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Para mim, o mais importante foi que me ensinou a ouvir e a sentir música sozinho. Essa é uma diferença muito grande. Eu conheço pessoas que são profissionais, que sabem de música de uma forma perfeita, sabem tudo, ler pautas, mas se calhar não têm aquele toque emocional.

Aos 19 anos, Gui Ali, músico nascido em Lisboa, mas com raízes africanas, saiu do anonimato do seu quarto para se revelar uma das novas promessas da música nacional. Descoberto e lançado por dois primos, decidiu inscrever-se pela primeira vez num concurso de música, o EDP Live Bands, para o qual levou dois temas assinados por si: "Toxic Love" e "Away". Em mais de 350 bandas concorrentes, foi provavelmente o único cantor a solo e o milagre aconteceu. Não esperava nem passar às meias-finais, confessou mais tarde, quanto mais ganhar. Prestes a lançar o seu segundo álbum, como sempre, integralmente cantado em inglês, vem ao "Convidado Este" explicar as razões do seu sucesso. Olá, Gui, e bem-hajas por ter aceitado este meu convite. Bem-vindo à Rádio Observador.

Olá, muito obrigado.

Esta voz é fantástica. É a tua estreia aqui, estamos contentes.

É a minha estreia aqui e estou mesmo muito feliz por vir aqui.

Muito bem. É com grande prazer que estamos aqui a receber-te e a falar contigo. Já estamos ao fundo a ouvir esta voz, que de facto é extraordinária. O teu nome, para já, Gui, vem de Guilherme?

Vem de Guilherme.

E o Ali é quê?

É um apelido meu que vem da parte do meu pai.

Da avó Muna, portanto.

Da avó Muna, exatamente.

A avó Muna é uma boa cozinheira?

É muito boa cozinheira. Já teve um restaurante em Lisboa.

Ah, foi?

Sim, já teve.

De comida angolana?

Desde comida guineense, comida portuguesa, tudo.

Porque tu és multirracial, o teu pai é de Guiné-Bissau.

É de Guiné-Bissau, sim.

Mas com origem também portuguesa.

Origens sírias e portuguesas também.

É lindo. E a tua mãe de Angola.

De Angola, com origens portuguesas.

Isso quer dizer que vocês, por exemplo, em casa, acontece muito, Gui, teres caldo mancarra e de vez em quando teres umas comidas, xabel e mbamba.

Xabel, sim. Ainda há pouco tempo, no meu aniversário, eu pedi logo xabel. Tem que ser xabel.

Foi?

Tem que ser.

Feito por quem? Pela tua mãe?

Foi minha mãe que fez. Aprendeu com a minha avó, com a mãe do meu pai.

A avó Muna.

Com a avó Muna, aprendeu com ela e agora o prato está excelente.

Isto é com manteiga de amendoim. Este caldo mancarra, por exemplo, isto é com manteiga de amendoim.

Sim, com manteiga de amendoim, leva manteiga de amendoim, leva ostras, frango, é tudo que é bom.

E este xabel, portanto, é uma coisa da Guiné também?

Sim, também.

Uma vaca com fruto de palma e cebola.

Exatamente.

Não pode é ter alho.

Não pode ter alho.

Por quê? Porque ela não gosta ou não faz parte da receita?

A minha avó sempre disse: "Não leva alho. Na nossa cozinha tradicional, nós não cozinhamos com alho". E diz que recentemente já começaram a introduzir, mas a minha avó diz que não utiliza.

Como ela aprendeu e como ela sempre fez.

Se resultou, em equipa que ganha não mexe.

Exato. E tu que adoras futebol, sabes isso. De Angola, arroz de cabidela. Arroz de cabidela é uma coisa angolana também? Cá há?

Cá há. E há coisas muito semelhantes, como o arroz de rabo de boi, que eu também adoro. Por acaso não sei bem se as origens são semelhantes.

Mas mbamba eu sei que é, com quiabos.

Mbamba, sim. Incrível.

A minha sogra fazia um tão bom.

É verdade.

Muito bem. E calulu, que é este molho com óleo de palma e com peixe.

Que é a única forma que eu como peixe, que raramente como peixe, mas no calulu eu como.

Mas tu és muito atlético, jogaste futebol muito tempo, foste formado até.

Fui formado e continuo também a praticar o skate, continuo a fazê-lo.

Exatamente. E tu ainda jogas futebol com os teus amigos de vez em quando?

Sim, de vez em quando vou jogando.

E mesmo o skate tu fizeste muito a sério, tu que ganhaste campeonatos.

Ganhei campeonatos, cheguei a ganhar um campeonato.

Mas hoje em dia, como tu dizes, eu faço menos, mas tenho medo de me magoar. Para ir a um concerto, porque não vou de muletas.

Ainda há uns dias fui e eu estava lá, eu olhava para os obstáculos e dizia: "Eu já não posso fazer o que eu fazia antes".

"Há coisas que eu fazia, estes tic tacs, já não dá".

Dá para fazê-los, mas é um pouco arriscado. Acaba por ser um pouco arriscado.

Esta coisa da música está na tua família desde sempre. Agora estava a pensar nas cozinhas, mais se calhar aqui a parte da mãe, de Angola. Sempre que cozinham, estão sempre a ouvir música e estão com música no sangue.

Sim, sempre, desde manhã. Quando é fim de semana, a primeira coisa que eu ouço é música quando eu acordo, que a minha mãe que vai limpar a casa e mete música aos berros por aí.

Mas alto.

Alegra, fica muito alegre.

Mas é engraçado porque ela tem esta influência do Lionel Richie, que tu ouvias muito, Michael Jackson, referências extraordinárias. Já agora, dia 22 de abril estreia cá este "Michael", este filme sobre a vida dele, deve ser bem giro, do Rei da Pop. Eu vi ele ao vivo uma vez cá, não eras nascido, em 97, no Estádio de Alvalade.

Minha mãe também foi a esse concerto.

Foi?

Foi.

Foi com a minha mulher, era viva, fomos a um concerto fantástico dele, que veio a voar.

Essa é a memória que a minha mãe me diz sempre.

Mas depois não era ele. Depois vão tirar-lhe o fato com os jatos e depois é outra pessoa que ele entra de repente e pronto. Não ia arriscar isso, mas veio a voar e entrou no palco pelo céu. Pronto, e aterrou em Alvalade. Ela lembra-se disso, que já cá está há bastante tempo.

Lembra-se, ela conta-me sempre que veio de trás.

Vai fazer 30 anos.

Foi de trás, não é?

Vai fazer 30 anos, Gui, meu Deus. Grande concerto. E ele de facto, foi naquela época, de auge dele. Tu tens grandes referências musicais que ouvias em casa e tens que agradecer muito à tua mãezinha.

É mesmo, é verdade. E ao meu pai também, que ele gosta muito de Bruce Springsteen também.

Ah, também, boa.

Então também deu-me aqui referências que eu adoro.

Muito bem, tu querias ser astronauta, como todos os miúdos da tua idade.

Todos.

Mas depois também a nível do desporto, sempre foste muito desportista, a carreira do futebol também é uma coisa que te atraiu também, a certa altura.

Acho que a maioria das crianças em Portugal então, com o sonho, aquele sonho que se cria.

E com as referências que a gente tem.

Com as referências que nós temos, que são top, mundiais, obviamente que cresceu esse bichinho de querer ser jogador de futebol.

Mas a importância da música para ti, as tuas referências, por que a música é tão importante na vida de uma pessoa e na tua?

É uma forma de eu me expressar, é uma forma de eu pensar também. Quando eu ouvo música, eu não estou só a desfrutar daquele momento. Especialmente eu então, enquanto músico, eu vou dissecar a letra, vou dissecar as melodias, a estrutura toda da cançãoE é algo que eu sempre gostei de fazer. Eu sempre gostei de ver como é que as coisas são feitas, não só a música em si. Perceber como é que funciona um carro. Sempre foi algo que me interessava.

És muito curioso.

Sim, sou muito curioso. Minha mãe disse que eu era a criança dos porquês, porque havia sempre um porquê.

Tens mais irmãos?

Tenho um meio-irmão, que é cerca de um ano e meio mais velho que eu.

Ok. E na música, alguém na família que seja artista ou músico?

O meu avô foi baixista de uma banda.

Foi? Que fixe.

O meu avô materno foi baixista e eu só soube depois de começar a fazer música.

Que fixe.

A minha mãe mostrou-me uma fotografia dele numa banda em Angola.

Fantástico. Muito bem, para ti, uma vez que disseste isto: "É mais fácil para mim cantar do que falar".

Sim.

És uma pessoa tímida? Tens ar de ser tímido.

Eu sou um pouco tímido.

Mas tens que ir para palcos, estar no palco. Às vezes sozinho, com 100 mil pessoas a olhar para ti, não deve ser fácil para um rapaz. Tem que lutar consigo próprio.

Para o Guilherme é fácil. Quando eu subo em palco, eu deixo de ser o Guilherme e passo a ser o Guilherme.

Incrível.

E então naquele momento...

Apoder-se de ti, aquela coisa.

Aquela vontade. Acho que é como qualquer jogador, pode ter aquele bichinho de entrar num relvado.

Ou como os atores.

Os atores, mas quando entram no seu campo profissional, têm que se transformar.

Eu pergunto sempre isso aos atores, normalmente: "Ao fim de 30 anos de carreira, ainda tens nervoso miudinho quando entras num palco?" E ele: "Sempre". Mas isso é bom, porque é uma adrenalina.

É a vontade.

Mas depois de estar lá, eu sou outra pessoa, outra forma.

É mesmo.

Não tinha ideia que isso acontecesse contigo.

O pior momento são aqueles cinco minutos antes do concerto.

Sim, aquele estresse máximo.

Vale o suco no palco e vejo a cara das pessoas, está tudo bem.

É fantástico. Aprendeste guitarra na adolescência. Primeiro, aos 13 anos, a parte da música entrou contigo, como disseste, naquela academia que tu ouvias as músicas.

Exato. É mesmo.

E a tua mãe, que te ama tanto e que estava atenta a ti, claro, ainda te pôs lá com umas aulas, mas tu disseste: "Mas não, não é isto, ainda é muito cedo".

"É muito cedo". É verdade, porque eu acho que também é o meu lado autodidata. Eu gosto de descobrir sozinho. E eu estava lá e eu sentia que era tudo demasiado lento ou não era como eu queria que fosse. Então acabei por perder aquela vontade naquele momento, mas logo de seguida voltou. Voltou e com mais força.

E aos 17 anos foste à séria. Aí foste aprender música mesmo?

Ou seja, eu hoje ainda não sei ler, por exemplo, uma pauta.

Ler uma pauta, não.

Não sei. Mas sei tocar música. Eu oiço e lá apanho e lá faço. Mas para mim, o mais importante foi que ensinou-me a ouvir e ensinou-me a sentir música sozinho.

Que fixe.

Isso é uma diferença muito grande. Eu conheço pessoas que são profissionais, sabem de música de uma forma perfeita, sabem tudo, ler pautas, mas se calhar não têm aquele toque emocional.

Falta-lhes isso, não é?

Falta-lhes isso, mas quem consegue ter os dois...

Tem a técnica toda, mas falta a alma.

A técnica é incrível. Muita gente tem uma técnica incrível.

E tu tens muito isso, tu despejas o teu coração em todas as músicas que tu fazes. Tu escreves muita poesia, é engraçado. Na primária já escrevias.

Já escrevia.

Poemas?

Muitos poemas.

Guardas?

Devo ter alguns.

Ou tens vergonha de dizer que guardas?

Não, devo ter alguns guardados. Eu sei que um dos poemas chegou a ser publicado no jornal do agrupamento de escolas, mas agora já não me recordo.

Hoje em dia é as letras das músicas.

As letras das músicas.

O que é engraçado, tu escreves os poemas em português, mas depois cantas tudo em inglês.

Pois é.

Às vezes adaptas, traduzes a letra ou não? Quando fazes a música, é uma coisa especial para a música, sai-te já em inglês?

É, sai logo em inglês. No que toca a histórias e poemas, sempre em português, tem sido assim. Acho que é uma língua tão poética, a língua portuguesa.

Na escola a professora obrigava-te a ler as composições?

Obrigava.

Estou mesmo a ver.

Geralmente era o que me safava na escola, porque eu às vezes não tinha muito interesse pela gramática, que era algo muito quadrado, mas quando chegava à parte das composições, eu adorava.

Adoravas, esticavas-te por ali. Para ti tinhas essa facilidade.

Sim, e depois foi a minha professora de inglês e de português que ficava um pouco à rasca para ler uma composição gigante, que eu tinha que pedir folhas para contar a história.

Porque tinhas essa facilidade, é muito engraçado. Muito giro. A guitarra então aos 17 anos. E tu tens um muito bom ouvido, tens ouvido perfeito?

Não, isso eu não tenho.

Mas consegues, por exemplo, ouves uma música, tu estás já muito à vontade com a guitarra, o Ed, vais ver, o Ed Sheeran no Estádio da Luz, cantar. Ainda foste cantar mais quando chegaste a casa, depois de três horas aos berros. Chegas a casa e consegues produzir a música dele?

Sim, consigo.

De ouvido consegues?

Consigo, com alguma tentativa e erro.

Claro.

Como eu não tenho ouvido perfeito, aquilo que dizem do perfect pitch, mas tenho o ouvido relativo em que nós vamos lá atrás daquela nota e cheguei.

E já procuras o acorde certo.

E hoje em dia, com quatro acordes, conseguimos tocar quase a faça sozinho.

Praticamente, não é? Os dó maiores ou lá menor e por aí fora.

Por aí fora, está feito.

Eu não foi inocente, falei do Ed Sheeran, porque de facto houve esta epifania. Vais fazer 10 anos este ano, uma década, é incrível, o concerto dele na Luz.

Uma década, incrível.

É incrível. E coitado, tu eras um miúdo, deves ter tido quatro anos, faz de conta, e foste ao concerto dele então no Estádio da Luz e foi uma espécie de epifania para ti. Tu disseste: "Eu quero fazer isto".

Eu nunca quis ver tanto um concerto na minha vida como aquele. Nunca.

Incrível.

Eu lembro-me de ter faltado às aulas para tentar comprar os primeiros bilhetes e não consegui. E voltei às aulas no dia seguinte, porque abriram uma segunda data e aí já consegui arranjar os bilhetes e fui com a minha mãe. Lembro-me muito bem desse momento. Foi um momento incrível. Estar num estádio que para mim também é especial, e haver um artista que me diz tanto.

E depois é aquela coisa, ele tem a banda de apoio, mas ele está sozinho. Tu pensaste: "Eu quero isto, eu gosto disto".

Pois é, ele naquele concerto e no outro que eu depois vi também num festival aqui em Portugal, o Rock in Rio. Incrível, os dois sets, foi algo de outro mundo para mim.

E o alinhamento e tudo. Gostaste de tudo. Tudo o que ele fez, gostaste.

Gostei de tudo, da interação dele com o público.

Um dia vais ter uma interação com ele.

Quem dera.

Tu sabes. Não é só o FX, não é só o DaFX.

DaFX que tem uma ligação com o Ed Sheeran.

Não sabia, que o Ed não sabia. Sei que fez aquela coisa contigo, mas não sabia que tinha feito com o Ed Sheeran.

O Ed Sheeran inspirou-se no DaFX para passar a tocar com o pedal ao vivoPorque o Dub FX naquela altura fazia muito isto de busking, ia para as ruas e tocava com o loop pedal do Ed Sheeran e disse: "Isto é muito bom". Começou a fazê-lo. E agora é a imagem de marca do Ed Sheeran.

Não sabia. Boa, claro que sim. E ele é muito bom, este Dub FX australiano, multi-instrumentista, muito criativo e que tem esta colaboração contigo do "Crash Me Down", este live mix. Giríssimo.

Eu adoro esta versão.

Giríssimo, esta tua versão com ele.

Uma pessoa cinco estrelas.

Muito giro. E gostei também, Gui, porque é outra onda diferente do que a gente está habituado a ouvir de ti sempre. E tu: "Não, eu vou inovar com este gajo", e inovaram os dois. E correu muito bem, isto está giríssimo. Ele todo acelerado e com o rap dele, impecável, e quase alinhamento.

Lindo. O mais importante disso tudo é que foi ele que veio falar comigo.

Ah, que giro.

E é um artista muito nome que faz tour quase todos os anos. E eu me lembro de estar a tocar no concerto, ele estava lá a ver, ele veio ter comigo no final do concerto e disse-me assim: "I wanna do a song with you".

"I wanna do a song with you".

"Aquela última canção que tu cantaste, que era Crash Me Down, eu adorei". E eu assim: "Sei muito bem quem tu és, és o Dub FX". Eu disse assim: "Vamos fazê-lo". E ele na altura morava cá em Portugal e foi muito fácil ir ao estúdio e trabalhar.

Boa. Então aquilo foi gravado cá?

Foi gravado cá.

Muito giro. De facto, tu cantaste muito naquele concerto do Ed Sheeran que foste e que te marcou muito. Tu escrevias já poemas, tinhas este desejo, esta coisa louca, até que tu és, de facto, uma das vozes mais promissoras, promissoras não, que já deste provas, da pop nacional.

Obrigado.

Em 2020, então, tu fizeste este "Toxic Love", tinhas ainda 19 anos, estavas para fazer 19 anos.

Sim, pois foi.

Há uma prima e um primo que foram muito importantes.

Os dois culpados.

Os dois, exatamente. Ela ouviu-te cantar e ela própria era música, ela toca também baixo e piano.

Baixo e piano.

Pronto. E ouviu-te cantar, o tema do One Direction, era este?

Era, o tema do One Direction que ela tinha me ouvido cantar.

E ouviu o quê? Ouviu online ou ouviu-te ao vivo?

Eu tinha mandado um áudio.

Ok.

Tinha mandado um áudio, que eu me senti muito à vontade com a minha prima.

Sim, claro, é família e tal, nunca pensaste.

E eu estava já acostumado até, na altura em que eu não sabia tocar muito bem guitarra, pedi pra ela tocar no piano e ajudar.

Que giro, boa. Quando tu compões músicas hoje, é sempre com a guitarra?

Já não, já consigo compor ao piano também.

Também?

Também, já faço também ao piano.

Que é mais fácil.

E são dois instrumentos que falam pra mim de forma diferente. Até mesmo a guitarra elétrica, apesar de ser uma guitarra também, eu quando pego no instrumento, vai sair sempre algo diferente. E é uma lição que eu aprendi, que é pegar em instrumentos diferentes, escrever em espaços diferentes.

Ok, boa.

Para não ser tudo assim tão semelhante.

Porque espaços diferentes quer dizer não ser só nas white walls.

Nas white walls.

No teu quarto.

Exatamente.

Ok. Então agora estou a pensar qual é o nome do segundo álbum que vem aí, estufas, marquise? Sei que tem a ver com casas e com plantas, e, portanto, estufa, não sei.

É assim, eu posso dizer aqui que eu vou apresentar mais que um projeto.

Ok. Além do segundo álbum, que é de verão?

Além do segundo álbum.

Está quase, não está?

Está quase. Mas eu vou pregar aqui uma partida às pessoas, ainda. Vou introduzir aqui um EP de verão, mesmo antes do álbum sair.

Ah, ok, boa. Com este Back Again e este genre de coisas?

Não, vai ser com canções muito mais para cima.

Ah, ok. Quando diz para cima, é o quê? A nível de beats?

Canções de verão.

Ah, que giro, boa.

Era o que eu sentia falta no meu trabalho, no meu projeto.

Ok.

É tudo sempre muito introspectivo, melancólico. E surgiu esta oportunidade de não só eu tocar num grande festival, como apresentar canções novas e diferentes neste festival. Então, eu vou fazê-lo.

Então isto é uma surpresa.

É uma surpresa. Vão ouvir aqui.

Ok.

Está aqui a surpresa em primeira mão.

Exatamente, em primeira mão. Muito bem, então em 2020 mandaste outro primo teu, um clipe a cantar este Toxic Love. E ele pegou nas tendências Twitter Portugal e pôs aquilo. E é aqui que entra o Evandro.

É aqui que entra o Evandro.

Viu aquilo e disse: "Uau".

O querido Evandro. É aqui que ele entra.

Este luzongolando extraordinário, que ofereceu-se o quê? Para ir gravar contigo?

Gravar. A minha primeira experiência em estúdio foi com o Evandro.

Ah, que giro.

Foi graças a ele.

Isso é incrível. Deu um jeito fantástico.

Fantástico.

O Evandro é extraordinário, este luzongolando, ele concorreu aos ídolos há uns anos também, e ao Got Talent, por exemplo.

Já está aqui há muito tempo.

Mas tu, por exemplo, nunca tiveste coragem de ir. O The Voice também não irias?

Não.

Faltava-te o quê? Hoje em dia se calhar já irias.

Se calhar. Se eu não estivesse no patamar onde estou e com o apoio que tenho da minha equipa, provavelmente teria me aventurado no The Voice.

Estavas àquela altura do receio, já há uns anos.

Receio, sim. Eu acho que o EDP Live Bands foi indicado pra mim.

O EDP, exato. Live Bands.

Porque é mesmo feito para cantores e cantautores.

É.

Enquanto que o The Voice é muito à base de covers.

Provavelmente serias o único a solo lá.

Sei que fui o único solo.

Porque isto era Live Bands, não é?

Sim.

É suposto terem bandas e foram, se calhar, 354 candidatos, meu Deus!

E foi a última edição, ainda por cima.

A sétima e última, foi?

A sétima e última.

Atenção, nós estávamos quase na pandemia, se não me engano, ainda há filmes teus entrar lá.

Foi durante a pandemia.

Há filmes lá com máscara ainda.

Com máscara.

Meu Deus! E tu, entre 354 candidatos, 40 semifinalistas, foi apurando seis finalistas e depois acabas por ganhar tu. Não esperavas nada ganhar, pois não?

Não.

Tu sabias que eras bom, as pessoas diziam: "Tu és muito bom" e tal. Mas devia pensar, entre 354, pra tua autoestima, foi assim, um boost.

Foi, eu diria que naquela altura-

Foi uma balagem de creatina inteira.

Foi. Mas também um pouco de ansiedade, porque de um momento ao outro sair do anonimato para ter algum tipo de reconhecimentoÉ uma mudança radical para quem é mais tímido.

Quem é mais tímido, está nos seus white walls.

O seu white walls, exatamente. Mas eu vou dizer que foi a melhor surpresa da minha vida, porque foi mesmo uma surpresa. Às vezes há pessoas que vão lá e pensam: "Eu até posso ganhar isto", mas eu tinha isso completamente riscado, essa opção.

E também se fossem 10 concorrentes, 12 concorrentes, há mais hipóteses. Agora, tu eras um em 354.

E era aquele que não tinha experiência nenhuma. Haviam bandas com tours europeus.

Tu surpreendeste, como eu fiquei completamente rendido quando te ouvi pela primeira vez, como eu já te contei isto antes de irmos para o ar, a questão de ter-te ouvido. Já tinha ouvido as tuas músicas e estava naquela: "Este cara é ótimo, fez lembrar o Gibson, fez lembrar sons que eu adoro. Tom Odell, sei lá". Este género que eu gosto muito também. E de repente, aparece um reels teu a dizer, as pessoas pensam que é um inglês a cantar: "Não, sou eu e sou português, eu canto estas músicas". Ele teve quase que fazer esta afirmação.

Teve que ser.

Bem-sado Instagram que tem um filme teu a dizer: "Sou eu que estou a cantar isto, ok? Eu sou português". Portuguêsíssimo e com inglês perfeito, isso é extraordinário, o teu inglês. Vamos falar disso. Mas já temos que ter aqui um brevíssimo intervalo. Até já, Gui. Estamos a conversar com Gui Ali, ele é o músico lisboeta com raízes africanas, que se prepara para lançar um segundo álbum de temas originais, como sempre, todos cantados em inglês, e prepara-se também para lançar um EP de verão com um beat mais de verão, mais mexido, que é mais uma surpresa que ele anunciou aqui no Observador. Estamos ainda na sétima edição e última, fiquei a saber, não sabia que era a última, do EDP Live Bands, que foi no Campo Pequeno. De repente, tu tinhas ido no máximo a umas escolas.

Fiz duas listas, uma na minha própria escola e outra em Setúbal.

Sim, e de repente chegas ao Campo Pequeno com ele. Só aí mais alto.

Tive que aguentar.

Exato. E depois, em cima, sozinho, com a tua guitarra na mão, com aquele teu ar ótimo, teu ar muito doce, é muito bom.

Obrigado.

E inclusive, neste primeiro toxic love que tu tocaste, até tiveste uns problemas de som, houve ali uma coisa que não correu bem a princípio.

Houve, sim.

Eu ficaria em pânico feito.

Eu fiquei, mas eu pensei: "Eu não tenho nada a perder aqui, vamos cantar como se não tivesse acontecido nada".

Não está garantido, como dizia o outro.

A minha mãe diz sempre isso, não está garantido.

É uma coisa que eu aprendi também, a meu custo, mas aprendi, não está garantido, vamos arriscar.

Eu também tive um grande boost antes de entrar em palco, porque o Evandro fez-me uma surpresa. Ele tinha me pedido para pedir ao EDP Live Events e depois, 10 minutos antes de eu subir a palco, ele apareceu no camarim. Surpresa e deu-me ali umas grandes palavras, motivou-me muito. E eu cheguei ali e foi cantar.

Quando tu ouviste que tinhas ganho, não estavas a acreditar.

Não.

Achaste que era para o outro e ainda olhaste para trás.

Enganaram-se no nome.

De facto deve ter sido uma sensação.

E naquela altura até havia recomendações para, caso um dos participantes ganhe, não abraçar ninguém, mas veio todo mundo abraçar-me. O Covid ali desapareceu durante alguns segundos.

Exato. Exatamente, por acaso estávamos em plena pandemia.

Pois foi.

Tu gostas muito de tocar as coisas acústicas.

Sim.

Tudo acústico. Faz sentido continuares a tocar tudo acústico ou vais variar?

Faz sentido agora introduzir dinâmica. Eu vou continuar a tocar em acústico. Quando eu estou a compor canções, faço sozinho em casa e quando surgir a oportunidade de fazer concertos mais intimistas, vou fazê-los também só com guitarra. Mas agora, que eu também já tenho alguma maturidade enquanto artista, quero introduzir esta dinâmica com banda e ter pessoas não só sentadas, mas de pé nos concertos.

Tu vais este ano, 9 de julho, vais estar no Nós Alive. Aí já vais levar a banda também?

Vai ter que ser. Vai ser a maior banda com que eu já toquei.

Mas quando foste em 2022, já eras banda ou eras sozinho?

Era uma banda, mas era uma banda muito mais reduzida. Éramos três elementos num formato quase semiacústico, uma cena muito suave. E agora nós queremos ir para o palco com tudo.

Boa. E depois achei graça também tu contares quando foi mesmo no Nós Alive, mas neste EDP também, já usavas estes in-ears, estas coisas que se metem. Mas tu nem sabias muito bem o que é isto, eu tenho que usar isto, como é que eu percebo para quê. Mas depois percebeste que é útil mesmo, não é?

É mesmo útil. E por acaso, é algo que os artistas hoje em dia têm que investir num bom par de in-ears, porque, por exemplo, eu fui tocar a Espanha.

Um espécie de auriculares, para dizer às pessoas, explicar às pessoas o que é.

Pois é.

Um espécie de auriculares meio transparentes que se metem no ouvido com um fiozinho, um cabo, e aquilo dá o quê?

Dá o som que nós pedimos, ou seja, nós pedimos, por exemplo, um metrônomo, que é para nos ajudar a nos meter em tempo, a banda toda sempre em tempo.

Ok.

E depois tanto estou a ouvir a mim, como estou a ouvir o baterista, como estou a ouvir o teclista e o guitarrista, porque em palco há tanta coisa a acontecer que esses sons podem não chegar.

Exatamente.

Antigamente utilizava-se muito os monitores de chão, aquelas colunas, só que aquilo causava problemas de feedback, em que o som voltava a passar para dentro da guitarra ou do microfone.

Depois há uma desfasagem de X segundos ou o que fosse.

E isto aqui fica tudo limpo.

É verdade, incrível.

E é melhor para os nossos ouvidos também, protege-nos.

Protege, não é? Pois, boa. Importante. E eu lembro de tu dizeres uma vez numa entrevista que fizeste: "Quero fazer uma coisa agora mais dinâmica, com muito mais banda", mas ao mesmo tempo tu também tens muita graça, como a tua parte acústica, teu intimista. Até grandes cantores que eu me lembro, que também tinham programas MTV Acoustic e faziam gravações sozinhos.

Adorava esses programas.

Que é fantástico, eram ótimos. E eu estou a pensar, e depois eu lembrei-me, quando tu disseste isto uma vez numa entrevista, "mas é demasiado sozinho", e eu pensava, o Sobral quando foi, o Salvador Sobral em 2017, que aquilo é tudo uma animação, grandes coreografias, músicas, lasers e coisas, e ele foi sozinho cantar a voz dele, praticamente sozinho, com muito pouca música. A música é linda, isso interessa. E arrebentou aquela gente toda, todas aquelas encenações, foi tudo atrás dele.

É verdade. Eu se só uma vez concorresse ao Festival da Canção, eu gostava de ir sozinho.

Farias aquele registo assim. Claro que sim, faz sentido.

Controlar o meu espaço.

É a tua cara. Exato. Mas depois vem aí a guitarra. Tiveste que fazer um esforço para comprar uma guitarra como deve ser.

Foi. Não é barato. Isto de ir para a música não é barato.

Para ser muito boa, mas é guitarra normal, não é elétrica, não é nada.

Não, é guitarra normal. Depois mais para a frente vou comprando.

É muito caro hoje em dia?Tens que juntar dinheiro.

Tenho que juntar algum dinheiro. Eu diria que, especialmente para a realidade portuguesa, um instrumento de 500 € é um investimento. Acaba por ser um investimento. Não é só o instrumento, porque o instrumento não vem de fábrica perfeito, depois tem que ir a um luthier.

Não sabia. Por quê? Não é para afinar?

O braço às vezes vem torto ou a frete da guitarra, acho que o nome em português também é frete, se estão altas demais e tens que limar. É um processo.

Que separa os rangos. Já percebi.

E há manutenção.

E tens quem te faça isso?

Tenho, em Cascais, que eu trabalho muito com o James, que é um senhor fenomenal. Adoro.

E tem manutenção, todos os anos tens que lá ir?

Todos os anos, fazer hidratação.

Ano a ano? Que engraçado. Boa, para ter sempre a guitarra.

A parte de trocar as cordas eu faço-o sozinho, mas a manutenção-

Por isso é que tu não viajas com o teu instrumento.

Por enquanto, não.

Como diz, levas o quarto e é um pau. O travesseiro dozinho.

Os concertos que eu tenho feito fora, como tem sido em Espanha, vamos sempre de carro ou de carrinho, então consigo levar o meu instrumento.

Tens um estojo bom, com certeza, e rígido, para não haver problema.

Pode cair ali um edifício que aquele fica de pé.

Aguenta, exato.

Aguenta. Para todas as guitarras.

Mas de facto viste que deste este esforço para ter uma boa guitarra, usas ao vivo, estimas muito, é a única que usas ao vivo. Tu tens só uma, muito boa?

Acústica, só uma, e tenho duas elétricas.

Ok.

E guardo também as duas guitarras clássicas que eu tinha antes de me tornar o Gyali.

A guitarra clássica não é das 12 cordas.

É aquela que tem as cordas de nylon. Como se fosse fio de pesca.

Agora que eu aprendi.

E tem um som diferente.

Ok. Agora é o inglês que eu quero falar, porque tu de facto tens uma pronúncia e um inglês muito bom. Já estamos aqui a ouvir um bocadinho o teu "Back Again", este é um dos temas novos que lançaste agora há pouco tempo.

Exatamente.

E que vai constar do teu segundo álbum.

Vai constar no meu álbum, mas não vai constar no EP. Nenhum destes singles que eu lancei até este momento vão constar no EP. O EP vai ter uma roupagem totalmente diferente.

O tal do beat que eu vou ficar à espera de ouvir.

Exato.

Eu estou muito curioso. Este "Back Again", de facto, é fabuloso.

Eu adoro.

É engraçado, como tu dizes, tu despejas o teu coração aqui. Isso é sobre coisas contigo e com a tua namorada, e coisas que viveste.

É isso mesmo.

É coisas. Quando se zangam, quando se passam bem.

Às vezes até podem não ser coisas recentes, mas pode ser algo que tenha acontecido no passado e que só agora que eu estou a falar. Muitas das vezes, quando escrevo uma canção-

É uma terapia?

É, uma terapia. E 100% das vezes eu não chego e faço uma canção com o intuito de: "Vai ser sobre isto". Não, chego ali, cantei umas três palavras, continuo, e depois quando chego ao fim, eu vejo a letra toda que eu compus e digo: "Olha, isto é uma história minha".

Que giro.

É o que acontece.

Muito bom. É engraçado, porque tu tens o inglês perfeito, depois tu dizes: "Não é só da escola", é porque tens família em Londres.

Sim.

E falas muito o inglês deles, que também não é o inglês que a gente aprende. Ontem eu ouvi o Giveon, ouvi o Tom Odell, ouvi esses todos. Extraordinário! Muito bom, sem pretensão, e nota-se que és um inglês a cantar, e não é um português a querer ser inglês. Percebes o que eu quero dizer? Às vezes nota-se que está a fazer um esforço para se falar o inglês perfeito, nota-se. Tu não, tu és sete natural, o que é extraordinário. Tu afirmas esta escrita intimista em inglês, com esta identidade própria. Tu tens músicas em português, mas ainda disseste: "Mas ainda não era o ponto para lançar".

Ainda não é o momento certo para o fazer. Vai acontecer, eventualmente.

Claro que sim.

Só que eu-

Gosto muito deste registo.

É uma língua tão especial que não quero escrever uma canção só porque tenho de escrever uma canção.

Exatamente, por obrigação.

Quero que ela surja.

Muito giro. Estás habituado a ir a Inglaterra, claro que sim.

Sim.

Mas, no entanto, continuas a escrever poemas em português? Ainda continuas a escrever?

Escrevo menos agora, porque há muito trabalho com a música, então tenho que me ocupar mais com a parte de escrever canções.

Quer dizer que és um homem apaixonado.

Sou um homem apaixonado pela vida, pelas pessoas, pela família.

Tão bom isso.

Há felicidade em todo lado.

Quando é que a gente vai ter um livro de poemas teu?

É interessante, um livro de poemas, um livro de contos, algo assim do gênero.

Também já escreveste algum? Contos?

Já escrevi contos. O meu pai até que tem um blog, houve uma certa altura em que partilhou lá um.

Um conto teu.

Conto meu.

E está assinado como? Gyali?

Acho que deve estar assinado Guilherme Ali, provavelmente. Naquela altura devia ser como Guilherme Ali.

Que idade tinhas? Foi há muitos anos?

Faz algum tempo, se calhar nem 19.

Ok.

Será que tinha 17?

Vou procurar, com o teu pai. É preciso dizer que em 2022 tiveste no Nossa Live, foi o primeiro festival que tu fizeste, no fundo.

Foi o meu primeiro festival em Portugal. O meu primeiro festival tinha sido no dia anterior em Espanha.

O Mad Cool?

Mad Cool Festival.

Mad Cool Festival. Foste a Madrid primeiro?

Fui a Madrid primeiro.

Não sabia. Achava que conhecia o Nossa.

Foi engraçado.

E a recepção foi boa?

Foi.

Foste bem recebido.

Tenho que dizer aqui, não é uma crítica a quem trabalha no Mad Cool, mas a organização aqui em Portugal, dos festivais-

Foi melhor.

Muito melhor.

Pronto, então. Não era isso que querias dizer, não é uma crítica, mas se foi melhor ali, que seja feita.

Para o povo português perceber que nós temos aqui uma capacidade de organização de todo este tipo de eventos, que é incrível.

E acho que ouvindo alguém profissional dessa área e tu dizeres isso, para nós fica muito bom.

Acho que as pessoas não têm bem esta noção.

Vês o lado de lá.

É uma diferença bem grande.

Muito bom. E também o Melcalorama, também tiveste, e assinaste com a Sony Music Entertainment. Isso fazia parte do EDP Live Events.

EDP Live Events, sim. E depois tive a tal oportunidade, uma grande oportunidade de continuar com a Sony Music, que é o que me permite fazer isto, fazer estas canções.

Fantástico. Muito bons. White Walls, então, em 2022, valeu te elogios de crítica e o reconhecimento do Noah Kanan, o Alec Benjamin, esses falaram contigo mesmo.

Sim, também o Baxter Durie, que tocou no Calorama, que também é de Londres, ele veio ter comigo e conversámos um bocado.

O Pitino.

Ele tinha me perguntado de que parte de Londres é que tu és. Eu digo: "Não, sou daqui, sou daqui de Lisboa, aqui ao lado".

É extraordinário.

O festival foi na Bela Vista, e eu moro também em Chelas. E ele: "Olha, eu sou daqui do lado".

Morreu lá.

Também.

Muito bom. Hoje em dia falas com o Noah Kanan, por exemplo, falas no Instagram.

Sim. Não é um apaixonado por futebol como eu. Eu gosto muito de Chelsea, também.

Claro, tem assunto que nunca mais acaba. E com o Alec Benjamin, também no Nossa LiveO nome do primeiro álbum, este "White Walls", é por causa das paredes do teu quarto, não é?

Sim.

Porque é onde tu compões as tuas músicas.

É onde eu componho. Quando eu soube que ia fazer um álbum, as canções já tinham sido todas praticamente escritas lá, e eu depois fui forçado a fazê-lo lá também por causa da pandemia. Então, foi tudo enquadrado naquele espaço.

Exatamente, daí os white walls. Este segundo, já não tens essa desculpa.

É verdade. Já temos aqui outra dinâmica.

O próximo vai ser "High Ceiling". Muito bem. Olha, "Grayness", "Are You Better", "Ruin You", "November". Este "Are You Better", por exemplo, é um hino à amizade, uma coisa extraordinária, é um grande tema.

Obrigado!

Tu tens quem ouça primeiro as tuas canções, tens beta listeners para os teus temas?

Tenho.

Quando tens um tema novo, mostras a quem? À tua namorada?

À minha namorada, à minha mãe e à minha editora.

A mãe gosta? O que diz?

A mãe gosta.

A mãe, o que diz?

Acho que a sensação que a minha mãe faz, que é esta de quando ela fecha os olhos, eu sei que a canção vai ser boa. E foi o caso, por exemplo, da "Back Again", que agora está a ter números que estão a superar.

O Back Again, o YouTube já te disse: "É a música mais Gui Ali".

É a música mais Gui Ali. É verdade.

É muito giro dizer isso. E eu percebo o que ela quer dizer com isso.

É muito à base da guitarra, também.

Sim, e aquele teu tom, as letras fantásticas que tu consegues fazer. E depois eu adorei a mãe dizer: "Olha, é muito a tua cara esta música". É muito bom. Então pronto, em 2026 vai lançar este EP e este segundo álbum aqui neste verão, que ainda não tem nome. Quer dizer, tem, mas ainda não... Queres chegar mais à frente?

Eu quero primeiro agora empurrar este EP, que vai ser uma narrativa totalmente diferente e mostrar às pessoas que existe um Gui Ali, além do Gui Ali das canções sentimentais, também existe um Gui Ali que é capaz de fazer canções mais upbeat, canções mais para cima, canções mais de verão. E é isto que eu vim aqui apresentar também.

Muito bem. O tema "Back Again", por exemplo, já apresentaste ao vivo perante salas esgotadas em Lisboa e no Porto. Estamos a falar do Hard Club, lá em cima, e do Lábrego Lisboa Vive, aqui em Lisboa. Tu ouviste estes concertos do Miles Kane, foi uma grande honra?

Foi uma grande honra.

Gostaste imenso?

Adorei.

Tens noção que qualquer dia o Miles Kane vai abrir os teus concertos.

Quem me dera. Era incrível. Para já, ele tem uma equipa fantástica. Todo o show, toda a energia que há à volta daquele show, também os fãs dele são incríveis. Estamos a falar de rock britânico. E eu não faço propriamente rock, mas as pessoas receberam como se eu fosse o Miles Kane.

Imagino que é esse complemento.

É incrível mesmo.

E no fundo, ele tem aquelas mesmas, Arctic Monkeys, ele tem um bocadinho as referências. Oasis. Vem um bocadinho da mesma onda que tu gostas também muito e vocês comungam ali muitos estilos de inspiração.

E consumimos também o mesmo estilo de música britânica que há, então só tinha que dar certo. E deu certo.

Ainda não fizeste nenhuma tour, nem sequer nacional.

Nem sequer nacional. Já fiz uma tour de FNACs, por acaso. Mas é um registo totalmente diferente, uma tour acústica, e eu espero um dia conseguir fazer uma tour nacional, europeia, por aí fora, com banda também.

Quando dizes que foste à Angola, visitaste o quê? Família que tens lá?

Visitei a minha família, sim. Fui lá duas vezes, estive lá em duas ocasiões. É um país lindo. Ainda não fui lá na condição de músico e eu gostava muito de ir lá.

Foste com a família, portanto.

Fui com a família.

Está bem.

Para fazer um projeto em Angola, por exemplo. Escrever canções lá, porque é um espaço inspirador. Posso até não escrever canções, é alguma coisa a ver com-

E gostaste de perceber que és raiz da mãe e não sei o quê.

É incrível.

A Voumuna.

As semelhanças que têm com Portugal.

Ok.

Gigantes também. E ao mesmo tempo, depois tem aquele-

Pensei que era os céus e aquelas baías.

O cheiro.

Tu naseste onde? Em Luanda?

A minha família vem do Lobango, mas agora tem muita gente a morar em Luanda, então vou muitas vezes ali para Luanda. Incrível também.

Incrível.

Uma zona linda.

Amigos meus que eu sei que vieram de lá, dizem que não há nada que se compare, ficam sempre com aquele bichinho para voltar, porque moravam em barcos. Bairro com o nome de Estala Velado, por exemplo, em Luanda. E têm saudades daquela terra, daquele cheiro da terra, daquele mar.

Eu compreendo. O meu primeiro impacto foi quando eu saí do avião, e o cheiro e a sensação do ar era totalmente diferente daqui. Totalmente. E há esta coisa de haver cheiros para as localidades, e Londres também tem, quando vou para Londres, tem um cheiro diferente e traz-me um estado de espírito também totalmente diferente, como se estivesse aqui em Lisboa.

Muito cheiro. E Suíça, também foste à Suíça a nível de passear?

Passear, ver família também. Eu tenho família por todo o mundo. Tenho esta vantagem de poder viajar para certos sítios.

Mas também não foste cantar lá, na Suíça não foste.

Não, mas há um local que eu gostava muito de ir, que é o Reussir's Guitar, que é um sítio lá onde fazem atuações acústicas e o Dermot Kennedy, que é um artista que eu adoro muito, também foi lá. Espero um dia também poder fazer isso. Acho que a Suíça também é um país lindo, lindíssimo.

Muito bem, os temas mais batidos, este beat de verão que vem aí, o que é que te inspira? É 90% da tua vida, é biográfico?

Sim, diria que 90% é minha vida. E até mesmo o que não for a minha vida, eu experienciei isso através da minha vida. Acaba por ser assim, vendo as outras pessoas. Exato, ou seja, tudo que existe à minha volta é um motivo de inspiração.

És um homem de amores, portanto.

Sou um homem de amores.

Não és um homem de ficar sozinho.

Não, não sou. Eu sou uma pessoa que quando se apaixona, fica. Eu, por exemplo, até hoje não largo o futebol, não largo o skate.

Há coisas que gostas e-

Fica sempre. É permanente.

Como é música neste momento.

É como a música.

Estas colaborações, estava a pensar agora nisto, se calhar um dia vem aí uma colaboração com o Evandro, estes teus padrinhos, o Bispo.

Os meus dois padrinhos da música nacional.

Apadrinharam-te e tal. Se calhar, um dia, quem sabe, com o Shawn Mendes, também gostavas, eu sei.

Era incrível. Também gosto muito da Mara, por exemplo.

Ai, a Mara é fantástica.

Adoro.

Grande voz também. Também tem muito a ver contigo. Se não fosses músico, Gui, o que é que te vias a fazer?

Tinha que ser algo queDespertasse algum sentido de expressão meu. Podia ser escritor. Por exemplo, o pai também já escreveu livros e como também é jornalista, acabo por beber daquela experiência da escrita, da expressão dele, mas seria algo por aí.

Expressar pelas artes, para alguma arte.

Para alguma arte. Até mesmo o skate acaba por ser uma arte de expressão. Até mesmo no social, basta ver as roupas que as pessoas vestem.

Exatamente. As baggy jeans.

As baggy jeans, a música que as pessoas ouvem, é tudo.

Então este 9 de julho vamos poder ver-te no NOS Alive. A primeira vez depois de 22 e é a primeira vez que voltas lá.

É a primeira vez que volto lá. Não posso esperar.

Com banda. Agora fiquei curiosíssimo com estes EPs que vais lançar agora, com este "Upbeats" que aí vem. Nas redes, as pessoas podem, a tua rede é o gui_ali.

Ali, exatamente.

Ali com i grego.

Com i grego, exatamente.

As pessoas não perderem, sobretudo, este contacto com o Gui. De facto, uma voz extraordinária.

Muito obrigado.

Como se ouve. E tu mereces tudo. Vou deixar-te agora um bocadinho com a tua voz, para as pessoas terem mais vontade de te ouvir. Já sabem, tocámos aqui durante esta conversa este "Ruin You", este "November", este "Grayness", "Back Again", é o que estamos a ouvir agora, um tema lindo de morrer. Eu ouvi há bocado também o "Crush Me Down" com esta colaboração, este live remix que ele fez em maio do ano passado com este Dub FX. Teve esta história engraçada dele o ter encontrado. Este one-man show australiano, músico de reggae, de jazz, eletrónica.

Tudo, dubstep.

É extraordinário e foi uma colaboração muito interessante e eu achei que giro. Este "Crush Me Down", um tema dele, do Ali, muito Gui e depois renovado e transformado.

Tem esta roupagem totalmente diferente.

Giríssimo. Eu achei que giro, as músicas dão perfeitamente para fazer estes remixes. Eu gosto muito de remixes e, portanto, gostei muito daquela versão também, confesso.

Também eu adoro.

Gui, a maior sorte do mundo, que tu mereces tudo.

Muito obrigado.

Ficamos à espera das tuas surpresas, deste EP e depois do álbum este verão. E já sabes, tens aqui uma casa, eu acho que este estúdio é pequenino para o teu talento, para a tua voz. Muitos parabéns.

A dimensão é perfeita. Se eu cabo aqui, cabe tudo.

Muito obrigado por teres vindo.

Muito obrigado eu.