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A inteligência artificial generativa é o desafio que a Sociedade de Autores neste momento tem. Não é que vão ter, é que têm.
Porque já cria sinfonias à Beethoven e romances à Eça de Queirós, o que é extraordinário.
O que é extraordinário é nós pensarmos que isso é feito com base nos conteúdos protegidos dos autores que criaram efetivamente as obras.
Que fazem parte do big data que governam.
Essas obras que alimentaram a máquina, que ensinaram a máquina para depois tentar criar algo parecido. Portanto, o que há a fazer é regular a forma como-
Isso é possível fazer, Paula?
Claro que é.
É já esta quinta, dia 22, Dia do Autor Português, que a Sociedade Portuguesa de Autores faz 100 anos. Nascida no tempo do cinema mudo e da grafonola, a SPA faz 100 anos em época de inteligência artificial, com o objetivo de sempre defender a propriedade intelectual, proteger os seus protagonistas, promover a cultura portuguesa em diversas áreas, como a música, a literatura, o multimédia, a arquitetura, a dança, a arte, o teatro. São mais de 27 mil criadores abrangidos, cerca de cinco milhões a nível internacional. Para celebrar conosco, convidei Paula Cunha, administradora da SPA, que nos mostra que, de facto, os autores são a alavanca criativa de todos os milênios. Olá, Paula, bem-hajam por ter aceitado este meu convite. Bem-vinda à Rádio Observador.
Olá, boa noite, muito obrigada.
É um grande prazer estar aqui a falar consigo. A Paula, que nasceu em Luanda.
Exatamente.
Veio de lá muito pequenina, retornada em 75 ou 76.
Vim de lá com nove anos, em dezembro de 74.
É muito curioso, porque a sua área é toda a ver com Sociologia, o desenvolvimento das organizações, trouxe esta sua formação, a gestão autárquica, porque foi autarca e foi administradora pública na parte local durante quase duas décadas. E depois doutorou-se em Ciências Sociais em Comportamento Organizacional, no ISCSP, onde é investigadora e colaboradora neste Centro de Administração e Políticas Públicas do ISCSP. Tirou depois uma especialização, agora já há dois anos, na Universidade de Chicago, sobre Inteligência Artificial and Data Science for Leaders, sobre a qual já vamos falar, porque isso tem um pouquinho a ver hoje em dia, claro, com os direitos de autor e com toda esta avalanche. Não foi só a revolução digital, mas agora também da inteligência artificial, que mete outros problemas e são outros desafios. Para já, eu gostava de falar destes seus 18 anos muito curiosos que a Paula teve, quer na Câmara de Cascais, ainda no tempo do José Luís Judas, quer na Câmara de Odivelas e depois deu ali também, além da CCDR, aqui na Lisboa e Vale do Tejo, também deu um pulinho à Lourinhã. Toda esta sua ligação à parte autárquica foi muito importante para as políticas locais, porque esteve em movimentos muito importantes e em alturas-chave, de facto.
É um privilégio, efetivamente. Foi uma opção, podia ter sido uma coincidência.
Um acaso.
Um acaso. Não foi, foi de facto uma opção. A minha vida profissional começou na Câmara de Cascais, com o presidente, na altura chamava-se Jorge D'Arjan.
Ainda foi no tempo do Jorge D'Arjan.
Foi, estive uns anos com esse executivo, Jorge D'Arjan, depois saiu, a seguir Manuel Príncipe de Seia. Foi esse processo, depois José Luís Judas só entra a seguir.
Onde já tratava do turismo, da hotelaria, da defesa do consumidor.
Sim, comecei, exatamente. A minha primeira atividade enquanto dirigente, e a minha carreira tem esse aspecto um pouco atípico, porque eu comecei praticamente como dirigente e, portanto, fui sempre dirigente autárquica.
Assessora ou membro do conselho diretoral, presidente.
Exatamente. E diretora. Comecei precisamente com atividades econômicas e turismo, o que no Conselho de Cascais é uma atividade muito interessante.
Muito intensa.
Foi extremamente rica, extremamente aliciante, porque eram os mercados, imaginem. Eu era uma miúda. Imagina o que é com pouco mais de 25, 26 anos, coordenar equipas de fiscalização que iam fiscalizar as feiras, os mercados.
Feira de Cascavel, meu Deus, já pertencia.
Sim, pertencia, claro que sim.
Eu morei lá, mas já pertencia a Cascais.
Por exemplo, uma das experiências mais interessantes, há muitas, mas esta recordo-me bem, foi a resolução da questão da Boca do Inferno. Não sei se se recordam aquelas vendas caóticas. Crescendo, aquilo era um caos.
Tendas e tendinhas e coisas, sempre ali à volta, dos turistas.
Sim.
E ao pé do lixo.
Exatamente. E nós, na altura, houve uma decisão política, vamos avançar mesmo.
Tínhamos que coordenar, por alguma ordem, nesse território.
Claro que sim. E foi um processo, de facto, muito interessante, porque quem ficava, havia muito menos lugares disponíveis do que as pessoas que lá estavam, os feirantes, os ambulantes que lá estavam, e aquilo era um caos completo. Isso deu-me uma lição importante, eu era jovem, deu uma lição interessante, que foi: se nós fizermos as coisas com rigor, com justiça, e se conseguirmos demonstrar que as decisões são tomadas em verdade e não por favoritismos, não há problemas. Tendencialmente, as pessoas aceitam. E ali houve muita gente.
Mesmo que fiquem sem lugar e que vejam que não têm lugar.
Exatamente, João. Ali houve muita gente que ficou sem lugar. Os lugares foram sorteados.
As pessoas que iam descarar, para entrar, têm que cumprir as regras.
Exatamente, as pessoas perceberam quais é que eram as regras, eram muito claras, não ficavam porque eram primos ou amigos, ou conhecidos.
Isso não era nepotismo.
Exatamente. Houve um levantamento na altura muito exaustivo e depois houve um sorteio, que foram eles que fizeram.
Para os lugares, a quantidade que havia.
Havia mais candidatos do que lugares. Houve um sorteio, foram eles que tiraram as bolinhas. Portanto, não foi ninguém da câmara. E o que é facto é que no dia em que foi feita a reinauguração, foi perfeitamente pacífico.
Ainda bem.
De facto, tive muitas experiências dessas.
Que poderia ser complicado, e num setor que podia ser complicado.
Nós estávamos com receio de que pudesse complicar.
Lόbies também, e famílias e tudo a querer concorrer. Não é fácil.
Tínhamos, inclusivamente, segurança reforçada, controlada, não visível. Felizmente, não foi preciso nada, porque foi perfeitamente pacífico, mas é uma lição grande que se obtém quando se é jovem.
Cá está, a sua formação em Sociologia é muito importante. E depois também a parte dos recursos humanos, que a Paula também se tornou especialista. De repente, na Câmara de Cascais, estava a gerir Um mundo de 1500 pessoas, 1500 trabalhadores.
A minha licenciatura de base é Sociologia, depois tive uma especialização que tinha realmente a ver com recursos humanos e com organizações. Eu sempre fui muito ligada à questão das organizações. É curioso que muitos anos mais tarde venha doutorar-me com uma especialização em comportamento organizacional. E também tinha feito uma pós-graduação precisamente em organizações. E de facto os recursos humanos sempre foram uma área muito importante, porque os recursos humanos são a pedra de toque. Isto é um clichê, mas é rigorosamente verdade. São as pessoas que fazem a diferença. Portanto, temos que saber lidar com elas.
Ter essa atenção e lidar com elas. Porque há de tudo também. E numa câmara grande, nem digo Lisboa, mas só a Câmara de Cascais, 1500 pessoas, é um mundo de pessoas, de famílias, de casos, de pessoas diferentes, em posições diferentes, com responsabilidades diferentes. Não deve ser fácil, às vezes, encadear tudo isso.
Nunca é fácil. Nem com 1500, nem com 100.
É só um caso.
Nem com 100, nem com 50. Nunca é fácil. Claro que quanto maior é o universo, mais complicado se torna. Mas sim, nunca é fácil e é preciso, de facto, saber olhar para as pessoas, mas também saber contrariar. Ou seja, não cairmos na tendência que às vezes há, eu sei que vou ser politicamente incorreta, mas é assumido, porque nós não podemos ser aquela lógica do líder bonzinho. Há uma teoria interessante na academia, é um senhor que se chama Collison, que é o problema do líder Prozac.
Existe. Por quê? O que ele diz?
O líder Prozac é aquele líder que diz que está sempre tudo bem.
Mas assim não se gerem as coisas.
E depois, o que acontece? Tem problemas. E se algum dia a organização é confrontada com um problema, com uma questão, ninguém consegue resolver, nem ninguém consegue reagir, porque está sempre tudo bem. Portanto, nós temos que saber motivar as pessoas, estimulá-las e manter sempre o sentido crítico, um sentido de urgência, que eu acho que às vezes vai faltando nas nossas organizações. É preciso termos esta perspetiva.
E essa mistura, que não é fácil às vezes, eu reconheço isso. Eu tenho uma sobrinha que trabalha em legislação, é de Direito, especialista jurista laboral, e dizia ela: "Tio, às vezes há empresas que", e aconteceu mais há uns anos do que agora, "tínhamos que fechar e tínhamos que falar com 300 pessoas que tinham que ir para a rua". E eu penso: "Mas isso é dramático, como é que consegues dormir?" E ela: "Tio, a solução era ou essas irem para a rua ou 1800, a empresa falir e 1800 mais, acabava tudo". Não é fácil, mas são decisões que às vezes tinham que ser tomadas e não era de ânimo leve, mas as coisas têm que ser resolvidas e têm que ser conversadas, negociadas, com certeza. Mas é o tal dizer não quando é preciso dizer não e tentar justificar, sempre não perder a humanidade, mas não deve ser fácil.
Sim, e acima de tudo, nós temos sempre que saber tratar as pessoas com dignidade, com a dignidade que cada pessoa merece.
Que é muito importante. Não é só um número, não é só mais uma. Isso é muito importante.
Não pode ser um número, mesmo.
Em Odivelas, quando entrou, já era cidade, Odivelas?
Não, é uma experiência também.
Isto foi em 2002, e saiu em 2005, está há 20 anos. Sei que esteve nesta formação do município de Odivelas.
Tive a felicidade de ter algumas experiências muito interessantes na minha vida profissional, da qual agora a SPA, obviamente, é a mais rica nesta fase. É mais aliciante nesta fase. Mas de facto, eu acompanhei a comissão instaladora. Na altura, o presidente da comissão instaladora, Manuel Vares, que depois veio a ser presidente. Eu estava em Cascais na altura, era dirigente em Cascais e o Manuel Vares precisava, porque o diretor financeiro tinha tido uma questão de saúde, infelizmente, já faleceu, um ano e tantos depois. Acabou até por falecer. E precisava de apoio em termos da parte financeira, econômica, etc., de alguma reestruturação, porque não era um processo fácil. Foi mesmo um processo complexo, muito complexo.
E chamou-a.
Sim, faço essa, dou essa assessoria. Enfim, isso passou e anos mais tarde, quando há a eleição para a câmara, ele convida-me para ser diretora do planejamento estratégico. E eu aceitei, anos mais tarde. Aí é outra etapa.
É a criação do município de Odivelas, mitigação. E depois teve a seu cargo também o plano diretor municipal, as questões da mobilidade.
Da mobilidade, sim. Foi muito interessante a da mobilidade, eu estou a usar o adjetivo interessante várias vezes, mas é de facto um adjetivo que se aplica.
É o que surge para melhor retratar aquela experiência que teve. Ainda bem, repita mais vezes. Quando for interessante, diga.
Exatamente.
E depois, logo a seguir, esta comissão também de coordenação e desenvolvimento da região de Lisboa e Vale do Tejo, esta CCDR, onde coordenou esta estratégia regional de Lisboa 2020 também.
Foi um grande desafio, foi uma etapa da minha vida muito boa, muito estimulante, um adjetivo diferente. Muito estimulante. O Eng.º José Cacafreira, infelizmente, já não está entre nós. Grande dirigente, grande técnico, grande teórico, enfim, uma pessoa a quem esta região e o país deve muito.
Muito deve.
Muito. Fonseca Ferreira era um homem extremamente objetivo, frontal e sabedor, com uma visão estratégica. Aprendi muito.
Isso é que falta a muita gente, eu acho.
Aprendi muito estratégia com ele e sou-lhe muito grata.
Com tudo que aprendeu.
Eu estava em Odivelas. Exatamente, eu estava em Odivelas, ele convida-me para-
Ainda estava na parte da expansão do metro, também tratou disso, não foi? A extensão do metro até Lisboa, até Odivelas.
A câmara tinha a responsabilidade da mobilidade em Odivelas, ou seja, se o metro chega a Odivelas, há que fazer a reformulação de como é que os autocarros.
Como aquela maravilhosa ECE 22 que eu tanto uso e que acho que foi a melhor coisa que fizeram, para ligar à Crel e não sei o quê. É uma extraordinária via que tanta falta fazia, esta radial. Isso é tão importante.
Eu tive a alegria de estar na viagem inaugural no metro, sozinha, com mais pessoas da câmara e da Metro, etc., mas digamos, um metro só para nós. Foi realmente muito giro. Mas voltando à CCDR Lisboa e Vale do Tejo, foi realmente uma experiência rica. O Fonseca Ferreira tinha esta visão estratégica que efetivamente vai faltando muito. Porque não basta fazer planos, é preciso, de facto, que eles apontem para o futuro. E na realidade, é curioso verificar que as linhas mestras da nossa estratégia, aquilo que nós definimos para o horizonte de 2020, já se passou há cinco anos, Lisboa cumpriu. A questão do turismo, a questão da inovação.
Eu sei que logo em 2016 houve esta conferência no CCB importante, Lisboa 2020, turismo, que perspetivas na região de Lisboa. Estava a começar aquele boom incrível que depois aconteceu. Estava desde o princípio.
Estava e nós alertámos. Tinha muitas potencialidades, mas também trazia problemas, questões. Nem são problemas, são assuntos sobre os quais se deve refletir. E deve haver regulação, obviamente.
Um pormenor, por exemplo, foi agora há pouco tempo, os tuk-tuks e estas ruas de Lisboa onde foram proibidos. Mas é uma coisa que o Porto já tinha feito há 10 anos. Como é que só agora em que se pensou que isto está a atrapalhar demasiado até os locais e portanto temos que vir. É muito importante o turismo, é óbvio, não se pode acabar com isso. É muito importante para nós e para todo o investimento que é feito, mas com regras, obviamente. Mas havia quem não visse isso. Quanto mais venham todos, que tudo bem, tudo alojamento local, tuk-tuks de todo lado, mas não pode ser assim.
Não pode ser assim, é preciso olharmos, é preciso termos humildade.
Os milhares que entram pelos cruzeiros, tudo isso. Há todo um sistema.
E é preciso vermos o que é que aconteceu com outras cidades que fizeram o mesmo.
Exatamente, para não andarmos a partir pedra, porque há experiências em Barcelona.
E há cidades que não fizeram nada e que tiveram booms enormes de turismo e que depois foram abaixo, porque não houve nenhum controle. E há cidades que de facto souberam fazer intervenções a tempo de evitar que houvesse um descalabro depois.
E portanto também fez algumas viagens para estudar isso, porque a Paula andou muito não só a dar formação, não só pelos PALOPs, mas também dentro já da parte dos direitos de autor em muitos países, por esse mundo fora, mas também nesta parte autárquica, enquanto foi administradora também da ordem pública, digamos assim, também fez para ver outras experiências.
Sim, quando fui vice-presidente da CCDR Lisboa e Vale do Tejo, nós tínhamos a vice-presidência da Comissão das Regiões Periférico-Marítimas, um conjunto de regiões da ala marítima, como o nome diz, e isso levou-nos a conhecer outras experiências.
Congressos.
Sim. E nós tínhamos um papel de algum relevo, digamos, em termos internacionais, junto destas regiões. E nós éramos muito chamados pela experiência de Lisboa.
Também é a cidade aeroportuária.
Sim, e é preciso também clarificar que quando falamos em Lisboa, neste aspeto em concreto que eu estava a referir, a CCDR Lisboa e Vale do Tejo, na altura abrangia 51 municípios. Era a região de Lisboa e Vale do Tejo, não é só Lisboa. E portanto, se eu disser que Leiria fazia parte, Fátima fazia parte, Almada, Setúbal, Sesimbra, Montijo, Cascais, Sintra, Oeiras.
Os 100 km à volta.
Exatamente. Lourinhã.
Lourinhã, ajudou a dar uma ajuda no plano estratégico. Lourinhã chamaram-na. Fruto do seu bom trabalho.
Uma experiência muito interessante também. Outra vez adjetivo interessante, mas foi um plano estratégico num território que não era na altura propriamente vocacionado, ou pelo menos não via experiências de planeamento estratégico. E foi uma experiência que foi abraçada pela sociedade em geral. Foi muito agradável de ver como é que ao início, alguma abstração, alguma desconfiança, até. E depois, mais uma vez, envolvendo as pessoas, porque não há planeamento estratégico sem envolvimento de todos os atores sociais. E portanto, com o envolvimento de todos, foi que depois no fim ganhou um prémio, ganhámos um prémio do melhor evento do ano, ou assim uma coisa assim deste género. Muito ligado ao plano estratégico.
Agora estou a pensar que essa experiência passou para Lourinhã. Eu estou a pensar noutras experiências, até na parte dos direitos de autor, que há muitas coisas que depois passaram para outros países que vos copiam e já lá vamos falar disso, já na segunda parte. Acha que ao visitar Portugal e andar por Portugal, não sente que esses exemplos deviam ser ainda mais implementados e há muitas zonas que bem que precisavam deste ordenamento?
Sim, precisamos muito. Precisamos de planos, mas mais do que planos, precisamos da aplicação da estratégia, precisamos da concretização da estratégia. Diagnósticos há muitos, nós somos um país com imensos diagnósticos, imensos e muito bem feitos, diga-se em abono da verdade.
Estou a pensar no programa POLI, houve alguns que tiveram uma marca muito boa no território, foi muito importante para algumas cidades.
Voltamos ao Fonseca Ferreira. Estamos a falar de poucas pessoas que de facto-
Exato, que desenvolveram estas... Mas isto devia ser replicado. Há muitas zonas que eu penso que falta aqui um programa que fizesse esta crelou aqui e que não fosse preciso atravessar o centro.
Sem dúvida.
Pequenas coisas simples. Esta sua aproximação à SPA, tenho aqui qualquer coisa a referenciar, o António Vitorino de Almeida e um piano. Quando é que foi a primeira vez que, no fundo, foi para lá já em 2000 e...?
2012.
2012. Portanto, já lá vão três aninhos.
Três.
A quem é que se deve, a que circunstância é que se deve, como é que apareceu a SPA na sua vida, Paula?
Olhe, apareceu por um acaso. É verdade, apareceu por um acaso. Mais uma vez, foi um convite. O presidente da SPA, na altura, já era o presidente da SPA, o José Jorge Letria, com quem eu tinha trabalhado em Cascais.
Ele é desde 2010, se não me engano.
Exatamente. Muitos anos antes, eu tinha sido vereadora, ele tinha sido vereador dos Recursos Humanos em Cascais, quando eu era diretora de Recursos Humanos. Nunca mais tivemos contato. Cada um seguiu, obviamente, o seu percurso. E depois, anos mais tarde, surge este convite, por força, creio eu, de algumas pessoas em comum. Sei que era necessário alguém com as minhas características.
Que se soubesse agarrar.
E ele convidou-me.
A recém-criada sede.
E ele fez-me esse convite e eu aceitei. E foi aí que começou esta nova aventura. Estava a falar em António Vitorino de Almeida.
Este ambiente da SPA, o piano.
É fascinante. Eu senti-me uma miúda, nitidamente, quando eu entrei na SPA, aqueles primeiros tempos, ainda hoje, para mim, é um fascínio. É um fascínio, é uma honra, é um privilégio lidar com tantos autores e com a inteligência nacional, efetivamente, e internacional.
Os criativos.
Mas na altura, eu lembro-me perfeitamente.
O José era ali no duclolé, lá em cima.
Exatamente, sim. Episódios engraçadíssimos, mas, por exemplo, este. Eu estava num gabinete por cima, no primeiro andar, e de repente ouço tocar piano. Eu gosto muito de piano.
Aprendeu ou não?
Aprendi piano. Não sei tocar. Aprendi piano há muitos anos atrás.
Disse com o cara, não peça para tocar.
Não peça para tocar, exatamente, porque senão sai sempre a mesma música. Mas gosto muito de piano, gosto mesmo muito de piano. E comecei, eu ouvi tocar piano e vim até cá fora, não me apercebi quem era. Fiquei ali um bocadinho e fiz um comentário. "Que coisa maravilhosa, tão bem tocado". Felizmente, foi um comentário inteligente, porque eu olho para baixo e era o António Vitorino de Almeida sentado ao piano, o maestro António Vitorino de Almeida, que estava à espera de ser atendido. Nós temos um piano ali na duclolé e então ele estava ali a tocar, muito entretido. Portanto, este é um dos exemplos de coisas fascinantes que nos podem acontecer e que me aconteceram naquela casa.
Ali teve muitas funções na SPA, desde 2012, de assessora do Conselho de Administração, foi diretora-geral, coordenadora executiva dos serviços, recursos humanos, sistemas de informação e informática, gestão financeira, áreas jurídicas, relações internacionais. É uma área onde se especializou muito, quanto a mim, responsável muito pelo projeto da Lusofonia, que é muitíssimo importante e que a Paula, eu vi uns vídeos seus, tão bem faz em Angola, na sua terra natal, e em Cabo Verde, por exemplo. E depois tem uma série de organizações, a OMPI, esta Organização Mundial da Propriedade Intelectual, um organismo da ONU, pela qual tem reuniões, por exemplo, em Cabo Verde ou pode ser em Bruxelas ou com a CISAC, que é esta Conferência Internacional das Sociedades de Autores e Compositores, isso aconteceu em Luanda. Mas esta CISAC, por exemplo, teve reuniões em Moscovo. Moscovo, aliás, é uma das cidades que não adorou.
Não.
Mas Moscovo tem coisas muito bonitas para ver, acho eu. Hoje em dia se calhar não. Quem eu conheço que visitou Moscovo e São Petersburgo ficou muito encantado com as duas.
São duas cidades completamente diferentes.
Conhece as duas, foi às duas?
Sim, nós estivemos em Moscovo.
Nesta reunião da CISAC.
O presidente da SPA foi durante dois mandatos, foi presidente do Comitê Europeu da CISAC. A CISAC é a Confederação Mundial das Sociedades de Autores, reúne todas as sociedades de autores do mundo.
Essas congêneres são apenas 200, é uma coisa grande.
Isso prova bem a influência da SPA, sendo uma sociedade pequena, média, de um país pequeno, médio, face ao mundo.
Sim, e o presidente foi português durante quatro anos.
O presidente foi eleito e reeleito. Todos os anos há um congresso e nesse ano foi em Moscovo.
Em Moscovo, teve em 2017.
Exatamente. Moscovo. Aliás, nós estávamos lá quando ocorreu aquele atentado no metro de São Petersburgo. Em Moscovo, nós ficamos num hotel ali relativamente central e assistimos a uma parada militar cá fora, postas policiais.
Como nós gostamos.
Sim, de uma ostentação enorme. Mas eu não gostei de Moscovo, efetivamente. Não da cidade em si, ou melhor, não da arquitetura.
Aquelas basílicas.
A arquitetura é fantástica. Sob esse ponto de vista, não há dúvida nenhuma. Só que para mim uma cidade é mais do que arquitetura. É a arquitetura e as pessoas que nela habitam e as atividades que nela se desenvolvem. Em Moscovo nós não somos bem-vindos. O que eu senti claramente, e era numa fase em que eu tinha, aliás, muitas viagens e visitei muitos países interessantes, quer em trabalho, quer em lazer.
Por África também, muitos.
Sim.
Além do Japão e Brasil.
Sim, Macau, Brasil, China. Agora, ali senti claramente que não éramos bem-vindos.
O que eu senti nos países bálticos, pessoas tristes e que não nos falam, não respondem aos bom dias. Eu achei isso uma coisa extraordinária.
João, mas eu noto uma diferença.
Mas aí é porque dizem eles: "Nós fomos ocupados 50 anos por nazis e por 50 anos pelos soviéticos. Como é que querem que a gente seja feliz e alegre?" De facto, é complicado.
A Polónia, eu continuo a dizer, para mim é dos povos mais tristes que eu já conheci.
É incrível.
Já fui à Polónia, a várias cidades, em várias épocas e em várias circunstâncias.
A Auschwitz ela.
A Auschwitz ela. Foi uma experiência traumatizante.
Exactamente.
Que aliás, eu acho que devia ser obrigatório. Acho que a ONU, qualquer organização mais séria, internacional, devia fomentar a ida.
Exactamente.
Acho que toda a gente devia ir, e a juventude devia ir a Auschwitz.
Dachau conheço, mas Auschwitz, não. Mas é, de facto, demolidor.
É uma experiência que, de facto...
E hoje em dia parece que há pessoas que negam, cada vez mais. Sinto que essa história está a ser apagada e higienizada e não devia ser.
Devia ser obrigatório.
Onde pode levar o fanatismo.
A não ser uma máquina, qualquer pessoa que lá entre, sente o que lá se passou.
Toca a emoção.
Não vale a pena estarmos com coisas.
É impressionante.
Eu estive lá há 15 dias.
E está bem exposto, quer dizer, explica bem, sem escamotear a verdade.
Mas aí está. A Polónia é um país triste. Eu acho aquele povo triste, sempre achei. Em Moscovo não é bem a tristeza, é mais um distanciamento, é diferente. Eu não queria dizer arrogância.
É o que roça.
Alguma altivez.
Tóquio custou imenso. Ou não?
Tóquio, sim.
Porque é um mundo fascinante, completamente diferente de tudo.
E os japoneses.
Sim.
E a forma como os japoneses nos tratam.
Mas é outro povo, é outra coisa. De facto, uma cabeça diferente, mas com coisas extraordinárias.
É tudo diferente. Tóquio, vamos lá ver. Nós costumamos muito falar em Nova Iorque, não é? Mas qual Nova Iorque? Tóquio é uma cidade, se me falam em cidades que não dormem, Tóquio não dorme. Quer dizer, é uma loucura.
É um mundo.
Depois, em termos culturais, é riquíssima. Tem aquelas experiências absolutamente fantásticas.
E muito diferente do que aqui existe.
Muito diferente.
Não é ocidental.
Claro, mas é preciso...
Há coisas que estamos habituados, mesmo em Nova Iorque estamos habituados. Tóquio ultrapassa, é o Extremo Oriente.
Mas o respeito, mas o cuidado, mas a atenção para com o outro.
Exatamente.
Isso são os aspetos positivos. Eu fui ver, tinha comprado os bilhetes para ir ver o teatro, o Kabuki. Século que ele começou, século XVII para aí.
As máscaras.
As máscaras. É fascinante, efetivamente. E estava ali fora sentada, à espera para entrar, a ver o que é que se passava e tal. A observar, a analisar. Senta-se uma senhora, uma japonesa. Outra coisa que eu achei extraordinário foi que elas andam de quimono na rua. Que eu sempre achei que aquilo era só folclore ou era só para festas. Não, andam na rua, as senhoras andam na rua de quimono. A senhora sentou-se ao pé de mim, perguntou se podia sentar-se. Com certeza que sim. Ela num inglês muito, eu não falo japonês, mas muito macarrónico. Lá estávamos ali a conversar um bocadinho, de onde é que é, de onde é que não vem. Lá lhe expliquei. Quando a conversa acabou, a senhora levantou-se e agradeceu-me ter falado com ela.
Querido.
Ou seja, eu era a estrangeira no país dela. A senhora, de uma educação extraordinária, agradece-me ter falado com ela. E eu achei isto uma delicadeza, é um pormenor. É muito japonês, é muito espírito daquele povo. E depois tecnologicamente, não há.
É um mundo à parte.
É outro mundo.
E fui atendido por robôs, quer dizer, o que é isto?
Sim, há quantos anos, não é, João? Há quantos anos, claro.
Também gosta de África, não só porque retornou a Luanda, onde nasceu, para dar aulas, por exemplo, mas também o Ruanda, a Costa do Marfim, a Namíbia, passou imensos países de África que dizem sempre muito, por ter nascido lá?
Se calhar, é provável que sim. Eu costumava dizer e continuo a achar isso. Também é outra coisa politicamente incorreta. Eu acho que África é um bocadinho a esperança ou ainda ali uma zona que nós temos que pode ser, salvo a palavra muito forte, mas é ali um bocadinho uma ideia que nós temos, porque está ainda muito por...
Moldar?
Talvez. A relação com a natureza continua a ser muito forte, a relação com o ambiente continua a ser muito forte. Infelizmente, nós estamos a estragar, nós, ocidentais.
E nós temos pouca presença da natureza, eles têm muito mais.
Exatamente.
E tem outra coisa boa, os ancestrais e as famílias alargadas e a ligação com os que partiram. Nós perdemos muito isso. Para nós é tabu a morte e ainda é.
É, o respeito pelo mais velho.
Sim.
O cuidado, a entreajuda, a história tribal, quer dizer, a origem tribal, que depois ainda se mantém aqueles laços familiares e de uma família muito alargada. Porque a família não é só como nós hoje temos a família nuclear. Ali a família é muito alargada, pois obviamente que sim, quer dizer, a relação com a morte é completamente diferente. Nós, o João dizia bem, nós temos muitos tabus, temos muito tabu ainda. É um não tema, não é um assunto.
Exatamente.
E lá não.
Infelizmente, porque faz parte da vida.
E depois é a simplicidade com que o africano Olha para a sua vida, para as suas dificuldades. Por exemplo, em Cabo Verde, a morabeza é efetivamente uma maneira de estar muito própria. Você chega a Cabo Verde, o caboverdiano-
Eu gostava muito de conhecer
...recebe-o, convida-o para entrar em casa, oferece-lhe um copo de água, porque não tem mais nada. Mas oferece-lhe um copo de água sem nenhum problema, sem estar a pedir desculpas, nem estar a pedir nada. Está aqui, é o que eu tenho.
Exatamente. E mais não é obrigado.
Sim, mas faz isto com muita naturalidade.
Mas é um povo trabalhador.
Sim.
E a música, a cultura, os escritores extraordinários que têm.
E a música.
De facto, é uma força da natureza, tudo aquilo.
A SPA ajudou.
Apesar de um clima adverso e isso tudo é impensável.
Muita adversidade. Este é o país, sob o ponto de vista geográfico, com mais adversidade.
No entanto, são um legacy.
É um povo muito trabalhador. A SPA ajudou a constituir a Sociedade de Autores Caboverdiana, que hoje está a funcionar. E isso é um orgulho que temos.
Exatamente. Eu vi, aliás, no YouTube, estão os vídeos também com a Paula.
Sim.
Muito bem. SPA, cooperativa com responsabilidade limitada, fundada então em 1925. Eu não sabia que tinha havido umas tentativas fracassadas antes. Em 1873 e 1911, já tinham tentado criar esta sociedade protetora, mas não, só depois em 25. Então 22 de maio, com Mário Duarte, este ator e crítico que era cirurgião-dentista, eu adoro isto. O Júlio Dantas, o famoso Júlio Dantas.
O primeiro presidente da SPA.
O Henrique Lopes Mendonça, que escreveu a letra do "Ultimato", que no fundo tornou-se o nosso hino, a portuguesa. O André Brune, eu só me lembro da "Vzinha do Lado" e de outros teatros que ele tinha feito. O Félix Bermudes, então, o tal benfiquista, que traduziu aquele poema maravilhoso do Rudyard Kipling, do "If", e que foi presidente do Benfica tantos anos. Fundaram então esta SSCTP, Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais Portugueses. Era a sede ali nos Restauradores, primeiro presidente, o Júlio Dantas, e depois o Félix Bermudes, com grande ação. Tem hoje este presidente, o José Jorge Letria, o vice-presidente, o Antão Zé Brito, a Paula é administradora, o Pedro Brilhante é o presidente da Assembleia Geral. Ainda agora partiu, eu conhecia, o Renato Júnior, foi uma pena. Morreu já este ano, tão novo, e que tem esta função de autorizar a utilização dos titulares dos direitos e protegê-los, que os caráter social, caráter cultural, mutualista, cobre esses direitos de autor, distribui pelos autores. São muitos, 27 mil, é brutal. Em cada reunião mensal, diz que há 60 novos autores que se juntam ou que querem aderir. E depois é conhecido também pelos prêmios. Os prêmios SPA também são famosos. O José da Ponte, o Prêmio Irajas Queiro para a personalidade da rádio, o Jornalismo Cultural, o Prêmio Mário Mesquita, o Prêmio Mariano Gago. Há muitos, uma biblioteca extraordinária, muitíssimo bem apetrechada. E vêm agora então estas comemorações. Já tem ali aquele logotipo do José Guimarães, agora para o centenário. Já nesta quinta-feira, é a gala que acontece já esta quinta ou não?
Depois de amanhã, quinta-feira, dia 22 de maio, que é mesmo o dia da SPA.
Exatamente. Dos 100 anos.
Como o João acabou de referir, foi a 22 de maio, portanto, o dia em que efetivamente se celebram 100 anos.
Incrível.
É uma das mais antigas do mundo.
É mesmo. E com uma ação tão importante.
E tem esta característica, já agora, eu acho que é importante referir isto, tem esta característica de ser multidisciplinar, como o João muito bem referiu ao início. Mas eu gostava de destacar, porque a maioria das sociedades de autores no mundo são-
É só para compositores ou autores.
Exatamente.
Ou literatura.
Na Europa só há duas que sejam assim.
Généricas, como a nossa?
Como a nossa. Nós e a Belga.
Não sabia.
De resto, são ou da música, ou do teatro, ou do audiovisual.
E em Angola também não era compositores musicais? O nome é assim.
Sim, União Nacional dos Autores e Compositores.
É, não é?
Sim.
Mas também tem arquitetos, ou não?
Arquitetos, não. Mas também é uma sociedade que nós fizemos um projeto com eles. Enfim, e com o apoio da OMPI.
Que é o grande dono.
Exatamente. Tivemos três diretores de departamento durante três semanas a correr Angola e Moçambique, precisamente a dar formação in loco. Explicar lá como é que se tratam os direitos de autor e como é que se faz a distribuição. Mas sim, volto à sua questão, João, dia 22 de maio, quinta-feira, o que é que nós vamos ter? Vamos ter um lançamento de dois selos, portanto, uma emissão filatélica que os CTT fizeram especialmente dedicado ao centenário da SPA. Dois selos muito bonitos, vale a pena serem adquiridos.
Boa, vou estar atento.
Exatamente.
Há este livro, não é? "Em Nome dos Autores".
Temos o livro, "Em Nome dos Autores", que tem efetivamente as mensagens.
Compilação de textos de teatro e de cartazes.
Os mais interessantes textos.
Deve ser muito cheio.
Sim, das várias mensagens, vários dias.
Dos dias do teatro, dia da música.
Exatamente. Temos depois a entrega de medalhas de honra a personalidades da sociedade civil, que se destacaram, não especificamente em relação à cultura, mas que são pessoas cujo contributo para a sociedade, os autores portugueses entendem dever relevar e destacar. Temos entrega de dois prêmios de consagração de carreira, à Associação 25 de Abril, um deles, e o outro ao Licília.
Cantor, autor, famoso.
Sim, exatamente. As medalhas de honra são a personalidades muito diversas, desde a professora Margarida Mano, até o Alvis Amarando Gamer Marques, a professora Irene Pimentel, a Fundação Lelo, a Fundação Oriente. Portanto, são entidades muito diversas e de áreas distintas. Depois terminará com uma pequena atuação do Samuel Úrio.
Que bom. Tão é bom.
É o dia 22 de maio.
E depois há uma gala, não é?
Vamos transmitir em streaming.
Ok. Quem quiser pode ir ao site da SPA.
Pode nos acompanhar no site da SPA.
Isso é extraordinário.
O espaço, sim, exatamente.
E vai ser lá, no auditório.
É no nosso espaço, é no nosso auditório.
Na sala Galeria de Casparets.
Na sala Galeria de Casparets.
Que, aliás, celebramos o centenário este ano e por isso tem lá uma pequena exposição, não é?
Exatamente. Nós também temos uma pequena, é mesmo pequena Mas muito simbólica.
Alguns objetos dele, que ele deixou em testamento à SPA.
Temos a guitarra de concerto do Carlos Paredes exposta. E depois alguns pequenos objetos dele que mostram como era o Carlos Paredes enquanto cidadão, enquanto pessoa: o passe, a carteira, a caixinha dos óculos, depois alguns livros anotados, os discos de ouro, platina, etc, que ele ganhou. É muito interessante. É pequenina, mas tem estes objetos muito simbólicos.
A SPA também, a propósito dos 100 anos e a propósito das novas gerações, Paula, também tem essa sensibilização junto das escolas. Continua a fazer isso, a promover algumas visitas de autores a várias escolas. É muito importante.
Nós tínhamos um projeto, durante anos, junto das escolas, que depois interrompemos com a pandemia. E agora vamos recuperar. Aliás, é um dos projetos que nos tem estado a ser, de certa forma, pedido novamente.
Mais solicitado, exato.
E curiosamente, não só por parte das escolas, como por parte de alguns autores que nos vêm dizer: "Bom, nós estamos disponíveis e isto é importante chegar às escolas e fazer". E é engraçado, porque nós pegamos em alguns autores, conhecidos, obviamente, e chega-se à escola, explica-se o que é o direito de autor, de uma forma apelativa.
Exatamente, convidativa, aos miúdos. E a importância.
E exemplifica-se.
Ah, ok.
O autor leva a sua viola, por exemplo, e diz assim: "Olha, vamos agora aqui fazer uma composição". Faz lá a letra. Enfim, fazem ali uma letra.
Às vezes lê uma letra.
O autor faz alguns acordes. Musica, exatamente. E então sai ali um conteúdo novo. E depois explica-se: "E agora, se nós registrássemos isto, passava a gerar direitos. Amanhã, quando isto passar no YouTube, tu vais receber por não sei o quê".
Ou numa rádio. Esse é um bom exemplo.
E portanto, era uma das formas que nós temos e temos que fazer isso cada vez mais, porque de facto temos que continuar a sensibilizar os jovens para esta questão.
Estamos agora a terminar, temos mais um minuto. O ano passado, já tinha havido em maio, se não me engano há um ano, este encontro "A Inteligência Artificial e a Cultura: do caos à descoberta", que depois gerou um livro, editado pela Gradiva. É, de facto, talvez o desafio maior, e a Paula estudou isso, fez uma pós-graduação disso. A questão da inteligência artificial, com tudo que isto implica dos direitos de autor. As pessoas fazerem teses de doutoramento com isto, conseguir copiar um texto e mudar um bocadinho, fazer um prompt certo para isto mudar um bocadinho e para poder apresentar como seu uma coisa que é de outro. Isto não traz desafios incríveis à Sociedade Portuguesa de Autores, neste caso?
A inteligência artificial generativa é o desafio que a Sociedade de Autores neste momento tem. Não é que vão ter, é que têm.
Porque já cria sinfonias à Beethoven e romances à Isabel Allende. O que é extraordinário.
O que é extraordinário é nós pensarmos que isso é feito com base nos conteúdos protegidos dos autores que criaram efetivamente as obras.
Que fazem parte do big data que governa.
Essas obras que alimentaram a máquina, que ensinaram a máquina para depois tentar criar uma coisa parecida. E, portanto, o que há a fazer é regular a forma como.
Isso é possível fazer, Paula?
Claro que é.
Está a avançar a União com leis.
Está a avançar nesse aspeto. Portugal tem tido um papel importante aí.
Isso é muito importante. É o desafio atual.
Tem que ser. A IA é extraordinária, é muito importante, é uma ajuda, é uma ferramenta, mas tem que ser controlada, tem que haver regras e tem que haver ética.
Claro. E é isso que configura todos os desafios. Ainda bem que a Paula, que é administradora neste momento da SPA, porque estudou na Universidade de Chicago exatamente este assunto. E de facto, eu pensei logo: isto é o tema do momento para qualquer sociedade de autores, e o direito de autor. Já foi a revolução do digital, agora é esta que é potenciada por mil. É impressionante.
E a SPA tem estado muito atenta. Aliás, organizámos essa conferência internacional há dois anos.
Há dois anos.
Há dois anos. Já fez agora de 11/02.
Em 2023, exatamente.
Exatamente. Portanto, temos estado muito atentos a isso. E, de facto, o presidente tem sido uma pessoa muito atenta e muito aberta a perceber o que se está a passar.
Autores, estamos em boas mãos. Quero agradecer-lhe, Paula Cunha, administradora da SPA. Mais uma vez, os parabéns por este século. Uma mulher tão nova a tratar de uma coisa com 100 anos, mas muito bem entregue e que está bem de finanças e tudo, o que é extraordinário também, e ainda bem. E consegue distribuir esses direitos de autor e os autores e criadores do mundo inteiro sentem-se protegidos e carnados pela Sociedade Portuguesa de Autores. De facto, nasceu no tempo do cinema mudo, mas tem feito um trabalho extraordinário, tem sabido evoluir. E não se imaginam isso, somos duas no mundo que são tão genéricas como a nossa e que funcionam tão bem. Quero dar os parabéns mais uma vez pela sua sociedade e que corra tudo bem agora para estas cerimónias que se avizinham já daqui a pouco. Bem-hajado, obrigado.
Muito obrigada, muito obrigada nós.