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Tudo indica que o monstro está cheio de fome. É este, pelo menos, o título da última exposição de Pedro Baptista, surfista, skater, pintor inspirado, que nos fala desta exposição que pode ver até dia 18 no espaço Uliseia, uma nova e estranha galeria com espaços circulares em Marvila, em pleno Art District da capital, junto à frente ribeirinha do Tejo. O curioso título da exposição foi dado pelo seu filho mais novo. Foi a contribuição do Vasco. Vamos conhecer um pouco melhor este homem com muita pinta, que muito pinta. Há uma década foi convidado pela autarquia da capital para participar num mural dedicado ao Almada Negreiros, onde explorou os seus autorretratos. Olá, Pedro, e bem-hajas por ter aceitado este meu convite. Bem-vindo ao Observador.
Obrigado.
É um prazer estar aqui a falar contigo. Desde ontem que estive a ver a tua exposição ao vivo e a cores. Tu moras na Parede, em Lisboa, ou em Carcavelos, ou nas Avenidas? Onde moras?
Até aos 10 anos, no Dafundo. Depois do Dafundo passei a residência mais em Carcavelos, onde descobri toda aquela coisa do surf, da música, isso tudo. Depois passámos, em família ainda, para a Parede, e depois vivi em vários sítios.
Ok. Muito bem. Tu vivias mais tempo na rua do que em casa. Tu passaste a vida em mudanças.
Sim, bastante. Mas eu acho que toda a minha geração passou bastante tempo, acho que é transversal.
Verdade.
Houve ali um período que estávamos sempre na rua.
Na rua. Jantar a casa ou almoçar quando a mãe chamava.
Exactamente.
E os gurus, que é muito importante.
Imagina, no Dafundo, andar de skate com oito anos, sozinho. Imagina agora, o meu filho mais velho tem sete anos.
O lobo.
Já não imagino ele estar na rua, mas mais controlado.
De skate tinhas oito anos. É engraçado que com 13, 14, tu viveste esta experiência de ver os teus amigos pintarem grafiti na rua, esta street art vibrante na altura. Tu disseste uma vez que a cultura do skate tem muito a ver com a arte. Por quê? É por causa disso mesmo?
Sim, abriu-me uma porta dentro desta cultura visual. Como vivi em Carcavelos, houve ali um acontecimento. Havia ali um sítio que ficou, dentro da cultura do grafiti, para a história, que era Carcavelos, o muro da minha escola. E então por lá passaram alguns artistas como os gêmeos brasileiros.
E esta coisa grande. Fósforos Verdeal, por exemplo.
Exatamente. E muitos outros portugueses que começaram lá esta-
Esta carreira, digamos assim?
Sim, estava até a pensar nesta trend. E isso influenciou. E a cultura de música, esta cultura de rua, estarmos sempre na rua e haver sempre esta coisa de expressão.
Através das artes, que é muito curioso. O teu irmão mais velho também era guitarrista e tu próprio tocaste, eras guitarrista também. Era punk? Uma banda punk?
Tinha ali umas bandas punk, umas bandas garagem. Tínhamos o quê? 17. Foi entre os meus 17 até aos 24. Não, 22, talvez. Mas sim, tínhamos ali umas bandas garagem e tocávamos.
Ainda tocas de vez em quando ou não?
Tenho a guitarra no canto do quarto. A apanhar pó. De vez em quando ainda toco. Agora os meus filhos, como estão na música, nós arranjámos um piano. E então, de vez em quando, agora a minha luta é o piano.
Mas chegaste a aprender ou não?
Não.
É só mesmo de ouvido.
Sim.
Tu tens ouvido de músico e de repente tocas uma música na guitarra.
Quando toco guitarra é-me natural tocar noutro instrumento e a procurar harmonias, mas é só harmonias.
É engraçado que uma vez falaste: "Então e os teus concertos?" Bom, sou capaz de ter dado dois concertos, o primeiro e o último. Na minha escola.
Não, foi um na escola de São João, no último dia de aulas, então a escola juntou-se toda e haviam várias bandas e uma delas era a minha.
Como é que se chamava a banda?
Nem sei se tinha nome. Foi inventado cinco minutos antes e depois esquecido 10 minutos depois.
Skate é algo que tu de vez em quando ainda fazes e gostas muito. É engraçado.
Sim, de vez em quando.
Foste fazendo sempre. E às vezes ias, sei lá, para Monsanto ou para o Parque das Nações. Não era?
Sim, de vez em quando. Agora com os meus filhos regressei um bocadinho a entrar outra vez no skate park e a skatar ali um bocado. Mas foi até aos 17 anos a minha carreira de skatista. Depois foi-se diluindo ao longo do tempo, quando eu descobri o surf ali em Carcavelos, aos 16, 17.
Foi quando começaste no surf?
Foi quando comecei, já comecei tarde.
E tornou-se um vício. Tu dizes que ainda és mais vezes viciado em surf do que no desenho.
Sim.
Ao passo que o skate, por exemplo, ainda te deu uns pés torcidos e uma operação ao pescoço.
Uma cervical, sim. Uma operação à cervical, um disco.
O surf, não. O surf só uns cortezinhos na cabeça.
Foi uma mistura. Usei o corpo com alguma vontade. Mas esta ligação
É um eufemismo
A estas coisas, ao surf, etc, dou cada vez mais importância a este paralelismo de teres o corpo saudável e ainda apto, porque eu já estou a ver o corpo a degradar-se.
Deve ser novo para isso.
Sim, mas existe aquele hype. Dos 17 aos 25 somos imortais. Dos 25 aos 30 a imortalidade vai passando e depois a partir dos 30 vais sentindo que o corpo já não é aquela coisa toda. Cada vez estou mais ligado em poder ter este privilégio de continuar a fazer uma atividade que me liga e que me deixa apaixonado.
Engraçado, tu dizes mesmo: "Não acredito nesta ilusão de a arte me definir enquanto pessoa". Precisas desse complemento. Tu dizes: "Quanto mais velho, mais aficionado". Se pudesses ia todos os dias para o mar, ias ser um profissional das ondas.
Não, pelo menos meio dia ia, de certeza.
Parece um colega meu da TVI, o Vasco Mota, que era kitesurf. Tinha um intervalo de duas horas, ia fazer kitesurf. Como é que é possível? Tens uma mão aberta ali, kitesurf. Que dá um trabalho, não é levar à França, é fazer tudo, armar tudo, montar tudo.
Muito mais logística. E mesmo como o windsurf também é mais logística. O windsurf ainda é mais logística.
O mar para ti também é uma terapia? Tu és pintor, também és artista.
Sim, é.
Também é o mar, é a água.
Cada vez mais tenho essa consciência. Antes pensava que era só o hype de me divertir, de ter algo de adrenalina e sentir que estou a evoluir numa determinada atividade. Agora cada vez tenho mais consciência que era um espaço onde existia um intrégnio de tempo e de consciência de nós próprios. Um espaço que depois ficou cada vez mais importante. Agora quanto mais velho eu estou, acho que tenho mais consciência desse giving back que esta atividade consegue dar e conserva nela estes superpoderes.
É engraçado que também li numa biografia tua que diz que um dia decidiste que ias ser excecional a desenhar e a pintar. Onde é que isso foi por aqui? Estavas inspirado ou saiu de sem querer e hoje estás arrependido? É que tu és muito tímido, é engraçado isso. Sempre foste muito tímido, mas dizes que quando era novo, era menos.
Sim.
Era mais criativo, até.
Este bicho social que alguns amigos conhecem e presenciam.
O palhacinho da escola?
Sim, é um bocado isso.
Como é que é possível?
Mas esse palhacinho era só truques.
Também são importantes.
Truques de sobrevivência. Eu acho que agora estou bastante mais consciente do que é este Pedro aos 17. Deve ser uma crise de meia-idade que me fez fazer uma retrospetiva e agora estou neste percurso de aprendizagem outra vez.
Tu já gostavas muito de desenho em miúdo ou tinhas bons professores de desenho?
Não, tive alguns desenhos na faculdade, alguns professores que gostei, Cristina Ataíde, Catarina Castelo Branco, foram professoras que eram boas professoras de desenho e tive essa necessidade de encontrar. Influenciaram e gostei das aulas delas. O desenho as minhas incapacidades ajudaram-me a focar no que eu realmente sentia mais à vontade ou conseguia ser apto socialmente e que criasse alguma integração social. E o desenho, esta coisa toda do desenho e da pintura, foi um caminho que eu descobri.
Tu tinhas esse sonho das Belas Artes, acabaste por ir para Design de Comunicação. Ainda desiste um ano, mas tiveste desenho, por exemplo, durante o curso. Portanto, isso foi fregalho.
Durante o curso de design tive quatro anos de desenho. Era um curso, imagina-te, cinco anos, era uma loucura.
Sim, pois era. Pré-Bolonha.
Era uma parvoíce.
E agarraste nessa altura, desenhaste e pintaste muito.
Sim, ia acompanhando. Tinha alguns amigos na faculdade das Belas Artes que tinham entrado e eu não.
Durante a tua?
Sim.
Depois concorreste?
Com a tapa na minha. Mas ia fazendo o curso. Fui fazendo o caminho por mim, assistindo algumas aulas também, que me interessavam, por esta facilidade de ir à faculdade, aulas de estética que eu gostava de assistir. Tinha ali uma ligação. E depois quando acabei este curso de design, senti que o meu padrão não era entrar numa agência, trabalhar como designer, etc. Acho que havia ali ainda uma coisa muito visceral em mim em estar em lonely ranger.
Como é que eram os teus pais, Pedro? Ajudavam? Isto é, eu tenho filhos, tu também tens, dois filhos rapazes, eu também tenho dois filhos rapazes, um pouquinho mais velhos, mas qualquer pai, o filho diga: "Pai, quer ser pintor ou quer ser não sei o quê", acham que não vai viver disso com certeza. Como é que foi para os teus pais? Foi muito fácil? Eles viam os teus desenhos e gostavam e apoiaram ou torceram o nariz?
Os meus pais apoiaram não desapoiando.
Ok. Não dificultando, não pondo obstáculos.
Sim.
Mas perceberam que era para aí que tu querias.
Não me fizeram sentir que era um caminho que podia ser especial ou nós somos uma família, como se tivesse herdado alguma. Não, não havia herança nenhuma, nada desse lado mais artístico.
Ias ter que lutar pela vida.
Sim, mas o que acalmou os meus pais e a geração também dos meus pais, class média, working class. Tendo aquele sonho, porque eles não tiveram as oportunidades que nós filhos tivemos. Então o fato do meu irmão tirar o curso de medicina e ser o doutor e com uma diferença, ele é mais velho que eu sete anos. Então o fato dele ser mais velho, aquela parte estava preenchida nele.
Exato. Se os dois fossem um ator e o outro pintor.
E estava vingada de alguma forma, porque os meus pais não tiveram essa oportunidade. Meu pai foi pra guerra quando tinha 18, 19 anos e esteve lá dois anos e sobreviveu.
Não tiveram oportunidades. E o teu irmão cumpriu a cota, digamos assim. Sossegou as hostes.
E eu arranquei.
Aproveitaste a onda.
E eu aproveitei a onda e fui conquistando o meu espaço. Fui conquistando o meu espaço, fazendo minha primeira exposição, mostrando: "Ok, eu não quero viver da arte, eu estou a tentar só um caminho". Nunca tive essa ambição de ser artista, mas dava-me imensa piada.
Entraste neste concurso Mundo Mix das artes plásticas, que te deu muitos anos e que te deu uma confiança tremenda. Isso já foi depois da faculdade ou não?
Sim, foi depois da faculdade. Foi um concurso dentro de um grau de amadores. Mas pronto, tinha uma parte das artes plásticas. Fui a São Paulo.
Fizeste contactos, conexos?
Não, nunca fiz conexos. Eu não sou nada esperto a fazer conexos desse gênero, mais focado na minha área. Até às vezes crio alguma distância, fico mais tímido.
Mas percebeste que era isto que querias.
Deu-me só vivências diferentes, ambientes completamente diferentes. Fez-me crescer enquanto pessoa e deu-me alguma confiança também.
Há uma coisa extraordinária na tua vida e que eu sinto que é muito importante, que foi estas residências artísticas. É curioso, porque tu fizeste logo em 2009, Nova York, School of Visual Arts, onde estiveste três meses. Depois Berlim, em 2010, no ano a seguir, cinco meses em Berlim.
Oito meses.
Oito meses em Berlim.
Oito meses, já não me lembro.
E depois Medellín, na Colômbia, nos Campos de Gutiérrez. E depois, há dois, três anos, outra vez. Aliás, foi a primeira vez que nós contactámos para te entrevistar, estavas em plena residência na Toscana, se não me engano.
Na Toscana, sim, na Villa Lena.
Villa Lena, uma coisa extraordinária, é um sonho só de visitar, quanto mais viver lá há algum tempo. Mas a começar por esta de Nova York, que abriu-te completamente os horizontes. Tu contactaste um mundo com uma liberdade diferente, uma liberdade nova, que te abriu muito perspectivas, não foi? Cada vez estavas mais a confirmar: "Isto vale a pena, é isto que eu quero".
Sim, deu-me alguma confiança e fez-me abrir umas portas diferentes. Fez-me dar alguma confiança também, porque conheci umas pessoas interessantes. Conheci o Jerry Saltz, que fez uma lecture. Como é que se chama?
Uma conferência.
Uma conferência pra escola, pra faculdade, e tivemos depois uma conversa superinteressante a seguir. Ou seja, todas estas experiências, deste reforço de alguém que já está há muitos anos crítico no New York Times. Estas pessoas que eu fui conhecendo e outras pessoas foram-me dando alguma confiança neste-
Neste meio que tu tinhas escolhido.
Sim.
Pedro Baptista, nós temos que fazer aqui um brevíssimo intervalo e já voltamos à conversa. Até já. Estamos a conversar com Pedro Baptista, ele é surfista, ele é skater e é, sobretudo, um pintor inspirado que nos fala da sua última exposição: "O monstro está cheio de fome", que vai estar patente até dia 18 no espaço Ulisseia, uma galeria nova e algo estranha, com espaços circulares, que fica em Marvila, em Lisboa. Em Marvila ou no Beato, já vamos discutir isso.
No Beato. Ou no Beato ou em Marvila, não sei.
De qualquer modo, é neste novo district art de Lisboa, que ali tudo se passa agora, é tudo que é galerias.
Sim, há ali um movimento.
É um hub criativo extraordinário aquela zona.
Imensa gente criativa trabalha ali, é um facto.
Residências artísticas, estávamos a falar disso, Pedro, dentro da tua carreira. Tu tiveste esta experiência em Nova York, que sobretudo foi muito importante pra ti, onde te expuseste coletivamente, divertiste-te, viveste bastante e realmente é outro meio. Depois Berlim, depois também na Colômbia e depois a Itália. São tudo meios muito diferentes uns dos outros a nível de vivências das artes e de pujança.
A nível de energia das pessoas. Às vezes o que me liga mais é a parte emocional de comunidades e onde eu estou inserido e a velocidade das coisas serem diferentes, a maneira como as pessoas comunicam também é diferente, a maneira como tocam é diferente. Eu estou mais atento e a absorver este lado.
Gostaste muito destes quatro exemplos que eu dei onde passaste? Nova York, Berlim, Colômbia e Itália foram muito diferentes, todos eles muito bons pra ti ou se pudesses repetias já um deles?
Se pudesse, fazia uma Colômbia, Itália também, mas menos tempo. Mas uma Colômbia, talvez.
Curioso.
Uma leveza.
Se pensasse em grandes mestres dentro da tua área, da pintura, há alguém, vivo ou morto, português ou estrangeiro, que te inspire muito e quando há uma exposição dele, seja onde for, em Londres ou casa, tu não perdes?
Tive vários entusiasmos durante o meu percurso.
Um ou dois nomes que tu tenhas à mão.
Sim, tive muito entusiasmado. O Francis Bacon sempre foi uma referência muito forte.
Ao conhecer a tua pintura, eu diria também que sim. Ou o Lucian Freud.
Estou ligado a outros. Sempre gostei também muito do Peter Doig Luke Tuymann também é uma referência.
Não perderias exposições se pudesses, ias ver?
Sim, tenho ido.
Qual é a sensação de ter quadros teus nas coleções, por exemplo, da Fundação Vila Lena ou na coleção do Luciano Benetton? É assim parti uma honra?
Sim, foram estratégias dessas fundações de ter um leque vasto de artistas em diferentes países e a Vila Lena, neste caso, como é residência, tem este privilégio de receber residentes e artistas dos vários cantos do mundo. A Fundação Luciano Benetton. Eles fizeram um livro, convidaram artistas portugueses, imensos, um espectro enorme.
Lá estás tu.
E fizemos uma doação, o outro não. Isso foi para Málaga.
A propósito de convites e tuas exposições, também tens tido exposições muito curiosas, desde Lisboa, Açores, São Paulo, Atenas, Medellín, Málaga, Estocolmo, Copenhaga, Nova Iorque. Por exemplo, em Londres já expuseste também ou não?
Não.
Londres ainda nunca?
Nunca.
Chegou a estar uma vez proposta ou pensada, mas depois aconteceram pandemias e coisas.
Foi.
Mas gostavas?
Gostava. Ia ser uma oportunidade, ia ser um solo show com uma pessoa bem influente dentro daquele meio.
Ok.
Com mais influência, filho de colecionador. Mas aconteceu um mês antes da pandemia. E depois a exposição foi feita, foi produzida, mas depois houve ali umas incompatibilidades malucas que aconteceram. Mas não aconteceu. Não fico arrependido, mas tenho pena de não ter acontecido.
Neste momento também estás na Broteira, se não me engano. Ainda estás lá ou não?
Tive uma exposição coletiva.
Na Pintura sem Fim. Exatamente, que foi agora também na Broteira, no Chiado. E é engraçado, porque tu aos 13, 14 anos assistias aos teus amigos na street art a fazer grafite e tal. Nunca fizeste em particular, mas há 10 anos foste convidado pelo Gal, pelo Gabinete de Arte Urbana da Câmara, para participar neste.
Se não tivesses relembrado, já não me lembrava. Imagina tu. Mas foi uma das pequenas incursões.
Exato, mas é engraçado, porque alguém que viveu este meio, mas nunca participou naquela idade, e agora de repente és convidado. É giro.
Era, e conheço a turminha da malta.
E logo de Ricardo Almada Negreiros, que é um grande nome.
Fiz os seus retratos, ainda ficaram lá algum tempo antes de serem passados por cima.
Mas a arte de street art tem esse condão. Eu pergunto sempre aos mesmo aqueles que são Mordá 2, esses que eu já apanhei aqui, digo sempre: "É uma coisa efêmera". Diz: "Mas faz parte da arte, às vezes os nomes desaparecem ou o musgo toma conta delas".
Mas é um palco que não é o meu palco, sinto-me ali um bocadinho fora. Posso fazer como experiência. E fiz e não me arrependo, mas havia um contexto para o fazer, mas foi só aquele apontamento. Mas sou muito mais bicho de ateliê.
Sim, completamente. Tu tens ateliês, de repente contei para aí uns três ou quatro ateliês que tu tens, mas não é verdade. Tem o espaço Boa Vista.
Tive imensos espaços.
Estiveste em Lisboa.
O meu primeiro foi no Boqueirão do Duro, onde é agora os escritórios da Vieira de Almeida.
Lá em baixo, ao pé do rio também?
Exatamente. Eram armazéns enormes.
Tu que sejas mar e rio, estás lá caído. Não sabia que tinha sido ali o primeiro.
O ateliê, sim, com design de moda, com o Valentim Quaresma, um amigo meu.
Valentim Quaresma é o das joias?
Sim, o Valentim.
Grande Valentim.
É ótimo de coração. Depois fui para o Beato.
Ali perto do Convento Beato, se não me engano.
Sim, mesmo ao lado do Convento Beato. Armazém enorme, uma escala absurda.
Que também partilhavas. Eu vi umas fotografias tuas, que a tua sala era a do fundo, com os retratos, com os twins.
Várias pessoas mais ligadas à moda do que às artes, como ateliê.
Mas tu tens coisas de grande formato, tens de ter mesmo sempre os grandes armazéns, não tens? Tens quadros e mesmo nas tuas exposições. Tens coisas pequeninas, mas tu andas muito pelo grande formato. Aqui tens quadros de 2,5 metros por 2 metros.
2 por 2,5 é um tamanho novo para mim, mas é natural ser um tamanho um bocadinho maior do que mais pequeno.
Com figuras, muitas delas, e são quase tamanho real, é impressionante.
Eu gosto ou pequeno.
Ou muito pequeno ou grande.
Ou a escala é completamente diferente.
Não é de meia leca.
Não, mas há ali um meio-termo que não é muito natural para mim, mas tenho que batalhar um dia.
A tua rotina é engraçada, tu continuas a fazer esta rotina de pintura que é: vou para o ateliê todos os dias ou praticamente todos os dias, e depois pintas três, quatro, cinco horas onde tu estás focado por dia. Obrigas-te um bocadinho a ir todos os dias, mas tens estas horas seguidas e depois tens que espairecer.
Sim.
Fazer lasanhas.
Não, por acaso não cozinho lá em casa.
E bolonhesas.
Não cozinho lá em casa, que a Sara, a minha mulher.
É que se encarrega de cozinhar tudo. Então já não vais espairecer pela bolonhesa e por coisas como fazias?
Não, não me deixam.
Ok.
Já não me deixam. Lá em casa a Sara diz que eu misturo tudo. Misturo todos os condimentos que existem na superfície.
É bom para experimentar nas pinturas também, às vezes.
E então a coisa não fica muito bem.
Mas o teu pequeno-almoço ainda é aquele que tu dizias uma vez: "Eu tomo o pequeno-almoço de uma hora e meia, onde vejo as notícias todas, aproveito para ver notícias".
Sim, gosto da manhã, adoro o pequeno-almoço. Mas agora já não tenho essa rotina. Há sete anos as coisas mudaram, depois de ser pai. Por acaso era verdade, também já me tinha esquecido que dava ali um timing no pequeno-almoço.
Bastante grande, mas onde ficas a par de tudo. Porque isso dá-te inspiração, não é?
Sim, gostava de ler os jornais. Mas agora tenho aquela rotina que também é ótima, que é ir pôr o Lope e o Vasco à escola. Depois, como estão ali mesmo ao pé do mar, viro um pouquinho mais à esquerda, passo por Carcavelos sempre antes de ir para cima, que eu agora tenho um pequeno armazém em Trajouce, na freguesia de São Domingos de Rana, acima de Carcavelos. Faço ali um triângulo, triângulo das Bermudas.
Exato. Mas quando passas em Carcavelos, passas mesmo a passar ou sais um bocadinho? E se fores para Secondinho?
Vou surfar. Mas tem a ver com foco. Eu estou aqui a dizer isto, parece um bocadinho idílico, mas tem a ver com foco. Às vezes a coisa não corre assim tão linear. Às vezes vou surfar e depois não tenho energia para trabalhar, depois arrependo-me, depois volto ao ateliê e não fui nada produtivo. Mas depois há períodos que estou muito mais atento à pintura e estou muito mais focado, porque a pintura para evoluir dentro de uma série ou a propormo-nos a fazer qualquer coisa, implica sempre tempo, implica repetição, ir ao ateliê propor-te o problema. Sim, porque às vezes propomo-nos a um problema. Se deixamos passar um, dois dias, o problema já ganha outra intensidade dentro de nós. E então, às vezes, desligamo-nos com o trabalho e às vezes é muito difícil voltar outra vez tudo.
Exatamente. É concentrado.
E então, por isso é que esta rotina ajuda este processo. Não dá para abandonar muito tempo.
Quando estás a pintar, procuras isolamento, isolas-te ou tens alguma playlist, alguma coisa que tu ouves mais ou menos sempre? Rock progressivo, quer dizer.
Não, vou mudando a playlist, vou mudando bastante.
Mas precisas disso. Música é importante para ti quando estás a pensar.
Música ou alguns podcasts.
Bom, já tens um áudio novo para ouvir. Muito bem, a inspiração vem de sei lá, pode vir de um jornal, de uma revista, de uma atitude, de filmes, de livros, de fotografias, é o teu trabalho de casa, no fundo. As tuas técnicas variam muito. É engraçado, estou-me a lembrar de uma viagem que fizeste a Marrocos, de onde trouxeste ideias e pigmentos. Compras lá fora coisas e olha que meteste a cor e usas muito, porque tu gostas muito dos azuis, gostas muito dos amarelos. É muito curioso. As coisas saem-te com intensidade quando estás no ateliê?
Sim, Marrocos, por exemplo, sim, fiquei encantado. A primeira vez que fui a Marrocos.
Marraquexe, Guimins?
É incrível ver os pigmentos todos postos e aquela intensidade de qualquer pintura.
E compraste as tinturarias todas.
Sim, quero. E fiz até uma exposição com esses pigmentos e arranjei toda uma linguagem sobre papel, umas aguadas, com muita intensidade. Mas o que é simples é que o pigmento tem uma qualidade muito fraca e com uma longevidade muito baixa.
Com o tempo vai mudando.
Vai desaparecendo.
Ai, arte e febre outra vez. Voltaste à arte e febre.
Não, sim, ao ponto agora estar a...
Mas não deu fixador nenhum, nem nada? Não havia maneira de...
Não, usei um fixador, mas não foi o suficiente para alguns trabalhos. Tive que voltar outra vez a pegar neles, mas existe um tratamento que os salva deste desaparecimento.
Já conhecias, portanto. Exatamente. Em geral, a tua média era mais ou menos uma série por ano. Isso mantém-se, mais ou menos?
Sim, por acaso tem culminado nisso. Não quer dizer que não esteja numa série durante os próximos 10 anos, mas tem culminado nesta. Eu acho que sou um... como se diz?
Uma aprendizagem rápida.
Slow learner. Eu acho que vou aprendendo com o tempo.
Fast food, slow food.
Sim, nunca me esquivi. No meu tempo, acho que vou aprendendo com as coisas, vou acrescentando coisas.
É engraçado, porque também gosto muito dos seus formatos e agora estou-me a lembrar do teu Paper Thin Walls, que também já vai fazer nove anos.
Há bastante tempo. Eu gostava desses trabalhos.
Tinhas um cão com dois metros ou três, que era o teu cão, o teu Artur.
E alguém o comprou, que foi também incrível.
Ainda mais incrível. Mas era um cão gigante e tu dizes: "Não, é um símbolo, é uma coisa cómica, porque é um cão pequeno, mas que é tão importante para os donos, para ti, neste caso, que fiz uma coisa gigante."
Sim. Não, fiz o Artur. Naquela altura, tínhamos um cão, era tudo novo. Mas sim, nunca vivi com um cão. A Sara sim.
Nem os teus filhos obrigam a...
Não, o Artur continua cá e de boa saúde. Já passou uns episódios difíceis, mas agora está outra vez rico para mais 10 anos.
Quando é que tu sentes que uma obra está completa, Pedro? A última coisa que tu fazes é assinar? E tu pensas, és perfecionista ou dizes: "Não, é isto, next" e mudas rapidamente ou és muito perfecionista e vais dando toques?
Eu estou a aprender a parar, a relaxar a franga, a não empastelar a coisa.
Porque eras muito assim?
Era, perdia a espontaneidade de coisas que eu acho que eram ricas, só por si. E o que eu fazia era Overwork. Fazes mais e mais.
Trabalha mais.
Sim, eu agora estou a aprender, eu acho que se chama alguma maturidade. Veio tarde, mas está a chegar.
Tu és um miúdo para sempre.
E mesmo assim ainda contrario esta tendência.
Aposto que a Sara diz que está a educar três miúdos, que és tu e os dois filhos que vocês têm. Continuas a ser igual.
A Sara é bastante pragmática, é o oposto de mim.
"O monstro está cheio de fome" é esta exposição que está no Liceia, o nome dado pelo Vasco, teu filho mais novo. Que idade é que ele tem?
Tem cinco.
Cinco anos. Vejo que ele baptizou esta exposição e o nome é extraordinário. Nesta galeria, que é uma galeria nova, tem este desafio expositivo. Como é que se expõe? É uma galeria com uma vista linda, frente ao rio. Expõe quadros em espaços circulares. Não é fácil, mas tu lá te adaptaste.
Em ferro escuro, sim. Sim, é difícil. O espaço, na realidade, funciona como um Airbnb e é um projeto do João Quintela e do Tim Simon, que é uma dupla de arquitetos que fez igualmente o Vértice, que é um armazém ao lado.
Ok.
E esse projeto é do meu irmão e do Tiago.
Sorte. Ok.
E eles já me conheciam o espaço perfeitamente, vi o espaço a nascer e andava à procura de um espaço para fazer uma exposição com estes trabalhos novos. E surgiu esta oportunidade e experimentei.
Tu já passaste por várias galerias. É complicado. És convidado às vezes e outras vezes és tu que propões ou como é que isto funciona?
Sim, obviamente que durante 12 anos, 14 anos que só pinto, já tive alguns convites. Mas sempre achei que, agora estou muito mais tranquilo com isso e até sinto exatamente o oposto. Sinto mesmo que ninguém cresce sozinho e estive a cavalgar sozinho, Lonely Ranger, mas acho que cresces até a um ponto e depois não cresces mais. E estou cheio de vontade de trabalhar com um projeto, com uma galeria e estou super.
É engraçado que também tens a sorte. Tu disseste uma vez: "Nunca pensei se as pessoas têm ou não espaço para levar os quadros para casa, porque eu raramente pinto coisas em grande formato. Arrisco e rezo para que tenha sorte e que as pessoas levem." Mas tu chegas a ter pessoas que levam de todas as exposições que tu tens, tens clientes fixos, que te levam sempre uma coisa. Isso é extraordinário. Dá para pagar o alazão.
É um bom elogio, mas nem sempre. Às vezes, o padrão talvez seja: repetem duas vezes e depois não compram mais. Não dá para estar a fazer uma coleção em casa só com um artista. Às vezes podia acontecer uma fixação.
Quem tenha fetiche pelo Andy Warhol está muito bem.
Uma ou outra.
São clientes fiéis.
Sim, não tenho cenas, tipo pessoas muito importantes que me apoiaram.
Só quer dizer que tens de continuar a lutar.
Tenho amigos e pessoas que me ajudaram.
Isso é bom porque dá pica, eu acho. Se tivesses alguém que achas que te ias instalar muito.
Sim, esta coisa dos espaços. Eu sempre estive feliz neste padrão. Era um padrão que eu estava feliz. Tinha tempo para mim.
Isso é bom.
Ganhava o suficiente para aquele padrão.
Para poderes relaxar, poderes viajar de vez em quando.
Viajar. Estava ali. Não havia a ambição de ficar milionário, de contar os tostões. Havia ali um conforto que eu conseguia alcançar e estava muito feliz. Mas depois, ao longo do tempo, quer-se outras coisas.
Claro.
Mas é isso.
É engraçado também a propósito do futuro e dos robôs um dia vão criar arte. E tu dizes: "As máquinas vão acabar por retirar-nos dos trabalhos. Alguns querem ser pintores, pegar em tintas e ficar ali dia e noite à volta de uma ciência inexata. Esta tendência deveria ser diagnosticada precocemente." É um bocado o que tu fazes, quer dizer, estás sempre ligado à arte e continuas a querer estar ligado à arte. Isso não te preocupa o futuro nesse aspeto?
Não, acho que a tecnologia tem o seu papel e é um caminho e há de ser absorvido pelas pessoas que valorizam e depois há de haver outras pessoas que valorizam a arte. É como a valorização de ir a uma exposição, aquilo só afeta um grupo muito ínfimo da sociedade. Genuinamente. Depois existem vários universos e motivações para depois adquirir essa arte.
Outra coisa boa é que tu não gostas muito de falar das obras, o que é normal, porque tu explicares ou comentares as tuas obras limita um bocadinho. Tu gostas que as pessoas achem o que quiserem, dar essa liberdade.
Eu proponho-me a criar alguma coisa. E então faço este trabalho todo. Depois quando o trabalho culmina e acaba, houve coisas que eu descobri, mas é tudo às vezes uma aprendizagem mais interna. Não é assim tão óbvio. E depois explicar os trabalhos, eu gosto desta sugestão que os trabalhos e a arte pode dar.
Suscitar nos outros.
Sim, eu não tenho convicções muito definidas.
É giro que tu dizes: "Às vezes só depois de estar a exposição toda montada é que eu vejo o que eu fiz. Às vezes não tenho noção enquanto não vejo tudo nas paredes." É sempre curioso.
Tens alguma consciência, depois às vezes é preciso tempo para perceberes o que é que andaste a viajar por ali. Mas não conceptualizo a coisa e realizo. Era muito aborrecido se eu fizesse assim, pelo menos no meu caso. Só estou a falar da minha perspetiva.
É muito bom acompanhar a partir de agora esta tua carreira, já sabe. Eu vou deixar aqui o convite final. Quero agradecer muito a tua disponibilidade, Pedro. Acabou o nosso tempo, com grande pena minha. Mas fica então este convite a si que me está a ouvir, esta exposição do Pedro Baptista, "O monstro está cheio de fome", até dia 18 está no espaço Liceia, ali na Avenida Infante D. Henrique, o edifício Beira Rio, na Armazém P, em Lisboa, em Marvila. Segunda a sexta das 14h às 19h, sábado e domingo das 11h às 19h. Muito obrigado, Pedro, pela tua inspiração, por teres vindo aqui ao "Observador" e muita boa sorte.
Obrigado. Gostei muito. Obrigado.