascatas mais conhecidas, digamos, já terão sido feitas. Mas ainda há alguns riozinhos escondidos que ainda não são feitos. Por exemplo, eu no ano passado completei uma travessia de um canyon na Serra da Estrela que nunca ninguém tinha feito, em que se vai mais de 200 metros debaixo das pedras.
Uau, onde é que é isso?
Isto é na Serra da Estrela, um sítio muito giro.
Não queres concretizar?
Não quero concretizar.
Ok. Eu acho que tenho uma suspeita, mas depois mando-te uma mensagem.
Este ano, curiosamente, foi um ano em que eu fiz já três canyons que nunca ninguém tinha feito. Só este ano.
Em Portugal?
Em Portugal. Não, um deles em Espanha, mas acabaram no Rio Douro. É o privilégio fabuloso de andares em lagoas que tu sabes que nenhum ser humano esteve a nadar. É muito interessante essa sensação de descoberta, que ainda é possível nos dias de hoje. Custa a acreditar, mas é verdade.
O gozo é esse? É ter a sensação de ser o primeiro?
Também. O gozo é termos o know-how para conseguirmos aceder.
Essa é uma vaidade boa, não é?
É uma vaidade boa.
Eu fui o primeiro. Se bem que é um bocadinho arrogante também, não é? Porque nós não conhecemos a história. O Viriato pode lá ter andado, por exemplo.
Não pode.
Não?
Sabes por quê? Alguns casos, talvez. Esse caso dá para perceber que ninguém lá esteve, porque nós temos que colocar as ancoragens. São sítios que é preciso aceder por cordas e onde necessariamente é preciso pôr ancoragens. Quer dizer, algumas ancoragens podem ser tipo cordas, nós pomos em pedras ou coisa do gênero. Essa ancoragem pode desaparecer. Agora, quando é uma rocha lisinha, nós temos que furar a rocha para fazer a ancoragem, de modo que dá para perceber se alguém esteve ou não. Mas o objetivo não é essa questão de dizer: "Fui o primeiro". O objetivo é mesmo a descoberta, nós sabermos irmos a um sítio no qual não temos referências e irmos com a mente aberta. É mais nesse sentido.
E nesse sentido, Pedro, qual foi a maior descoberta? Aquela que tu podes dizer assim, olhando para trás: "De todos, aquele foi o sítio top, o melhor."
Essa é fácil.
Vamos lá.
É um sítio que eu posso dizer o nome, chama-se Poço da Moura, no Rio Cabril, que é no Gerês também. É um cânion que já foi feito por pescadores, ou seja, ele tem acessos não muito complicados pelas margens, só que tem um sítio que se chama Poço da Moura, que é uma formação geológica, uma marmita gigante, ou seja, a água a fazer turbilhão vai fazer um buraco. Só que esse buraco tem, no seu tamanho mínimo, 30 metros, em que a água entra por lá dentro e uma pessoa não percebe por onde a água sai. Então tens que descer. Eu fiz pela primeira vez há 30 e tal anos, aí, sim, foi mesmo assustador. Eu a descer por lá abaixo sem ter a certeza absoluta que ia sair. Ou seja, as hipóteses de sair eram mais pequenas que as hipóteses de não sair. A água podia passar, mas eu poderia não ter espaço suficiente. E essa foi, sem dúvida, a minha melhor experiência de uma primeira descida.
Tantas atividades, algumas envolvendo perigo, obviamente. Viste assim apertado nalgum momento de aflição, Pedro Pacheco?
Sim, claro, sobretudo a abrir as vias de escalada de baixo para cima, ou seja, sem reconhecer primeiro. As vias de escalada que as pessoas conhecem, ou são no plástico, no pavilhão, ou então são na rocha, e as pessoas veem aquelas argolas de ferro, que são previamente colocadas. A maior parte das escaladas que eu faço, ou fazia, eram escaladas nas quais eu não fazia essa preparação. Ou seja, o material de proteção era eu próprio que levava, os tais entaladores, pitões ou até algumas cunhas de madeira, e à medida que ia subindo, ia colocando. Ou seja, podia acontecer, e aconteceu nalguns casos, eu ter que progredir muitos metros, às vezes 10 e 15 metros e mais, sem conseguir colocar material nenhum de proteção. Quer dizer, que se eu nesse momento escorregava, estava feito.
Ai, caramba!
Exato.
Muito bem. Qual foi a montanha mais bonita que já subiste até hoje, Pedro?
É difícil, mas sim, talvez o Matterhorn. Acho que sim, que tive a felicidade de subir três vezes e ainda por cima, de modo que é talvez a montanha mais bonita que eu subi na Suíça.
Boa. Com intervalo de quanto tempo entre cada subida?
À volta de uns 10 anos. A primeira vez foi, como eu disse, em 90 e tal, depois a segunda vez foi em 2000 e a terceira vez foi em 2010.
Boa. E foste encontrar o mesmo pico em 2010 que tinhas encontrado em 96?
Não.
90 e pico? Não.
Não, porque aquilo cada vez está com menos neve, rocha mais solta, mais perigo. Aliás, da última vez que eu subi em 2010, eu disse a mim mesmo: "Esquece, não vais repetir isto mais vezes".
Por que te estoute?
Porque notei que estava mais perigoso, ou seja, estava com muito mais rocha solta que o normal. Por acaso, nós subimos com pouca gente, ou seja, não ouvimos muita pedra solta a cair provocado por quem ia à frente, mas deu para ver que estava mais perigoso. Também isso no Monte Branco, então aí ainda é mais alarmante, o Monte Branco já subi sete vezes e a última vez foi em 2017 e também disse que não iria subir mais, porque está, de facto, muito mais perigoso do que quando eu subi a primeira vez, também há 30 e tal anos.
Ok, isso é por falta de neve, é isso?
É o aquecimento. São duas coisas, é o aquecimento e muita gente. As duas coisas juntas tornam uma combinação mais perigosa ainda, porque as pessoas ao porem os pés nas rochas, não é por mal, mas soltam pedras. E essas pedras, alguns sítios soltam sozinhas por causa do gelo permanente, o permafrost, que segurava essas rochas mesmo no verão. Ou seja, as rochas mesmo no verão nunca estavam sem gelo. Agora estão sem gelo, ou seja, caem mesmo sem ninguém lhes tocar.
Fecho.
E além disso, há também os glaciares suspensos que estão a cair por aquecimento. Uma pessoa vai passar cá por baixo e apanha com o glaciar em cima. Não é uma avalanche. Avalanche é no inverno, quando há grandes nevões. Agora, o que acontece no verão é que há uns glaciares suspensos Uma espécie de uns pudins molotov, nós chamamos serraques, que nós estávamos habituados a passar no meio deles, mesmo no verão, mas que agora estão muito perigosos. E de vez em quando cai um e morre gente. Se for no verão, morre gente.
Bolas, ninguém deseja isso.
É, não está fácil.
Não está fácil. Estamos a chegar ao final da nossa conversa, Pedro, vamos fazer check-out?
Vamos a isso.
Vamos embora. Vou pedir-te para completares as habituais frases: na minha mala vai sempre...
Além das coisas normais que as pessoas têm, power banks, as coisas todas, eu tenho sempre um GPS com localizador satélite, para caso me perca ou um acidente poder localizar as pessoas. Basicamente é isso que eu tenho sempre, que nunca falha. Óculos suplentes, que eu uso óculos, os primeiros óculos mínimos. Nada de especial relativamente às outras pessoas que andam nas viagens.
A viagem com mais peripécias que realizei até hoje...
Não sei se foi com mais peripécias, mas foi uma peripécia bastante interessante, que foi este ano, quando eu estive na Islândia. Tínhamos um jipe, saímos da estrada principal e fomos para um vale completamente isolado e passámos um rio com uma ponte, com um teleférico, uma coisa giríssima. Só que estávamos a chegar ao rio e o nosso jipe atascou de uma maneira absurda, ficou mesmo no chassi. E o problema é que estávamos a 30 km da estrada principal, não havia rede de telemóvel, a única quinta onde não sabíamos se havia gente estava a oito quilómetros atrás, ou seja, tivemos que equipar-nos com tenda, com comida para dois dias. Por sorte, na primeira quinta estava um senhor muito simpático, que veio com o jipe, andou com o jipe oito quilómetros para tirar o nosso jipe. Não conseguiu tirar o nosso jipe. E esse senhor islandês voltou atrás e trouxe um Caterpillar. E só com o Caterpillar é que conseguiu tirar o nosso jipe. Se esse senhor islandês não nos tivesse encontrado logo ao fim de oito quilómetros, estávamos com a viagem à Islândia completamente comprometida, que podia ser dias, ou uma semana, ou mais para tirar o jipe do atascamento.
Caramba.
Mas correu tudo bem, conseguimos resolver esse problema, perdemos só ao fim e ao cabo um dia e no outro dia foi fantástico. Atravessamos o rio numa ponte suspensa com uns cabos de aço. Andamos lá num vale fantástico, dormimos num refúgio onde já ninguém ia lá há meses, foi fantástico.
Boa. O carimbo de passaporte ou visto mais difícil de obter até hoje, qual foi?
Nada assim muito complicado, mas eu lembro-me que em 90 e tal, a primeira vez que fui ao Quénia, não havia consulado aqui em Portugal, de modo que foi preciso ir ao consulado inglês, mostrar que tínhamos uma conta no banco. Eu lembro-me que não foi fácil, em 90 e tal, ir ao Quénia.
Ok. A recordação de viagem mais cara?
Mais cara, sem dúvida, que foi no Nepal, nas viagens ao Nepal. Na altura eu paguei tudo, alguém tratou disso, já não me lembro de andar com muito dinheiro. Agora, a recordação que eu tenho de ter medo foi nas vezes que eu fui ao Quénia, principalmente, sobretudo a última vez, que fui com muitos clientes, com 12 clientes. Isso já foi 2000 e pouco, mas ainda não havia os travel checks a funcionar bem, nada que se pareça. Então, levava milhares de dólares aqui na barriga, numa sacola, cheio de medo, de mandar sempre parar para saber se faltava qualquer coisa, e cheio de medo, se aquilo desaparecia com 12 clientes, ia ser complicado.
Caramba. Lembras-te quanto é que levavas na barriga?
Levava muitos milhares de dólares. Já não sei quantos, mas eram muitos milhares de dólares. Para pagar a logística toda de safáris, depois acho que ainda fomos para fazer até Zanzibar, uma coisa do gênero. Foi assim, mais a expedição, os permits, tudo para 10 pessoas, 12 pessoas. Chegamos a ter 50 carregadores, não dava para perceber o dinheiro que eu tive de pagar.
Ok. A refeição mais estranha, qual foi?
Refeição mais estranha, eu tenho aqui duas zonas. Uma zona que foi quando eu estive na tropa em Lamego, nos Rangers.
Tu és Ranger.
Exato. Aí tinha mesmo que comer tudo. Comi cobra, comi gafanhotos. Mas se calhar o que me fez mais confusão foi uma vez mesmo em Zanzibar, quando não havia um único resort. Isto já foi há quase 30 anos, quando não havia um único resort. Até que comia-se mais ou menos bem, dos pescadores, lagosta e tal, mas depois lá um senhor convidou-nos para irmos comer a casa dele e aí foi uma coisa horrorosa. Eu nem sei o que é que estava a comer, mas foi uma coisa absolutamente horrorosa. Não sei se era tipo mamboamba, mas com pelos de galinha.
Que nojo! Penas.
Pior que a cobra e que os gafanhotos dos Rangers.
É melhor ficar na ignorância. Gostava de viajar com...
Eu gostava de viajar com a pessoa com quem eu viajo agora, a minha mulher, os meus amigos, os meus clientes, são fantásticos. Mas se eu pudesse voltar atrás no tempo, em 1903, adorava ter viajado com o senhor John Muir, que foi um dos primeiros preservacionistas americanos, que fez um acampamento durante três dias com o então presidente Roosevelt, no Yosemite. Foi uma experiência fabulosa. O presidente veio com uma comitiva no comboio e deixou o comboio, e eles estavam previstos fazer com o presidente banquete, o presidente deixou-os completamente e foi só com o senhor John Muir, mais dois rangers, andou três dias a cavalo na neve, acampado debaixo das sequóias, a falarem sobre a preservação da natureza, e foi daí que saiu uma das primeiras leis para preservação dos espaços naturais nos Estados Unidos, porque o senhor John Muir era um senhor que conhecia muito de geologia, mas o presidente Roosevelt também tinha sido caçador, sabia muito da fauna e da flora, e também naquela altura estava a aparecer a industrialização, as minas, as barragens, essas questões todas brutais. E esses três dias, eu adorava estar lá com esses dois senhores, nesses três dias.
Para perceber e para poder assistir ao vivo à regulamentação.
Exatamente. Apanharam um nevão, e o presidente disse que aquilo foi revigorante, e ele dormiu no meio das sequóias, que diziam que eram mais imponentes que as maiores igrejas da Idade Média, de modo que devem ter sido uns três dias fabulosos de conversas à fogueira, gostava de ter estado lá.
Muito bem. Pedro, chegamos ao fim. Qual foi a música que escolheste para fechar a nossa conversa?
Foi o "Nasce Selvagem" do Resistência.
Muito bem. É uma música de 1990, não é?
Inícios de 1990, penso eu.
Muito bem. Época de glória para muita actividade de aventura em Portugal, não foi? Os anos 90 foram muito bons.
Para mim foram muito bons. E ainda são bons agora, ou seja, eu não gosto de saudosismo. Para mim a melhor aventura é sempre a próxima. E a próxima, se estiver bom tempo, vou para Sanábria, também com pouca gente e vai ser fantástico.
Boa, Puebla de Sanábria.
Posso ir de Sanábria para o Gaspa, se não estiver mau tempo, como hoje. Esperemos que não.
Puebla de Sanábria que é já em Espanha, a 30 km de Montesinho. 30, não é? 30, 40.
Sim, mas tem uma montanha muito desolada, vais horas para lá chegar, sem grandes estradas. É muito giro, é natureza ainda em estado muito bem preservado. Muito interessante. É a minha próxima aventura, se estiver bom tempo.
Pedro, muito obrigado, foi um gosto.
Igualmente.
Obrigado. Resistência a fechar a conversa do Fim do Mundo desta semana. Estamos de regresso dentro de oito dias, já sabem, sejam bons e boas viagens.
Mais do que a um país, que a uma família ou geração. Mais do que a um passado, que a uma história ou tradição. Tu pertences a ti. Não és de ninguém. Mais do que a um patrão, que a uma rotina ou profissão. Mais do que a um partido, que a uma equipa ou religião. Tu pertences a ti. Não és de ninguém. Vive selvagem. E para ti serás alguém nesta viagem. Quando alguém nasce, nasce selvagem. Não é de ninguém. Quando alguém nasce, nasce selvagem. Não é de ninguém. De ninguém.