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Se colocarmos em comparação Espanha ou Inglaterra, em Espanha lê-se quatro vezes mais do que em Portugal. Em Inglaterra lê-se cerca de oito a 10 vezes mais livros do que em Portugal. Agora, um livro em Inglaterra ou em Espanha está num valor equivalente a Portugal, e nós já temos um mercado pequeno.

Mas os ordenados e as mesadas manadas não são iguais.

Por isso, eu acho que é um dos grandes fatores que não ajuda.

Rui Miguel Pinto, jovem ribatejano, que é controlador de tráfego e instrutor de ténis, tinha desde adolescente o sonho de escrever um thriller histórico. Inspirado pelo exemplo de escritores como Luís Miguel Rocha, estreia-se agora com "O Segredo de Tomar", pela mão da Porto Editora. Um thriller alucinante, passado em Portugal e França, que conduz o leitor numa viagem vertiginosa para resolver um enigma que pode abalar os alicerces do cristianismo. Olá, Rui, e bem-hajas por teres aceitado este meu convite. Muito obrigado por teres vindo de Benavente para falar connosco diretamente e depois voltas logo a seguir, não?

À partida, ainda vou dar, antes de mais, autógrafos. Muito obrigado por este convite. Se calhar vou aproveitar, uma vez que estou em Lisboa, e ainda vou dar um saltinho por algumas Bertrand para autografar mais alguns exemplares.

Faz muitíssimo bem. Muito bem, tu nasceste então em Benavente há 30 anos e moras lá.

Moro lá desde sempre, portanto, nascido e criado. Fiz a escola em Benavente e apenas saí durante alguns anos e morei em Samora, que é na freguesia de Benavente, mas rapidamente voltei às origens e nunca saí.

Além do bolo de iogurte da tua mãe, Benavente vale muito a pena conhecer.

Benavente vale muito a pena conhecer. É, de facto, uma localidade onde conseguimos ter a paz do campo, mas estamos a 30 minutos de Lisboa. É ótimo.

Podes sair sem ter que ser completamente para muito longe. Muito bem. Tu lias muito em pequeno? Ou tinhas muitos livros em casa? Este teu prazer de leitura, e é um dos conselhos que tu dás a quem quer ser escritor: "Leiam muito, é muito importante para escrever." Havia muitos livros em casa?

É obrigatório quem quiser escrever bem, tem que ler muito.

Claro que sim.

Eu, de facto, cresci rodeado de livros.

Um privilegiado.

É verdade. Era uma coisa que a minha mãe nunca dizia que não, era a livros.

Claro que era, que bom.

O gosto pela leitura eu diria que não foi imediato. Eu comecei a ler os livros de "Uma Aventura", passei depois a ler Isabel Allende, li muito Isabel Allende.

Fantástica. Minha preferida.

Sério?

Quase imenso. Incrível.

Foi onde nasceu o meu gosto pela leitura, foi com a Isabel Allende. E eu diria que o gosto pela leitura acentuou-se a partir dos 12, 13 anos. Foi quando eu comecei a ler com mais regularidade, foi quando mergulhei no universo do Dan Brown, do Luís Miguel Rocha, e foi aí que, de facto, não só a paixão pela literatura acentuou, como também a paixão pela própria escrita. Foi aí que eu percebi que mais cedo ou mais tarde iria escrever.

Começaste a escrever nessa altura, tens coisas na gaveta?

Tenho coisas na gaveta, muitas delas foram aproveitadas neste livro.

Ok, boa.

Mas, de facto, a visão de um miúdo de 12 ou 13 anos, lendo agora, quase que parecia uma aventura dos cinco ou algo do gênero. Não é bem o thriller que escrevi.

Parece a tua primeira viagem a Tomar, como tu dizes, e tens no Insta um filme muito giro em que te voltas para nós: "Primeira vez que eu vim aqui." Paras a imagem, de repente aparece a tua cara na mesma posição, no mesmo sítio, junto à charola.

Com 18 anos de diferença. Mas é interessante porque, de facto, episódios que aconteceram há 18 anos marcam muitos dos episódios que nós vivemos hoje. E aquela primeira visita a Tomar com 12 anos, eu já tinha a paixão pelos templários, mas marcou-me.

Foste sozinho, foste com a escola ou com os teus pais?

Fui com meu irmão, que é oito anos mais velho e também é um apaixonado por história. Da parte da manhã fomos ao Castelo de Almourol e ele como sabia que eu adorava os templários, disse: "Vamos terminar o dia em beleza e vou levá-lo ao Convento de Cristo."

E assim foi.

E assim foi. E de facto, eu já na altura, de forma inconsciente, levei um caderno de apontamentos para tirar notas.

Esta coisa da leitura é importante e vou te perguntar uma coisa, não tenhas problema, Rui, se não tiveres uma resposta muito rápida e muito imediata. Se fosses ministro da Leitura ou ministro da Cultura, como é que pomos os mais jovens a ler mais? Em Portugal ainda se lê muito pouco.

Em Portugal lê-se muito pouco, é certo. No entanto, no decorrer dos últimos anos, tivemos um crescimento a nível de leitura, principalmente nas faixas etárias mais jovens.

Ainda bem.

Muito relacionado com as redes sociais, por incrível que pareça. Tem existido alguma dinamização por parte de pessoas normalíssimas que deixam opiniões relativamente à literatura.

Ou clubes de leitura, que há muito também.

E de facto, a literatura tem crescido. A meu ver, há um fator predominante também no fato da leitura não existir tanto em Portugal, que é o preço dos livros.

Achas que se fosse mais barato, as pessoas liam mais?

Creio que liam mais.

Mas mesmo com esta coisa do cheque livre, por exemplo, para os miúdos das escolas, que mesmo assim as pessoas dizem que o valor não é muito elevado, mas não sei se tem a saída que merecia uma iniciativa deste género.

O que acontece é o seguinte: se colocarmos em comparação Espanha ou Inglaterra, em Espanha lê-se quatro vezes mais do que em Portugal. Em Inglaterra lê-se cerca de oito a 10 vezes mais livros do que em Portugal. Agora, um livro em Inglaterra ou em Espanha está num valor equivalente a Portugal, e nós já temos um mercado pequeno e as condições não são as mesmas.

As mesadas manadas não são iguais.

Por isso, eu acho que é um dos grandes fatores que não ajuda, porque nós temos cada vez mais leitores. Aquilo que eu também, se fosse ministro da Cultura, faria, era mudar o plano nacional de leitura

Para fazer o quê? Para mudar como?

Mudar a nível de leituras obrigatórias que são apresentadas. Acho importante que um aluno continue a ter conhecimento das obras que marcaram a nossa literatura, como é o caso de um Luís de Camões, de um Eça de Queiroz, de um Saramago. Mas não creio que esse tipo de leituras vão fazer com que um jovem de 3 a 14 anos se apaixone pela literatura.

Não é pelos clássicos que eles iriam lá, mas tu defenderias que eles deviam ler mais thrillers.

Eu não digo um thriller, mas algo mais moderno. Eu dei este exemplo há relativamente pouco tempo a um amigo, que é: nenhum aluno inglês se vai apaixonar por literatura ao ler Shakespeare nos dias que correm. Eu acho que é importante o aluno inglês conhecer Shakespeare e conhecer os grandes nomes da literatura inglesa.

Também é por causa da língua, da sua identidade. Faz parte.

Exatamente. É como nós termos conhecimento d' "Os Lusíadas", o que está ali, a crítica que foi feita é, de facto, importante.

Ler "Os Lusíadas" e isso puxar-me para querer ler muitas coisas, se calhar, não.

Não é fácil. Acho que devia haver aqui uma certa adaptação, mas lá está, por algum motivo eu também não sou ministro da Cultura.

Não, mas todos estes contributos, Rui, é muito importante. E agora tu, como escritor, que passas a ser, tens também uma palavra a dar. É importante essa tua opinião passar, é muito importante isso. A tua área era Línguas e Humanidades na tua escola e depois frequentaste o curso de História.

Frequentei o curso de História.

Tu frequentaste, quer dizer que voltarás a acabar um curso ou fazer, gostarias? Dessa área.

É algo que está em cima da mesa. Eu frequentei o curso de História porque era a área que de facto sempre me apaixonou e aquilo que eu pretendia era o ensino.

Querias a variante de ensino.

Precisamente.

De História.

De História, professor de História.

Tiveste excelentes professores de História.

Tive excelentes professores de História.

Isto puxou-te muito. Era a pergunta a seguir, de onde este gosto pela História. Isto vem também da parte de professores que são, de facto, muito importantes.

São, de facto, o pilar da nossa sociedade e por vezes não é dado o devido valor.

Exatamente. Hoje em dia sente-se isso, são tão destratados. As carreiras não são apaixonantes e não são sedutoras, e não são muito bem tratadas até pelo Ministério, ou pelas escolas. E eu sinto que isso afasta muitas pessoas quando é uma coisa importantíssima. Cada vez tenho mais convidados, Rui, que me falam disso, ou químicos, porque tiveram um professor de Físico-Química espetacular.

E que acabam por moldar muito a nossa personalidade.

Ou ir para a investigação.

E ao nível de História aconteceu isto, mas eu frequentei o curso de História há 13 anos e aquilo que aconteceu é que hoje os professores, de facto, não têm grandes condições, mas há 13 anos o ensino estava a passar por uma fase muito difícil a nível da empregabilidade. E aquilo que ia acontecer era eu terminar a licenciatura e não conseguir arranjar trabalho no ensino, nem mesmo a 300 km de casa. E eu na altura optei por sair.

É outro ponto comum com o Luís Miguel Rocha, que também frequentou o curso de História.

No Porto.

Muito engraçado. E tu foste aqui em Lisboa. Muito bem, esta questão do gestor de tráfego nacional e tráfego europeu, ainda é uma coisa que tu fazes hoje?

Neste momento já não estou como gestor de tráfego.

Nem sequer instrutor de ténis também não.

O instrutor de ténis.

Que continuas a jogar.

Sempre que possível, não tanto como gostava.

Desde os 14 anos já jogas.

Desde os 14 anos, sim.

E foste aqui para o Jamor tirar o curso de instrutor, de treinador de ténis, da federação. E deste vários anos de aulas.

Dei muitos anos de aulas.

Muita gente em Samora.

Mas parei este ano porque estava a ser muito difícil conciliar com a escrita e um dos requisitos para assinar o contrato com a Porto Editora era haver novas obras dentro de pouco tempo.

Já está a tratar disso, eu sei.

Já estou a tratar disso.

Não sabia que fazia parte do contrato, é engraçado. Ajudaram-te imenso. Até o Luís Miguel Rocha te deu umas dicas sobre quando assinaste o teu contrato com o Porto Editora. Porque estás na mesma editora. É muito giro.

João Paulo, eu vou aproveitar este momento para contar uma história com o Luís Miguel Rocha, porque o Luís Miguel Rocha foi como um mentor para mim. Na altura em que saí do curso, surgiu a ideia de escrever um livro e eu comecei a trabalhar em algo que viria a ser "O Segredo de Tomar".

Estamos a falar quando? Há quanto tempo?

Estamos a falar em 2012, 2013.

Então já foi há mais de 10 anos.

Já foi há mais de 10 anos.

Incrível. E então?

E em 2013, o Luís Miguel Rocha, na altura, estava a fazer uma digressão da "Filha do Papa", que foi o último livro que escreveu, e estava a fazer sessões de autógrafos pelas Bertrand de norte a sul do país. E eu, na altura, o Luís era uma referência para mim, aliás, a nível nacional sempre foi aquela referência, foi o primeiro autor português a entrar no top do New York Times, era apelidado do Dan Brown português.

Essas tramas sobre o Vaticano que ele tinha sempre.

E de facto com um conhecimento que não era fácil de encontrar, porque o Luís tinha um conhecido no Vaticano que lhe passava informações e ele depois engendrava tramas. E eu sempre adorei os livros do Luís. E eu enviei mensagem ao Luís, através das redes sociais, na altura.

Facebook.

Facebook, ganhei coragem e disse-lhe que estava a pensar em escrever um livro e se ele teria algum conselho para me dar.

Algumas dicas sobre como preencher um ponto policial.

E o Luís prontamente respondeu.

Mas ficaste naquela: "bom, é o autor".

Eu a pensar: "Nunca mais me vai responder", com aquela ideia.

Estou curioso.

O Luís responde-me no próprio dia.

Era uma joia, era uma simpatia cinco estrelas.

Não só era um autor formidável, como uma pessoa incrível.

É verdade. Tenho a sorte de o conhecer muito bem, de o ter conhecido bem.

O Luís responde-me: "Olha, eu vou estar em várias Bertrand a fazer sessões de autógrafos, vê qual é que fica mais próxima da tua localidade e aparece que nós falamos". E eu assim fiz.

Montijo.

Montijo. O Montijo ficava a cerca de meia hora, o Luís ia estar dois ou três dias depois nessa Bertrand, e lá fui eu. Eu estive. Para já, achei uma coisa incrível que é como um gigante da escrita como o Luís conseguia ter uma postura tão humilde e conseguia deixar um leitor tão à vontade, porque o Luís era incrível, era uma pessoa mesmo ingeniosa.

Muito generoso.

Era. Com sentido de humor, fantástica a mistura. O Luís esteve mais de uma hora a falar comigo.

Incrível.

Estivemos imenso tempo a falar de templários, a falar do Vaticano, a dar-me conselhos de cuidados que eu deveria ter ao assinar um contrato de edição. E no final, eu levei "A Mentira Sagrada" para o Luís assinar. E o Luís assinou e escreveu uma dedicatória. E eu só quando cheguei à casa é que li aquilo que o Luís tinha escrito. E o Luís escreveu algo como: "Para o Rui Pinto, colega da escrita, que mais cedo ou mais tarde figurará nos mesmos tops que eu. Um abraço."

Um abraço.

Um abraço. Um abraço.

Incrível.

É curioso porque-

Só leste quando chegaste a casa e percebeste.

Só li quando cheguei a casa.

"Nossa, ali és tu, 10 anos depois."

Achei interessante, mas a verdade é que "A Mentira Sagrada" ainda hoje está na minha secretária e na altura em que eu estava a escrever "O Segredo de Tomar" e estava a duvidar se a história tinha potencial, foi aquela dedicatória do Luís que me fazia seguir em frente.

Que é o impulso, que é o foco.

E ainda hoje, eu quando me sento ao computador e começo a escrever, acho que não há vez nenhuma em que eu não abra "A Mentira Sagrada" e leia aquela dedicatória.

Escreves mesmo. Disseste que foi para o Luís a coisa mais natural do mundo, teve um impacto em mim que eu não consigo explicar.

E acho que nunca vou esquecer, é interessante, porque tu estás a ler uma publicação que eu fiz nas redes sociais e é incrível, quando eu fiz essa publicação, a quantidade de mensagens que eu recebi de pessoas que conheciam o Luís e que me relataram episódios muito parecidos.

Exatamente.

Desde uma senhora que ia de férias para Roma e o Luís disponibilizou-se para lhe dizer quais os melhores locais para ela visitar. Um jovem que também tinha várias dúvidas sobre o Vaticano e o Luís prontamente respondeu. O Luís, de facto, tratava os leitores de uma forma especial. E eu emocionei-me bastante com uma mensagem que recebi no dia da apresentação do livro em Benavente. Eu fiz a apresentação no dia 1 de março e na altura, o livro, na primeira semana, ficou no top de vendas da Bertrand. E eu falei com o meu editor, com o Vitória Gonçalves, e disse: "Olha, Vitória, uma vez que o livro está no top, eu acho que seria benéfico percorrer algumas Bertrands do país e falar com os livreiros, assinar alguns livros e conviver um pouco, portanto, tentar perceber como é que estavam a correr as coisas". Eu tinha acabado de dizer isto ao meu editor e recebi uma mensagem da gerente de loja de uma Bertrand, em Coimbra, a dizer-me que teria todo o gosto, que os livros estavam esgotados, mas que quando fossem enviados novos exemplares, que teria todo o gosto que eu passasse pela Bertrand para os assinar.

Assinar, exatamente.

E eu disse: "Olhe, muito obrigado pelo convite. Eu já estava a planear isso com a editora, porque de facto tenho conhecimento que as coisas estão a correr muito bem e que vocês têm feito um trabalho incrível a nível do Bertrand, e eu já estava a pensar nisso, portanto, isso vai acontecer". E ela enviou-me uma mensagem a dizer que ficava muito contente e que eu fazia lembrar o Luís, não só pela forma como escrevia, mas pelo cuidado que tinha com os livreiros. O Luís era, de facto, uma pessoa muito especial e é importante salientar que foi uma perda muito grande, não só no mundo da literatura, como no geral, no mundo.

Morreu muito novo, ele agora dia 26 faz, aliás, uma década já, com 39 anos, de um cancro. Mas de facto, estas obras dele, "O Último Papa", sobre a morte de João Paulo I, "A Bala Santa", "A Mentira Sagrada", depois "O Filho do Papa". Já depois em título póstumo, sei que eu tinha coisas ainda no espólio dele, que o irmão depois editou, "As Curiosidades do Vaticano" e "A Resignação", o último também que já saiu título póstumo. Eras um grande admirador dele, como eu era também. Ele sempre que vinha cá a Lisboa, nós íamos sempre almoçar e era uma pessoa também muito engraçada, muito querida. E portanto, é engraçado esta influência que ele teve, porque eras, de facto, as pessoas que inspiraram a outros. Por exemplo, tu gostas muito também do Daniel Silva, o Ken Follett, claro que são referências para ti. O próprio Dan Brown vai agora ter, aliás, um-

Um novo livro.

Exatamente. Sai a 9 de setembro, agora, "O Segredo dos Segredos".

Dan Brown também teve uma importância grande. Para mim, o meu mentor será sempre o Luís pelo impacto que teve.

Com o "Anjos e Demônios" é que tomaste a decisão de escrever.

O "Anjos e Demônios" foi o livro que mais me marcou no sentido de começar a escrever, porque houve muitos livros que me marcaram.

Claro.

Mas eu cheguei ao fim do "Anjos e Demônios" e eu senti a necessidade: "Eu quero escrever algo que deixe o leitor a sentir aquilo que eu acabei de sentir".

Emoção até o fim. E tens alguns truques, os capítulos curtos, este tipo de coisas, tu deixares isso.

Deixar em suspense.

Isso é uma coisa fantástica.

Foi muito Dan Brown.

Eu tive a sorte que quando "A Origem" foi lançado cá, fui eu que o apresentei no CCB.

Incrível.

E ele, de facto, eu digo sempre, é um truque que tem, esta questão da maneira de escrever, que nos leva a querer o page turner. A pessoa não consegue largar, porque as coisas sucedem-se em catadupa e é minicapítulos, que é muito atrativo.

Dan Brown tem uma frase muito conhecida que é: "O suspense trata-se de fazer promessas ao leitor", que é: "Eu sei algo que tu não sabes, mas se continuares a ler, eu vou te dizer."

Exatamente.

E resulta, porque o leitor está constantemente página atrás de página a tentar perceber o que se vai passar.

Uma coisa que tu fazes muito, e fazes muito bem, para escrever os teus livros, é vais visitar os sítios da história, porque é uma coisa que tu adoras fazer, esta questão dos trilhos, pegas na tua mochila, lá vais tu e tens vários filmes no Instagram que mostram isso, por sítios lindos de morrer. Além do surf, na Costa Vicentina, onde tu vais no verão de 2016, o próprio protagonista também faz, e dos cães, e da tua Sally, e dos passeios que fazes com os cães também te ocupam o teu tempo, e acho muito bem. Esta questão dos trilhos e concretamente desta viagem que tu fizeste no pós-confinamento a Santiago de Compostela, andaste ali à palmilhada 200 quilómetros, para aí, de Braga até lá. Que depois até disseste um dia: "Um dia vou voltar a fazer estes trilhos." Vais mesmo?

Vou voltar a fazer os trilhos, não sei se tão cedo.

O próximo projeto vai passar por isso, não é?

O próximo projeto vai ser passado entre Braga e Santiago.

Incrível.

E eu fiz os caminhos de Santiago em pleno confinamento.

E ias sozinho?

Ia sozinho. Ia sozinho.

Fantástico. Porque que fizeste El Camino?

El Camino. Porque foi uma altura em que eu precisava de esvaziar a cabeça. Estava a sentir necessidade de, durante alguns dias, desligar. E já andava há muitos anos para fazer o caminho e, de certa forma, acho que não há alturas certas para fazermos algo. E a prova foi que o caminho foi das melhores experiências que eu alguma vez tive, mesmo em pleno confinamento.

Pois, os albergues estavam fechados.

Os albergues estavam fechados.

Quanto tempo demoraste?

Eu demorei oito dias.

Uma semana inteira, portanto, oito dias.

Porque as duas etapas em Portugal, que eram quatro etapas, eu fiz em duas.

Ok.

E de facto tive encontros incríveis. Posso contar isto: eu no primeiro dia do caminho, fui de Braga até Ponte Lima e foram cerca de 40 km. E era a única etapa que eu não tinha bem noção de como é que seria, porque o caminho normalmente faz-se do Porto. E no Porto, tu depois apanhas Ponte Lima e eu de Braga a Ponte Lima não tinha noção da dificuldade que seria a nível de subidas.

Da orografia, digamos, do terreno.

Exatamente, não tinha estudado. E foi duríssimo. Eu ia com uma mochila às costas com mais quilos do que deveria e eu entrei em Ponte de Lima quase a chorar com dores. E deparei-me com uma pessoa. Eu fiquei numa pousada, porque os albergues estavam fechados, e quando chego, encontro um senhor que me viu e diz: "Peregrino?" E eu: "Sim". "Eu também sou um peregrino." E eu: "Ai, sim?" "Sim, podes procurar no telemóvel José, o peregrino." Ele era espanhol, portanto, José, el peregrino. E eu pensava que o senhor estava a brincar comigo, mas de qualquer das formas, tirei o telemóvel e procurei. Então a pessoa que eu tinha diante de mim era um antigo pescador que naufragou no mar da Noruega.

Incrível.

Esteve 12 horas até ser resgatado. A tripulação toda morreu.

O único sobrevivente.

Foi o único sobrevivente. Apoiou-se nos corpos dos colegas. Foi resgatado 12 horas depois das águas gélidas do mar da Noruega. Os médicos disseram que ele jamais voltaria a andar, nunca iria recuperar. E o José, o José, fez uma promessa que se voltasse a andar, ia em peregrinação a todos os locais santos do mundo. Ou seja, a pessoa que estava ali já tinha feito o caminho dezenas e dezenas de vezes. Já tinha ido a Jerusalém, já tinha ido a Fátima, já tinha ido a Lourdes. Ele palmilhou a Europa toda de mochila às costas. E eu, se sou sincero, aquilo foi uma lição para mim, porque naquele momento as dores não me passaram, mas a minha mentalidade mudou por completo.

E é tudo o que precisamos para seguir caminho, não é?

É.

Completamente.

E ele deu-me muita força depois para a etapa seguinte. E foi um encontro que me marcou, porque é uma lição de vida. Aquele homem era uma lição de vida.

Estamos aqui a conversar das tuas várias histórias que te aconteceram ao longo deste caminho, os caminhos de Santiago que tu fizeste, onde partiste em busca de inspiração. Tens dezenas de histórias. Ficámos a saber que o teu próximo projeto já vai ser um bocadinho baseado nesta peregrinação que tu fizeste, no fundo, sempre histórias para contar. Esta road trip por Itália, isto aconteceu?

Não, essa road trip por Itália é um objetivo.

Que eu li não sei onde que falavas.

Fazer Itália de norte a sul. Sim, nas redes sociais, numa entrevista rápida, perguntaram-me qual é que seria a viagem de sonho. E a minha viagem de sonho, claro que teria imensos locais que gostava de conhecer, mas Itália sempre teve um fascínio grande da minha parte.

Uma mística especial.

E eu gostava muito de fazer Itália de norte a sul.

Mas bom garfo.

Sim, cozinha italiana para mim.

Então Itália, vais morrer, porque é delicioso. Tudo, até as pizzas e os gelados das bancas da rua ultrapassam tudo o que a gente conhece. É extraordinário. E também Paris, a tua primeira vez que foste, talvez uma viagem muito marcante para ti, e tu sentiste muita necessidade de escrever. Tu é engraçado, tu visitas as coisas, tu és tão bom, Rui. Visitas as coisas e depois ficas com histórias para contar e apetece-te contar e partilhar as coisas boas que tu vais vivendo. É muito giro.

Sim, a viagem a Paris foi de facto, eu tinha cerca de 12 anos. A viagem a Paris coincidiu mais ou menos com a primeira visita a Tomar.

Sim, tinhas 12 anos nessa altura.

Tinha 12 anos. E a viagem a Paris, para um jovem que já tinha saído do país. Os meus pais sempre me habituaram a viajar, mas nunca muitas viagens para fora. E Paris foi daqueles locais que nós estamos habituados a ler, a ver filmes, locais extremamente emblemáticos, e para um miúdo de 12 anos, de facto, surgiu mesmo a necessidade de escrever. O ambiente, as pessoas, o pulso da cidade, houve muita necessidade de escrever sobre isso. E a paixão pela escrita, eu diria que comecei a escrever por causa da viagem a Paris. Foi aquilo que fez com que, de facto, agarrasse num caderno e começasse a escrever.

Está-te no sangue, de facto, este impulso, esta coisa, é muito engraçado. Então séculos depois, a descoberta dos templários continua a matar-se. Aqui, sim, o subtítulo desta capa, a portinha toda aqui fez um belíssimo trabalho. Esta capa é muito bonita também, e faz jus, o tipo de letra, a fotografia, tudo, desta cena na charola que se nota aqui, deste frade, este monge. Esta tua ideia, portanto, já tinha surgido, como tu dizes 10 anos antes. Quem é o teu Tó a quem dedicas o livro? É um tio teu verdadeiro, que existe e que sempre te deu livros ou sempre conversou muito contigo, gostas muito dele?

O tio Tó já não está conosco.

Mas era alguém muito especial na tua família.

Era alguém muito especial. Era alguém que, apesar de não ter tido uma grande importância no meu percurso literário, teve um papel enorme na pessoa que eu sou hoje e proporcionou-me alguns dos momentos mais felizes a nível de infância. Cheguei a ir com ele a Tomar. Portanto, é uma pessoa que está muito presente e moldou muito o meu caráter.

Muito generoso da tua parte, tens um coração grande. Nisso és parecido com o Luís, de facto. A ligação com o editor foi fácil ou bateste em muitas portas? Como é que contactaram contigo para editar este livro? E é logo o maior grupo português, a Porta Editora.

O contacto com a editora foi fácil. Quem me contactou foi o Vítor Gonçalves, que é o meu editor. E, na altura, por norma, quando são editoras muito grandes, é necessário esperar mais tempo. Por norma, três a quatro meses até recebermos uma resposta.

Mandaste o manuscrito, uma peça?

Sim, para diversas editoras. Aliás, eu até fiz uma espécie de grelha Excel com as várias editoras para as quais tinha enviado o manuscrito, datas e depois as respostas. E aquilo que aconteceu foi: eu de facto tinha já propostas em cima da mesa com editoras que até me sentia confortável a editar, a publicar. E o Vítor, na altura, falou comigo, tivemos uma reunião, eu expliquei-lhe que não seria um único livro, eu tinha várias ideias e que pretendia desenvolver vários projetos literários. E o Vítor disse-me que era mais ou menos isso que pretendia.

O thriller histórico vende bastante, é uma área que é bastante procurada.

Vende bastante, mas curiosamente não temos muitos autores portugueses a escrever. Temos muitos leitores, mas este thriller que envolve a investigação histórica, não há de facto muitos autores a atirarem-se para este campo. E eu diria que foi isso que fez com que a Porta Editora, aliás, o próprio Vítor, na altura, disse que a Porta Editora tinha ficado com um vazio muito grande desde a morte do Luís. E que ainda não tinham conseguido arranjar ninguém a escrever policiais, sim, mas não com esta parte histórica. E o Vítor também gostou muito da questão de ser um thriller histórico passado em Portugal, onde o leitor consegue, se quiser visitar um determinado local, esse local existe e está próximo.

Exatamente. E pode ir, e tu fazes isso.

E pode ir.

E depois no teu Insta é muito giro, porque depois está: "Eu estou a entrar neste template, e a gruta do sangue".

E aparece, exato.

"Eu estou aqui. Pois vão ver, eu aqui tive que vir à gruta do sangue para ver se as pessoas conseguiam, se o protagonista conseguia escapar ou se ficava alagado dentro d'água".

Mas sabes que é interessante.

Isso é muito interessante.

É interessante porque muitos leitores, o feedback que eu tenho recebido, e nós vivemos numa altura em que é muito normal o leitor estar a ler com o telemóvel ao lado, e é frequente os leitores estarem a ler e a determinada altura agarrarem no telemóvel, vão ao Google: "Deixa-me lá ver se este local de facto existe".

Ou a igreja de Santa Maria do Olival. Exatamente.

Esta pedra por onde existe uma gruta.

A lápide do Gualdim Pais.

De facto, há muito.

E está lá.

E está lá. E é interessante porque é uma parte palpável que nós temos. O leitor, se quiser, consegue verificar a gruta do sangue. A questão da gruta do sangue, tocaste aí num ponto que foi interessante. A gruta do sangue, para quem não sabe.

Na mata do Sete Montes.

Na mata do Sete Montes, é a gruta adjacente ao castelo. E a gruta do sangue é a gruta por onde descem as águas que vêm da mina subterrânea do castelo. Essa gruta, durante os meses de inverno e de primavera, tem água. A questão é que nós temos a garantia que há um percurso que é feito desde o castelo até ali. Para quem não sabe, são muitas as histórias e os relatos, até dos monges da Ordem de Cristo, que mencionam passagens subterrâneas por Tomar, e não só por Tomar, como pelo convento. E numa altura do livro, há de facto uma fuga do protagonista.

Sem spoilers.

Sem spoilers, mas há uma fuga.

Vai por um túnel.

Exatamente. E eu precisava de saber se essa passagem poderia eventualmente dar à gruta do sangue.

Exatamente.

E precisava de saber como é que era a gruta, os factos históricos que são apresentados no livro são reais. Eu não alterei factos. Aquilo que coloco é: nós temos muitas partes históricas que não estão devidamente documentadas e que dão origem a dúvidas. E eu agarro nessas dúvidas e depois interpreto ou uso.

Faz a ligação. É o papel de um romancista histórico.

Exatamente.

Sem alterar a história.

No fim do dia, é um livro de ficção.

Faz a ligação, é ele que inventa. Claro.

E na gruta do sangue, eu precisava de saber, de facto, como é que era a gruta. E a gruta é uma gruta pequeníssima, onde nós temos que ir a rastejar, quase. E chegou a altura de escrever sobre a fuga. Era primavera, eu não ia conseguir entrar na gruta com a gruta seca, então com água pelo joelho e de lanterna, lá fui eu pela gruta perceber como é que era. E achei surpreendente, porque de facto era possível haver uma ligação, porque a gruta foi escavada pelo homem Foi uma gruta escavada artificial. E a gruta não era em pedra, à medida que vamos entrando, é uma gruta em arenito. Nós até conseguimos ver as raízes das árvores no cimo da gruta. E eu fiquei muito feliz, porque foi possível fazer essa cena e valeu a pena ter a água pelo joelho.

Portanto, nisto salva-se. Já perceberam .

Nessa parte salva-se, não sabemos quanto ao resto.

Mas é de facto fantástico. Primeira vez que visitei Tomar foi em 2007, tinha os tais 12 anos, e é de facto uma cidade extraordinária. Toda aquela Praça da República com o Gualdim Pais, a Igreja de São João Batista, recentemente restaurada, aliás, merece muito esta visita. Eu em Tomar adoro aquela Ermida da Senhora da Conceição, onde era para ser sepultado o Dom João III, e depois acabou por não ser, uma obra do João de Castilho, incrível, dos arquitetos Jerónimos também. A charolinha da Mata dos Sete Montes. Falas disto tudo, do aqueduto de Pegões. Tu tens esta coisa por causa da tua ida com a mochila e os trilhos e vais a todo lado. Mesmo no teu Instagram mostras estes olhos de água, por exemplo, onde tu estás, no Alviela, nascentes do Alviela, deve ser, ao pé do Centro de Ciência Viva do Morcego.

Exatamente.

As buracas do Casmilo e o cane de Sintra com a lenda. Encontras a cascata da Fórnea, o Pego da Rainha, tu andas em imensos sítios que mostras e que aconselhas as pessoas também a visitar. É muito giro.

Essas idas já não estão bem relacionadas com o livro, é mais aquela necessidade que eu tenho de colocar a mochila às costas e ir explorar o local. É talvez uma das formas mais rápidas que tenho de limpar a cabeça, é fazer um trilho de mochila às costas, sem saber muito bem o que vou encontrar. E dependendo também da altura do ano, por exemplo, a questão da cascata da Fórnea tem que ser ou na altura do inverno ou na primavera para conseguir apanhar a cascata com água.

É a mesma Cova da Velha, em Alcaria.

Exatamente.

Para apanhar com água.

Com água.

Senão seca, senão é uma parede só, sem ver essa água a cair da cascata. É muito giro.

O Pego da Rainha, por exemplo, é bom ir no verão, porque é uma pequena cascata que dá origem a um lago, que tem água o ano inteiro e é incrível porque fica rodeada por uma floresta, por uma clareira e é incrível mergulharmos ali, só ouvir os sons da natureza.

O Pego das Pias tu já foste? É ao pé de Odemira, tens que ir lá.

Não.

Se não conheces, é mais um trilho fantástico eu te sugerir aqui. O Pego das Pias, toma nota. É ao pé de Odemira. E Troyes, chegaste a ir a Troyes, em França?

Não.

Na região de Champagne.

Nem à região de Champagne, portanto são duas localidades.

Hugo de Payens, o fundador dos Cavaleiros em 1127, da Ordem do Templo. No princípio eram só os nove cavaleiros. E é aqui que se deu aquele concílio de Troyes muito importante, com o São Bernardo de Claraval, e que foi muito importante. Mas falas disso, como isso passa entre lá e cá também em Portugal. Estava aquisado que o Rodrigo Santos é que também faz questão: "Vou a todos os sítios que os meus romances têm."

Eu tentei.

Menos este do Espinosa, aquele que ele fez sobre o filósofo português em Amsterdã, o único que ele conheceu depois de ter escrito. Mas de facto é importante e tu dás essas dicas.

Aquilo que se passou em Paris, eu já tinha bem presente a viagem a Paris. Das localidades em Champagne, aquilo que fiz foi, para além da pesquisa morosa, foi falar com muitas pessoas de lá, que trabalham nos monumentos e que me conseguiram dar informações bastante sólidas para depois escrever.

Tu nisso és ótimo, porque depois explicas imenso e a gente aprende imenso com os teus livros, o que é bom. Mas explicas muito e vê-se que foste te informar muito. Aquela, por exemplo, que usam os soldados é balaclava.

Balaclava.

Balaclava, que é um espécie de máscara, mas negra.

Balaclava normalmente é as máscaras que-

Como usam os SEALs

...que as operações especiais utilizam, onde apenas fica visível os olhos para não serem reconhecidos.

E outra coisa que eu também não sabia.

Mas sabes que eu tenho um irmão que é oficial do Exército Português.

O teu irmão, aquele mais velho?

Exatamente.

Então pronto, tem essa facilidade. As armas.

Portanto, os engenhos explosivos, as situações militares ou os episódios policiais.

O Portugalista também tem um irmão no exército, então é por isso.

Curioso.

A lápide do Gualdim Pais foi outra coisa que eu aprendi contigo, que está lá em Tomar, de facto. Em Notre Dame tive um casamento lá, portanto, eu conheço isto bem. O fundador, o Gualdim Pais, o grande fundador de Tomar e de Pombal e que fundou os castelos de Almourol e de Monsanto e de Tomar, como a gente sabe.

Uma figura emblemática.

Emblemática. Fez ali naquela Igreja de Santa Maria do Olival, o panteão dos Templários, sendo que aquilo foi tudo remexido quando fizeram obras no tempo do Renascimento e mudaram o sítio das campas e tudo. E ele tem uma lápide agora na parede onde diz não sei quantos.

Esse é um tema que tem dado alguma discussão entre historiadores.

E tu explicas aqui. E lá explicas. O Dinis de Pais em 139, está aqui. Mas ele morreu 38 anos antes. Pois, é que a gente usava a data do tempo do César naquela altura.

Sim, é um facto. É curioso, porque há muitos historiadores que não defendem que o Gualdim Pais está sepultado naquele local. A única prova que nós temos é, de facto, essa pedra tumular, que indica que ele pode ter estado sepultado ali.

Que era o panteão dos mestres. Lá há outros mestres templários.

Sim. Aquilo que acontece é, durante a época manuelina, durante a altura do Renascimento, são feitas alterações na igreja.

Na morfologia das igrejas e só ficou uma porta, um portal, e que é românico ainda e todo o resto mudou de orientação.

Exatamente.

Foi esta rosácea, que é nova, com as obras já no século XX, até, ou XIX. Muitos castelos foram alterando, a partir logo de Dom João III começaram a fazer obras.

Exatamente.

E por isso o sítio certo pode não ser.

Aquilo que aconteceu foi: os túmulos saíram, os restos mortais dos mestres permaneceram na igreja, mas supostamente os túmulos foram destruídos.

Retirados ou destruídos.

Pronto. Aquilo que acontece é, há muitos relatos que temos que indicam que há uma cripta debaixo da igreja. Aliás, eu coloco isso no livro, se não estou em erro, que no adro da igreja foi encontrada uma das maiores necrópoles da Europa há cerca de 10 anos. E faz todo o sentido. O Gualdim Pais, para além de ser o fundador de Tomar, foi cavaleiro do Afonso Henriques e foi uma figura incontornável da história de Portugal.

Era cruzado. Esteve na Terra Santa, ele esteve em imensos sítios importantes. Esteve na Terra Santa, no cerco de Jafa, teve imensas missões importantes.

Daí eu dizer que foi nessa altura que possivelmente Gualdim Pais teve conhecimento dos segredos da ordem, até porque o Gualdim Pais tem contacto com um dos nove cavaleiros fundadores da Ordem do Templo. E pareceu-me um pouco Acho duvidoso que figuras destas da história de Portugal, que a determinada altura, simplesmente os túmulos fossem destruídos e os restos mortais fossem colocados a um canto.

Exatamente, dispersos.

Daí eu achar que na cripta pode, de facto, existir algo.

Mas existe essa cripta?

Existe essa cripta, assim como a ligação que existe da Igreja de Santa Maria dos Olivais até ao Convento de Cristo é factual.

Isso existe?

Isso existe.

Um túnel mesmo, como tu o pões eles a fugir, os mesmos?

Sim.

Ok. Eu não sabia que isso existia.

Mas é verídico.

Incrível! Então isso vai dar debaixo do rio, do Rio Nabão.

Sim. A única alteração que eu fiz é que neste momento, aliás, os últimos relatos que há dos frades que tentaram fazer essa travessia, o rio a determinada altura abateu-se sobre a passagem. Ou seja, neste momento não é possível. Aliás, eu no livro coloco-os a fugir e com água pela cintura.

Estava a coisa a correr.

Exatamente.

Já estava a começar a ficar difícil.

A passagem está, de facto, inundada. Aliás, os relatos que há, os frades, os achotes que levavam, o lume apagou por falta de oxigénio, portanto eles tiveram que voltar para trás. E estamos a falar há umas centenas de anos. Não foi há cinco séculos, mas estamos a falar talvez há 200, 300 anos, os últimos relatos que há sobre essa passagem. E a passagem, entretanto, foi selada.

Exatamente. Estou mesmo a sair de história para cá, não sabia, porque a minha dúvida era essa, a última, era para isso. O que é real, o que é ficção? Há coisas que tu sabes.

Quanto à questão da Gruta do Sangue, por exemplo, a ligação da passagem à Gruta do Sangue, isso foi fictício ou foi uma teoria. Não está provado. Está provado que, de facto, essa gruta tem ligação para a Colina do Castelo. Sabemos que essa gruta, a ranhura, já existia na altura do Gualdim Pais, até porque o nome Gruta do Sangue foi dado, segundo a lenda-

Por causa das tropas do Almançor, nessa altura não foi?

Quando cercam o castelo.

Foi uma chacina.

O cerco foi de tal forma brutal que-

Contra os mouros que queriam chegar ao norte.

Exatamente.

Foram até Santiago, o Almançor. Foi até Santiago com o Castelo.

Não esse Almançor.

Ah.

Esse Almançor foi travado, esse Almançor não subiu. Esse Almançor, de facto, o Gualdim Pais, com uma idade muito avançada já, conseguiu travar o cerco, mas foi algo de tal forma sangrento.

Em vez de sair água, saiu sangue. Impressionante. Muito bem. É, de facto, um thriller espantoso e passado em Portugal. Ficamos agora já à espera deste caminho, que também vai ser passado na Galiza. Entre Portugal e Espanha. Mas Rui Miguel Pinto, o nosso tempo voou, eu já sabia que isso ia acontecer. Antes de voltares ao teu evento, quero te agradecer muito essa tua disponibilidade, a tua generosidade em vir aqui, a homenagem bonita que tu fazes ao Luís Rocha também com este teu livro. E que ficamos à espera que voltes com o teu próximo. Talvez para o ano.

Talvez para o ano.

Espero que sim. Muito obrigado então. Continuas, estás com ele em mãos e, portanto, o Vítor Gonçalves a editar está a mesma.

Aquilo que temos planeado é até o fim do ano enviar para o Vítor e depois no decorrer do ano seguinte ele ser publicado.

Do manuscrito que tu mandaste, tu mudou muita coisa? Mas os editores fazem isso, não é?

Os editores fazem isso.

Aqui vai mais por aqui, vai mais por ali.

Mas com toda a razão. O Vítor e a Inês, que foi a revisora.

Dando dicas e sugestões.

Não foi mudado, foi adaptado. Eu era muito descritivo. Senti a necessidade de colocar muitos pensamentos das personagens e o Vítor disse: "Não é necessário". E o thriller tem que ter um ritmo frenético.

Sim.

E foi isso que foi mudado. E eu li, entretanto, o livro, mesmo antes de ele ser publicado, li o livro e reconheço e dou razão ao Vítor. Foi, de facto, um trabalho de equipa.

Rui Miguel Pinto, muitos parabéns por este livro.

Muito obrigado.

"O Segredo de Tomar", fica aqui a dica, da Porto Editora. Não perder este thriller histórico, passado no tempo dos templários, e hoje, com investigações a ver com o segredo que os templários terão escondido e que pode abalar os fundamentos da religião, da fé cristã. Muito bem, ficamos à espera do próximo. Muito obrigado por teres vindo.

Não há essa, obrigado eu.