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Decisão Benfica, seja bem-vindo à Rádio Observador. Entramos na reta final da campanha para as eleições do Sport Lisboa e Benfica. A votação é já no próximo sábado. Aqui, no Decisão Benfica, contamos o que andam a fazer os candidatos, avaliamos quem está a ganhar e quem está a perder votos e medimos também o pulso aos temas quentes desta campanha. Eu sou o Miguel Cordeiro, vou conversar com o Bruno Roseiro, o editor de desporto do Observador. Vamos seguir com o diário do Decisão Benfica. Bem-vindo, Bruno.
Olá, Miguel.
O resultado do jogo ontem em Newcastle é o que marca, claro, este dia de campanha.
Marca tudo. Eu diria que é mais do que o resultado, é toda a envolvência e a maneira como se chegou a esse resultado. Ou seja, nós ontem fizemos uma espécie de operação dupla a acompanhar João Nuno Nunga Lopes e também João Diogo Mantegas. E eu falando com a Mariana para perceber também o sentimento que se vivia no final do jogo, ou seja, no caso de João Diogo Mantegas viu no Seixal, João Nuno Nunga Lopes esteve na casa do Benfica de Santarém, e a sensação era muito equivalente. Ou seja, é mais do que uma derrota, é aquela sensação de impotência, de parecer que o Benfica tem uma derrota pesada na Liga dos Campeões e que não sendo natural, porque ninguém acha que seja natural, já começa a ser uma prática demasiado recorrente. E eu diria que isso é um sinal problemático. Ou seja, há aqui um ponto fundamental e que tem a ver com a pontuação do Benfica na Liga dos Campeões. Há uma percepção, se nós fizermos as contas, se Ajax e Atlético Global pontuarem agora nesta jornada, o Benfica vai ser a única equipa sem pontos na Liga dos Campeões. Portanto, há sempre também essa percepção. Não é líquido que o Benfica já esteja eliminado da Liga dos Campeões, muito longe disso. Parece-me até que um Benfica normal poderá chegar a 10, 11, 12 pontos nesta série Leverkusen, Ajax, Juventus e Nápolis. Agora, tenho duas garantias. Uma primeira garantia, tudo aquilo que aconteceu, o período eleitoral do Benfica afeta zero. Ou seja, aquele naufrágio completo que houve na segunda parte, não se pode falar em eleições ou não eleições, porque não é claramente por aí que o Benfica perde em Newcastle da maneira como perde. E depois uma outra sensação/percepção. O balão de oxigênio que o José Mourinho trazia, que era grande, apesar de tudo era um balão grande, começa a esvaziar-se. Ou seja, no sentido de as pessoas encontravam em Mourinho uma espécie de luz, esperança para virar a forma como a equipa estava com Bruno Lage na sua fase final, ou seja, quando tem aquele empate em casa no campeonato e depois a derrota com o Karabag. Há essa primeira vitória com o AVS, mas depois aquilo que se vê é um Benfica que das duas, uma, ou consegue empatar com adversários diretos, e neste caso o empatar com adversários diretos é mesmo no sentido pejorativo. Ou seja, porque o Benfica no Dragão, e eu tive a oportunidade de falar com algumas pessoas do Porto agora este fim de semana quando fui acompanhando o Rui Costa, e aquilo que elas me transmitiam era a sensação que nós temos aqui, nós, pessoas do futebol clube do Porto, que jogavam nesse dia também em Barcelos contra o Celoricense. Aquilo que me iam transmitindo é a sensação que nós temos aqui é se o jogo que o Benfica faz no Dragão fosse com Bruno Lage e não com José Mourinho, Bruno Lage tinha sido arrasado. E José Mourinho é um mestre da tática. Quando existem estes sinais, deixa-te logo a pensar um bocadinho: "Ok, qual é realmente este efeito Mourinho?" E ontem o balão de oxigênio Mourinho esvaziou mais um pouco pela forma como perde com o Newcastle. Com uma outra questão, o próximo jogo vai ser com o Arouca, aí sim, vai ser um jogo atípico, não é normal o Benfica ter as eleições mais concorridas de sempre, que vão ter a maior participação de sempre e ao mesmo tempo estar a fazer um jogo do campeonato no Estádio da Luz. Não é uma coisa normal. Agora, são jogos contra equipas como o Arouca que também já se revelaram problema para o Benfica. Basta recordar o jogo com o Rio Ave, basta recordar o jogo do Gil Vicente, apesar dessa vitória.
E outros jogos que foram muito complicados também esta temporada, como o Estrela da Amadora, como o jogo com o Averca, ainda com Bruno Lage, mas com equipas mais simples.
Era sempre com jogos em que era preciso assumir. Nas últimas semanas, recordo-me de um jogo onde o Benfica venceu de uma forma inequívoca, que foi na Vila das Aves, nos treinos do José Mourinho. Isso aí parece-me que foi um jogo que ganhou de forma inequívoca. Mas, por exemplo, o jogo do Gil Vicente acaba com uma vitória, e é isso que vai ficar é a vitória, mas é um jogo que deixa sinais preocupantes pela forma como tudo acabou por acontecer. E por isso Dois planos paralelos que se juntam, mas que têm de ser separados. Por um lado, o José Mourinho tem de começar a ganhar rapidamente para recuperar a equipa e para recuperar esse balão de oxigênio em relação aos adeptos. Dois, os candidatos à presidência do Benfica têm de começar a pensar num cenário que seria impensável no início da época, que é haver a possibilidade de, em termos financeiros, deixar de contar com uma ida ao playoff, porque nesta altura isso é um cenário tão real como a qualificação do Benfica para essa fase.
Para além deste jogo e deste clima, depois da derrota em Newcastle, o que está mais a marcar a campanha?
Hoje foi um dia aproveitado por Martim Meyer para fazer uma apresentação daquilo que já tinha revelado em termos de programa, várias vezes. Três grandes pontos. Um, o aumento do Estádio da Luz em 15 mil lugares, que são 9 mil lá em cima na zona do terceiro anel e 6 mil entre o piso um e dois, que serão para zona corporate. Depois, por outro lado, o campus das modalidades, ou seja, todos os pavilhões que irá albergar, a piscina pra natação, o atletismo, os campos de rugby, inclusivamente as zonas onde poderão ser construídos, porque são necessários 25 hectares, e terá de ser Amadora, Loures ou Oeiras, são as três hipóteses colocadas em cima da mesa. E por fim, também a expansão do Seixal com o estádio pro futebol feminino, com o colégio, etc. Qual é aqui a vantagem de Martim Meyer? É que ele quando apresenta, apresenta como é que se faz, como é que vai ficar e como é que ele pensa pagar. Dois exemplos práticos. Por exemplo, em relação ao Estádio da Luz, que ele estima que seja uma obra que demore cerca de 26 meses, aponta para um custo na ordem dos 100 milhões de euros, mas depois vai fazer a conta ao número de red passes novos que ele vai conseguir vender e também minimizar a atual lista de espera. E por outro, ao valor que vai arrecadar do aumento da zona corporate do Estádio da Luz, para dizer: "Nós no final de 10 anos temos este investimento amortizado por esta receita que veio". Por outro lado, em relação às modalidades, faz um raciocínio um pouco inverso e que tem a ver com, apesar de ser um investimento a rondar os 69 milhões de euros, o Benfica vai começar a poupar cerca de seis a oito milhões de euros por ano. E por quê? Porque tendo tantas modalidades, tantos escalões masculino e feminino, muitas vezes as pessoas não têm bem noção da quantidade de sítios que o Benfica tem de ir alugando, mais transporte, etc. Tudo isso, todos esses pequenos custos, quando se somam todos, acabam por ser grandes. E este campus das modalidades passaria ou iria permitir que não houvesse esse tipo de custos, e não havendo esse tipo de custos, houvesse também essa possibilidade de ir amortizando com o tempo. Portanto, diria que foi a sua última apresentação, sempre com o mesmo foco, que é explicar aos benfiquistas: "Eu tenho essas ideias, as coisas estão assim, eu quero chegar ali e explicar como", que acaba por ser uma das grandes tônicas em toda a campanha de Martim Meyer, que foi tentar sempre explicar o como. Uma nota também, só para destacar uma entrevista do José Teotónio ao Eco. Portanto, o José Teotónio vai ficar responsável pela parte financeira na lista de João Noronha Lopes. É um dos gestores mais conhecidos, mais midiáticos, saindo aqui um bocadinho da bolha eleições e passando pra um mundo empresarial. Houve até alguma surpresa de como era possível conseguir juntar pessoas, neste caso, José Teotónio, à lista, pessoas com tanto currículo e com tanta capacidade na sua área. E duas grandes frases que ele tem ao longo da entrevista. A entrevista é interessante.
Os dois momentos, é aquele em que ele diz que vai se dedicar 100% ao Benfica e o outro sobre o futuro, sobre as contas do Benfica.
Sobre as contas. Eu foquei-me mais na parte das contas e sobretudo criar esta ideia, que é na ótica dele, se o Benfica continuar a dar 15 milhões de prejuízo ao ano, daqui a quatro anos já está falido. E por outro, balizar o nível de resultado operacional positivo nos 35 milhões de euros, como objetivo, acho que são as duas grandes premissas da entrevista.
Ou seja, uma diferença de 45 milhões. Passar de um prejuízo de 15 para um resultado positivo de 35.
Sim.
Ou são mais, até.
Eu até diria uma coisa. Eu acho que nesta altura, os candidatos do Benfica, eu sei que o mais apelativo é falar de receitas, de proveitos, de resultados positivos. O grande problema do Benfica é estancar a hemorragia que tem na tesouraria. Isso é o mais importante de tudo. Agora, se calhar, não é um tema tão sexy quanto isso para abordar na campanha eleitoral, mas mais importante que tudo é a questão da tesouraria. Depois, a partir daí, ir à procura das tais receitas novas e da diminuição de custos.
Claro. Aqui na Rádio Observador debatemos finanças também no Decisão Benfica, foi aliás o primeiro debate entre todas as candidaturas. Neste diário, vamos agora seguir com o Caça ao Voto. Está alguém, Bruno, a ganhar ou a perder votos?
Eu diria que João Nuno Lopes e João Diogo Mantegas podem ontem ter ganho votos. E porquê? Não acredito que exista uma percentagem muito grande de indecisos nesta altura. Ou seja, quem está interessado mesmo em saber as coisas e em saber em quem votar nas eleições do Benfica, já sabe de trás para a frente o que é que cada um pensa e, portanto, não terá grandes dúvidas sobre isso. Agora, os indecisos que têm sempre aquela dúvida até ao final e esperam sempre para saber também um bocadinho se o futebol está melhor ou se está pior, muito provavelmente isso ontem claramente pendeu mais a favor de uma mudança, ou seja, dos principais protagonistas da mudança, que acabam por ser João Nuno Lopes e João Diogo Mantegas, além de Martim Ayer e Cristóvão Carvalho, e terá pendido menos a favor de Rui Costa. Como é óbvio, ele como jogador era um maestro. Como presidente, ele não pode fazer nada dentro de campo. Agora, mais uma vez, o discurso de ambição que foi renovado com José Mourinho acaba por bater na trave quando o Benfica tem segundas partes como a última que teve agora em Newcastle e terminou com mais uma derrota. Portanto, por aí pode desequilibrar um bocadinho a balança. E o próprio Martim Ayer, para quem tivesse algumas dúvidas ainda em votar nele, até porque é uma primeira volta ainda, são seis candidatos, muito provavelmente, e daquilo que eu tenho falado de todas as candidaturas, é pouco provável nesta altura que venha a haver uma vitória de alguém à primeira volta, e isso é mais ou menos assumido. Seria uma semi surpresa ou uma grande surpresa para todas as candidaturas. E por isso Martim Ayer acaba por capitalizar um pouco mais pela forma como mais uma vez explicou as ideias que tem, explorando todas as formas de como é que vai atingir os seus objetivos. Falei de todos, menos Luís Filipe Vieira. Não foi por acaso. Continuo a achar que Luís Filipe Vieira vai ser um fenómeno difícil de interpretar nas eleições. Parece-me até que é o resultado que toda a gente terá mais curiosidade em perceber até onde é que ele conseguirá chegar. Acho que os resultados não têm propriamente grande impacto em relação a poder ter maior ou menor votação, mas é claramente aquele candidato que se nós falarmos num voto escondido, Luís Filipe Vieira é essa lista. Portanto, vamos ver esse voto escondido até onde é que poderá ir.
Vamos saber no próximo sábado. Agora vamos para a Farmácia Franco. É sempre assim, para fechar esta decisão Benfica, recuperamos a história de antigos presidentes e hoje, Bruno, vamos falar de João Santos, que foi o líder do Benfica durante os anos de 1987 e 1992.
Sim, o João Santos acaba por ser um presidente que não entra propriamente nunca num top três ou num top cinco, mas que colocado no seu contexto, as pessoas perceberão que ele teve uma importância naquela altura, diria quase decisiva para o Benfica. Ele acaba por entrar no Benfica em 87, a seguir a Fernando Martins, que tinha estado de 81 a 87 na liderança do Benfica. Ganha-se o campeonato de 87, que é o tal campeonato que já tínhamos aqui falado com o John Mortimer, que é o campeonato marcado pelo 7x1, mas que acaba com o Benfica a tornar-se mais uma vez campeão. No ano a seguir, ele aposta inicialmente em Scowdall, que corre mal enquanto experiência de treinador, mas a entrada Tony consegue segurar ainda as pontas e consegue permitir que o Benfica vá a uma nova final da Taça dos Clubes Campeões Europeus com o PSV, que acaba depois por perder nas grandes penalidades. E em 1990, já com Eriksson no banco, foi outra das grandes apostas de João Santos, surge a última final do Benfica na principal competição europeia, neste caso contra o Milan, que acaba por ser decidida com aquele gol do Rijkaard, se calhar num ano onde havia uma esperança redobrada numa vitória do Benfica. Aliás, eu recordo, ali na zona da Cidade Universitária, chegou a haver mesmo um ecrã gigante, ou seja, percebia-se que havia uma grande esperança nessa vitória. Em cinco anos, o João Santos ganha três campeonatos, ganha uma taça, ganha uma supertaça, ganha também a Taça de Honra, que de vez em quando aparecia no calendário. Conseguiu ir reforçando o peso do ecletismo do Benfica com a vitória em várias modalidades coletivas, em campeonatos e taças, incluindo também atletismo e natação. Mas é alguém que, por um lado, era uma figura discreta, que não era de sorriso fácil, mas que era uma pessoa gentil, gente boa, e que tem, e isso para mim é um dos seus grandes méritos, enfrentou se calhar a versão mais bélica do Futebol Clube do Porto, que foi aquela versão início dos anos 90, onde o Benfica algumas vezes quando ia ao Estádio das Antas, inclusivamente, ou tinha cheiros esquisitos nos balneários ou tinha de se equipar nos corredores. E o próprio João Santos, por ameaças de morte feita por essa figura, também ficou no imaginário do futebol português, apesar de não ter assim tantas lembranças positivas, que era o Guarda Abel, o próprio João Santos deixou de ir às Antas com medo que essas ameaças pudessem traduzir em algo mais. Ou seja, além de conseguir colocar o Benfica nas últimas duas finais da Taça dos Clubes Campeões Europeus, João Santos conseguiu ter esse rasgo de ir buscar novamente Eriksson, que vai a esta final com o Milan, mas ao mesmo tempo enfrentou aquela que era a versão mais difícil do Futebol Clube do Porto de Pinto da Costa. E eu diria que entre as vitórias e as derrotas acabou por se sair bem e muitas vezes se calhar merece mais destaque do que aquele que é dado em termos históricos.
E aparece numa véspera depois de um período muito complicado para o Benfica na década seguinte. Aparece João Santos ainda antes desse período.
Sim, depois a coisa complicou-se. Veio o verão quente e veio o maior jejum de sempre do Benfica de 94 a 2005.
Está feito o "Decisão Benfica" de hoje. Estamos de regresso amanhã.