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Bem-vindo ao Diário do Decisão Benfica. Este é o podcast dedicado às eleições de 25 de outubro, a eleição mais disputada de sempre no Sport Lisboa e Benfica. Eu sou o Miguel Cordeiro e converso com o Bruno Roseiro, editor de desporto do Observador. Falamos do tema que está a marcar a campanha, analisamos que candidato está a subir e quem está a descer e no final entramos na Farmácia Franco para recuperar a história de antigos presidentes do Benfica. Neste espaço, no Decisão Benfica, continuamos também a contar com o debate entre candidatos. Na próxima segunda-feira, vamos ter o debate sobre futebol. Por agora, abrimos o Diário. Bem-vindo, Bruno Roseiro.

Olá, Miguel.

Vamos ao que está a marcar a campanha e hoje há um tema incontornável: estas entrevistas na BTV.

Sim, a BTV pra mim é o primeiro vencedor. Ou seja, a BTV muitas vezes até injustamente é aqui utilizada sempre como arma de arremesso para os candidatos que não o incumbente, sempre que chegamos a este período. E a verdade é que colocou todos os candidatos ao mesmo nível, conseguiu fazer um estilo de entrevista um pouquinho mais fechado a nível de temas, mas que abordou vários assuntos colocando todos no mesmo patamar e eu diria que isso, para mim, faz da BTV a primeira vencedora daquela saga de três horas seguidas de entrevistas. Depois há aqui um segundo vencedor, que é o próprio trabalho que todas as campanhas têm estado a fazer. E por quê? Alguém que, e nós por uma questão profissional somos algumas dessas pessoas, alguém que vá ouvindo e lendo todas as entrevistas que os candidatos vão dando, consegue perceber que tudo o que esteve ali durante meia hora foi a sistematização de todas as entrevistas que deram até agora. E isso mostra-se. Ou seja, cada candidatura tem a sua identidade, tem os seus pontos-chaves, tem as suas bandeiras e consegue transmiti-las e neste caso, acho que por aí toda gente conseguiu esse objetivo. E depois o resumo de tudo isto. Acho que todas as candidaturas tentaram falar um pouquinho para o seu eleitorado. Tentaram, obviamente, ir buscar um pouco mais de eleitorado, porque é assim nas eleições. Confirma-se que existem dois polos distintos, ou seja, uma linha mais associada a uma continuidade no Benfica, onde estão Rui Costa e Luís Filipe Vieira, uma outra linha mais associada a uma mudança, onde estão João Noronha Lopes, João Diogo Mantegas, Martim Maia e Cristóvão Carvalho. Qual foi pra mim aqui a surpresa? Foi Rui Costa e Luís Filipe Vieira tentarem passar a ideia de que pode haver mudanças dentro da continuidade, ou seja, tentando assegurar aos sócios do Benfica: "Atenção, vocês nunca vão cair no incerto, mas nós podemos fazer as coisas de uma maneira diferente". E, por outro lado, as quatro candidaturas a tentar cada vez mostrar que apesar de haver uma viragem, essa viragem não será uma queda no incerto, porque há nomes, porque há estratégias, porque há planos e há projetos. Diria que isso pra mim foi a nota dominante ao longo destas seis entrevistas e ao longo das três horas. Há também aqui um ponto fundamental e neste caso, como no Observador, foi o dia em que acompanhamos Luís Filipe Vieira. Se calhar, nós olhamos pra Luís Filipe Vieira, de acordo também com as sondagens que foram saindo, como alguém que apesar de ter quase 20 anos de liderança, partiu como um outsider. E aquilo que se sente é que a candidatura de Luís Filipe Vieira acredita cada vez mais que é possível ter um resultado bem maior do que aquilo que as sondagens têm transmitido. Onde é que poderá estar essa diferença? Na percentagem de votos que são feitos nas casas do Benfica fora de Lisboa. E aí também poderá estar uma das chaves do resultado.

Muito bem. Também a marcar esta campanha, o programa de Rui Costa, que foi divulgado.

Sim, foi apresentado um pouco como prolongamento das intervenções que Rui Costa foi tendo enquanto candidato. Para mim, há aqui uma curiosidade que é o futebol tem praticamente duas ou três linhas sobre quatro anos, mas depois fala muito sobre os reforços que vieram neste mercado, a reformulação do departamento de futebol, a conquista da Supertaça, a entrada direta na Liga dos Campeões, a contratação de José Mourinho. Portanto, aquilo que o Rui Costa quer fazer é uma espécie de rebranding da parte do futebol, onde apesar de tudo teve coisas boas. Acho que o primeiro ano de Roger Schmidt, pouca gente tem dúvidas de que é uma parte boa, mas quase pura e simplesmente não existe no programa. Depois, em termos genéricos, diria que é um consolidado de algumas ideias que já foi deixando. Ou seja, passar as receitas de 300 para 500 milhões, colocar que a questão dos custos aumentaram a uma razão de 5,6% ao ano, mas que as receitas operacionais também aumentaram mais, neste caso 10,8. A vontade de chegar aos 500 mil sócios, coisa que tenho muitas dúvidas com a recontagem que vai existir Um outro olhar para as casas e depois dois títulos europeus nas modalidades. Portanto, diria que não existe propriamente uma surpresa aqui, é mais um prolongamento daquilo que o candidato Rui Costa tem vindo a defender.

Mais algum tema que destaques?

Sim, uma notinha de rodapé, porque dá coerência a tudo aquilo que João Noronha Lopes tem defendido na sua lista, o fato de Nuno Gomes já ter deixado de ser um dos sócios da imprensa de representação de jogadores, a N Players, cuja grande figura acaba por ser Tiago Ribeiro, seu irmão, e para não haver nenhuma dúvida, por questões de transparência, já existiu essa separação. Acaba por ser quase uma continuidade, um 2.0 da entrega das declarações do IRS.

Muito bem. No Decisão Benfica vamos agora medir a luta por votos. Bruno, quem é que está a ganhar votos?

Eu diria que pode parecer quase paradoxal, mas os quatro candidatos que as sondagens apontam como os menos favoritos terão sido aqueles que podem ter ganho mais votos. E por quê? Porque parece-me claro, a partir de agora, que Rui Costa e Noronha Lopes terão mais a ganhar em não perder do que propriamente necessidade de conquistar. E aquele era um espaço, sobretudo, para Luís Filipe Vieira, João Diogo Mantegas, Martim Maia e Cristóvão Carvalho conseguirem captar um pouco mais de votos. Tiveram o seu palco, tiveram a oportunidade de mostrar ao que vêm. No caso de Luís Filipe Vieira, tem sempre aquela almofada de poder dizer: "Atenção, lembrem-se como é que eu agarrei neste clube e lembrem-se como é que ele está hoje". E há aqui também uma forte presença de uma questão que já aqui falámos anteriormente e que tem a ver com a inexistência de voto útil. Ou seja, é algo que os candidatos têm tentado explicar, e muitas vezes pode ou não passar, de que uma primeira volta não tem voto útil. Depois, na segunda volta, se nenhum daqueles candidatos for a escolha de um associado do Benfica, aí poderá haver essa questão do voto útil. Mas numa primeira volta não interessa, não existe esse voto útil e isso pode premiar, de certa forma, estes quatro candidatos que não Rui Costa e João Noronha Lopes, que me parecem nesta altura destacados em termos de sondagem.

Sim, e acabam por ter o mesmo espaço, o mesmo tempo, o mesmo local para expor as ideias.

As mesmas perguntas, os mesmos temas. E assim começa a ser mais fácil compará-los, sendo que a questão de quem é o melhor líder para o Benfica também é importante. Eu acho que o Benfica não deve apenas e só olhar para o projeto e para aquilo que deve fazer. Deve pensar é que tipo de liderança é que quer ter, ou que quer continuar a ter, ou que quer voltar a ter.

Então quem é que está nesta altura a perder votos?

Eu diria que nesta altura, e nos próximos dias, se nada de anormal acontecer, ninguém irá perder votos. Há uma pessoa aqui que claramente corre sempre esse risco, que se chama Rui Costa. Ou seja, se a bola não entra, a probabilidade de perder votos aumenta, se a bola entra, poderá sempre capitalizar mais um pouco. Esquecemos que há aqui esta questão chamada futebol no meio disto tudo, por culpa da paragem das seleções, mas Rui Costa, o candidato, também vai sempre viver muito à sombra ou à luz daquilo que é Rui Costa, o presidente, e os seus resultados desportivos.

Muito bem, vamos então para a Farmácia Franco. Na Farmácia Franco destacamos o trabalho de antigos presidentes do Benfica e hoje, Bruno, queres falar de Maurício Vieira de Brito, presidente do Benfica entre março de 1957 e março de 1962.

Sim, foi alguém que ficará sempre marcado com três pontos que servem de cartão de apresentação para qualquer presidente do Benfica. Foi o presidente que contratou Eusébio, foi o presidente que trouxe Béla Guttmann, foi o presidente que ganhou a primeira Taça dos Clubes Campeões Europeus. Portanto, só por aí acho que é um cartão de apresentação.

Um currículo, é difícil de bater.

Sim, já é complicado de bater. Ele está também na construção do plantel que ganha a segunda Taça dos Campeões logo no ano seguinte, apesar de ele não ter terminado, saiu em março de 62. Ganhou também três campeonatos. Naquela altura, claramente, o Benfica estava acima de todos os outros. Agora, foi alguém que marcou a diferença por um tipo de gestão que quando nós colocamos em perspectiva, hoje só poderíamos ter com um magnata, provavelmente do Médio Oriente ou com um americano que tivesse muita vontade de investir. E por quê? Maurício Vieira Brito foi engenheiro, foi empresário, foi professor universitário e foi um dos líderes que contribuiu mais vezes do seu bolso para que o Benfica continuasse a crescer. Ele chega com apenas 38 anos à liderança do Benfica e não era alguém que estivesse muito disposto a meter do seu bolso para contratar os jogadores. Mas era alguém que não se importava de funcionar como um autêntico mecenas quando havia obras estruturantes para aquilo que poderia ser o futuro do Benfica. As torres de iluminação na Luz, foi ele que edificou. É ele que começa também o início da construção do terceiro anel, que diria que é uma das obras mais simbólicas.

Depois acaba por demorar muito.

Depois vai demorar muito. Aliás, o seu irmão ainda foi presidente depois e mesmo assim e o terceiro anel estava por acabar. E tem uma frase muito curiosa dita ao Alfredo Varinha. O Alfredo Varinha pergunta-lhe se era verdade que ele já tinha dado 12 mil contos ao Benfica e ele responde: "Sim, sim, pode escrever isso, porque assim a minha mulher pode achar que foram só 12 mil contos e fica toda a gente contente lá em casa". Portanto, só isso mostra bem aquilo que ele foi. Foi um exemplo também de como conseguir potenciar o sucesso desportivo, e isto também é uma parte importante no Benfica, nos dias que correm. Por quê? Porque não só conseguiu rentabilizar e aproveitar esse sucesso desportivo para colocá-lo também ao serviço do plano financeiro, mas sobretudo numa vertente associativa para aumentarem muito o número de sócios. O Benfica passou a ter mais de 50 mil sócios naquela altura. Ou seja, não é uma questão só de ser mecenas e meter dinheiro. É por que eu estou a meter dinheiro e como é que este dinheiro vai contribuir no futuro, acrescenta muito naquilo que é a história do Benfica. Além, lá está, inevitável. É o presidente que vai buscar a Eusébio. Até podíamos resumir o cartão de apresentação.

Ele até podia não ter este investimento todo, o cartão já estava feito só com esse resultado desportivo.

Foi ele que conseguiu contratar a Eusébio.

Fechamos este episódio com Maurício Vieira de Brito. O Decisão Benfica está de regresso amanhã.