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Bem-vindo ao "Decisão Benfica". Aquece a campanha para a segunda volta das eleições no clube encarnado. São já no próximo sábado. João Noronha Lopes e Rui Costa têm trocado acusações entre visitas a casas do Benfica e entrevistas na comunicação social. Rui Costa diz que, há quatro anos, ninguém colocou os cotos no Benfica e acrescenta que não foi para a montanha passar férias. Um ataque claro a João Noronha Lopes que, há quatro anos, não concorreu nessa última eleição para a direção do Sport Lisboa e Benfica e que, nesse período, estava de férias, estava a subir ao Kilimanjaro. Numa visita à Casa do Benfica de Évora, o atual presidente das Águias disse também que está agora mais preparado do que estava há quatro anos. João Noronha Lopes também ataca e reforça que o Benfica piorou nos últimos quatro anos. O candidato à liderança das Águias vê o clube pior, tanto a nível desportivo como financeiramente. No futebol, o Benfica conseguiu uma boa imagem em Guimarães e tem agora mais um teste na Champions, no último jogo antes das eleições de sábado. Na Rádio Observador, analisamos a campanha para as eleições do Sport Lisboa e Benfica. Eu sou o Miguel Cordeiro e converso com o Bruno Roseiro, editor de desporto do Observador. Bem-vindo, Bruno.

Olá, Miguel.

Vamos começar a nossa conversa pelo futebol do Benfica. Ontem não falámos muito sobre isto. O Benfica traz uma boa imagem de Guimarães, desse jogo em que venceu por 3 x 0. Vai jogar agora frente ao Leverkusen nesta quarta-feira, na Liga dos Campeões, onde para já soma zero pontos. José Mourinho já fez a antevisão durante esta tarde. De que forma é que o futebol do Benfica pode ainda ter um papel importante nestas eleições?

Tem um papel importante porque a última imagem é sempre aquela que fica, quer se queira, quer não, e goste-se ou não, as eleições vivem à base dos resultados desportivos e resultados desportivos no imediato. Se fizermos uma sondagem às pessoas, ninguém se lembra daquilo que aconteceu nos últimos quatro anos. Aquilo que se lembram é que o Benfica ganhou em Guimarães no último jogo, que o Benfica vai agora jogar com o Leverkusen. Há um outro ponto aqui importante, ou se calhar dois. Um, a maneira como Mourinho chama os benfiquistas no Estádio da Luz para este jogo, ou seja, um tipo de mensagem que ele ainda não tinha referido, não tinha feito este tipo de apelo de: "Joguem conosco".

Ele começa essa conversa logo a seguir ao jogo com o Vitória.

Porque percebeu que era uma rampa de lançamento. Até a maneira como o Benfica ganha o jogo, eu diria que é uma rampa de lançamento para uma fase que ele consegue ver, até em termos de calendário, que pode ser uma fase muito positiva. Esse é um dos pontos. O segundo ponto: é tudo muito bonito esta fase, nesta altura, mas se o Benfica, por alguma razão, ou não pontua ou até o empate, eu diria que não é propriamente o melhor dos resultados, vai ter aqui um impacto direto nas eleições, que é o quê? É o aproximar de uma realidade que nesta altura está completamente em cima da mesa, tal como a outra distinta da qualificação, mas é o aproximar de um cenário onde o Benfica possa não ir sequer ao playoff dos oitavos, com o impacto que isso tem depois em termos financeiros, sabendo do peso que as receitas das provas europeias têm em qualquer orçamento e em qualquer exercício da SAD do Benfica. Uma parte aqui quase paradoxal, mas que pode acontecer. Se o Benfica ganhar ao Bayer Leverkusen e nesta altura, este Benfica não me parece que seja inferior em nada ao Bayer Leverkusen, embora com a alteração técnica, depois daquele despiste errático com o Eric Ten Hag, que felizmente para o Bayer Leverkusen demorou muito pouco tempo, o Bayer Leverkusen melhorou. Concordo com o Mourinho quando ele diz que a última imagem em relação a este jogo com o Bayern não é a real, porque de facto é uma equipa que joga muito mais, mas este Benfica não parece que seja em nada inferior ao Leverkusen. Mas ganhando este jogo e com a embalagem que está atrás de Guimarães, em condições normais, o Rui Costa joga ainda mais em casa à segunda volta. Qual é o problema aqui? É que existe um reverso da medalha que é o facilitismo, ou seja, as pessoas considerarem: "Ok, o clube está a ir pela direção que eu quero, está com a liderança ou com as lideranças", neste caso, Mourinho, de facto, é uma liderança à parte de todas as outras, "as lideranças que eu quero", mas depois não vão votar. E isso poderá ser o problema que depois altera todos os números da segunda volta e é o outro lado desta moeda de sucesso desportivo.

Muito bem. Entretanto, a marcar o futebol em Portugal, a polêmica em torno de Fábio Veríssimo e do jogo do Futebol Clube do Porto com o Sporting Braga, o Benfica meteu só barulho, emitiu um comunicado, até porque há imagens de um jogo do Sport Lisboa e Benfica, da formação que surgem em torno desta polêmica, ou seja, imagens que foram transmitidas no balneário do árbitro durante o intervalo do Futebol Clube do Porto, Sporting Braga. De que forma é que isto mexe também com esta eleição?

Esvazia a narrativa que Noronha Lopes vinha a utilizar muito, que é: o Benfica está a ser ultrapassado pelos outros. Acaba por esvaziar um pouquinho. Por quê? Porque a notícia sai no Correio da Manhã. José Gandarez, vice-presidente, atual vice-presidente do Benfica e de novo candidato a esse cargo na lista do Rui Costa Reage logo também na CMTV. O Benfica faz logo um comunicado, ainda à frente do Sporting, e acaba por esvaziar um pouco. Ou seja, ninguém pode acusar que o Benfica não reagiu de pronto perante aquilo que aconteceu. Aquilo que se pode dizer é que o Benfica reage demasiadas vezes em comunicado e isso depois acaba por tirar algum impacto sempre que existe essa situação. Agora, que houve uma reação pronta, houve, e o próprio Noronha Lopes e as pessoas da sua lista não referiram nada em relação a um Benfica que não age, não reage, não condena, porque isso de facto aconteceu e acaba por esvaziar um pouco essa parte do discurso de Noronha Lopes.

Muito bem, vamos a declarações dos candidatos. Rui Costa atacou Noronha Lopes por não ter estado na corrida em 2021. É uma frase mais forte do que nos tem habituado Rui Costa, dizer que ninguém quis colocar os escudos no Benfica há quatro anos e que não foi para a montanha passar férias. Isto dá votos a Rui Costa?

Mostra, sobretudo, uma questão, que é perceber qual é o calcanhar de Aquiles a nível de críticas. Ou seja, há muitas críticas que são feitas a Rui Costa que ele ou não responde, ou deixa passar ao lado, ou dá a sua perspetiva em relação à crítica que é feita. Há outras que mexem um pouco mais e que fazem com que ele dispare depois logo a seguir. E o contexto destas afirmações é o facto de associarem Rui Costa a João Vale e Azevedo, quando aquilo que ele diz é: "Eu em 96 posso ter aparecido num vídeo a dizer que voltaria ao Benfica, mas voltava como qualquer presidente e em 96 até foi Manuel Damásio que ganhou as eleições. Vale e Azevedo só ganhou em 97". Portanto, ao sentir-se atacado com esse calcanhar de Aquiles, ou seja, que é o tipo de coisas que ele não gosta de ser atacado, ele automaticamente responde. E responde não só utilizando frases que já tinha utilizado várias vezes na primeira volta: "Não que de paraquedas, não sou um benfiquista de ocasião", etc. Como duas ideias: um, "em 2021 eu não fui para a montanha". Portanto, nessa alusão à viagem que João Noronha Lopes fez ao Kilimanjaro. No dia em que nós passámos com ele, ele explicou, era algo que tinha combinado com amigos, inclusivamente com um dos filhos, demorou seis dias, portanto, foi quase uma prova de superação para ele, mas já depois de ter decidido que perante os compromissos profissionais que tinha assumido depois da derrota de 2020, não podia ir a essas eleições. Portanto, essa sempre foi a justificação dele. E choca aqui um pouco, não foi propriamente de férias para a montanha, como diz Rui Costa. Mas depois uma outra frase que é: "Eu prefiro estar aqui ao pé dos benfiquistas do que andar aí nas televisões falar". Portanto, viu-se uma versão do Rui Costa muito mais agressiva, porque lhe tocaram num nervo que foi associá-lo a João Vale e Azevedo. E aquilo que se viu de Noronha Lopes.

Que também teve uma entrevista, neste caso, à Bola TV.

À Bola TV. Aquilo que se viu de Noronha Lopes foi entrar por um caminho que Luís Filipe Vieira, a partir de certa altura, na primeira volta, percebeu que não lhe daria propriamente votos, que é centrar muito e bater muito na tecla Pedro Proença, direitos televisivos. Luís Filipe Vieira, quando entra na corrida, era um dos seus bastiões, era tirar Proença. Proença era isto, Proença era aquilo, mas quando nós recordamos as últimas duas, três semanas, Proença quase que não aparecia no discurso, porque ele percebeu que estava na altura de dar algo de novo. Noronha Lopes continua a bater muito nesta tecla e, ao mesmo tempo, continua a fazer algo que é inevitável, que é falar para o eleitorado que lhe faz falta nesta segunda volta. Por um lado, as casas do Benfica estão ao abandono, há muitas que ameaçam fechar, outras que não têm condições, o Benfica não ajuda, etc. Dois, elogiar a obra que Luís Filipe Vieira deixou, neste caso a nível de infraestruturas, para dizer: Luís Filipe Vieira deixou as infraestruturas, deixou tudo preparado e Rui Costa no mandato acabou por deitar tudo abaixo.

Para fechar, rapidamente, ainda temos tempo para falar das entrevistas de dois candidatos a vice, José Gandarez e José Teotónio.

Sim, assinalo estas entrevistas porque elas marcam aquilo que tem sido o registo em termos de segunda volta. Portanto, por um lado, José Teotónio, que será o vice para as finanças e um dos nomes mais fortes da lista de Noronha Lopes, mais uma vez a revelar todas as fragilidades que ele identifica em termos financeiros do Benfica, tal como já tinha acontecido com Raquel Vaspinto na parte do associativismo, tal como tinha acontecido com Nuno Gomes na parte do futebol.

E já tinha acontecido com José Teotónio, já tinha dado uma entrevista também à beira da primeira volta sobre isto.

Ainda antes da primeira volta, mas agora é carregar com tudo nesta segunda volta. Vítor Paneira também irá agora a uma televisão. Bagão Félix também esteve presente na CMTV. Ou seja, lançar tudo o que são trunfos para mostrar qual é a situação do Benfica e qual é o resultado do mandato de Rui Costa. Depois, por outro lado, temos José Gandarez, vice de Rui Costa e de novo candidato, que quer passar aquela mensagem de: nós somos a lista da tranquilidade, da serenidade, de uma continuidade que as pessoas já mostraram que querem, e não somos como a lista de Noronha Lopes, que é basicamente estar sempre a dizer mal de nós. Utilizando até uma expressão, que eu sinceramente não sei se é propositado ou não, mas utilizando a expressão de Noronha Lopes nesta altura parece um animal feroz, que nos faz sempre recordar José Sócrates. Não sei se existe algum tipo de ligação ou não. Sei que foi a expressão que ele utilizou, mas nessa perspetiva de nós somos a serenidade, os outros só nos querem é atacar, e isso já se viu que rendeu votos na primeira volta, porque uma maioria silenciosa acabou por ir por esse conservadorismo. No meio disto tudo, há uma notícia que passa completamente ao lado, que é do Página Um, que fez um trabalho sobre as contas de uma das empresas de Rui Costa e que fala que tem prejuízos e que tem problemas financeiros, que foi exatamente aquilo que levou Noronha Lopes a mostrar as suas declarações de rendimento para acabar de vez com este caso. Rui Costa nesta altura sente-se de tal maneira tranquila que, um, não mostra declarações de rendimento, ele já disse que também não ia mostrar, e dois, sente que não há nada que possa beliscar nesta altura o seu caminho e que é continuar a ir às casas, fazer o debate da BTV e apelar ao voto. Sem o voto e sem a votação de 85 mil, Rui Costa ainda pode ter a sua reeleição em risco.

E o Benfica continua, a nível comunicacional, a promover essa intenção de chegar aos 100 mil votos.

Nada é por acaso.

No próximo sábado. Vamos continuar a analisar esta campanha rumo às eleições de 8 de novembro, a segunda volta no Sport Lisboa e Benfica. Amanhã estamos de regresso.