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Havia um filósofo que dizia que se podia aprender tudo aquilo que é preciso aprender olhando com atenção para a natureza.

Paulo Condessa era um marketeer, publicitário, consultor de comunicação e professor de sucesso, até que decidiu mudar de vida, tirou a gravata, virou malabarista de palavras. Nascia assim um outro Paulo Condessa, na sua terceira vida como maestro das letras, condutor de palavras do coração até à boca. No meio disto tudo, foi garçom e nadador federado, trolha e ourives, vendeu enciclopédias, apanhou alvará e aprendeu a tocar taças tibetanas. Hoje é autor, poeta, deezer, faz stand-up poetry, organiza festivais de poesia e maratonas de leitura. Tornou-se conhecido por transformar a poesia num espetáculo vivo e acessível, usando a voz, o corpo e a musicalidade para conectar o público com os textos, criando experiências lúdicas e sensoriais através de oficinas, leituras encenadas e projetos que promovem literatura de forma original e envolvente, seja em escolas, tascas, bibliotecas, fábricas ou prisões. Há cinco anos estive aqui a falar de poesia com o Anjos, o Zé Anjos, a quem perguntei: para que serve a poesia? Por que é tão importante? Se me quero iniciar neste mundo maravilhoso, por quem é que devo começar e por onde seguir? E como assistir a uma sessão de leitura de poemas, já agora? Questões que hoje lhe vou repassar. Hoje, neste mundo em guerras egoístas e conflitos de interesse, falamos da necessidade e ainda mais da urgência da poesia. Vamos conhecer melhor o homem que acredita que se pode mudar o mundo com poesia. Olá, Paulo, e bem-hajas por teres aceitado este meu convite. Bem-vindo à Rádio Observador.

Olá, obrigado.

É um grande prazer estar a falar contigo. Ficaste aqui no intervalo a dizer: "Olá, sou eu?"

Não, é porque...

Disse muitas mentiras?

A maneira como tu disseste isso foi muito engraçada e não estava à espera. Para já, da pesquisa que tu fizeste. Não sabendo praticamente nada sobre mim, fazeres essa pesquisa, acho isso espetacular. Não estou habituado a estar nesse papel.

Parece.

E acho engraçado.

É engraçado tu teres nascido em 1961, que é o tal ano que a gente-

Vira-se ao contrário.

Vira-se ao contrário e é a mesma coisa.

Exato.

Deve haver um nome para isso, uma palavra qualquer, não é capicua.

Sim, não sei como é que se diz.

Quando a gente vê de cima para baixo. Em 1961. É tão curioso isso. És um bocadinho mais novo que eu. Estás muito ligado ao Algarve. Em casa tinhas muitos livros, tinhas esta exposição, e eu lembro-me que as pessoas perguntam sempre: "Como é que começou a poesia? Desde pequeno?" Tu dizes: "Não." Em casa havia essa coisa do Herberto Helder, tu não sabias que não era Herberto, nem Helder.

Exatamente.

E pensavas: "O que este homem faz com as palavras? O que é isto?"

Sim, achava aquilo esquisitíssimo. Eu olhava para aquilo, eu lembro-me da primeira vez, exatamente a primeira vez que eu olhei para aquilo, eu abria a página e dizia: "Mas o que é isto? Mas pode-se fazer isto?" Como se houvesse uma regra e ele estava a todos os regras, isto é tudo inventado, mas isto pode-se fazer, mas os livros não têm que ser uma coisa que faz sentido e que não sei o que mais. E é curioso porque um dos meus primeiros impactos com a poesia foi esse, que foi: "Isto é uma maluquice, não faz sentido nenhum."

Mal sabias tu.

Mal sabia eu.

Daqui a uns anos.

Daqui a uns anos, valentes, iria adorar aquilo. Se bem que eu, em pequenino, eu lembro-me de ter escrito uns textos assim a rimar, uns poemas assim a rimar, que as pessoas falavam e eu encadernei tudo. E durante muitos anos eu tive aquilo, mas há pouco tempo fui à procura e já não encontrei.

Alguma mudança, alguma coisa? Quando mudaste, há 11 anos?

Já mudei de casa umas seis ou sete vezes.

Ah, ok.

E houve um período que eu mudei seis vezes em dois anos.

As raízes.

Aí aconteceu muita coisa.

Mas a grande mudança foi em 2014, que foste para o campo.

Sim.

O que quer dizer ir para o campo? Ir para o interior, longe da costa?

Sim.

Longe da cidade?

A minha mulher herdou uma quinta que estava mais ou menos abandonada.

Estamos a falar aqui em Ribatejo, para o centro?

Sim, Ribatejo. Ela foi para lá, também mudou de vida. Ela tirou arquitetura, depois não quis fazer aquilo, mudou de vida. E entretanto eu conheci, comecei a ir para lá, mas estava a fazer piscinas entre Carcavelos e Parede, que era onde eu morava, e a casa dela, e depois decidi: "Não, vou viver para aqui." Decidimos, venho viver contigo e ficamos aqui.

E assim foi.

Aquilo é uma quinta que fica no final de uma aldeia, é uma quinta grande ainda, que só tinha a casa principal preservada, o resto são ruínas. E nós nos últimos 10 anos temos vindo aos pouquinhos a recuperar o que conseguimos. Todos os verões fazíamos obras, o pessoal ia de férias e nós íamos fazer obras.

A lavoura também? A quinta tem pomar ou tem alguma coisa?

Sim.

Cultivam alguma coisa?

Tem mais que um pomar e nós tentamos alguma coisa. Agora, desde que nasceu o Pequenote.

Desde há dois anos que muda tudo outra vez, não muda?

Agora foi.

Já passaste por várias mudanças na tua vida.

Já mudei de vida muitas vezes. E agora mudei mesmo porque o facto de nós querermos dar um certo tipo de educação, também implica muita disponibilidade e isso também implicou mudar muito, mesmo a nível de trabalho e tudo, houve muitas coisas que mudaram. Mas é uma vida de campo, realmente, estou sempre sujo, estou sempre cansado.

É necessário, porque eu tenho muitos convidados aqui, Paulo, que me falam da necessidade disso e que todo o nosso Ocidente perdeu essa ligação com o campo e faz muita falta.

Sim, eu acho que faz muita falta.

Havia um filósofo, não sei se era um poeta, se era um filósofo, que dizia que se podia aprender tudo aquilo que é preciso aprender olhando com atenção para a natureza.

Para as folhas das árvores, ou seja, que aquela contemplação fazia-nos entrar numa ressonância qualquer com alguma energia primordial e que isso nos ia sintonizar a nós.

Exatamente.

E é uma ideia muito interessante, porque eu noto, e noto claramente, por exemplo, se eu estou em casa há muito tempo e estou a desatinar com algum assunto ou o que for, eu saio para a rua, para aquele campo, e dois segundos depois eu estou logo a sentir a descompressão. Sabes como quando tu estás numa casa a ouvir ar-condicionado e não notas que estás a ouvir ar-condicionado. De repente alguém desliga e tu: "O que é que eu fiz?" É isso que eu sinto lá quando eu saio fora de casa.

Mas quando tu eras surfista, também não sentias isso? Vou supor que dá menos, porque onde tu estás não estás tão perto do mar como antes.

Sim, já não faço surf há uns anos. Desde que fui para o campo.

Então há 10 anitos largaste um bocadinho.

Mas mesmo nos outros anos antes também eu fui viver para Carcavelos para fazer mais surf e desde que fui viver para lá comecei a fazer menos, porque aquilo estava ali tão ao lado. Sentia isso, e era muito importante e bom, e é uma das coisas que me faz mais falta é ter o mar ali ao pé, mas tenho o mar a uma hora de distância, é um bocado chato.

Há quem precise disso, eu percebo. Tu, entretanto, natação também, tu eras nadador federado e polo aquático também, é impressionante.

Sim, polo aquático é assim um bocado mais fora da caixa.

Tu começaste quando passaste por engano no técnico, é isso?

Não, eu não cheguei a estar no técnico. Eu fui para o técnico porque no técnico havia a possibilidade de criar uma equipa de polo aquático, porque eles tinham lá uma piscina.

Atação dos estudantes.

Sim, uma piscina com muito poucas qualidades, mas tinha uma piscina. E eu juntamente com um outro amigo, que era o Luís Borga, criamos essa primeira equipa quando praticamente não havia polo aquático em Portugal, havia duas equipes ou três. E depois a seguir, mais tarde, vim a formar outra. Portanto, isso tinha a ver com o facto de fazer natação e estar muito à vontade dentro d'água e de gostar da ideia de nadar.

Sim, queria ver. Viste a formar outra mais tarde e já estavas na Seagram e já eras marketer e account e essas coisas.

Exatamente.

Já te perguntaram sobre isto, há também uma pós-graduação que tu fizeste, porque tu te licenciaste já no curso certo, em Comunicação Social e em Ciências da Comunicação, na Nova. Há também uma pós-graduação que tu frequentaste sobre as religiões.

Sim.

Qual é a tua relação com o divino, com a espiritualidade, com a alma? Já que tu és muito poeta e vives muito a poesia.

Vou-te contar um episódio que acho que nunca contei. É raríssimo. Quando eu tinha 14, 15 anos, estava no D. Leonor. O padre António Vieira tinha-se tornado-

Já era o teu terceiro ou quarto liceu. Depois o liceu francês.

Exatamente.

Era misto.

E penso que era o Leitão Barros, queria fazer um filme em que aparecia um padre e ele precisava de figurantes e pegou no pessoal, que eram amigos da filha, não sei o que mais, que estavam lá no Liceu D. Leonor e filmámos essa cena. E eu fiz de padre, com 14 ou 15 anos. E a verdade é que toda a gente pensava que eu era mesmo padre. Ou seja, aquilo foi tão convicto.

Eras tão bom actor.

E eu lembro-me, eu sou do signo Peixes, que normalmente tem sempre esta questão da espiritualidade muito presente, ou por um lado ou pelo lado contrário.

Tu és de fevereiro, portanto é isso? É a altura.

Exato. E eu sempre tive essa relação com o além, com o divino, sempre achei esta vida na Terra um bocadinho esquisita. Nunca percebi bem porque a gente tinha dois braços e duas pernas, mas que forma é esta que foram arranjar? Por que essa forma e não é?

Já questionavas tudo.

Sempre tive essas questões e essas crises existenciais.

Mas já antes mais pequenino, tu já ias a casa do amigo teu, tinhas oito, nove anos, que rezavam em casa dele.

Exatamente.

Tinhas essa curiosidade: "Quem é que te sabe essas coisas?"

Ouvi-te uma vez contar isso, achei muita piada. Com oito ou nove anos pede a um amigo: "Olha, leva-me a tua casa para aprender umas orações, porque eu acho que em casa não se pratica."

É verdade.

Em minha casa isso não se usava e eu fui aprender e fiquei. Mas depois naquele período, todo o período da adolescência, à parte de uns amigos que ligavam mais a isso e uns amigos e umas amigas que eu quis perceber o que era Deus, até começar a perceber que Deus era amor e começar a querer ligar-me àquilo, mas sempre de uma forma meio cá, meio lá. E depois só quando, muito mais tarde, já em 1990 e tal, descobri umas outras coisas mais alternativas, que tinham a ver com espiritualidade, que eram através da radiestesia, que é um pêndulo que se usa. Comecei a investigar mais um bocado sobre isso e aí comecei a interessar-me, mas percebi que era tudo muito intelectual na cabeça. Então depois fui começar a fazer alguma pesquisa de desenvolvimento emocional.

Sim, aí foste dedicado a exercício emocional e desenvolvimento pessoal.

Para conseguir pôr aquele motor no chão, senão aquilo ficava tudo na cabeça e não se resolvia nada, ou seja, a vida continuava confusa.

Passaste também pelo jornalismo, pela Revista X, da nossa querida amiga Lorinda Alves.

É verdade.

O Público, Marketing e Publicidade, uma série de revistas. Depois foste marketeer, então estiveste na Seagram, na Sony. Essa história da bebida na Macieira. Na Macieira. Isto era por causa da Seagram, Macieira, Raposeira e essas coisas?

Não, a Seagram era Macieira, Raposeira, o Pass Portes, o Chivas, aquilo era a maior desse tempo. E eu entrei para lá tenrinho que eu não bebia uma gota. E aquilo era um tempo em que o pessoal-

Para trabalhar lá não precisas.

Não, mas pensas tu. Porque depois o clima do ambiente fora da cena era: "Toda a gente vai para os copos, toda a gente não sei o quê, toda a gente não sei o que mais." E eu chegava aos jantares, aos almoços com o pessoal, que era todos os dias, porque eu almoçava lá. E se eu não bebia, olhavam todos de lado.

Isto era no Porto?

Não, era aqui. Havia também uma parte no Porto, tinha um amigo, mas era ali no Poço do Bispo. Havia uma parte na rua Ivans e outra no Poço do Bispo. Ia para lá, começavam a olhar para mim: "Olha a sua menina." Então eu comecei a beber um bocado, só que se eu bebia ao fim de um bocado, já não percebia nada do que eles estavam a dizer, porque eu desde pequeno que eu não aguento nada de copos. Eu bebo um copo e começo logo a ficar... E então comecei a beber um bocado, para me aguentar. Ao princípio, aquilo foi muito dramático.

Peer pressure.

Engordei 10 quilos em seis meses, para teres uma ideia.

Um homem que era atleta e federado em vários desportos.

Mas depois lá me aguentei, ainda estive lá dois anos ou três, ainda lá me aguentei.

Quando passaste para a Sony, depois, onde eras responsável também do marketing, aí tornaste-te workaholic e houve um momento em que disseste: "Não, isso não pode ser mais." Até fazias sestas lá no teu escritório.

Eu levava tarde lá.

Dormias no escritório?

Não, eu dormia sestas no escritório porque eu e o administrador, que era japonês, acho que éramos os únicos a fazer isso. Eu dormia, porque à estante não aguentava, percebes? Chegava a hora do almoço, deitava-me no chão e ficava ali 20 minutos ou o que fosse. Mas eu sei que o administrador também fazia isso, porque ele tinha uma cadeira muito grande com as costas. A entrada do escritório era transparente, podia-se ver tudo lá para dentro. Só que ele virava a cadeira ao contrário e não se sabia o que ele estava a fazer do lado de lá da cadeira. E depois corriam, corria na rádio locativa que ele me via as sestas.

A tua passagem pela tropa foi também uma coisa fugaz. Foi aqui que tiveste um acidente que foste operado ao joelho, ou não?

Sim, foi na tropa.

A bomboca da tropa é o quê?

É bomboca porque eles tinham aquela bomboca, que é o capacete. Nós chamávamos aquilo de bomboca. E eu tenho estes óculos, como tu vês, sempre usei óculos muito frágeis. E quando eu punha a bomboca, eles estragavam os óculos todos. Eu disse: "Isto não pode ser, mandei vir uns óculos". Eles mandaram-me óculos, então eu fui pra loja lá para eles me porem os óculos. E os caras me dão uns óculos, tipo uma armação de veado, e quando eu entro, o meu pelotão estava alinhado na parada, e quando eles me veem chegar, começam logo todos a rir. E às tantas eu, que tenho de vez em quando estes rasgos, quando chego ao pé do pelotão, nós para entrar, temos que pedir licença ao-

Exatamente, ao fuzileiro, a quem for

A quem for

Ao capitão

Neste caso, acho que era o capitão. O meu capitão: "Dá licença?" Ele diz: "Sim". E eu: "Quantos passos?" E ele começou a se rir e disse: "Três de BB".

Passaste pra publicidade, também, uma série de anos, onde trabalhaste para o PDV, que já acabou também, até que em 95, isto fez agora 30 anos, decidiste largar toda esta vida consumista e começaste uma nova vida como escritor, como poeta, professor, como performer. Consultoria ainda foste. Criaste em 98 isto da performance criativa. Foi aqui que nasceu este copo, este merduco que fizeste com o Nuno Moura, um poeta também.

Sim, o Nuno já conhecia-

A poesia dita, deve-se dizer uma poesia, e não ler.

Exato. Agora há muitos precisismos. Isso começou com uma brincadeira, o Nuno, que tinha sido meu colega na natação e no polo aquático. O Nuno é que era o verdadeiro polo, ele era da seleção nacional, era um tipo mesmo bom. Voltei a o encontrar, porque depois da natação e do polo aquático perdemos, e depois em 98 voltamos a encontrar. Foi giro, porque foi à saída de um filme do Dreyer chamado "A Palavra".

Ah, certo.

É um filme potentíssimo, aliás, em termos espirituais aquilo também é uma coisa que bate bastante. E eu soube que ele estava a criar uma editora e ele disse: "Não queres fazer umas cenas aí?"

Editora era de livros?

De livros.

Ok.

Eu tinha recebido uma herança. Tinha recebido uma herança que era uma casa pra viver. E em vez de ter uma casa pra viver, estourou o dinheiro a fazer uma editora. Depois, no meio dessas coisas de escrever e de não escrever, ele disse: "Vou lançar aqui este livro, queres vir comigo?" Nós não percebíamos nada de dizer, nem de ler, nem de nada. Fomos lá os dois com um terceiro amigo, que era o Nuno Granja, que sabia um bocadinho disso. Era do teatro, tinha umas noções. Fomos os três, fizemos aquilo, eu achei que piada aquilo. Claro, era só amigos, portanto bateram palmas. Mas eu me lembro da sensação de ser bom de fazer aquilo no palco. Entretanto, o Nuno, o outro não é Nuno, é Miguel, o Miguel Granja, sai pra Alemanha e ficamos só os dois.

Nesse primeiro lançamento, digamos assim, os três atuarão ao mesmo tempo?

Eram os três ao mesmo tempo. Não era isso que nós fazemos agora, era uma coisa mais embrionária. E eu e o Nuno começamos a pensar: "Vamos fazer. Mas se vamos fazer, como é que vamos fazer?" E depois: "Ler bem, mas quem é que manda no que é isso do ler bem?"

O que é ler bem?

Se não há ninguém que manda, não há nenhum ditador, vamos nós descobrir o que nós gostamos. Então fizemos muitas experiências, e depois a partir de uma certa altura começamos a seguir uma linha e essa linha incidia muito na questão do dizer em conjunto, que eu estava longe de imaginar que isso depois ia dar muitas outras pesquisas pra frente. E da importância que isso tem.

Vocês fizeram centenas de apresentações no país todo.

Centenas.

Como vocês se promoviam?

Era tudo boca a boca.

Ok.

Tudo boca a boca.

Proponham-se em fábricas, aí não. Ainda não.

Não, boca a boca, quer dizer, nós basicamente aceitávamos convites.

Bibliotecas.

Bibliotecas, câmaras, escolas, bares. Fizemos muitos bares também. Os bares é um sítio péssimo, porque o pessoal quer é conversar e beber copos. Mas em alguns sítios havia algumas condições. Havia um que era a nossa tropa, que era o Café das Imagens ali no Castelo. E depois começamos a gostar daquilo e fizemos coisas desde tascas no Alentejo ao CCB, ao Rivoli.

Exatamente.

Fomos a todos os lugares.

São Luís, Campo Alegre.

E tivemos alguns fiascos, embora muito poucos.

Por quê? De não haver pessoas ou haver pouca gente?

De não haver pessoas, ou de nós não nos prepararmos o suficiente, e foi raro, mas aconteceu, e não estarmos com atenção suficiente. Repara, nós estamos ali em frente a um público. Quando tu estás em frente a um público, o principal é o público.

Sim.

Ou melhor, não é o público. São as pessoas e a energia que aquilo gera.

Eu digo isso muito aos atores, se eles sentem essa energia, eles dizem todos os dias, e todos os dias muda.

Exatamente.

E isso influencia imenso.

Imenso.

As pessoas pensam que é só o ator, que o fantasma é disposto ao mal. Não, eu dizem que o público é essencial, as reações do público.

E em relação à representação, à performance, ainda vai um pouco mais longe nisso, porque na performance tu não te vais representar, ou seja, reapresentar. Aquilo é sempre novo de cada vez, embora tu, é como os improvisadores, tens ali uns pontos de referência.

Uns guias, uns tópicos, claro.

E nós ensaiamos bastante pra poder estar livre. Quer dizer, eu gostava de ensaiar bastante, o Nuno nunca queria ensaiar.

Tu uma vez me disseste isso: "Olha, eu improviso, está tudo bem." Tu gostas de ir com a coisa mais preparada.

Depois invento se for preciso.

Mas ir com a coisa preparada pra ti é essencial.

Exatamente. Não, é isso, é porque se tu tiveres aquilo muito seguro, tu consegues te largar com muito mais tranquilidade.

Senão, não, estás sempre agarrado.

Senão ficas inseguro e aquilo nota-se tanto. E portanto, isso nota-se bastante. E nós, nos sítios em que não tomamos isso em devida consideração, foram duas ou três vezes Junto isso com as condições serem muito más.

Sim.

Pode acontecer. Mas o importante são realmente as pessoas e a ligação que a gente consegue naquele momento.

Muito bem, Paulo, estamos aqui a falar desta maravilha que é a poesia, como tu descobriste. É claro que eu tenho que perguntar isto: tu tens o teu lado pedagogo, veio ao de cima o teu lado pedagogo, quando depois também começaste a escrever livros. Estou a pensar nos primeiros, do "Bizarro Dizário", da "Condessa de Berna" e o "Biz Diz". A partir de 2000, por exemplo, as aprendizagens que tu sistematizaste e estes workshops que fizeste, leitura criativa e mais tarde escrita criativa, orquestra de palavras, esta escrita sensorial. Isto é o quê? Escrita sensorial.

Tu estás muito bem documentado.

Tu tens um site maravilhoso na net.

Agora é que eu estou a ver o nível. Já tinha visto lá no grande João Paulo Secador. Eu inventei muitos nomes, porque a minha cena é um bocado ligar o hemisfério direito ao hemisfério esquerdo. Simplificando, porque nem todos os cientistas falam desta maneira, mas simplificando, ou seja, a área que abre e a área que fecha. E quando eu digo sensorial é tu poderes escrever a partir das sensações. E tu podes fazer isso ativando muito o hemisfério direito e depois como que deixando-te ir, embora tudo que é escrita e leitura se passa no hemisfério esquerdo, porque é cognição e razão, mas tu tens que ligar as pontes. A escrita pode ser uma coisa muito difícil de uma pessoa se deixar ir precisamente por causa disso, porque é toda racional e é preciso o hemisfério esquerdo, mas, por outro lado, quando tu consegues a ligação ao hemisfério direito, aquilo é superpotente porque estás a potenciar o cérebro inteiro.

Podes soltar mais.

Soltas-te mais.

E o ideal é isso, é estarem ligados. Senão, há um desequilíbrio. Se só escreves com a razão ou se só escreves com a emoção, também pode ser desequilibrante.

Exatamente.

É importante haver esse equilíbrio.

É importante isso. Tu vês os grandes cantores, como é que eles conseguem transparecer emoções e mesmo assim segurar as notas todas nos sítios certos. É o difícil. Eles têm que se largar para um lado, mas segurar-se para o outro. Isso só dá com a ligação dos dois hemisférios.

Isso só dá com muito autoconhecimento também, conheceres a tua inteligência emocional, conheceres isso.

Claro, isso é fundamental. Se tu não conheces o aparelho, que é o teu aparelho para estar no mundo, é sempre tudo mais difícil. E eu descobri depois, mais tarde, comecei a trabalhar isso, comecei a perceber que as pessoas ficavam como se elas acedessem ao outro lugar delas próprias e que desse lugar, que não era um lugar de controle, porque a maior parte do dia nós somos solicitados para coisas em que nós controlamos ou queremos controlar, queremos saber, queremos pensar, queremos saber. E esse controle que evita os medos que vamos criando ao longo dos anos, inibe depois a produção do hemisfério direito. Então o hemisfério esquerdo está sempre muito confortável a fazer tudo e o outro quase nem consegue aparecer. Portanto, tu tens que criar situações. A primeira técnica que eu uso mais é exercícios em que é quase obrigatório errar, ou seja, exercícios para errar.

Isso é importante por isso.

E para a pessoa desligar do problema que é o erro e em vez de se retrair, expandir, dizer: "Olha, um erro", ficar contente e continuar. E depois verificar se o erro não era melhor do que estava combinado antes. Porque pode ter sido que era o hemisfério direito a querer aparecer e o esquerdo a não querer deixar. Muito através desses jogos, eu percebo que as pessoas chegam a sítios delas que não conheciam, que gostam de explorar isso e que isso lhes dá uma maior segurança e uma maior liberdade, porque começam a perceber por onde é que podem crescer. E ao mesmo tempo, como eu faço isso muito utilizando as dinâmicas de grupo, isso faz com que a empatia seja aumentada, porque o hemisfério direito está muito mais a ser solicitado e é por aí que circula a empatia. E como esta coisa do erro e do não erro, desaparece o espírito de competição e entra o espírito de cooperação, nós sentimo-nos todos muito mais apoiados e a criatividade dispara a níveis estratosféricos.

Tu fazes isso em fábricas e empresas? São workshops ou oficinas que tu fazes?

Faço muitos workshops e oficinas.

É importante para soltar as pessoas, para perceberem. Deixarem de criticar o erro e deixarem de julgar os outros, porque acham que não estão a fazer bem.

Claro.

O que é fazer bem quando a pessoa está improvisada de uma certa maneira? Quem é que tu és para julgar isso?

É preciso ter noção dos limites de um workshop. Um workshop é um comprimido.

Sim, uma ferramenta manual.

Uma ferramenta que tu fazes e para tu interiorizares aquilo, precisas de vários workshops. Há pessoas que não, que já estavam à espera daquilo e de repente entraram em contacto com aquilo, elas estavam maduras e aquilo segue.

É o trigger.

Outras pessoas precisam de trabalhar um bocado aquilo. Eu não tenho feito muito em empresas, ou melhor, muito pouco, porque eu comecei pelo lado das bibliotecas, das câmaras, e quando comecei a querer dedicar-me às empresas, foi praticamente quando fui pai e tive que dar uma refreada naquilo. E depois também não fiz marketing disso.

Não divulgaste tanto.

Não divulguei tanto e a coisa parou um bocado, mas é a área que eu quero explorar, porque é das áreas onde é mais preciso, porque as pessoas passam a maior parte do seu prime time, do lombo do seu tempo é passado nas empresas. Se tu não estás bem nas tuas empresas, a tua vida não pode ser boa.

Por isso é que é extraordinário estes festivais como o de São João da Madeira, do Poesia à Mesa, que tu és, se não me engano, um comissário ou formador, és um dos organizadores, co-comissário.

Até agora tenho sido, agora estamos já a passar a bola.

E que fazem nas fábricas e nas escolas e vão pela rua a dizer poemas e as pessoas atraem.

Sim, há muitas atividades.

É extraordinário, porque as fábricas param para ouvir.

É verdade, isso é que é extraordinário.

E perguntaram-te já uma vez: "Mas e os diretores das fábricas não dizem: 'Não, a laboração não pode parar'"? Eles dizem: "Não, eles percebem porque isso é importante e como é que isso solta e como é que traduz depois a maior rentabilidade, maior alegria no trabalho", se quisermos dizer assim.

Sim, eu não falei com todos, falei com alguns.

Certas zonas altamente industrializadas, os têxteis, os sapatos, os chapéus.

Onde o cada minuto conta. E normalmente essas coisas acontecem nas mudanças dos turnos, que é para não prejudicar muito Nem em todas consegue desligar as máquinas, mas em quase todas consegue desligar as máquinas. Nalgumas isso não é viável para eles e portanto aquilo não tem a mesma qualidade, mas faz-se e é melhor do que nada. Mas isso é impressionante, não só aí como nos lares e como nos próprios restaurantes e em vários outros lugares.

Eu acho que é uma novidade. As pessoas já escolhem quando sabem que vocês vão estar a ouvir poesia num certo restaurante, escolhem ir almoçar ali porque sabem que há-

Há pessoas que sim, outras que não.

É incrível isso.

Outras que não. E até há algumas que ficam incomodadas, mas é uma minoria. Ou seja, incomodadas no sentido que queriam era estar a falar com os amigos.

Exatamente.

E não sabem. Mas muitas sabem, acham que aquilo é com a colaboração deles, dos tipos que lá estão, que têm a farda. São-lhes oferecidos aventais e os toalhetes com os poetas que vão ser ditos.

O que é isto da intuição sem loucura e do incenso sem sapatos?

São dois episódios de quando eu comecei a fazer estas coisas. Eu chegava a um sítio e quando eu sacava de um incenso, o pessoal ficava todos a olhar: "Isto é uma bruxaria".

O incenso era mesmo uma pedra que queimavas e que saía fumo?

Sim. Só para dar um bom cheirinho e mudar o ambiente e limpar um bocado aquela energia. E toda a gente olhava de lado e achava aquilo estranhíssimo.

Mambo jambo.

E depois eu pedia às pessoas para tirarem os sapatos, que é para poderem ter o corpo mais ativo, por causa de mexerem direito e para sentir também a pressão.

Telúrica.

Todas estas atividades que eu faço com escrita e leitura, todas envolvem o corpo, muito o corpo.

Sim. Mas eu achava que era só o teu. Também dos ouvintes?

Não, dos ouvintes.

Não sabia.

O meu é quando eu faço espetáculos e quando eu faço performances, mas das oficinas, não.

Poesia e espetáculo, que é o volume que tu tens.

Sim, mas não estou a falar dos espetáculos.

Das oficinas também, das aulas.

Exatamente, nas oficinas. E então, mesmo quando era com miúdos ou com adultos, eu dizia para tirarem os sapatos e ficava tudo: "Aquilo era tudo para o outro mundo". Já estamos muito longe disso, Portugal evoluiu muito nesse tempo. Hoje em dia, se eu mostro um incenso ou uma taça tibetana, os miúdos sentam-se em posição de lótus e põem as mãozinhas em posição de lótus.

O yoga.

O yoga. E a outra era eu a dar aulas na ETIC e a falar de vários aspetos, nomeadamente dos hemisférios e da intuição, da diferença entre a intuição e outros aspetos do raciocínio. E um dos alunos perguntar-me: "Mas pode-se usar a intuição e não ficar louco?" Ou seja, a associação dele era que esse pessoal que tem acesso a outras informações.

É uma coisa quase psicadélica.

E que vai enlouquecer e que não é boa coisa. Isso também é uma grande evolução desde esses tempos. Hoje em dia já tens os jogadores de futebol, tipos que ganham milhões, a dizer que têm que entrar lá dentro e divertir-se a ganhar milhões. O que é aquele divertir-se? É o hemisfério direito a trabalhar. Ou seja, eles não em controlo e a deixarem-se ir de maneira que conseguem fazer coisas que de outra maneira não conseguiriam.

Tu antes passaste pelo turismo de Portugal também, temos aqui neste rebranding que tu fizeste. Esta história que tu tens de acreditar em Portugal e com a ajuda das bibliotecas é por causa de todo o percurso que fizeste de norte a sul?

Sim, eu era muito crítico em relação a Portugal, era daquelas pessoas ressabiadas com o país.

E de repente recomendaram-te um rebranding do país para vender lá fora.

Isso foi muito mais tarde. Mais ou menos em 2000, quando eu comecei a trabalhar muito em bibliotecas, através de um programa que havia do Instituto Português do Livro e das Bibliotecas. Eu comecei a trabalhar e comecei a ver como é que as bibliotecas trabalhavam e fiquei impressionadíssimo com o cuidado que eles tinham com as pessoas, com os locais. Conheciam-nos pelo nome, recomendavam as coisas que eles tinham que fazer, como fazer, ajudavam e eu fiquei: "Espera, afinal somos um país organizado. E as coisas funcionam mesmo." Portanto, voltei a acreditar em Portugal e depois até me tornar um grande entusiasta, ao ponto dessa experiência que tu tiveste, foi uma experiência brutal para mim. Não só porque gostei muito de matar saudades dos tempos de antigamente.

Do publicitário e marketeiro.

Como porque tive algumas descobertas que foram mágicas para mim. O desafio lá era muito grande, a fasquia era muito alta, porque me pediam: "Olha, todos os quatro anos nós já tivemos os melhores marketeiros do mundo, temos sempre boas campanhas, mas de quatro em quatro anos muda o governo, temos que mudar isto tudo. E a gente quer uma coisa inatacável."

Que dure.

Que dure. E eu disse: "Inatacável, não sei se isso é viável, não é possível, mas pronto, estou aqui para trabalhar, vamos trabalhar." E eu comecei a pensar naquilo e pensei: "Só há uma maneira disto ser inatacável." E a única maneira, a ligação, foi: toda a gente falava do ADN da marca, neste caso da marca Portugal. E eu comecei: "Mas que direito têm as marcas de ir buscar uma coisa da biologia?" Então fui ver o que era o ADN, que eu já sabia, mas fui ver melhor o que era o ADN e percebi. O ADN é uma molécula que tem a ver com a identidade, que define a identidade, e que tem uma característica específica, que ela se divide em duas. E nessas duas, uma é como é que tu replicas a identidade e a outra é como é que essa identidade se dá, se relaciona com o todo. Portanto, isto significa que na identidade das marcas, tu tens que ter uma imagem capaz de ser repetida, mas também tens que ter uma filosofia ou uma missão, que é o modo como aquela marca se relaciona com o todo que está à volta.

O nosso ADN ia ser o tal humanismo e o universalismo.

Sim, e eu fui ver qual é a base para isso. E fui ver na nossa história, na nossa existência, o que é que existe que vai bater com a nossa essência, que é aquilo que não é visível a olho nu. E a nossa essência só pode estar em algo que está codificado, mas que não se vê, que no nosso caso são os símbolos. Então eu fui estudar os símbolos nacionais todos principais e ver o que é que havia de comum em todos. E o que havia de comum em todos era o humanismo e o universalismo, com esta particularidade deliciosa: é que eu pus-me à procura das bandeiras, me pus a olhar para as bandeiras e de repente descubro, até me lembro do momento em que eu dei o salto na cadeira, tipo: a nossa bandeira é a única bandeira do mundo que tem Somos o único país que usa o mundo pra se representar a si próprio.

Ok. Por causa da esfera armilar?

Por causa da esfera armilar. E ainda mais, através de uma esfera armilar, que é um instrumento de navegação por orientação, através do quê?

Das estrelas?

Das estrelas do céu, do altíssimo. Claro que isso depois tem conotações maçônicas e há muitas coisas que acontecem, mas não interessa.

Sim, é verdade. É a base.

É a nossa base, são os nossos símbolos.

Está no manual.

Ainda com uma nuance, que é: na transcrição da referência dos sons pras cores, há dois temas, um que é mais conhecido, que é o sistema oriental. Existem a transcrição como no arco-íris, portanto, o dó, ré, mi, fá, sol. Significa que o fá é o verde e o dó é o vermelho.

Que é as cores da nossa bandeira.

Sim, ou seja, fá, dó.

Fado.

Fado.

Estudaste isto a sério.

O nosso fado é orientar o mundo através das estrelas, ou seja, através da espiritualidade, isso vai bater no quinto império.

E com esta campanha que ainda hoje perdura e perdurará.

Não, isso foi a parte técnica. Isto perdura só na mudança pra um posicionamento, que não era só um posicionamento, ou seja, que não é o que eu quero que tu penses sobre mim, mas é o que eu tenho pra dar ao mundo. E o que nós temos pra dar ao mundo, que tem a ver com a nossa essência, é: a nossa missão é receber bem todas as pessoas. Isso parece-nos uma coisa completamente óbvia, porque nós estamos mergulhados dentro d'água e é como um peixe olhar pra água. Mas nem todos os outros países se veem dessa maneira e não querem receber bem todos, nem todas as culturas, nem toda a gente. Isso tem outras questões mais complexas, mas ficamos por aqui. Isso ainda está em vigor, portanto, ainda ficou esse propósito de estar. No outro dia encontrei uma das diretoras do turismo de Portugal, ela disse-me que talvez nisso agora vão lá dar uma afinação, não sei se isso está, porque agora sigo um bocadinho mais de longe. Não sei como é que isso está.

Entretanto, cruzaste também com o Eusébio. Isso foi o quê? Porque passou na tua vida e conheceste-o ao vivo?

Não, isso do Eusébio tem um bocado a ver com este meu lado de querer que toda a gente se dê bem.

Ok.

Em pequeno eu pensava que queria ser o campeão dos gajos porreiros. Queria que as pessoas gostassem de mim, no mesmo sentido em que todos precisamos de ser acolhidos. A noção de pertença e identidade é todos precisamos de ser acolhidos. Mas eu projeto isso também nos outros. Gosto que os outros se sintam acolhidos, embora às vezes as emoções não deixem, porque há curtos-circuitos. Então, eu desde sempre tive esse papel conciliador. E o que aconteceu foi que o Eusébio, eu fazia natação no Benfica, e tinha um amigo meu, que era mais rebelde, que era o Luís Monteiro, que entretanto foi um olímpico.

E que já cá teve, foi convidado também, porque não é um que está à frente da comissão dos atletas olímpicos?

Sim, exatamente.

Ele esteve cá, uma grande conversa também.

Esta cena é passada com ele.

Sim.

Como viste, ele é grande. Grande e interessante. E nós estávamos lá numa cena e fomos jogar a bola antes do treino da natação, e fomos jogar a bola num sítio onde o Eusébio ia treinar os miúdos. E o Eusébio já estava um bocadinho entornado e mandou uma boca qualquer, que nós não tínhamos deixado a baliza no sítio, qualquer coisa. E o Luís Monteiro, que era um bocadinho mais rebelde, virou-lhe assim a cara e vamos pra piscina. Quando estamos a chegar à piscina, vem de lá o Eusébio, pega no Luís Monteiro com a mão, agarra-lhe a camisola ao nível do umbigo. Tu estás a ver o tamanho do Luís Monteiro. O Eusébio, que era um touro, pega no coisa e levanta-o acima da parede, e diz: "Repete lá o que é que tu estás a dizer." E venho de lá eu a correr.

O conciliador.

Calma, Eusébio, olha que nós temos que não sei o quê, viram e tal. O Eusébio para com ele ainda em cima na parede.

Contra a parede.

Olha pra mim, pôs o Luís Monteiro, tira a mão do Luís Monteiro, estende-me a mão e diz: "Consigo, sim, eu falo. Eusébio da Silva Ferreira, e você?"

Qual é a sua graça?

Cena incrível.

Agora pras respostas rápidas, Paulo. O fascínio da poesia, já imagino que te apareceu mais depois daquele que foi um reencontro, que se deu mais tarde. Descobriste por alguma coisa em particular, por que vou dedicar a minha vida a isto? Ou foi mais a palavra que te seduziu? Ou leste um grande poema, ou tiveste um professor de português? Quando é que te fez pensar: "Poesia, quero-me centrar nisto."

Não, acho que foi aos poucos. Acho que o que foi determinante foi esse encontro com o Nuno e a criação do COPO.

COPO é este duo que vocês têm.

Esse duo, que ainda temos, agora fazemos muito menos vezes, agora faço muito mais vezes a solo.

Agora faz com o filho, com o Jonas.

Ele faz com o filho, sim, um bocadinho. Eu, pessoalmente, faço muito mais solo, tanto no lado das performances como ao lado dos espetáculos, mas na altura o encontro com ele obrigou-me a relacionar com a poesia de uma forma muito mais efetiva e de uma forma dita. E quando eu ouço as pessoas a falarem que gostam ou não gostam de poesia, tem muito a ver que há pessoas que olham pra um poema no papel e pra eles é como nós olharmos pra uma partitura, se não soubermos ler música. Eles não veem a música das palavras lá. Se ouvirem aquele poema dito, elas ficam encantadas.

Sim.

E, portanto, essa relação com a voz e com o timbre e com a relação com o corpo, e depois com o trabalho em grupo, porque eu ponho pessoas a trabalhar em grupo, poesia em grupo. Também sozinhas, mas sobretudo em grupo. Aquilo tem uma magia particular e eu comecei a desenvolver muito e a partir daí umas coisas trouxeram as outras.

Se não houvesse poesia, Paulo, o mundo...?

Se não houvesse poesia, o mundo secava.

E pra que serve? Quando as pessoas te perguntam isto: pra que serve, o que tu ganhas com ela, o que ela te trouxe?

Muita coisa. A poesia serve para muitas coisas. Algumas delas dependem caso para caso. Mas em todas há uma coisa: voltamos à história dos hemisférios, a escrita da poesia não é linear como na prosa. Quer dizer, também há prosa poética. Tal como no olhar, é importante o foco, mas também precisas do olhar periférico para poderes ver outras coisas. Por exemplo, para as inferências, para ler nas entrelinhas, para apanhar o contexto, o que for, o treino da poesia e o trabalho das sinestesias e das metáforas é super importante. Além do que mais, liga-te com a parte sensorial. Ou seja, estás a ler uma coisa com o hemisfério esquerdo e ela apela-te ao hemisfério direito para tu ficares mais uno.

Qual é a tua dose diária recomendada? O que é que se pode fazer? Com que frequência se deve consumir poesia, mastigar poesia? Varia muito com as pessoas?

Totalmente.

Todos os dias tens que ler coisas novas.

Há pessoas que são poetas e que não pegam em livros. Há pessoas que olham para uma árvore e sabem ver a poesia da árvore. Há pessoas que olham para o que aconteceu entre duas outras pessoas e tu vês a maneira como elas sorriem, com uma subtileza que aconteceu. Há uma diferença que é: os poetas normalmente tentam pôr isso em palavras e as pessoas que são poetas, mas que não sabem, não põem isso em palavras. Mas, na verdade, todos pensamos e sentimos coisas todos os dias e se nós nos pusermos a pôr no papel essas coisas que pensamos ou que sentimos, isso dará poemas, que depois se forem trabalhados, serão poemas. Para já, eu acho que é difícil recomendar coisas sem conhecer a pessoa em concreto.

Autores também?

E autores também. Eu gosto de autores considerados ótimos e de autores considerados péssimos.

Não é universal.

E não faço distinção. Depende do momento, depende do timing. Aquilo são coisas que dependem muito do teu estado de alma, do que tu estás a precisar, como é que aquilo te bate.

Muito bem, o nosso tempo voou, já sabia que isso ia acontecer. Mas Paulo, tu tens o teu site, Paulo Condessa, as pessoas podem saber. Estou a pensar concretamente se tens alguma apresentação prevista ou alguma performance prevista. Se houverem futuras, estão lá no site? As pessoas podem ver? O teu Instagram, Paulo Condessa? Sabes de cor poesia?

Neste momento, para já, não te sei dizer nada de cor, mas como te disse, tenho muito pouca coisa, até porque tive esta paragem prolongada, e agora é preciso retomar em termos de espetáculos. Em termos de oficinas, tenho algumas coisas que estão em curso, mas são para os públicos que já lá estão. Portanto, são privadas, as pessoas não se podem juntar. Uma que eu estou-me a lembrar de cor vai ser no Dia Mundial da Poesia e vou à guarda.

21 de março?

Sim. Essa aí sei de cor.

E há sempre o Festival da Poesia à Mesa.

Sim, este ano também vai voltar.

27ª edição, foi o ano passado.

Exato, mas este ano, como estamos a fazer a passagem da pasta.

Do testemunho, digamos assim.

Do testemunho, só estou em eventos que já não têm público em geral, são públicos específicos. Portanto, vou lá estar, mas não sei ao certo.

Tudo bem, Paulo. Nós vamos continuar a seguir-te no teu site ou no teu Instagram. E de facto, pode-se mudar o mundo com poesia, já percebi que sim, e és uma pessoa muito bem indicada.

Devagarinho.

Bem-hajas, Paulo, e até sempre.

Muito obrigado.

Bom ano.