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Decisão Benfica, seja bem-vindo à Rádio Observador. Está com o podcast dedicado às eleições no Clube da Luz. Até dia 25 de outubro emitimos um diário para analisar os temas que marcam a campanha. Analisamos também que candidatos estão a ganhar e a perder votos. E neste programa visitamos ainda a Farmácia Franco e contamos a história de antigos presidentes do Benfica. Eu sou o Miguel Cordeiro e vou estar à conversa com o Bruno Roseira, editor de desporto do Observador. Bem-vindo, Bruno.

Olá, Miguel.

O que destacas hoje nesta campanha encarnada?

Tivemos futebol, tivemos José Mourinho a falar. O regresso do futebol tem aqui uma vantagem, que é poder, de certa forma, aliviar o mediatismo que existe em torno da campanha. Ou seja, quer se queira quer não, sem futebol, a campanha eleitoral do Benfica escalou para um patamar que agora com o futebol, com a bola a rodar, ainda para mais havendo de seguida a Liga dos Campeões, tem tendência a esvaziar. Ainda assim, e havendo só uma mera conferência de imprensa de antevisão, há aqui um ponto curioso em relação àquilo que o Mourinho disse. Se nós olharmos só por uma vertente meramente desportiva e desinteressada, aquilo que o José Mourinho fez foi uma consideração sobre aquilo que aconteceu, sobre a final da Taça de Portugal do ano passado, que o Benfica deveria ter ganho, que houve fatores externos, etc. Mas se nós aumentarmos a amplitude, se tornarmos a questão mais lata e se virmos o contexto atual de campanha eleitoral, aquilo que o José Mourinho diz acaba por ser quase um prolongamento daquilo que o Rui Costa tem tentado fazer prevalecer, que é a ideia de que nós não ganhamos campeonato e taça, mas estivemos na luta até o final e toda a gente sabe aquilo que aconteceu no Jamor e na Taça de Portugal. Portanto, há sempre essa curiosidade. Eu, sinceramente, nunca pensei que a questão da final da Taça de Portugal fosse um assunto que ainda hoje, meio de outubro, fosse falada, mas colocando tudo num contexto de campanha eleitoral, de facto, aquilo que o José Mourinho está a dizer é, no fundo, um prolongamento do agora recandidato Rui Costa, que defendia muito isso, ou seja, que o Benfica podia ter terminado a época com uma Taça de Portugal. Não sei se teria o mesmo impacto do que um campeonato, mas ainda assim poderia colocar os pesos de uma maneira diferente na balança.

Sim. Depois continuamos a ter entrevistas. A Rui Costa, Noronha, Nuno Gomes.

Estou cansado.

E há também aqui uma carta aberta que aparece do meio do nada, não é?

Sim, para mim, isto acaba por ser mais interessante. Ou seja, nas entrevistas, eu acho que nós chegamos aqui a um patamar onde já é difícil encontrar um candidato que diga coisas diferentes.

Pois.

Por isso é que quando eu vi as entrevistas todas da BTV, quando Diogo Mantegas diz: "Eu na próxima semana vou anunciar alguém para o futebol", para mim foi uma lufada de ar fresco, porque é uma novidade. Tudo o resto nós já começamos a saber, até porque os programas já estão todos colocados, já existe PDF, toda a gente já os pode ler, já pode tirar ideias à vontade. O que me parece que Rui Costa, na SIC, Noronha e também no podcast Mata-Mata, que até acaba por ter ali coisas um bocadinho diferentes, nomeadamente o fato de ter sido Nuno Gomes a sugerir Roger Schmidt. Nada melhor do que um bocadinho mais de ruído para ajudar a esta confusão toda. Mas Rui Costa, na SIC e nesse podcast, e Noronha Lopes, na Bola, aquilo que me parecem é: a grande ideia é passar para fora que são eles que estão na frente da corrida, ou seja, criar a percepção de que existe uma bipolarização, apesar de serem seis candidatos. Existe um candidato, que é o candidato da continuidade, que é o Rui Costa. Existe um candidato, que é o candidato da viragem, que é João Noronha Lopes. E por que isso é importante? Porque quando nós olhamos para a questão das sondagens, é muito complicado, ao contrário do que acontece com as autárquicas e legislativas, e até com essas é preciso ter cuidado, porque há não muito tempo as coisas não correram assim tão bem. Não existe tanta fiabilidade a nível de sondagens, e quanto mais criar essa percepção da bipolarização, mais fácil é Rui Costa e João Noronha Lopes encontrarem-se numa segunda volta. No meio de tudo isto, para mim, o grande destaque e o ponto que criou mais ruído no universo benfiquista foi uma carta aberta de Fernando Tavares. Fernando Tavares, para quem não conhece, foi vice-presidente na altura de Luís Filipe Vieira. Depois chateou-se, chegou a concorrer com Rui Rangel em 2012. Uma lista que curiosamente também tinha Martin Mayer. Depois volta a trabalhar com Luís Filipe Vieira. Fernando Tavares não integra agora os órgãos sociais que vão a votos com Rui Costa.

Ele está há muito tempo à frente das modalidades, não é?

Há muito tempo.

Pelo menos das modalidades do clube.

Sim, o futebol feminino sempre foi alguém muito próximo, mas as modalidades ele conhece muito bem. E à boleia de uma frase e de uma única frase que Noronha Lopes teve numa entrevista à BTV em que diz que o Benfica não pode ouvir um dirigente dizendo à Assembleia Geral que o andebol vai lutar pelo segundo lugar. À boleia de tudo isto, há uma carta que é bombástica, ou seja, as críticas de Fernando Tavares a João Noronha Lopes são arrasadoras. E por quê? Porque primeiro, para explicar essa frase, o sentido que ele dava era: o Benfica nesta altura está em terceiro lugar e para poder chegar lá acima, ficar em segundo não seria mau na perspectiva em que o segundo pode dar acesso à Liga dos Campeões.

É que são das vagas europeias, não é?

Exato. Isso seria um passo para depois o Benfica começar a projetar uma equipe e um plantel Que pudesse lutar pelo campeonato. E depois, tudo aquilo que diz em relação à campanha de João Noronha Lopes, de alguém que, apesar de fazer parte ainda dos órgãos sociais atuais, mas que não vai estar nas próximas eleições, acabou por criar bastante conversa, uns a favor, outros contra, mas percebe-se que foi claramente o fator menos mediático, mas que mais ruído foi criando ao longo do dia.

Estão na mesa os temas do dia, deste dia 16 de outubro, rumo às eleições de dia 25. Vamos agora à caça por votos. Bruno, quem é que está com nota mais nesta altura?

Hoje, numa avaliação diária, eu diria que há aqui um mais para Luís Filipe Vieira, e eu explico o porquê. O Benfica anunciou os 108 locais de votos no dia 25 e depois, posteriormente, no dia 8 de novembro, se houver uma segunda volta. Sabia-se que ia ser a maior operação logística de sempre a este nível do clube. E sabia-se também que será um investimento que nunca ficará abaixo dos € 2 milhões, para as pessoas perceberem o quão pesada é toda esta máquina. Agora, o facto de, tirando a parte da Europa e o mundo, porque há também Canadá, Estados Unidos, etc. Tendo em conta que existem mais de 90 casas espalhadas por outros locais, que não o Pavilhão da Luz, uma ideia que nós aqui já falamos vai ter ainda mais peso, que é: quanto maior for a proporção de votos, de votantes e de sócios que exerçam o seu direito de voto fora do Pavilhão da Luz, mais possibilidades tem Luís Filipe Vieira de ganhar. E por quê? Porque eu continuo a chamar a atenção para isto. Eu acho que muitas vezes as eleições do Benfica continuam a ser muito analisadas dentro de uma bolha. E se sairmos desta bolha, o facto de Luís Filipe Vieira ter estado 20 anos no Benfica é algo que deixou marca. E depois, a tal questão, que é a maneira como ele saiu. Como é óbvio, em termos de, por exemplo, em Lisboa, eu acho que isso se faz notar muito, a taxa de rejeição de Vieira é muito maior do que qualquer outro candidato. Agora, os 20 anos que ele teve de liderança também lhe dão uma capacidade de chegar a um eleitorado fora de Lisboa, nas casas do Benfica, que provavelmente os outros candidatos não têm. Portanto, eu diria que é preciso ver com atenção esta questão das porcentagens e o peso e a representatividade que Luís Filipe Vieira pode ter fora de Lisboa.

Muito bem. E vês alguém a perder votos ao dia de hoje?

Acho que não vou propriamente falar. Acho que Rui Costa e João Noronha Lopes, mais uma vez, foram inteligentes em bipolarizar estas eleições, porque quanto mais isso acontecer, mais probabilidades eles têm de chegar a uma segunda volta.

É tempo de seguirmos com a nossa visita à Farmácia Franco. Neste espaço recuperamos os arquivos, contamos a história de antigos presidentes do Benfica. Bruno, hoje vamos falar de Joaquim Ferreira Bogalho. Foi o presidente do Benfica entre 1952 e 1957 e é conhecido por ser o grande obreiro do Estádio da Luz.

Sim, é o homem-estádio, é mais fácil. Toda a gente o designa como o homem-estádio. Foi o presidente que esteve na génese daquilo que foi o antigo Estádio da Luz antes de sofrer os aumentos, o terceiro anel, e depois dar lugar ao atual Estádio da Luz. Foi uma vez campeão em 54, 55, numa altura em que o futebol português era dominado pelo Sporting. Ainda conseguiu ganhar também duas Taças de Portugal, mas deixou aqui três marcas que funcionam como exemplo e que, se nós olharmos agora, poderão funcionar quase como inspiração para qualquer que seja o próximo presidente do Benfica. Ponto um: ele conseguiu perceber que a única forma que havia de contrariar um Sporting, que na altura era a altura dos Cinco Violinos, aliás, a alcunha do Sporting era o Crónico, porque já se sabia que em termos crónicos era o Sporting que iria ganhar. A única maneira que havia de contrariar essa era dos Cinco Violinos era profissionalizar o futebol do Benfica. A aposta em Otogónea foi, digamos assim, a base de tudo isto, foi Otogónea que foi instituindo algumas alterações que acabaram por mudar de forma drástica aquilo que era o futebol do Benfica. Agora, quando nós olhamos para a década de 60, de sucesso do Benfica, a génese de tudo isto, e claro está, nunca esquecendo um senhor chamado Eusébio, mas a génese de tudo isto e a semente foi exatamente esta profissionalização que Otogónea veio trazer ao futebol do Benfica. Depois, um segundo ponto que era: não havendo sucesso desportivo, como é que era possível agarrar os sócios do Benfica? Porque é complicado. Não é por recuarmos não sei quantas décadas que as pessoas mudam. Ou seja, é normal haver menos ligação, se calhar, quando o clube ganha menos. E então, qual foi a forma que ele encontrou de manter os sócios sempre consigo? A parte das infraestruturas. Ou seja, os sócios foram vendo a construção do Estádio da Luz, foram percebendo que iam ter o seu estádio. Entretanto, foi também criado o Lar do Jogador, que é algo fundamental naquela altura, e isso foi aproximando os sócios, o número de sócios pagantes também foi aumentando e, curiosamente, sempre que o Benfica ia jogar fora, a própria reação que havia no aeroporto dos adeptos mostrava que, apesar de ganharem menos do que estavam habituados e do que ganhariam depois na década de 60, continuavam muito ligados ao clube. E depois aqui um terceiro ponto, que eu diria que também faz aqui todo o sentido e que tem a ver com a sua liderança forte. Ele muitas vezes levava aquilo que é a ideia de uma liderança forte um bocadinho ao extremo, ou seja, Ferreira Borralho, quando teve outras funções, até em direções do Benfica, quando não concordava com alguma coisa, demitia-se. Portanto, chegava a levar a questão ao extremo. Agora, era alguém que gostava de tomar o pulso a tudo, gostava de saber tudo aquilo que se passava em todas as áreas e que acaba por ser o presidente de um dos casos mais emblemáticos que ficou do clube, que foi o Castiga Félix Antunes. Portanto, ele tinha sido multado numa viagem a Viena que fez pela seleção, não concordou com essa multa, sentia que o Benfica não o escudou também como deveria ter feito, recusou-se a fazer um jogo com o Vitória de Setúbal. Posteriormente, e essa foi uma das coisas mais graves, pisou a camisola do Benfica e atirou as botas no balneário, portanto, esticou mesmo a corda ao máximo e acabou por ter uma suspensão por três anos, ou seja, basicamente, em termos de Benfica, acabou enquanto jogador. Não foi uma decisão fácil, imagino que hoje não poderia acontecer, mas mostra, sobretudo, aquilo que muitas vezes não é falado e não existe no programa eleitoral. Um presidente como o do clube do Benfica, com uma liderança forte, muitas vezes é melhor até do que qualquer projeto ou ideia.

Fica a memória de Joaquim Ferreira Bogalho. Está escrita esta página do diário do Decisão Benfica. Regressamos amanhã.